3 DE JULHO DE 1898 – RIO DE JANEIRO: UMA TOURADA PERIGOSA...

 
Biblioteca nacional do Brasil

TAUROMACHIA

            Não ha mal que sempre dure, nem bem que não se acabe.

            Assim diz o dictado, e assim é. Esta nossa vida é um verdadeiro vae-vem continuo de illusões e desillusões, tristezas e alegrias.

            Em compensação a essas alegrias, que não duram, temos as nossas tristezas, que felizmente tambem acabam. E tanto assim é que tenho hoje duas boas noticias a dar aos amadores de touradas e assiduos frequentadores da bella praça das Laranjeiras.

            A primeira boa noticia é a seguinte. José Bento (de Araujo), o sympathico e arrojado cavalleiro, parte brevemente para a Europa.

            Mas, meu Deus! Decerto exclamarão os meus caros leitores. Vamos ficar muito peior do que já estavamos. Se o Club Tauromachico Federal já tanto se resentia da falta de bons toureiros, como poderemos regosijar-nos com a partida de José Bento (de Araujo), um dos poucos artistas de valor que possuimos!? Pois é verdade.

            José Bento (de Araujo) e os leitores d’estas chronicas tauromachicas devem alegrar-se , e muito, ao sabel qual é o motivo da sua partida. Eil-a:

            José Bento (de Araujo) parte, mas volta breve: vai tão sómente com o fim de contratar bons artistas e comprar touros, mas touros bons de casta e puros. Se por um lado vamos ficar privados do sympathico artistas por algumas semanas, teremos como recompensa a esta ausencia a certeza de que dentro em breve vamos gozar no redondel das Laranjeiras verdadeiras touradas com uma quadrilha de artistas, escolhida entre toureiros de primeira ordem, e com boas féras.

            Assim, pois, acabará aquella pasmaceira, a que tristes temos assistido todos os domingos, e, com enchentes á cunha, será ella substituida por delirante enthusiasmo.

            Entre os artistas que José Bento (de Araujo) espera contratar figura o celebre espada Faico. (NOTA: Francisco González «Faico» (Sevilha, 1872-1933) foi um célebre espada, especialmente famoso por ter chefiado a grande «cuadrilla» dos «Niños Sevillanos» ao lado de Enrique Vargas «Minuto».)

            É um bom artista. Vimol-o trabalhar por differentes vezes em Madrid e Sevilha, e podemos garantir que deve agradar muito aqui. Em Madrid é elle tido hoje como um dos primeiros espadas hespanhóes.


Francisco González «FAICO»
La Lidia, Madrid - Biblioteca Digital de Castilla y León

            Emquanto aos touros, dizem-nos que serão apartados por José Bento (de Araujo) em pessoa, e tirados das manadas dos melhores ganaderos de Portugal. Isto equivale a dizer que teremos boas féras.

            Levantemos, pois, todos um hurrah a José Bento (de Araujo), que não se poupa a sacrificios quando se trata de bem servir o publico. Boa viagem, e que volte breve a encontrar n’esse mesmo publico, por quem se sacrifica e que tanto o estima, justa recompensa a esses sacrificios.

            E a segunda boa noticia?

            Ahi vai ella: Temos em perspectiva uma magnifica tourada. Como adeus, antes de partir, faz José Bento (de Araujo), domingo proximo, a sua festa artistica, que, com a sua fidalga gentileza, offerece á illustrada imprensa fluminense.

            No intuito de bem servir o publico, não se tem poupado o incansavel artista a trabalhos e sacrificios. Serão lidados domingo 7 touros em vez de 6, como até aqui, entre os quases veremos os celebres bichos de cavallo Caraça e Torrado.

            Tambem trabalhará n’essa tarde o nosso elegante e sympathico artista Alfredo Tinoco e toda a quadrilha. (NOTA: Os cavaleiros Alfredo Tinoco da Silva e José Bento de Araujo fizeram algumas corridas juntos tanto em Portugal como no Brasil.)

            Ninguem deixe domingo de ir applaudir José Bento (de Araujo) na sua festa de despedida.

