UMA BURLA
É o unico titulo que pode dar-se ao que no ultimo domingo se passou na praça d’Algés!
No tempo em que aquella praça era explorada por um emprezario que ali queria fazer reviver a da Cruz Quebrada, (NOTA: A praça de madeira na Cruz Quebrada funcionava sobretudo durante a época balnear. Teve um período de actividade efémero. Com a construção da praça de Algés, a arena da Cruz Quebrada desapareceu.) não era o publico tão torpemente enganado.
Annunciaram os cartazes uma corrida de dez bravissimos touros, e o que ali se viu foi apenas dez reverendissimos bois, alguns d’elles, senão todos, mais dignos de choupa que de garrochas!
A auctoridade, que tão escrupulosa é sempre que se annuncia um espectaculo em qualquer theatro, não pôz duvida em pôr o seu visto n’um cartaz em que se annunciavam — dez bravissimos touros — quando a empreza tinha só dez mansissimos garraios para offerecer ao publico!
Para a Reverte — que a empreza annunciava como sendo a unica artista que impunha como condição essencial nos seus contractos não terem menos de quatro annos os touros a ella destinados — largou-se um vitellinho que pela côr e tamanho mais parecia o cão do Freire Gravador, (NOTA: «A. L. Freire Gravador» era em 1902 uma das primeira casas de carimbos, prensas, balances, sinetes, etc. em Portugal com «officinas de typographia, lithographia, encadernador, papelaria, etc.» Terá sido fundada em 1882 pelo «gravador» Aires Lourenço Costa Freire e teve, designadamente, lojas na Travessa da Victoria e na Rua do Ouro. O cartaz do estabelecimento representava um cão a segurar um carimbo na boca. Esta imagem do animal com o carimbo integrou o imaginário da capital no princípio do século XX, aparecendo, por exemplo, em anúncios de jornais e brindes.) e que assim que se viu na praça começou — coitadito! — a balir, a balir, para que o deixassem ir mammar nos uberes maternos!...
O emprezario, ou quem o seu nome empresta á empreza, não teve mais remedio que fazer a vontade ao publico, que não consentiu que o innocente fosse picado...
Mas ha mais e melhor...
Um dos maiores reclames de corrida, se não o maior, era a tal brilhantissima illuminação de dez mil bicos de incandescencia, de fórma que na praça parecesse estarmos em pleno dia, como é de primeira necessidade para a lide de rezes bravas.
Pois essa brilhantissima illuminação de 10.000 bicos era composta unicamente por 16 lanternões comportando cada um onze bicos, e um outro ao centro da praça, que teria, quando muito, trinta e tantos lumes, de fórma que, com uns quarenta, se tanto, dispostos pelos camarotes, prefaziam a conta de duzentos e cincoenta bicos.
Ora, em boas contas, para dez mil não parece que faltassem muitos...
No fim d’isto, apenas perguntamos se a estes factos não se póde dar o nome de burla!...
N’outro logar nos referimos á ultima corrida em Algés.
Vamos agora dizer o que ella foi e quaes as impressões que nos deixou.
É claro que o publico, apesar do reclame enorme feito á illuminação, já sabia de antemão que a claridade não poderia comparar-se á de uma tarde de sol, que é a condição mais essencial para uma boa tourada.
O que, porém, nuinguem esperava é que escuridão fosse tão completa que das bancadas se não distinguissem as armas dos touros.
Touros?!
Garraios, se fazem favor.
E a respeito de bravura, temos conversado...
A não ser o 8.º, que pertenceu a José Luiz Bento, e em que este manifestou a sua pericia e manifesta vontade de progredir, todos os outros eram uns miseros animaes, com todos os defeitos que poderiam ter, incluindo a mais completa desegualdade.
Para a Reverte sahiu um vitellinho tão novo e tão mansinho, que o publico não consentiu que fosse lidado, sendo substituido por um mano, que pouco mais velho seria, mas que denotava ser um pouco mais bravo.
Os cavalleiros
José Bento de Araujo e José Luiz Bento portaram-se á altura dos creditos de que
gosam.
José Luiz, como acima dizemos, salientou-se no seu segundo, pela maneira de citar e rematar, tanto mais que não tinha quem o auxiliasse, pondo-lhe os touros em sorte.
Dos bandarilheiros apenas ha a mencionar um par de Torres Branco e outro de José Martins.
Luciano Moreira, que appareceu no redondel só ás cortezias e no 7.º touro, pouco fez, já porque o bicho se não prestou, já porque o artista o não procurou bem.
Calabaça e Varino receberam grossa somma de palmas por collocarem dois excellentes... brincos, no segundo.
Na brega salientaram-se tambem José Martins e Torres Branco, estando aquelle incasavel (incansavel ?) em toda a corrida.
Os mais... andaram muito tempo na praça, com os capotes de correr.
Um dos forcados deu duas voltas ao redodel (redondel!), agarrado á cauda do touro e... foi muito applaudido...
O intellegente, está velho, tem a vista cançada (cansada) e... não se deve já metter em taes assados.
C.
In REVISTA TAURINA, Lisboa – 24 de Agosto de 1902



