Biblioteca nacional de Portugal
Tourada
Effectuou-se
no domingo na praça do campo de Sant’Anna a 8.ª corrida de touros, e primeiro
beneficio d’esta época.
O publico, apesar
das differentes diversões que lhe apresentava o dia, não deixou de concorrer á
praça, tanto para obsequiar o beneficiado Ezequiel, como para ver o gado que os
dois sympathicos lavradores Antonio Tinoco da Silva e D. Adtonio (Antonio!)
Lobo de Mello e Castro (Gulveias) (Galveias!) apresentavam para ser corrido
pela primeira vez.
Á hora
marcada apresentaram-se na praça os dois cavalleiros (Manoel) Mourisca e
Antonio Monteiro, acompanhado dos bandarilheiros José Cadete, Vicente Roberto,
Roberto da Fonseca, Caixinhas, Sancho e Loureiro.
Depois das
cortezias do estylo, deu-se começo á corrida, cabendo o 1.º e 8.º touros a
(Manoel) Mourisca.
O cavaleiro Manoel Mourisca.
IMAGEM: Biblioteca nacional de Portugal (Tratada por IA)
Chamava-se Guedelhas o 1.º touro, de sentido,
salgado e bragado, bem armado, de muito pé e caregando (carregando!) sempre
pela garupa do cavallo.
(Manoel)
Mourisca esperou o á saida da gaiola não podendo fazer a sorte porque o touro
saiu muito rapido e recarregou sempre sobre o cavallo a ponto do cavalleiro não
o poder defender porque o touro tinha mais pé e o cavallo menos saida; foi
colhido. Em seguida (Manoel) Mourisca castigou o animal com tres farpas á meia volta e uma a sesgo, todas bem collocadas. Foi muito applaudido.
O 8.º touro, Carvoeiro, negro, burricego, corpulento
e cobarde. (Manoel) Mourisca não poude metter-lhe uma só farpa por mais que o
procurasse por todos os lados. Retirou da arena ficando o touro para Roberto da
Fonseca, Vicente Roberto e Caixinhas, que lhe metteram, o primeiro um par de
bandarilhas, o segundo dois, e o terceiro outros dois pares, todos a quarteio.
(Antonio Maria) Monteiro foi
mais feliz nos 5.º e 11.º touros que lhe couberam.
O cavaleiro Antonio Maria Monteiro
FOTO: Biblioteca nacional de Portugal (Tratada por IA)
No 5.º,
Desertor, lombardo, gravito, de sentido, fez-lhe bem a sorte de gaiola,
enfeitando-o com quatro farpas bem collocadas á meia volta.
No 11.º, Trovador, negro, bragado, bem armado,
corpolento e de sentido bravocando. (Antonio Maria) Monteiro enfeitou-o com sete farpas á meia volta, sendo na ultima sorte o
cavallo colhido, e terminou por metter mais uma farpa em sorte de garupa revolta, bem posta, recarregando
o touro para o cavallo que elles defendeu. Foi muito applaudido.
O 12.º
touro, Pescadinha, negro, bem armado,
bravocando, de pouco corpo e bravo. Foi bem bandarilhado por Loureiro que lhe
fez um bom cambio á saida da gaiola, mettendo lhe mais dois pares e meio de
bandarilhas a quarteio e quatro pares
seguidos a cambio bem mas sem graça.
Foi applaudido.
O 9.º touro, Pimpão, negro, bem armado, listado, de sentido, corpo lento,
carregando sempre para o cavalleiro, foi farpeado pelo curioso José Bento de
Araujo, que se apresentou na praça de jaqueta e chapéu desabado, montado em
sela n’um cavallo russo, o qual foi colhido logo que o Pimpão saiu da gaiola. Depois o cavalleiro, com sangue frio e a
todo os galope porque o animal arrancava com força e tinha muito pé,
enfeuitou-o com sete farpas á meia volta,
offerecendo a ultima sorte ao sr. visconde da Graça. Escusado é dizer que teve
uma ovação e que salvou o resto da tourada que se ia tornando ruidosa. (José
Bento de) Araujo foi chamado á arena: depois foi buscar o beneficiado,
Victorino Marques, os dois cavalleiros e os bandarilheiros.
Por essa
occasião o beneficaido recebeu um pampilho com a competente caixa de madeira
polida, muitos charutos, caixas de pastilhas, alguns presentes de ouro e muitos
ramos.
Os demais
bandarilheiros fizeram o que poderam aos touros que lhes couberam.
Em resumo a
tourada não agradou.
Os touros de
cavallo eram todos corridos e carregavam bem para os cavalleiros á excepção do
8.º touro que coube a (Manoel) Mourisca. O
que foi farpeado por (José Bento de) Araujo tem 13 annos. Dos 7 garraios
que pertenciam aos lavradores Tinoco e D. Antonio Galvéas, 5 sairam bravos e 2
cobardes.
Sancho,
durante a corrida, fez diversas partidas commettendo n’uma d’ellas uma
inconveniencia, suppomos que irreflectidamente, vendo que um dos touros era
cobarde e não se lembrando de que estavam presentes os lavradores, deitou o par
de bandarilhas para a arena e puxando das algibeiras da jaleca por dois lenços
fez com elles a sorte ao animal. A nosso ver, o artista não teve outra idéa
senão a de armar ao publico e não a de desfeitear, como muitos dos espectadores
se persuadiram.
A direcção
da praça foi boa.
Foram
pegados de cara os touros 2.º, 6.º e 10.º e de costas o 12.º
Saltaram á
trincheira o 8.º touro uma vez, o 10.º duas vezes, e 13.º uma vez.
Os
bandarilheiros continuam a apresentar se na praça com o vestuario incopleto (incompleto!)
e os homens de forcado apresentaram-se ante-hontem mal vestidos com jaquetas e
calções pouco decentes para apparecerem na primeira praça de touros do paiz.
O sr.
Victorino Marques, se continuar a deixar abusar os artistas ha de ganhar muito
com isso.
Ouvimos
dizer que o beneficiado dera ao curioso (José Bento de) Araujo que picou o 9.º
touro 40$500 réis pelo bem que se portou, e por lhe ter salvado a situação. (NOTA:
“40$500 réis era uma quantia
muito respeitável em 1878. Correspondia a
cerca de dois a três meses de salário de um trabalhador operário ou
alfaiate em Lisboa, e era suficiente para comprar vestuário de luxo, mobília
fina ou pagar vários meses de renda de uma casa modesta. - FONTE: IA)
In
DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa - 13 de Junho de 1878