TOUROS
Apesar de estamparem nos cartazes o nome de Bombita, um dos maestros mais distinctos da arte de «Montes», não foi grande a concorrencia á festa artistica do sympathico e valente cavalleiro José Bento d’Araujo, realisada ante-hontem em Algés. O aspecto triste do dia, e a feira da Luz, concorreram com certeza para que o circo se não enchesse.
Quem ali foi não perdeu o seu dinheiro nem o tempo, porque o distincto espada trabalhou muito e bem.
Escusado será referirmos-nos minuciosamente ás faculdades de que dispõe o diestro, por de mais conhecidas do publico, que, por varias vezes o tem visto bregar no Campo Pequeno.
Portanto, diremos sómente, que continua a sua carreira sem se divorciar da arte e da valentia.
Bandarilhou, cambiando y cuarteando, como sempre; isto é. com alma, citando com aprumo e alegria, entrando e sahindo dos pitones, com limpeza e elegancia, e rematando com lusimento.
Nos quites mostrou-se apportuno.
Não só com o percal como com o trapo desenhou passes de muito valor, lançando por alto e baixo, de peito e em redondo, de piton á cola, etc. etc., sempre cingido parado e gelado.
A despachar mostrou bem o quanto o seu braço vale.
O publico dispensou-lhe muitos e justos applausos.
Os seus acolytos e os nossos infantes tambem cravaram alguns pares de merecimento, pelo que receberam palmas.
A cavallaria era composta pelo beneficiado (José Bento de Araújo) , Simões Serra, Fernando Allão, e José Luiz Bento que tomou a alternativa das mãos de José Bento (de Araújo).
Todos estes cavalleiros andaram correctamente; havendo, porém, um ferro de Serra, e outro de Allão que resultaram superiores.
José Bento (de Araújo) brindou os seus collegas com lindos ramos, quando no intervallo do combate foi chamado ao redondel, onde foi obsequiado tambem com presentes de valor.
O celebre touro «Capirote», depois de receber tres pares mettidos à la diable, foi desembolado pelo domesticador, e pela mão do qual comeu algumas talhadas de melancia.
O publico gostou immenso d’este numero, e o homemsinho ainda mais, porque apanhou boa massa dos espectadores.
Houve cinco pégas rijas.
O gado, do afamado lavrador Estevão d’Oliveira, tinha magnifica apresentação. Agradou muito, porque alguns sahiram bravos, e os que o não eram cumpriram bem o seu dever.
Foi um dos melhores curros que este anno vimos.
Marialva.
In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 9 de Setembro de 1902