            Até domingo, pois, e até lá passemos uma vista de olhos sobre a — Distribuição da corrida.

1.ª PARTE

1.º touro para ser farpeado por Alfredo Tinoco.

            2.º touro, para ser bandarilhado por Calabaça, Felix e Rocha.

            3.º touro (celebre Caraça) farpeado por José Bento de Araujo.

2.ª PARTE

            4.º touro, bandarilhado por Ezequiel, Rodrigues e Morenito.

            5.º touro, farpeado por José Bento de Araujo.

            6.º touro, para a afamada troupe Pae Paulino.

            7.º touro (o celebre Torrado) farpeado por José Bento de Araujo.

Minuto.

In A NOTICIA, Rio de Janeiro – 1 – 2 de Julho de 1898

NOTA

O perfil de FAICO pode ser consultado aqui:

https://historiadeltorero.com/toreros/f/francisco-gonzalez-faico/

MAIS INFORMAÇÃO SOBRE A ATRIBULADA CORRIDA DE 3 DE JULHO DE 1898:

https://corridasportugalespanafrance.blogspot.com/2022/12/3-de-julho-de-1898-rio-de-janeiro.html

https://corridasportugalespanafrance.blogspot.com/2025/03/3-de-julho-de-1898-rio-de-janeiro.html

https://corridasportugalespanafrance.blogspot.com/2022/12/3-de-julho-de-1898-rio-de-janeiro-festa.html

FOTO: © Rui Araújo

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PORTUGAL

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15 DE JULHO DE 1909 – LISBOA: PRIMEIRA CORRIDA NOCTURNA COM «DIESTROS» DE ESPANHA E O CAVALEIRO JOSÉ BENTO DE ARAÚJO

 


Biblioteca nacuional de Portugal

Touros

            A corrida nocturna que se realisa hoje no Campo Pequeno, ás 9 ½, é assim distribuida:

          1.º para José Bento d’Araujo, 2.º para Jorge Cadete e José Moyano, 3.º para Manuel dos Santos e Ribeiro Thomé, 4.º para morgado de Covas (NOTA: Morgado de Covas), 5.º para espada «Regatería» (NOTA: «Regaterín», aliás Antonio Boto Madrid, 1876 – Barcelona, 1938), 6.º para José Bento d’Araujo, 7.º para Alexandre Vieira e Alfredo dos Santos, 8.º para espada «Regaterín», 9.º para morgado de Covas, 10.º para Manuel dos Santos e José Moyano.

Regaterín — O toureiro da «Villa de Arbeteta» (Guadalajara)
FOTO: Villa de Arbateta

          A´s 8,27 sae do Rocio um comboio, custando a passagem 40 réis em 3.ª e 50 réis em 2.ª

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 15 de Julho de 1909

MAIS INFORMAÇÃO SOBRE «REGATERÍN»

https://villadearbeteta.es/2025/03/07/el-torero-regaterin-y-arbeteta/

22 DE JULHO DE 1909 – LISBOA: SEGUNDA CORRIDA NOCTURNA NA PRAÇA DO CAMPO PEQUENO

 
Biblioteca nacional de Portgal

TOUROS

Campo Pequeno

Tourada nocturna

            É certo que as touradas á noite teem mais amadores.

            Já duas collossaes entradas o confirmam.

            A animação n’ellas avulta mais.

            Realmente o espectaculo, sob os jorros de luz electrica, disposta com arte e gosto como esta, tem um tanto de phantastico, de magico!

            O espirito está bem disposto.

            Espraia-se a vista por qualquer sector, e o coração pulsa intenso, porque as mulheres bonitas são aos kilos, são ás arrobas, ás...

            A luz da electricidade attrahe-as como se mariposas fossem, não ha duvida, pois que, em corrida alguma, tanto rosto formoso vimos, e tanto corpo elegante, como n’estas nocturnas. E principalmente ante-hontem.

