6 DE ABRIL DE 1903 – LISBOA: CORRIDA EM HOMENAGEM A EDUARDO VII, «PATRONO REAL» DA SOCIEDADE PROTECTORA DOS ANIMAIS DE INGLATERRA

 


Praça do Campo Pequeno, Lisboa.
FOTO: Arquivo Fotográfico da CML

EDUARDO VII

A corrida de hontem

            A festa annunciada para hontem, em homenagem a Eduardo VII, na praça do Campo Pequeno, e que era das do programma uma que despertava maior interesse, foi coroada de successo, movimentando-se milhares de pessoas, uns, os felizes para irem gozar o espectaculo, outros para a conducção e ainda muitos para ficarem a guarnecer as ruas e os passeios desde a Avenida, em animado e vivido elemento decorativo.

            Na praça do Campo Pequeno, quando ali chegávamos, ainda cedo, estava-se dando os ultimos toques á ornamentação da tribuna real, cujo balcão estava coberto a velludo carmezim, franjado, sobre que se destacavam grinaldas de rosas brancas, que ao centro enlaçavam n’um grande festão. Verdura e outras flores completavam a ornamentação da tribuna, d’onde se destacavam ainda grinaldas de rosas brancas a ligar nos camarotes mais proximos, seguindo-se d’esses para os outros ligações de verdura.

            Os varandins dos camarotes, como os do parapeito das galerias do sol, estavam todos enfeitados com cobrejões e colchas, e da linha geral da cornija destacavam-se a espaços pavilhões e galhardetes.

            Mas isso era o menos. O que dava uma apparencia unica, incomparavel, magnifica, era o espectaculo da multidão enchendo todos os logares, n’um concerto alegre onde as fardas dos militares e os fatos dos paisanos eram largamente cortados por manchas alegres de vestuarios festivos das senhoras e creanças, que occupavam a maioria dos logares.

            A arena estava tambem decorada, desenhando-se largos festões em toda a volta das trincheiras.

            As cortezias começaram por um monumental fiasco, pois os charamelleiros, em numero de 7, depois de darem a volta á praça e fazerem e atroada do estylo, ficaram-se e ficou-se o intelligentee ficaram todos á espera do seguimento. Emfim apontaram na praça os dois coches, cada um a 3 parelhas de muares, conduzindo os cavalleiros. Cada coche era escoltado por 10 moços com fardas da casa real.

            A banda da guarda toca o «God save the King», o publico levanta-se e quasi todos se descobrem; é o rei Eduardo VII que entra trajando o uniforme de cavallaria 3, o sr. D. Carlos, com um uniforme estrangeiro, o sr. D. Affonso, de general de brigada, o general Clarke, o ministro da Inglaterra, o marquez de Soveral, que tiveram logar, ficando ao centro da tribuna Eduardo VII, dando a direita á rainha D. Maria Pia, que vestia um riquissimo traje.

            Após os ultimos compassos do estopante hymno britannico seguiu-se a ultima parte das cortezias, feita como de costume, mas havendo hontem a dar-lhes maior brilho a comparencia na arena dos cavallos de combate, ricamente cobertos e acompanhados por moços vestindo librés novas e vistosas, fechando o quadro 10 campinos a cavallo. Houve então uma ovação calorosa, e emquanto os 4 pagemsitos se recolhiam e um dos grupos de forcados se destacava para fazer a casa da guarda, era dado o toque para o 1.º touro de cavallo.

            Sahiu um bicho ordinarissimo, com que José Bento (de Araújo) e Fernando de Oliveira pouco poderam fazer, apesar de opportunamente ajudados com os capotes de Theodoro e Manuel dos Santos. O bicho investiu com a casa de guarda, depois do que foi passado de capote e mestre Botas deu signal para o touro ser pegado. Mas, pobres forcados, tanto quizeram honrar o estranho espectador de hontem, que receberam larga distribuição de sopa economica. Oito vezes foi o bicho citado, outras tantas vezes mostrou conservar-se disposto a repellir qualquer jugo.

            Nem de cernelha, depois, o animalejo se deixou pegar. Valha esta teimosia a redimir a féra de modo ordinario como se tinha portado com os cavalleiros.

            O 2.º da manada sahiu para Theodoro e Cadete. O primeiro fez uma gaiola, sahindo pela direita, mas pena foi ficarem os ferros muito distanciados.

            Este bandarilheiro, com os ferros pouco mais poude fazer, e egual desventura teve o seu collega, devido mais, em grande parte, á má qualidade do animalejo que tinham a lidar. Citem-se, entretanto, de cada um, um para «cuarteo». Theodoro passou de capote e a lide do 2.º rematou com uma pega que sahiu boa porquanto as ajudas (contra o costume, triste é dizel-o) foram muito opportunas e valentes.

