Tauromachia
Na proxima segunda feira ha uma tourada extraordinaria em Almada.
O gado é bravissimo.
É cavalleiro José Bento d’Araujo.
Bandarilheiros os melhores.
In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 23 de Agosto de 1882
—Historia de la Fiesta Brava en España, Portugal, Francia y Brasil -el rejoneador José Bento de Araujo y el arte del toreo a caballo. — L'histoire de la tauromachie en France, Espagne, Portugal et Brésil- le "caballero en plaza" José Bento de Araujo et l'art raffiné de l'équitation. — The History of bullfighting in Portugal. Spain, France and Brazil- José Bento de Araujo, and the refined art of horsemanship. — O cavaleiro José Bento de Araujo e a tauromaquia nos séculos XIX e XX.
Tauromachia
Na proxima segunda feira ha uma tourada extraordinaria em Almada.
O gado é bravissimo.
É cavalleiro José Bento d’Araujo.
Bandarilheiros os melhores.
In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 23 de Agosto de 1882
ESPECTÁCULOS
Praça do Campo de Sant’Anna
— Domingo 14 de
maio.
Corrida de 13 touros, pertencentes ao sr. J. V. d’Almeida, de Benavente. Cavalleiros (Manoel) Mourisca e (José) Bento de Araujo. Bandarilheiros hespanhoes Juan Roriz (El Lagartija), (NOTA: Juan Ruiz Vargas, «Lagartija» — 1855-1899) Euzebio Martins e Marianno Torneiro; e os melhores capinhas portuguezes.
Os bilhetes á
venda na tabacaria Climaco, rua da Bitesga, 71.
In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 13 de Maio de 1882
Praça do Campo de Sant’Anna
Domingo, 20 de agosto de 1882
Dez touros para cavallo
Beneficio do cavalleiro
Antonio Maria Monteiro
CORRIDA á antiga portugueza. 14 touros pertencentes ao ex.mo sr. marquez de Vagos (D. Francisco) que pela primeira vez n’esta epoca manda touros a esta praça, e o anno passado deu o applaudido curro que foi toureado pelos hespanhoes. Toma parte na corrida lidando dois touros a cavallo, em obsequio ao beneficiado o ex.mo sr. Jeronymo T. Vianna — 5 cavalleiros, 10 touros para cavallo. — Os cavalleiros (Manoel) Mourisca e (José) Bento de Araujo toureiam a ferros curtos; o cavalleiro Vieira Junior bandarilha em selim raso, trabalho que pela primeira vez se executa n’esta praça. — O beneficiado lidará dois touros, um sem auxilio de capote, e outro esperando em sorte de cara á porta da gaiolla, trabalho arriscadissimo, e de grande difficuldade. — Os melhores bandarilheiros portuguezes — Neto, José Martins, vulgo o Azeiteiro. — Tomam parte na corrida como campinos, em obsequio ao beneficiado, os lavradores Serigados do Ribatejo. O ex.mo sr. Cannas offereceu para se lidar n’esta tarde a bravissima vacca que matou o cavallo em Bemfica no dia 20 de maio ultimo, causando grande panico e alvoroço. Uma commissão d’amadores offerecem 45 mil réis ao cavalleiro que puser na ferocissima vacca 6 ferros sem ser colhido.
Espera se que por todos estes attractivos seja a corrida mais notavel da epoca.
Os bilhetes
acham se á venda na tabacaria Climaco, rua da Bitesga, 71, desde o dia 17 e no
domingo nos respectivos locaes da praça.
In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 16 de Agosto de 1882
PRAÇA DE TOUROS
Na Villa de Montemór-o-Novo
Domingo 6 e segunda feira 7 de Agosto de 1882
INAUGURAÇÃO da praça, festejos na egreja de Nossa Senhora da Visitação; inauguração do novo hospital que será feita no dia 6.
Haverá um vistoso arraial nos dias 6 e 7, bem como festas d’igreja, illuminação, fogo d’artificio e duas brilhantes corridas de 20 touros apartados cuidadosamente das manadas que possue o acreditado lavrador de Lavre o ex.mo Antonio José da Veiga.
