EDUARDO VII
A corrida de hontem
A festa annunciada para hontem, em homenagem a Eduardo
VII, na praça do Campo Pequeno, e que era das do programma uma que despertava
maior interesse, foi coroada de successo, movimentando-se milhares de pessoas,
uns, os felizes para irem gozar o espectaculo, outros para a conducção e ainda
muitos para ficarem a guarnecer as ruas e os passeios desde a Avenida, em
animado e vivido elemento decorativo.
Na praça do Campo Pequeno, quando ali chegávamos, ainda
cedo, estava-se dando os ultimos toques á ornamentação da tribuna real, cujo
balcão estava coberto a velludo carmezim, franjado, sobre que se destacavam
grinaldas de rosas brancas, que ao centro enlaçavam n’um grande festão. Verdura
e outras flores completavam a ornamentação da tribuna, d’onde se destacavam
ainda grinaldas de rosas brancas a ligar nos camarotes mais proximos,
seguindo-se d’esses para os outros ligações de verdura.
Os varandins dos camarotes, como os do parapeito das
galerias do sol, estavam todos enfeitados com cobrejões e colchas, e da linha
geral da cornija destacavam-se a espaços pavilhões e galhardetes.
Mas isso era o menos. O que dava uma apparencia unica, incomparavel,
magnifica, era o espectaculo da multidão enchendo todos os logares, n’um
concerto alegre onde as fardas dos militares e os fatos dos paisanos eram
largamente cortados por manchas alegres de vestuarios festivos das senhoras e
creanças, que occupavam a maioria dos logares.
A arena estava tambem decorada, desenhando-se largos
festões em toda a volta das trincheiras.
As cortezias começaram por um monumental fiasco, pois os
charamelleiros, em numero de 7, depois de darem a volta á praça e fazerem e atroada
do estylo, ficaram-se e ficou-se o intelligentee ficaram todos á espera do
seguimento. Emfim apontaram na praça os
dois coches, cada um a 3 parelhas de muares, conduzindo os cavalleiros.
Cada coche era escoltado por 10 moços com fardas da casa real.
A banda da guarda toca o «God save the King», o publico levanta-se
e quasi todos se descobrem; é o rei Eduardo VII que entra trajando o uniforme
de cavallaria 3, o sr. D. Carlos, com um uniforme estrangeiro, o sr. D.
Affonso, de general de brigada, o general Clarke, o ministro da Inglaterra, o
marquez de Soveral, que tiveram logar, ficando ao centro da tribuna Eduardo
VII, dando a direita á rainha D. Maria Pia, que vestia um riquissimo traje.
Após os ultimos compassos do estopante hymno britannico seguiu-se a ultima parte das cortezias, feita como de costume, mas havendo hontem a dar-lhes maior brilho a comparencia na arena dos cavallos de combate, ricamente cobertos e acompanhados por moços vestindo librés novas e vistosas, fechando o quadro 10 campinos a cavallo. Houve então uma ovação calorosa, e emquanto os 4 pagemsitos se recolhiam e um dos grupos de forcados se destacava para fazer a casa da guarda, era dado o toque para o 1.º touro de cavallo.
Sahiu um bicho ordinarissimo, com que José Bento (de
Araújo) e Fernando de Oliveira pouco poderam fazer, apesar de opportunamente
ajudados com os capotes de Theodoro e Manuel dos Santos. O bicho investiu com a
casa de guarda, depois do que foi passado de capote e mestre Botas deu signal
para o touro ser pegado. Mas, pobres forcados, tanto quizeram honrar o estranho
espectador de hontem, que receberam larga distribuição de sopa economica. Oito
vezes foi o bicho citado, outras tantas vezes mostrou conservar-se disposto a
repellir qualquer jugo.
Nem de cernelha, depois, o animalejo se deixou pegar.
Valha esta teimosia a redimir a féra de modo ordinario como se tinha portado
com os cavalleiros.
O 2.º da manada sahiu para Theodoro e Cadete. O primeiro
fez uma gaiola, sahindo pela direita, mas pena foi ficarem os ferros muito
distanciados.
Este bandarilheiro, com os ferros pouco mais poude fazer,
e egual desventura teve o seu collega, devido mais, em grande parte, á má
qualidade do animalejo que tinham a lidar. Citem-se, entretanto, de cada um, um
para «cuarteo». Theodoro passou de capote e a lide do 2.º rematou com uma pega
que sahiu boa porquanto as ajudas (contra o costume, triste é dizel-o) foram
muito opportunas e valentes.