            Não se póde descrever o effeito d’essa profusão de flôres raras e bellas, realçando, ora em «bouquets», ora disseminadas, d’entre o silvestre e espinhoso matto — o bicho homem — do meio de bravios e asperos cardos — as matronas de caras pelludas e ferozes — e das traiçoeiras e ortigas — o terrivel flagello das sogras, algumas das quaes vimos então sorrir (caso raro!) ante a assombrosa faena que o grande Bombita offereceu ao 5.º de Valle da Figueira, que por signal era «berrendo», bonito e nobre.

            Após uns quiebros, que só maestros consagrados como elle podem realisar, arma-se Bombita com os avios, e eil-o levando a assistencia ao rubro, por seus adornos, variedades e perfeição de lances; frio, sereno e arrimado.

            Por mais varias vezes levantou o senado, com suas largas, capotazos varios, e «quiebro de rodillas».

            Acompanhava-o Patatero, que não esteve feliz com palitroques.

            Salientou-se muito Cadete, em duas brilhantes gaiolas, e varios sesgos. Vieira cambiou bem um par, e metteu outro tambem de valor, de frente, no mesmo morrillo em que Thomé á gaiola prendeu um de muitas palmas. Manuel dos Santos cravou com acerto no 2.º.

            A cavallo toureiaram José Bento (de Araújo) e (Eduardo) Macedo.

            Aquelle no 1.º e no 6.º, houve-se com a costumada valentia, prendendo ferros de peso. No 6.º foi tocado algumas vezes, porque o diabo deitava trinta milhas á hora.

            Macedo, principalmente no 4.º, teve uma lide arrojada e feliz, e á qual deu variedade.

            Ambos os cavalleiros foram muito applaudidos.

            Foram bem pegados dois bichos.

            Emilio Infante apresentou um curro bonito e accusando bom pasto.

            O 1.º, 4.º e 6.º mostraram braveza. Dois cumpriram e os restantes fugiam.

Marialva.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 24 de Julho de 1909

22 DE JULHO DE 1909 – LISBOA: A SEGUNDA CORRIDA NOCTURNA NA PRAÇA DO CAMPO PEQUENO

 
Biblioteca nacional de Portugal

TOUROS

            Eis o programma da grande corrida nocturna d’amanhã, em que toma parte o incomparavel Ricardo Torres («Bombita»).

            Lidam-se 10 bonitos touros do sr. Emilio Infante, sendo 6 «berrendos» em differentes pintas.

            Cavalleiros, os festejadissimos artistas José Bento (de Araújo) e Eduardo Macedo. Bandarilheiros portuguezes, Jorge Cadete, Manuel dos Santos, Ribeiro Thomé e Alexandre Vieira. Espada, o grande «Bombita» com os seus dois bandarilheiros «Patatero» e «Morenito».

            «Patatero» toureia um touro com Cadete.

            A illuminação da praça, onde além dos arcos voltaicos já figuravam nada menos que 10:000 lampadas, será reforçada com mais 2:000 lampadas de côres na linha divisoria dos camarotes de 1.ª e 2.ª ordem em toda a volta da praça. O fim é meramente decorativo.

            Tambem a empreza mandou collocar no exterior da praça quatro arcos voltaicos para illuminar os passeios e inundar de luz o largo, nos pontos onde param as carruagens.

In DIARIO DE NOTICIAS, Lisboa – 21 de Julho de 1909

10 DE OUTUBRO DE 1897 – LISBOA: AS VERDADEIRAS CORRIDAS DE TOUROS... TÊM TOUROS DE MORTE

 


Biblioteca nacional de Portugal

Verdadeiras corridas de touros

            A arte de tourear em Portugal nunca poderá ter o brilhantismo que possue a arte hespanhola, pelo motivo de as corridas serem aqui parodiadas.

            O touro deve ser corrido puro e em hastes limpas.

            O touro deve ser picado, bandarilhado e morto.

            O toureiro deve entrar na arena cheio de valor e valentia.

            O vivente nasceu para morrer, portanto, tanto faz ser hoje como ámanhã.

            O homem que exerce a arte de tourear, sabe de antemão o perigo da sua profissão.

            Os touros nasceram para depois de nutridos, serem abatidos n’um matadouro para proveito do publico. Por conseguinte, tanto faz serem mortos no matadouro como na arena.

