28 DE JULHO DE 1889 – PORTO: ANÚNCIO DA CORRIDA DE INAUGURAÇÃO DO COLYSEU PORTUENSE COM OS CAVALEIROS JOSÉ MARIA CASIMIRO MONTEIRO E JOSÉ BENTO DE ARAÚJO E MAIS ARTISTAS DE PORTUGAL E DE ESPANHA

 
 

          Biblioteca de Assuntos Portuenses

INAUGURAÇÃO

DO

COLYSEU PORTUENSE

DOMINGO, 28 DE JULHO DE 1889

ESPLENDIDA CORRIDA

DE

10 TOUROS 10

Escolhidos ha muito para este dia, e pertencentes ao abastado ganadero

o Ex.mo Snr. Commendador CARLOS AUGUSTO MARQUES

            Ás 4 horas e ¾ da tarde começará este espectaculo, entrando na arena um LUZIDO CORTEJO composto dos arrojados e aplaudidos cavalleiros J. M. Casimiro Monteiro e José Bento d’Araujo e dos aplaudidos bandarilheiros portugueres  e hespanhoes Roberto da Fonseca, João da Cruz Calabaça, João do Rio Sancho, João Roberto, Vicente Mendes (El Pescadero), Rafael Santos (Santilho), José dos Santos e José da Costa.

            Depois de effectuadas as cortezias do estylo dar-se-ha principio á lide, debaixo da direcção do conhecido intelligente que foi da extincta praça do Campo de Sant’Anna em Lisboa, Manoel Botas.

            Um valente grupo de homens de forcado da Gollegá e Riacho farão as pegas que o intelligente lhes ordenar.

            Este programma poderá ser alterado por qualquer motivo imprevisto.

            A banda dos Bombeiros Voluntarios do Porto executará antes e durante a corrida as melhores peças do seu vasto reportorio.

            Preços: Camarotes de sombra, 4$500; Sol, 3$000; Tribuna, 1$200; Fauteuils, 1$000; Balcão-sombra, 700; Balcão-sol, 350; Sombra, 600; Sol, 300 reis.


NOTA

            Eis a história do Real Colyseu Portuense. Foi inicialmente contada por António da Torre nas páginas de «O Tripeiro» (Série 3, Ano 1, nº 21 (1926), p. 329-331).

            O texto narra o passado desta sala de espectáculos que funcionou no Porto entre 1889 e 1895, focando-se nas licenças para actividades tauromáquicas, equestres e de ginástica.

            Das praças de touros que teve o Porto, quando nós nascemos já tudo tinha desapparecido. Sabiamos, por termos ouvido contar a pessoas de idade, que tinha havido primeiro n'esta cidade uma pequena praça de madeira na Rotunda da Boavista e outra no largo da Aguardente e que n'esta haviam lidado artistas com reputação feita nas praças do Sul, taes como os Robertos, os Peixinhos, etc. Estava-se n'isto. As praças desappareceram, o Porto havia-se desinteressado de touradas e já nem lhes sentia a falta.

Um dia porém quando menos o esperava, soube pelos jornaes que se estava construindo uma nova praça de touros na Serra do Pilar, logo adiante d’aquelle morro que se encontra á sahida da ponte.

 A novidade do espectaculo attrahiu grande concorrencia. Quem quer que fosse então o emprezario da praça devia sentir-se em maré de rosas, porque o publico gostou, as corridas repetiam-se todos os domingos e as enchentes eram de tremer, proporcionando-lhe receitas avultadas. E quem tambem lucrou com isso foi o arrematante da ponte que rfecebia dez reis de portagem (ida e volta) por cada pessoa que a atravessasse.

Como valia a pena ir para ella assistir ao desfile dos que passavam para os touros, a ponte apinhava-se de gente como nos dias da romaria da Senhora do Pilar ainda hoje succede. Pouco se importava o publico que a ponte oscillasse assustadoramente. Era mais um aperitivo á gargalhada ver a triste figura que faziam os caminhantes, desequilibrados, trocando o passo, pallidos, semi-enjoados, querendo parar para tomar animo, mas sendo obrigados a seguir empurrados brutalmente pelos que vinham atraz d’elles em identico estado. 

Parecia que o publico portuense já não podia passar sem touradas. Isso animou uns individuos que tinham estado no Brazil, a organisarem-se em sociedade para a construcção e exploração de uma grande praça, á qual deram o nome de Real Colyseu Portuense. Estes individuos, já fallecidos, chamavam-se Lopes Pereira, que era um dos proprietarios da Ourivesaria Viziense, da rua de Santo Antonio, e Joaquim Vieira de Magalhães (natural de um concelho limitrofe do Porto), seu amigo e associado.

Real Colyseu Portuense (Porto).
FOTO ORIGINAL DE ANTONIO MAYA: «O Tripeiro» (tratada pela IA)

            O que foi a praca exteriormente mostra-o a gravura que apparece hoje em O Tripeiro, reprodução de uma excellente photographia que nos foi amavelmente pelo snr. Antonio Maya de Figueiredo, apaixonado amador tauromachico, que com seu irmão snr. Manoel Maya (os irmãos Mayas) já fallecido tambem entraram em algumas touradas, nas quaes revelaram apreciaveis qualidades de lidadores.

A inauguração do Colyseu fez-se em 28 de Julho de 1889, como consta do programma que inserimos na pagina anterior e que tambem devemos ao obsequio do snr. Maya de Figueiredo, bem como outros programmas que se lhe seguem.

Em 1890 realisou o celebre bandarilheiro Peixinho a sua festa artistica (...)


Real Colyseu Portuense, Boavista (Porto).
FOTO ORIGINAL de Antonio Maya cedida ao jornal «O Tripeiro»

 O Colyseu acabou como acaba tudo. (...)

Annos depois de demolido o Colyseu construiu-se uma nova praça de touros, de madeira, no Campo de Manobras da Serra do Pilar, que teve a sorte commum.

 Ao cimo da rua da Alegria, proximo á rua do Lima, construiu-se tambem uma outra, cuja frontaria se póde ver pela gravura que acompanha estas linhas, gravura que nos foi amavelmente cedida pelo snr. anoel Dias, outro amigo de O Tripeiro. Esta praça desappareceu tambem.

            E, por ultimo, a mais moderna de todas, a grande praça da Areosa, acaba de ser reduzida a cinzas, mercê d’um incendio, cujas causas as auctoridades policiaes andam perscrutando, tão extraordinario lhes parece o facto de arder por completo em três quartos de hora.

In O TRIPEIRO, Porto - Série 3, Ano 1, nº 21 (1926), p. 329-331