Praça de Algés
Beneficio de José Bento (de Araújo)
O mais popular dos cavalleiros tauromachicos, José Bento d’Araujo, organisou para domingo 7 do corrente na praça de Algés uma corrida com elementos de valor, mas a que não faltou tambem a nota predominante de todas as corridas organisadas por este artista: d’esta vez foi a segunda apresentação do touro Capirote.
Que mal, antes isto que a Reverte!...
Os elementos de valor eram formados pelos touros de Estevão d’Oliveira, o espada Bombita e os seus bandarilheiros Rodas e Pulguita, alguns dos nossos, bandarilheiros, o cavalleiro Simões Serra e o facto de ser dada a alternativa ao cavalleiro amador José Luiz Bento.
Esta alternativa, que foi a primeira dada fóra da praça do Campo Pequeno, tem levantado dezenas de discussões.
No numero antecedente d’este semario já o nosso collega Fiastol tratou o assumpto, e, pelo que deprehendemos, parecenos que pende para a opinião de que é o artista e não a praça que deve dar a alternativa.
Este assumpto que entre nós nunca foi discutido, tem daedo azo em hespanha ás mais acirradas polemicas, sendo uma das mais importantes aquella em que tomaram parte o mestre Sanchez de Neira, Sentimentos, etc.
Nós não queremos estabelecer discissão mas julgamo-nos incursos no dever de fazer-mos publica e nossa opinião, e, portanto eil-a: Deve ser a para que dá a alternativa.
Os argumentos a favor são muitos; mas, aquelle que nos parece de mais alta importancia, para o nosso meio, aquelle que deve calar no animo do publico e artistas é o seguinte:
Supponhamos que um artista qualquer, por conveniencia particular, dá a alternativa a um qualquer D. Melchiades na praça da Ribeira de Carinhos ou Maçãs de D. Maria...
Os outros artistas são obrigados a respeitar essa alternativa?
Não me parece rasoavel.
Porque é preciso que nos convençamos que, acceite o principio, se dariam casos escandalosos.
Em Hespanha depois que acabaram as praças da maestrança ficou entendido ainda que tacitamente, que, para a praça de Madrid, só as alternativas ali recebidas tinham valor.
Ainda deve estar na memoria de todos os aficionados o que aconteceu com Conejito depois de receber a alternativa de Guerrita na praça de Badajoz.
Portanto, o que nos parece rasoavel é que os amigos de
José Luiz Bento procurem levar a empreza da praça do Campo Pequeno a permittir
a confirmação da alternativa cedida na praça d’Algés pelo mais antigo dos
cavalleiros, que, com esta cedencia, julgou José Luiz Bento apto para alternar
com todos os seus collegas.
E vamos á corrida.
O curro fornecido pelo Sr. Estevão d’Oliveira era composto de tudo. Appareceram touros grandes, outros que parweciam ser filhos d’elles; alguns muito anafados, outros que pareciam estar a cargo da Assistencia; houve bichos de bom trapio, alguns deixavam muito a desejar; emfim, o lavrador, como homem pratico quizs mandar para todos paladares.
Com excepção de trez, todos mostraram que lhes corre nas veias sangue para marrar; e, se houvesse melhor lide por certo que teriamos visto uma corrida rasoavel.
Ainda que alguns sabiam latim!
Não queremos dizer com isto que elles fossem todos ou quasi todos corridos; não, o que nos parece, é que, naturalmente o lavrador juntou nas lezirias a estes puros, alguns dos que haviam sido já corridos e elles, nas vigilias d’essas noites de luar de Agosto, ensinaram a estes a maneira de se deffenderem, caso algum dia passassem pelos mesmos trabalhos que elles haviam soffrido.
Depois d’esta evidente prova de amisade taurina, não seria mau que os creadores impozessem nas ganaderias o mais absoluto silencio ou mandassem cortar... a lingua aos touros já corridos. O cavalleiro José Bento (de Araújo) a quem coube um dos que mais lições tinha, não conseguiu brilhar.
Collocou dois ferros compridos, nem peixe nem carne, e rematou com um curto depois de sahir em falso umas poucas de vezes.
E note-se, que Pulguita o coadjuvou magistralmente.
Simões Serra a quem largaram um matutão, foi colhido junto á trincheira logo na primeira entrada, e, apesar de estar contundido em uma perna, continuou a tourear valentemente, dando ao touro a lide que elle pedia, e pena foi que cedesse a pegar no ferro curto que elle devia ter visto que não poderia collocar senão por mero accaso e com grande exposição.
Foi muito applaudido.
José Luiz Bento toureou correctamente o touro que lhe coube, que era um animal bonito e não offerecia difficuldades.
O cavalleiro amador Fernando Alão a quem por primeira vez vimos tourear, cae bem e não nos pareceu destituido de valor e de conhecimentos, mas reservaremos a nossa opinião para quando o vejamos com outro touro.
O espada era, como dissémos, Emilio Torres Bombita.
El ninõ de la sonrisa está muito gordo e ha já algumas epochas que não nos consegue enthusiasmar.
N’esta corrida collocou tres pares de bandarilhas em sortes parecidas com o «quiebro» e deu uns passes de muleta no 2.º e 3.º que nada valeram. No 4.º apenas teve um de peito de muita vista e um ajudado de «rodillas».
Dos seus bandarilheiros teve Rodas um bom par á gaiolla no 4.º, e Pulguita no 7.º meio par muito bom e meio horrivelmente baixo, em virtude de um extranho do touro.
Dos nossos apenas poderemos citar meio par bom de Silvestre e dois regulares, um de José Martins e outro de Thomaz da Rocha.
Os dois praticantes José Costa e Francisco Cruz lidaram o ultimo touro mas não conseguiram brilhar.
Na brega distinguiu-se Pulguita e cumpriram José Martins e Rocha.
O tratador Manuel Gentil desembolou como costuma o Capirote depois d’este ser regalado com alguns pares de bandarilhas. O publico premiou-lhe o arrojo com palmas e muitas moedas de prata e cobre.
A direcção, a cargo do sr. Jayme Henriques, muito
acertada.
M. T. David
In REVISTA TAURINA, Lisboa – 7 de Setembro de 1902