            Será o meu grito, e tenho esperança que ha-de ser ouvido por aquelles que podem fazer uma grande revolução na tauromachia nacional.

            Não desanimemos porque mais dia menos dia será satisfeito o nosso desejo.

            Proclame-se a morte do touro para depois assistirmos ás verdadeiras corridas de touros.

Vivam os touros de morte!

In A CORRIDA, Lisboa – 10 de Outubro de 1897

22 DE JUNHO DE 1919 – CASCAIS: UMA CORRIDA COM FRANCISCO BENTO DE ARAÚJO, FILHO DO CAVALEIRO JOSÉ BENTO DE ARAÚJO

 
Hemeroteca Digital - CML

TAUROMAQUIA

            EM CASCAES. — No proximo domingo realisa-se n’esta praça uma corrida mixta de 5 touros e 5 vacas, pertencentes ao lavrador sr. Manuel Ventura Vitorino.

Francisco Bento d'Araujo, filho do cavaleiro José Bento de Araújo
FOTO: © RUI ARAÚJO

            Na lide toma parte o notavel cavaleiro amador D. Alexandre de Mascarenhas e o profissional Francisco Bento de Araujo. Na lide de pé tomam parte D. Carlos e D. João de Mascarenhas e João Malhou da Costa, auxiliado pelos artistas José da Costa, Rodrigo Largo e Alvaro Xavier.

In A IMPRENSA, Lisboa – 21 de Junho de 1919

15 DE JULHO DE 1909 - LISBOA: «NOTAS D'UM ESPECTADOR»...

 
Biblioteca nacional de Portugal

TOURADA

(Notas d’um espectador)

            A inauguração das touradas nocturnas constituiu sem duvida alguma, um grande acontecimento tauromachico. Os esforços que a arrojada empreza desenvolveu foram coroados do melhor exito. Albino José Baptista e Lacerda devem estar satisfeitissimos não só pela enorme concorrencia do publico, como pelo conjuncto de circunstancias que cooperaram para abrilhantar essa interessante e aprazivel festa.

            A illuminação electrica é primorosa pela grande quantidade de lampadas e pela sua artistica disposição. Os mais ligeiros contornos de architectura arabe da praça estão postos em relevo e na arena vê se tão bem, tão claro, como se fora dia. Accresce que a corrida tendo os attractivos d’este genero de espectaculos não foi prejudicada nem pelo calor, nem pela poeira, nem pelos reverberos intensos da luz do sol em pleno estio.

            Um encanto.

            O programma da festa foi executado á risca e todos cumpriram, todos, desde os artistas... até aos touros!

            A praça trasbordava de espectadores e os applausos foram unanimes.

            Sem sermos aficionados de cartel, as corridas de touros, interessam-nos e prendem-nos o espirito. Alguns ha a quem já teem prendido o corpo; a nós nunca.

            Ha-de haver uma duzia d’annos distribuiranos o papel de moço de curro, n’uma tourada de amadores, em uma cidade do Alemtejo. Ficamos mal vistos mas desistimos. Com franqueza, achamos preferivel lidar com Sckespeare (NOTA: Shakespeare) ou Molière do que com... cornupetos!

            É que para nós se — fazer mal aos animaes, é indicio de mau caracter — correr e farpear um touro, animal tão nobre, é um acto não só violento como incorrecto. Agrada, é certo, ver a arte subjugar a força; mas com os demonios! Nos antigos circos romanos, por exemplo, nos combates dos gladiadores, vencedores ou vencidos, todos, todos, quando saudavam o Imperador, — Avé Cezar, moriturite salutand (NOTA: A formulação correcta é Ave, Caesar, morituri te salutant. Em Português: «Ave, César, os que vão morrer te saúdam!»), já d’antemão sabiam o quarto d’hora que os esperava; o boi não!

            Quando os campinos vão alli, ás pastagens do ribatejo, apartar os touros, nas manadas do Palha Blanco ou do João Patricio, quando vão arrancar os animaes ao seu socego, ao seu remanso, sabem estes por ventura, pensam por acaso qual o fim de similhante incommodo e impertinencia?!