Em cada tarde serão corridos 10 touros havendo porém no dia 7 um novilho, a mais, para ser lidado pelos amadores.
Pela mais cavalheirosa bizarria presta-se obsequiosamente a lidar um touro em cada tarde o distinctissimo e laureado cavalleiro amador, o ex.mo sr.
D. Luiz do Rego
Que tão justamente tem grangeado a sympathia publica pelo seu muito conhecimento d’arte, elegancia e pericia. Tambem toureia o festejado cavalleiro
José Bento d’Araujo
e os não menos applaudimos (applaudidos?) bandarilheiros, Vicente Roberto da Fonseca, Roberto da Fonseca e Antonio Augusto e bem assim d’um valentissimo grupo de
Homens de forcado
de Aldêa Gallega do Ribatejo. (NOTA: A localidade foi elevada à categoria de cidade em 1985. A alteração de nome para Montijo data de 6 de Junho de 1930.)
O notavel e bemquisto bandarilheiro Roberto da Fonseca executará nos touros que se prestem á lide as mais variadas sortes de Capa, ou Muleta, Trastéo, etc.
Preços: Camarotes 5$000 réis, Sombra
500 réis, Sol 800 réis.
In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 1 de Agosto de 1882
Tauromachia
Não saiu egual o curro que serviu no domingo em beneficio do cavalleiro (José Maria) Casimiro Monteiro; no entanto appareceram touros muito bravos, que se prestaram á lide.
Foram cavalleiros Manuel Mourisca e o beneficiado. (NOTA: José Maria Casimiro Monteiro) José Bento d’Araujo não compareceu por ter adoecido.
Manuel Mourisca montava o excellente cavallo baio que ultimamente comprou, lidando n’elle o 1.º e o 11.º touros. Executou, tanto no primeiro como no segundo, bonitas e arriscadas sortes, com aquelle sangue frio e arte que todos lhe reconhecem.
Foi muito applaudido.
Casimiro Monteiro lidou o 4.º e o 8.º touros. No 4.º alcançou logo applausos porque se houve a contento do publico. No 8.º, o tal touro Leão, um animal valentissimo de grande corpo, mas muito difficil para a lide, alcançou uma ovação e uma chamada especial. Houve razão para isso, porque Casimiro Monteiro, em harmonia com o programma, lidou o bravo animal a ferros curtos, enfeitando-o muito bem em sortes arriscadas.
Robertos, Cortez, Peixinho e Caixinha mostraram-se mestres. Caixinha, tambem em cumprimento do programma, executou um quiebro na cadeira, saindo-lhe a sorte bem. Peixinho é que não conseguiu executar o salto da garrocha, no 12.º tourso, sendo a causa principal d’isso ter cedido a sorte de gaiola a Raphael Peixinho.
No intervallo foi chamado Casimiro Monteiro e presenteado com alguns objectos de valor, ramos, etc. Fez-se um peditorio para a viuva e orphãos do cavalleiro Batalha. (NOTA: Francisco Carlos Batalha nasceu em Lisboa no dia 18 de Fevereiro de 1841. Faleceu de doença cerebral na casa que habitava nas Escadinhas de São Lourenço em Abril de 1882.)
A concorrencia foi regular, e a direcção acertada.
In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 1 de Agosto de 1882
Visita dos reis de Hespanha — Festejos
A tourada de
hontem, em honra de suas magestades catholicas, e dada pela empreza Custódio
Vidal, foi extraordinariamente concorrida. Não havia um camarote sem alugador,
e nas trincheiras viam-se muitos espectadores por não chegarem os palanques de
sombra e sol para a grande quantidade de gente que affluiu.
A tourada começou ás 2 horas, como estava annunciado, sendo as cortezias feitas pelos tres cavalleiros de profissão José (Casimiro Monteiro) e Antonio Monteiro, e José Bento d’Araujo.
Na 1.ª parte o que houve de mais notavel foi o segundo touro passado de muleta, com verdadeira mestria, pelo bandarilheiro Roberto da Fonseca, que obteve extraordinarios applausos.
Findo o intervallo, entrou na arena o sr. Tinoco (Alfredo Tinoco da Silva), á Marialva, e foi picado o 1.º touro com a valentia e denodo que aquelle dextro cavalleiro amador costuma exhibir.
