TAUROMACHIA
Campo Pequeno — Corrida nocturna — Com uma enchente á cunha, effectuou-se hontem n’esta praça, a inauguração das corridas nocturnas.
Era de esperar que a illuminação electrica produzisse um effeito magestoso, attendendo ás condições do grande circo tauromachico.
A installação foi montada pela acreditada casa A. E. G. Thomson Iberica, com sède na rua d’El-Rei, 56, 2.º, que mais uma vez confirmou os creditos que gosa universalmente. Para inicio de espectaculos nocturnos, não foi como seria para desejar, pois a lide foi muito resumida em trabalhos de sensação, e de commodidade, temos conversado.
Abriu o torneio o valente cavalleiro José Bento (de Araujo), que aproveitou o oriundo de Salvaterra com toda a pericia, tendo empregados tres ferros que lhe valeram prolongados e quentes applausos. O 2.º da manada coube a Jorge Cadete e Moyano, que tiveram um trabalho de primeira ordem. Cadete, teve dois pares, de mestre. O 3.º para Manuel dos Santos e Ribeiro Thomé, foi egualmente bem aproveitado, fechando aqui o enthusiasmo que reinou desde o primeiro.
Chegamos a suppor que o gado fornecido pelos lavradores Roberto & Roberto, tivesse experimentado os effeitos da electricidade, modificando o seu temperamento.
Foram, pois, dignos de registo os tres chavelhudos que deram uma lide como qualquer ministro em situação precaria.
Morgado de Covas, apresentou-se com uma linda casaca e com um cavallo para os dois touros, que estava a pedir enborcation nas mãos deanteiras, (NOTA: Escreve-se “emborcación”. “La emborcación se refiere al momento preciso en que el toro humilla y acomete, poniendo su cabeza y sus cuernos en la trayectoria del engaño (el capote o la muleta). Es el instante crítico de la reunión entre el toro y el torero, donde se define la “suerte”. Em português, investida e “entrada no engano”.) embora nacional, pois dizem os entendidos, ter servido com resultado nos jesuitas do Pelourinho. Correu muito, cumprimentou o tio do sr. D. Manuel e o cavallo escorregou na... mesura.
O espada Regaterin, (NOTA: Antonio Boto Recatero, 1876-1938) e o seu ex.mo mano (NOTA: Regaterin Chico) estiveram a pedir... batatinhas.
O Regaterin Chico (NOTA: Regaterín Chico, aliás Victoriano Boto Recatero, era sobrinho dos bandarilheiros Victoriano, Luis e Tomás Recatero, e irmão de Regaterín. Era novilheiro e foi ainda subalterno.) quiz fazer aprendizagem, mas o respeitavel publico não lhe deu esse prazer, mas sim o de... vae «despir-te».
Guardamos para o final as referencias para os dois artistas mais modernos que hontem pisaram o redondel, Alexandre Vieira e Alfredo dos Santos.
Na corrida de domingo teve Alexandre Vieira dois pares que não esquecem e hontem foi o que teve as honras da noite. Preparou o touro, ordinario por signal, com pericia e saber, indo á cara e rematando as sortes com firmeza. Executou o salto de vara com felicidade e esteve muito diligente.
Alfredo dos Santos, mais precipitado que o seu collega teve no emtanto dois pares dignos dos applausos que o publico lhe dispensou.
Estiveram muito diligentes os bandarilheiros Cadete, Thomé e Manuel dos Santos, merecendo cada um d’elles uma medalha de salvação podendo confirmar Morgado de Covas e José Bento (de Araujo).
A direcção esteve na berlinda, ouvindo applausos e
morras.
In A VANGUARDA, Lisboa – 16 de Julho de 1909