            Ora ponhamos o caso, salvo seja, em qualquer alma christã?! .. Ponderemos, raciocinemos... sim... É por isso que nós quando assistimos a uma corrida, já não falo em Hespanha, referimo-nos a Portugal... nós concordamos que o touro é uma victima da crueldade humana!

            Confessemos, porém, que temos estima e apreço pelos artistas tauromachicos portuguezes e com alguns, mantemos relações mais do que cortezes, relações até amistosas. Mas, a lucta é desigual e para o nosso ponto de vista o ruminante é o mais fraco. Quando vemos na praça o touro aborrecido, exasperado, marrando para a direita e para a esquerda, investindo com raiva, tomando crença... tudo achamos justo e comprehensivel! Por vezes ha touros tão teimosos, que parecem ter cabeça de burro; é logico!

            Ora de de que na lide, o artista adestrado, sabe o que lhe cumpre fazer e o touro ignora, aquelle tem os recursos da sua profissão, e este sómente os expedientes proprios dos seus impetos e da sua força, resultam sem duvida alguma d’esta desvantagem, as peripecias mais estranhas e imprevistas. Ha exemplos, de por vezes o touro, perder as estribeiras, — perdôem nos o plebieismo — e atrever se a colher... os intestinos do seu contendor. Em Hespanha este caso é vulgar.

            Concordemos que em contraposição á profunda arte dos dustros (NOTA: ilustres) os touros, por vezes são verdadeiras boite á surprises. (NOTA: "boîte à surprises "? As expressões mais comuns em França no século XIX eram: "Pochette-surprise", "Boîte à malice" ou "Boîte de Pandore".).

            D. João da Camara, (NOTA: O dramaturgo e escritor D. João Gonçalves Zarco da Câmara (1852–1908) foi o primeiro português nomeado para o Prémio Nobel da Literatura (1901) e é um dos maiores dramaturgos do século XIX, a sua ligação à tauromaquia é cultural e histórica) contou nos, que um amigo seu, depois de haver lido, estudado, manusiado com afinco e constancia a arte do toureio do grande Montes, (NOTA: O título exacto do tratado que define a lide moderna é «TAUROMAQUIA COMPLETA – Ó SEA EL ARTE DE TOREAR EN PLAZA, TANTO A PIE COMO A CABALLO» (1836). Este livro foi escrito por Francisco Montes, mais conhecido por "Paquiro". O original da obra pode ser consultado aqui: https://www.gutenberg.org/files/63030/63030-h/63030-h.htm) se offereceu, para n’uma corrida de amadores lidar um touro.

            Chegou o dia, a hora, o momento e o bandarilheiro amador, na artena, depois de haver salivado as farpas das bandarilhas, cheio de si, conscio dos seus conhecimentos artisticos, citou o animal, mediu com a vista o ponto onde lhe cumpria quadrar-se com elle, o lado porque devia sahir, em summa a maneira de rematar a sorte, e eil-o ahi vae, lepido, de braços erguidos para a cabeça do touro, que investindo com o joven, o atira aos ares, marra-lhe á vontade e após im derradeiro coice deixa-o estatelado na arena.

            Frascuelo (NOTA: Don Salvador Sánchez Povedano, más conocido como Frascuelo, nació en Churriana de la Vega, Granada el 23 de diciembre de 1842 y murió en Madrid el 8 de marzo de 1898. Torero español. Tomó la alternativa en Madrid el 27 de octubre1867 de manos de Cúchares y se distinguió por su valentía y por su dominio del estoque. In"Ayuntamiento de Granada") em erva recolhe á enfermaria da praça com uma costella partida, e após larga convalescença em casa, no seio da familia, lamentava-se ao glorioso auctor dos Velhos.

            — Ora... Succeder muito... e mim... que tantas horas passei a estudar o livro de Montes!

            — Pois sim, rematou D. João; mas... o boi é que não sabendo ler desconhecia a arte do toureio.

            Na corrida de hontem todos cumpriram e até os touros bos deram a impressão de haverem lido o celebre livro de Montes!

            Os cavalleiros satisfizeram; ambos são garbosos sobre as selas dos seus ginetes.