O empresario mendou então suspender por algum tempo o espectaculo para a chega de suas magestades os reis de Hespanha e os de Portugal. Como tardassem, foi a pedido do publico corrido o 2.º touro para capinhas, chegando as familias reaes na occasião em que este era recolhido.
Quando os reis de Hespanha, a sr.ª D. Maria Pia, principes, e comitiva deram entrada no camarote real as bandas de caçadores 5, e dos cegos da casa pia tocaram o hymno hespanhol, descobrindo-se e ponde-se de pé todos os espectadores.
Sua magestade el-rei o sr. D. Luiz não compareceu.
Aos cumprimentos do publico corresponderam suas magestades com a affabilidade e fina delicateza que os distingue.
Trocados os cumprimentos entre o publico e os monarchas, proseguiu o espectaculo, dando entrada na arena o dextro e elegante cavalleiro amador o sr. Alfredo Marreca e o sr. Tinouco,(Tinoco) que apesar de não lhe pertencer tourear mais de que um touro na 2.ª parte teve de aceder ao pedido dos espectadores, que sabendo que el rei D. Affonso dera em Madrid os mais evidentes testemunhos de apreço pela dextreza d’esse cavalleiro amador, quiz que o nosso hospede tivesse occasião de o ver mais uma vez trabalhar.
O animal que os srs. Marreca e Tinoco tiveram de lidar não possuia as melhores qualidades; investia a custo, tomava querenças, (NOTA: O touro deixou de investir de forma franca e aberta no centro da arena, obrigando o cavaleiro a correr riscos para tirá-lo das tabelas.) e emfim só se prestava sendo muito citado.
O sr. Alfredo Marreca foi mais feliz, innegavelmente porque o touro tinha mais vontade á côr do seu cavallo castanho do que ao russo do sr. Tinoco; de toso os modos o primeiro d’estes cavalleiros teve ensejo de fazer brilhantissima figura, como sempre, mettendo algumas farpas em sortes irreprehensivelmente executadas. O sr. Tinoco, sem desmerecer da sua dextresa, teve sim muitas palmas, porque as Merecia, mas pela razão que já indicámos, não poude metter egual quantidade de ferros á que metteu o sr. Marreca.
Depois de mais um touro bandarilhado com muita arte pelos irmãos Robertos, e bem passado de muleta pelo Roberto da Fonseca entrou na arena o sr. Luiz do Rego, montado no seu brioso Léotard.
Digamol o com a imparcialidade que costumamos sempre, o sr. D. Luiz foi quem teve as honras da tarde, e merecidamente.
O touro era bravo e de muitas pernas; de ordinario investia sempre quando citado e não carregava; mas algumas vezes desmentiu estas qualidades tornando-se de sentido.
O sr. D. Luiz do Rego soube aproveital o em sortes á meia volta e á tira, e pôz dois pares de ferros com arte e valentia inexcediveis.
A ultima d’estas sortes produziu uma extraordinaria ovação ao arrojado amador. O touro achava se entrincheirado junto á porta dos cavalleiros, quando citado não investia, mas partindo inesperadamente, quando o habil amador se achava a maeio da praça foi recebido com valentia pelo denodado cavalleiro que o castigou n’uma esplendida sorte á garupa, mas executada com audacia e perfeição tal, que o publico irrompeu n’uma ovação que se approximava muito do delirio.
Quando saiam os tres cavalleiros de profissão para picarem o toiro que lhes pertencia na segunda parte, appareceu o cavalleiro Manoel Mourisca offerecendo os ferros.
O publico pediu logo que Mourisca picasse o touro, tendo os 3 cavalleiros que se achavam na praça a delicadeza de lhes offerecerem os seus cavallos. Mourisca não aceitou e indo buscar o cavallo em que o sr. Marreca trabalhara, voltou e lidou bem o animal que se achava na arena, e que então já tinha recebido dos 3 cavalleiros alguns ferros muito bem postos.
Peixinho executou com luzimento o salto da vara, e todos os capinhas trabalharam bem, sobresahindo os Robertos.