            O 3.º touro da tarde foi para Manuel Casimiro e Joaquim Alves. Nem um nem outro poderam brilhar. O bicho não dava a Joaquim Alves, apesar d’isso, receava chegar-se. Casimiro ainda poz um ferro regular. Cadete, ao fugier do touro, ia sendo colhido, recolhendo não á enfermaria, mas de gatas, a pôr-se ao abrigo da «casa da guarda».

            Sahiu o 4.º para Manuel dos Santos e Torres Branco.

            Manuel dos Santos, ao empunhar os ferros, botou discurso. Eil-o, segundo a nota official:

            «Tenho a honra de saudar pelas prosperidades de vossas magestades e pela alliança dos povos.»

            Torres Branco sahe para a gaiola, e sem discursos, mas com arte, prende um bom par. Depois os dois artistas seguiram pareando a rez, mas sem poderem luzir, porque o touro era ordinario como os manos. Manuel dos Santos, com a «muleta, tirou uns passes atrevidos, cingindo-se á cabeça do touro com valentia. Depois, o Botas, que estava zangado com os forcados, mandou-os outra vez para a «sopa», mas houve uma pega regular.

            O 5.º touro, para Simões Serra e Eduardo Macedo, era da raça e do prestimo dos anteriores. Recebeu uns ferros, a que não poude fugir; foi passado de capote por Theodoro e acabou-se a 1.º parte, com uma pega de volta.

            O intervallo foi pouco demorado, mas no emtanto deu tempo a que muitas pessoas se retirasse já enjoadas com a massadoria de uma corrida ordinaria.

            O novo toque dos charamelleiros, saiu o 6.º touro, 1.º da 2.ª parte e que foi o melhor. Coube a José Bento (de Araújo) e Fernando (de Oliveira), que começaram desconfiados, mas animaram-se ao ver que tinham a lidar um touro voluntario e nobre. José Bento (de Araújo), até discursou (hontem era o dia dos enthusiasmos com expansão oratoria) e brindou ao seu amigo Estevão de Alcochete, (NOTA: O «Estêvão de Alcochete" era na realidade Estêvão António de Oliveira, um influente lavrador e ganadeiro de Alcochete. Alguns dos seus touros foram lidados por José Bento de Araujo. Segundo a IA, na corrida de gala em homenagem a Eduardo VII, o gesto do cavaleiro foi não só um brinde como também uma saudação à tradição e à robustez da criação de gado nacional.) brindou á imprensa (muito obrigado amigo), e por fim saudou para a sombra arremessando com o tricornio e saindo a pôr uns bellos «curtos», no que foi bem acompanhado por Fernando (de Oliveira). Ambos os cavalleiros tiveram demorado e enthusiastica ovação. Este touro foi bem pegado pelo forcado Manuel.

O 7.º coube a João Calabaça e José Martins. Nem o boi dava nem os artistas estavam com sorte.

            O 8.º para Manuel Casimiro e Joaquim Alves tambem siu de pouco prestimo, mas em compensação o 9.º era muito espero e o 10.º, o ultimo da tarde, foi quasi tão bom como o touro com o que abrira a 2.ª parte. Silvestre Calabaça, á gaiola, em sorte de cadeira, prendeu meio par e Thomaz da Roche tambem mostrou o seu valor de bandarilheiro.

            Uma ovação calorosa e merecida tiveram os cavalleiros a quem coube a lide do 10.º touro, sendo pena que tão tarde ella começasse. O rei Eduardo retirou ao findar a lide do 7.º touro. (NOTA: No comments!) Quando elle saiu repetiram-se as acclamações com que á entrada o tinham saudado.

            — O serviço policial na praça era feito sob o commando directo do sr. coronel Moraes Sarmento.

            — A guarda muncipal de serviço, um pelotão de cavallaria e outro de Infantaria, apresentou-se de grande uniforme.— A. N.

            Um conflicto — Depois de lidado o 2.º touro, viu-se no sector n. 4, bancada geral, perfeitamente «á cunha», um individuo de chapeu d’aba larga e de luvas amarellas, passar até á altura do portão dos cavalleiros, e como ali lh’aprouvesse sentar-se, só o conseguiu depois de certa benevolencia de um nosso amigo, e não pela cortezia do recem-chegado.

            Resultou ficarem apertadas demasiadamente as pessoas que n’esta bancada já lá estavam, dando logar a certo desabafo de dichotes, como é natural, levantando-se aquelle individuo com altivez, altercando e ameaçando a quem lhe não desse logar.

            Foi o bastante para se estabelecer um desaguisado de murros e bengaladas, e a policia pol-o fóra, mas, já sem chapeu, de bengala partida e bem convidado pelo atrevimento.

            O desordeiro, dizia-se, ser da Inspecção do sello, e chamar-se Joaquim Nicolau Gomes.  

O cavaleiro José Bento de Araujo na praça do Campo Pequeno.
FOTO: Arquivo Fotográfico da CML

In VANGUARDA, Lisboa – 7 de Abril de 1903