            Os toureiros portuguezes rivalisaram nas bandarilhas com os artistas hespanhoes.

            O espada Regaterín é um artista distincto. Manejando a muleta com desembaraço e acerto, preparou os touros que lhe couberam, e com o estoque na mão simulou com pericia a morte das feras. Ninguem se perturbou com isto, por que todos sabiamos que as estocadas... eram, como se costuma dizer, para inglez vêr.

            Portanto não houve sustos, as damas conservaram-se tranquillas e sómente, n’um camarote, perto do nosso, para as bandas da tribuna, é que durante as peripecias das pégas uma formosa senhora, Madame X., morena, com os olhos negros, aveludados, trajando um lindo vestido marron foncè (NOTA: marron foncé) de mangas e collo de rendas velava a cara, tapando os olhos com a contornada mão. Nós, observando o susto aliás justificado, desviamos a attenção das cambalhotas dos forcados, para pensarmos nas pulsações alteradas... d’aquelle sensivel coração.

O Senhor D. Affonso assistiu á corrida.

16 de julho de 1909.

A.    De M.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 17 de Julho de 1909

21 DE JULHO DE 1909 – LISBOA: O MAIOR MUNICÍPIO DA «PIOLHEIRA» E AS TREVAS...

 
Biblioteca nacional de Portugal

ECHOS

            A empreza da Praça do Campo Pequeno, requereu á Camara Municipal (de Lisboa) que augmentasse a illuminação electrica em torno da praça durante as touradas nocturnas.

            O publico afflue em abundancia e o movimento dos trens de praça, dos automoveis e dos electricos torna-se perigoso para os traseuntes.

            A camara não attendeu o pedido. A empreza prontificou se a collocar as lampadas desde que a Camara lhe fornecesse a electricidade para a illuminação.

            A camara nem burra nem quatro vintens.

            Então a empreza montou a illuminação exterior da praça á sua custa, para o que obteve licença com alguma difficuldade!

            Fazemos sentir á Camara, que emquanto os operarios andam mudando o coreto de musica de Herodes para Pilatos, isto é, do Rocio para o Terreiro do Paço, uma empreza particular faz á custa do seu bolso a illuminação n’um logar publico para garantir a vida e as cabeças dos habitantes da cidade.

            Ora se os eleitores pensarem maduramente sobre o caso, para a nova camara municipal devem votar e portanto sahir eleitos vereadores, os srs. Lacerda e Albino José Baptista.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 21 de Julho de 1909

6 DE ABRIL DE 1903 – LISBOA: CORRIDA EM HOMENAGEM A EDUARDO VII, «PATRONO REAL» DA SOCIEDADE PROTECTORA DOS ANIMAIS DE INGLATERRA

 


Praça do Campo Pequeno, Lisboa.
FOTO: Arquivo Fotográfico da CML

EDUARDO VII

A corrida de hontem

            A festa annunciada para hontem, em homenagem a Eduardo VII, na praça do Campo Pequeno, e que era das do programma uma que despertava maior interesse, foi coroada de successo, movimentando-se milhares de pessoas, uns, os felizes para irem gozar o espectaculo, outros para a conducção e ainda muitos para ficarem a guarnecer as ruas e os passeios desde a Avenida, em animado e vivido elemento decorativo.

            Na praça do Campo Pequeno, quando ali chegávamos, ainda cedo, estava-se dando os ultimos toques á ornamentação da tribuna real, cujo balcão estava coberto a velludo carmezim, franjado, sobre que se destacavam grinaldas de rosas brancas, que ao centro enlaçavam n’um grande festão. Verdura e outras flores completavam a ornamentação da tribuna, d’onde se destacavam ainda grinaldas de rosas brancas a ligar nos camarotes mais proximos, seguindo-se d’esses para os outros ligações de verdura.

            Os varandins dos camarotes, como os do parapeito das galerias do sol, estavam todos enfeitados com cobrejões e colchas, e da linha geral da cornija destacavam-se a espaços pavilhões e galhardetes.