Houve a má idéa de mandar pegar um touro, contando-se para isso com uns forcados que se achavam nas trincheiras; com o que não se contou foi que muitos outros individuos saltassem tambem, estabalecendo se assim a confusão.Afinal o touro foi pegado mal por um dos moços do curro.
Em conclusão, o gado saiu regular, e a funcção esteve animada, não saindo o publico descontente, apesar d’algumas irregularidades.
In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 13 de Janeiro de 1882
ESPECTACULOS
Praça do Campo de Sant’Anna.
Domingo 30. — Ás 5 horas da tarde.
Grande e extraordinaria corrida de 13 touros pertencentes ao opulento lavrador D. Caetano de Bragança, (Lafões) em beneficio do cavalleiro José Maria Casimiro Monteiro.
Tomam parte na corrida os estimados cavalleiros (Manoel) Mourisca, José Bento d’Araujo e o beneficiado; e os melhores bandarilheiros portuguezes.
Um distincto amador em obsequio ao beneficiado presta-se a tomar parte na lide como cavalleiro.
Os bilhetes á venda na tabacaria Climaco, n.º 71.
Preços os do
costume.
In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 26 de Julho de 1882
NOTA
A embolação é franca para que o público possa ajuizar a qualidade do gado. Começa às 09H00 da manhã.
Tauromachia
Realisou-se hontem a tourada de inauguração da época, pertendendo o gado ao sr. Emilio Infante.
Os touros eram bravissimos, corpulentos, e na maior parte leves.
Trabalharam os cavalleiros Casimiro Monteiro, Antonio Monteiro e José Bento (de Araujo).
Casimiro houve-se com galhardia no 1.º touro, um animal muito bravo, corpulento e de muito pé, mas de sentido, cortando terreno. Metteu algumas farpas bem, e executou uma valente sorte com um ferro curto. Foi muito victoriado. No 2.º touro que lhe coube andou regularmente. Antonio Monteiro e José Bento (de Araujo) não foram tão felizes como o primeiro, sem comtudo deixarem de mostrar boa vontade e de executarem boas sortes.
O hespanhol Cortez (Cortés) agradou. Executou, á gaiola, um bello cambio na silla e um quiebro perfeito no 5.º touro. Muito correcto em geral no trabalho das bandarilhas, e regular em capa e muleta.
Os capinhas portuguezes trabalharam todos bem, sobresaindo Peixinho.
Foi chamado o lavrador.
A concorrencia foi grande, retirando se os espectadores satisfeitos.
A praça está
vistosa; as novas pinturas são de bonito effeito.
In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 10 de Abril de 1882
Realisa-se hoje a primeira tourada d’esta epoca. São tres os cavalleiros — José Casimiro, Antonio Monteiro, e José Bento (de Araujo). Capinhas são dos melhores.
O gado pertence ao sr.Emilio Infante, acreditado lavrador.
A praça está
renovada, porque a empreza faz diligencia para que as funcções n’esta epoca
sejam em tudo dignos da primeira arena do paiz.
In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 9 de Abril de 1882
Alfredo Tinoco da Silva
Quem ha ahi que o não conheça?
Percorram toda a cidade, perguntem a toda a gente desde Santa Apolonia até Alcantara e desde Arroyos ao Caes dos Soldados, se conhece o Tinoco.
Nem um só dirá que não.
Todos o
conhecem e todos sympathisam com elle.
Quando passa na rua com a sua physionomia sympathica e insinuante
com aquelle seu modo de andar elegante e distincto, com o seu sorriso
habitual, um sorriso amavel, um sorriso que agrada, um sorriso que captiva,
os transeuntes acotovelam-se dizendo:
— É elle, é o Tinoco!
— Qual? Qual?
— Este que vae aqui para baixo.
— É verdade! olha, olha, é o Tinoco.
Outras vezes:
— Vês este, vês este de chapeu alto? é o Tinoco!
— É elle é. Ó rapazesm, olhem o Tinoco.
— Ó meninos, é o Tinoco.
Isto succede todos os dias, elle se o quizer confessar que o diga.
Quantas vezes, passando pelas ruas, ouve elle murmurar estas tres palavras:
— É o Tinoco!