O 3.º touro da tarde foi para Manuel Casimiro e Joaquim
Alves. Nem um nem outro poderam brilhar. O bicho não dava a Joaquim Alves,
apesar d’isso, receava chegar-se. Casimiro ainda poz um ferro regular. Cadete,
ao fugier do touro, ia sendo colhido, recolhendo não á enfermaria, mas de
gatas, a pôr-se ao abrigo da «casa da guarda».
Sahiu o 4.º para Manuel dos Santos e Torres Branco.
Manuel dos Santos, ao empunhar os ferros, botou discurso.
Eil-o, segundo a nota official:
«Tenho a honra de saudar pelas prosperidades de vossas
magestades e pela alliança dos povos.»
Torres Branco sahe para a gaiola, e sem discursos, mas
com arte, prende um bom par. Depois os dois artistas seguiram pareando a rez,
mas sem poderem luzir, porque o touro era ordinario como os manos. Manuel dos
Santos, com a «muleta, tirou uns passes atrevidos, cingindo-se á cabeça do
touro com valentia. Depois, o Botas, que estava zangado com os forcados,
mandou-os outra vez para a «sopa», mas houve uma pega regular.
O 5.º touro, para Simões Serra e Eduardo Macedo, era da raça e do prestimo dos anteriores. Recebeu uns ferros, a que não poude fugir; foi passado de capote por Theodoro e acabou-se a 1.º parte, com uma pega de volta.
O intervallo foi pouco demorado, mas no emtanto deu tempo a que muitas pessoas se retirasse já enjoadas com a massadoria de uma corrida ordinaria.
O novo toque dos charamelleiros, saiu o 6.º touro, 1.º da 2.ª parte e que foi o melhor. Coube a José Bento (de Araújo) e Fernando (de Oliveira), que começaram desconfiados, mas animaram-se ao ver que tinham a lidar um touro voluntario e nobre. José Bento (de Araújo), até discursou (hontem era o dia dos enthusiasmos com expansão oratoria) e brindou ao seu amigo Estevão de Alcochete, (NOTA: O «Estêvão de Alcochete" era na realidade Estêvão António de Oliveira, um influente lavrador e ganadeiro de Alcochete. Alguns dos seus touros foram lidados por José Bento de Araujo. Segundo a IA, na corrida de gala em homenagem a Eduardo VII, o gesto do cavaleiro foi não só um brinde como também uma saudação à tradição e à robustez da criação de gado nacional.) brindou á imprensa (muito obrigado amigo), e por fim saudou para a sombra arremessando com o tricornio e saindo a pôr uns bellos «curtos», no que foi bem acompanhado por Fernando (de Oliveira). Ambos os cavalleiros tiveram demorado e enthusiastica ovação. Este touro foi bem pegado pelo forcado Manuel.
O 7.º coube a João Calabaça e José Martins. Nem o boi dava nem os artistas estavam com sorte.
O 8.º para Manuel Casimiro e Joaquim Alves tambem siu de
pouco prestimo, mas em compensação o 9.º era muito espero e o 10.º, o ultimo da
tarde, foi quasi tão bom como o touro com o que abrira a 2.ª parte. Silvestre
Calabaça, á gaiola, em sorte de cadeira, prendeu meio par e Thomaz da Roche
tambem mostrou o seu valor de bandarilheiro.
Uma ovação calorosa e merecida tiveram os cavalleiros a quem coube a lide do 10.º touro, sendo pena que tão tarde ella começasse. O rei Eduardo retirou ao findar a lide do 7.º touro. (NOTA: No comments!) Quando elle saiu repetiram-se as acclamações com que á entrada o tinham saudado.
— O serviço policial na praça era feito sob o commando
directo do sr. coronel Moraes Sarmento.
— A guarda muncipal de serviço, um pelotão de cavallaria e outro de Infantaria, apresentou-se de grande uniforme.— A. N.
Um conflicto —
Depois de lidado o 2.º touro, viu-se no sector n. 4, bancada geral, perfeitamente
«á cunha», um individuo de chapeu d’aba larga e de luvas amarellas, passar até
á altura do portão dos cavalleiros, e como ali lh’aprouvesse sentar-se, só o
conseguiu depois de certa benevolencia de um nosso amigo, e não pela cortezia
do recem-chegado.
Resultou ficarem apertadas demasiadamente as pessoas que
n’esta bancada já lá estavam, dando logar a certo desabafo de dichotes, como é
natural, levantando-se aquelle individuo com altivez, altercando e ameaçando a
quem lhe não desse logar.
Foi o bastante para se estabelecer um desaguisado de
murros e bengaladas, e a policia pol-o fóra, mas, já sem chapeu, de bengala
partida e bem convidado pelo atrevimento.
O desordeiro, dizia-se, ser da Inspecção do sello, e chamar-se
Joaquim Nicolau Gomes.
In VANGUARDA, Lisboa – 7 de Abril de 1903