            Mas isso era o menos. O que dava uma apparencia unica, incomparavel, magnifica, era o espectaculo da multidão enchendo todos os logares, n’um concerto alegre onde as fardas dos militares e os fatos dos paisanos eram largamente cortados por manchas alegres de vestuarios festivos das senhoras e creanças, que occupavam a maioria dos logares.

            A arena estava tambem decorada, desenhando-se largos festões em toda a volta das trincheiras.

            As cortezias começaram por um monumental fiasco, pois os charamelleiros, em numero de 7, depois de darem a volta á praça e fazerem e atroada do estylo, ficaram-se e ficou-se o intelligentee ficaram todos á espera do seguimento. Emfim apontaram na praça os dois coches, cada um a 3 parelhas de muares, conduzindo os cavalleiros. Cada coche era escoltado por 10 moços com fardas da casa real.

            A banda da guarda toca o «God save the King», o publico levanta-se e quasi todos se descobrem; é o rei Eduardo VII que entra trajando o uniforme de cavallaria 3, o sr. D. Carlos, com um uniforme estrangeiro, o sr. D. Affonso, de general de brigada, o general Clarke, o ministro da Inglaterra, o marquez de Soveral, que tiveram logar, ficando ao centro da tribuna Eduardo VII, dando a direita á rainha D. Maria Pia, que vestia um riquissimo traje.

            Após os ultimos compassos do estopante hymno britannico seguiu-se a ultima parte das cortezias, feita como de costume, mas havendo hontem a dar-lhes maior brilho a comparencia na arena dos cavallos de combate, ricamente cobertos e acompanhados por moços vestindo librés novas e vistosas, fechando o quadro 10 campinos a cavallo. Houve então uma ovação calorosa, e emquanto os 4 pagemsitos se recolhiam e um dos grupos de forcados se destacava para fazer a casa da guarda, era dado o toque para o 1.º touro de cavallo.

            Sahiu um bicho ordinarissimo, com que José Bento (de Araújo) e Fernando de Oliveira pouco poderam fazer, apesar de opportunamente ajudados com os capotes de Theodoro e Manuel dos Santos. O bicho investiu com a casa de guarda, depois do que foi passado de capote e mestre Botas deu signal para o touro ser pegado. Mas, pobres forcados, tanto quizeram honrar o estranho espectador de hontem, que receberam larga distribuição de sopa economica. Oito vezes foi o bicho citado, outras tantas vezes mostrou conservar-se disposto a repellir qualquer jugo.

            Nem de cernelha, depois, o animalejo se deixou pegar. Valha esta teimosia a redimir a féra de modo ordinario como se tinha portado com os cavalleiros.

            O 2.º da manada sahiu para Theodoro e Cadete. O primeiro fez uma gaiola, sahindo pela direita, mas pena foi ficarem os ferros muito distanciados.

            Este bandarilheiro, com os ferros pouco mais poude fazer, e egual desventura teve o seu collega, devido mais, em grande parte, á má qualidade do animalejo que tinham a lidar. Citem-se, entretanto, de cada um, um para «cuarteo». Theodoro passou de capote e a lide do 2.º rematou com uma pega que sahiu boa porquanto as ajudas (contra o costume, triste é dizel-o) foram muito opportunas e valentes.

            O 3.º touro da tarde foi para Manuel Casimiro e Joaquim Alves. Nem um nem outro poderam brilhar. O bicho não dava a Joaquim Alves, apesar d’isso, receava chegar-se. Casimiro ainda poz um ferro regular. Cadete, ao fugier do touro, ia sendo colhido, recolhendo não á enfermaria, mas de gatas, a pôr-se ao abrigo da «casa da guarda».

            Sahiu o 4.º para Manuel dos Santos e Torres Branco.

            Manuel dos Santos, ao empunhar os ferros, botou discurso. Eil-o, segundo a nota official:

            «Tenho a honra de saudar pelas prosperidades de vossas magestades e pela alliança dos povos.»

