Inaugurou-se hontem a época tauromachica. Não vem por isso fóra de proposito falar um pouco dos mais gloriosos dos nossos artistas.
Roberto da Fonseca
É um dos mais laureados e notaveis toureiros portuguezes, infelizmente já retirado da arena. (NOTA: O nome exacto do bandarilheiro é Roberto Jacob da Fonseca. Abandonou a lide depois da sua participação em mais uma tourada na Praça de Touros do Campo Pequeno, em meados de 1893.)
Nasceu em Salvaterra de Magos em 1841. (NOTA: A data correcta é 20 de Outubro de 1840. Faleceu em Salvaterra de Magos a 7 de Maio de 1923.)
Pertence a uma familia de toureiros distinctos e foi nas lides tauromachicas inseparaval companheiro do seu irmão Vicente Roberto, já fallecido. (NOTA: Vicente Roberto morreu no dia 1 de Junho de 1896.)
Começou a exercitar-se no toureio nas praças de Salvaterra, Benavente, Samora e Coruche, e desde criança demonstrou logo a sua disposição e habilidade para a arte de tourear.
Foi com seu irmão João Roberto, que pela primeira vez se apresentou fardado de artista, encarregado de correr os touros com o capote, n’uma tourada que houve em Abrantes, em 1856. N’essa tarde foi colhido e ficou bastante contuso.
Nos tres annos seguintes continuou ainda a praticar, até que em setembro de 1859 se estreou como bandarilheiro na praça de Azaruja, conseguindo logo ter as honras da tarde.
Ao terminar esta corrida foi Roberto da Fonseca abraçado por seu pae, que era o festejado toureiro Antonio Roberto, e essa prova de affecto foi como a approvação plena para seguir a carreira que tão brilhantemente encetou.
Trabalhou depois o joven toureiro em diversas praças de Portugal, na companhia de seus irmãos João e Vicente.
Um dia, essa união tão intima e sincera foi quebrada pela morte desastrosa de João Roberto n’uma caçada em Samora.
Ficaram sós os dois irmãos, vindo Vicente Roberto contractado para o Campo de Sant’Anna.
O emprezario d’esta praça, que era então Rodrigues Alegria (NOTA: Há textos em 'posts' anteriores sobre a família Alegria, que montou espectáculos tauromáquicos em Portugal e Espanha.), mandou convidar depois Roberto da Fonseca para ir tomar parte em duas corridas, ao que este a principio, se recusou, levado pela sua natural modestia. A final, a instancias dos amigos, accedeu a trabalhar em duas tardes, e foram tamanhos os triumphos alcançados, que immediatamente ficou contractado para o resto da época, competindo vantajosamente com os melhores bandarilheiros que n’aquelle tempo ali toureavam.
Em 1865, foi com seu irmão a Badajoz bandarilhar touros desembolados, e ahi foi tambem applaudido, com verdadeiro enthusiasmo, pela sua invejavel coragem e sangue frio.
Roberto da Fonseca era d’uma agilidade e de um vigor extraordinarios e teve temporadas felicissimas, entre as quaes se póde extremar a de 1875, em que toureou em 45 corridas, não soffrendo a mais leve colhida das quinhentas e tantas rezes que lidou.
Roberto da Fonseca era eximio nas sortes a quarteio e a sesgo, aproveitando com rara habilidade, elegancia e dextreza os touros no primeiro estado.
Com o capote foi um poderoso auxiliar dos cavalleiros e com a muleta muitas vezes provou ser um mestre, obtendo as mais delirantes ovações.
Retirou-se do toureio em 1893, reapparecendo depois, pela ultima vez, no Campo Pequeno com seu irmão Vicente, no beneficio de seu sobrinho João Roberto (NOTA: João Roberto Filho.) em (20 de) agosto de 1893. Depois d’isso nunca mais toureou.
Os irmãos Robertos dedicavam-se tambem á lavoura e creação de gado bravo, e possuem touros de regular bravura e bonitas estampas nas suas magnificas propriedades de Salvaterra de Magos.
O museu dos brindes offerecidos aos irmãos Robertos, que existe em casa d’estes illustres artistas em Salvaterra, é realmente digno de ver-se pela variedade de ricos objectos d’arte e de milhares de recordações das suas tardes de gloria, que em elegantes vitrines ali se acham dispostas.
In O SÉCULO, Lisboa - 31 de Março de 1902

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