            Torres Branco sahe para a gaiola, e sem discursos, mas com arte, prende um bom par. Depois os dois artistas seguiram pareando a rez, mas sem poderem luzir, porque o touro era ordinario como os manos. Manuel dos Santos, com a «muleta, tirou uns passes atrevidos, cingindo-se á cabeça do touro com valentia. Depois, o Botas, que estava zangado com os forcados, mandou-os outra vez para a «sopa», mas houve uma pega regular.

            O 5.º touro, para Simões Serra e Eduardo Macedo, era da raça e do prestimo dos anteriores. Recebeu uns ferros, a que não poude fugir; foi passado de capote por Theodoro e acabou-se a 1.º parte, com uma pega de volta.

            O intervallo foi pouco demorado, mas no emtanto deu tempo a que muitas pessoas se retirasse já enjoadas com a massadoria de uma corrida ordinaria.

            O novo toque dos charamelleiros, saiu o 6.º touro, 1.º da 2.ª parte e que foi o melhor. Coube a José Bento (de Araújo) e Fernando (de Oliveira), que começaram desconfiados, mas animaram-se ao ver que tinham a lidar um touro voluntario e nobre. José Bento (de Araújo), até discursou (hontem era o dia dos enthusiasmos com expansão oratoria) e brindou ao seu amigo Estevão de Alcochete, (NOTA: O «Estêvão de Alcochete" era na realidade Estêvão António de Oliveira, um influente lavrador e ganadeiro de Alcochete. Alguns dos seus touros foram lidados por José Bento de Araujo. Segundo a IA, na corrida de gala em homenagem a Eduardo VII, o gesto do cavaleiro foi não só um brinde como também uma saudação à tradição e à robustez da criação de gado nacional.) brindou á imprensa (muito obrigado amigo), e por fim saudou para a sombra arremessando com o tricornio e saindo a pôr uns bellos «curtos», no que foi bem acompanhado por Fernando (de Oliveira). Ambos os cavalleiros tiveram demorado e enthusiastica ovação. Este touro foi bem pegado pelo forcado Manuel.

O 7.º coube a João Calabaça e José Martins. Nem o boi dava nem os artistas estavam com sorte.

            O 8.º para Manuel Casimiro e Joaquim Alves tambem siu de pouco prestimo, mas em compensação o 9.º era muito espero e o 10.º, o ultimo da tarde, foi quasi tão bom como o touro com o que abrira a 2.ª parte. Silvestre Calabaça, á gaiola, em sorte de cadeira, prendeu meio par e Thomaz da Roche tambem mostrou o seu valor de bandarilheiro.

            Uma ovação calorosa e merecida tiveram os cavalleiros a quem coube a lide do 10.º touro, sendo pena que tão tarde ella começasse. O rei Eduardo retirou ao findar a lide do 7.º touro. (NOTA: No comments!) Quando elle saiu repetiram-se as acclamações com que á entrada o tinham saudado.

            — O serviço policial na praça era feito sob o commando directo do sr. coronel Moraes Sarmento.

            — A guarda muncipal de serviço, um pelotão de cavallaria e outro de Infantaria, apresentou-se de grande uniforme.— A. N.

            Um conflicto — Depois de lidado o 2.º touro, viu-se no sector n. 4, bancada geral, perfeitamente «á cunha», um individuo de chapeu d’aba larga e de luvas amarellas, passar até á altura do portão dos cavalleiros, e como ali lh’aprouvesse sentar-se, só o conseguiu depois de certa benevolencia de um nosso amigo, e não pela cortezia do recem-chegado.

            Resultou ficarem apertadas demasiadamente as pessoas que n’esta bancada já lá estavam, dando logar a certo desabafo de dichotes, como é natural, levantando-se aquelle individuo com altivez, altercando e ameaçando a quem lhe não desse logar.

            Foi o bastante para se estabelecer um desaguisado de murros e bengaladas, e a policia pol-o fóra, mas, já sem chapeu, de bengala partida e bem convidado pelo atrevimento.

            O desordeiro, dizia-se, ser da Inspecção do sello, e chamar-se Joaquim Nicolau Gomes.  

O cavaleiro José Bento de Araujo na praça do Campo Pequeno.
FOTO: Arquivo Fotográfico da CML

In VANGUARDA, Lisboa – 7 de Abril de 1903