É que não ha inguem mais popular.
Se um dia quizer propor-se a deputado, dou mais pela sua eleição, do que pela do candidato do governo, seja qual for.
E como adquiriu elle este pretigio? Como foi, não me dirão?
Quando ha annos eu o conheci no Lyceu Francez com os livrinhos debaixo do braço, quando elle estudava a historia de Portugal de Midosi e eu o systema metrico de Moreira de Sa, quem me diria a mim que aquelle rapaz — o n.º 122 ou 123, não sei bem, — viria a ser tão fallado, tão estimado e tão querido da nossa gente!
Quando o via entrar acanhado no collegio, mal diria eu que, d’ali a annos haveria de despertar tanto enthusiasmo no nosso publico.
Parece-me ainda estar a vê-lo, acanhado, timido, dando voltas em redor do professor, elle que hoje as dá sem medo em redor do 69 ou do Pimpão.
Elle que n’outros tempos receiava uma pergunta de corographia, não teme hoje a investida d’um touro.
Não quer isto dizer que não estudasse, pelo contraio, estudava bastante, o que elle era n’esse tempo, era muito timorato e... muito cabula.
Depois d’isso começou a deixar-se arrastar pela pandega, pela dourada pandega, e um dia vejo eu annunciado o seu nome nos cartazes da praça do Campo de Sant’Anna. Eram cavalleiros — o marquez de Castello Melhor, o marquez de Bellas e D. José de Avillez; mais abaixo d’estes nomes lia-se:
NETO
Alfredo Tinoco da Silva
Fez-me especie quando vi o seu nome.
É elle !
Não é elle!
É por força. Não ha outro. Era capaz d’isso. E fui vel-o.
Que brilhante estreia. Quasi que tive vontade de saltar da trincheira e de lhe dar um abraço! Não saltei porque tive medo do touro!
Que neto, que neto aquelle! Sabia tanto d’aquillo que mais parecia o avô.
Depois d’isto, segue-se uma carreira infinita de ovações e de enthusiasmos despertados por elle.
Agora dou-lhe um doce se me disser alguma coisa do systema metrico.
Dou-lhe um doce, disse eu? Dou-lhe um confeiteiro em peso!
Lá do systema metrico aposto já que elle não se lembra! Do resto não digo nada, creio que sim.
Se entre nós o seu nome se tem popularisado, em Hespanha todos tambem o conhecem, tal foi a brilhante figura que elle fez em Madrid e acaba de fazer agora em Badajoz, ao lado de Carlos Relvas, tambem um amador distincto dos mais distinctos da peninsula.
Quando Tinoco entra na arena não se imagina a satisfação, a alegria que tem o publico; os corações enchem-se d’um jubilo, d’um prazer indescriptivel; quando elle cita para uma sorte, ficam todos suspensos, quando a termina corrompe tudo n’um applauso, que o illustre afficionado póde ser a certeza que é sincero.
O seu garbo, a sua pericia, a sua distincção, a sua elegancia, os seus conhecimentos de equitação fazem lembrar o conde dos Arcos de quem Rebello da Silva diz:
«O conde dos Arcos, entre os cavalleiros, era quem dava mais na vista. O seu trajo, cortado á moda da côrte de Luiz XV, de veludo preto, fazia realçar a elegancia do corpo. Na golla da capa e no corpete sobresaiam as finas rendas da gravata e dos punhos. Nos joelhos as ligas bordadas deixavam escapar com artificio os tufos de cambraeta alvissima. O conde não excedia a estatura ordinaria, mas esbelto e proporcionado, todos os seus movimentos eram graciosos. As faces eram talvez pallidas de mais, porém animadas de grande expressão e o fulgor das pupillas negras fuzilava tão vivo e por vezes tão requebrado, que se tornava irresistivel. Filho do marquez de Marialva, e discipulo querido de seu pae, do melhor cavalleiro do Portugal, e talvez da Europa, a cavallo, a nobreza e a naturalidade do seu porte enlevavam os olhos. Elle e o corsel, como que ajustados em uma só peça, realisavam a imagem do centauro antigo.
A bizarria com que percorreu a praça, domando sem esforço o fogoso corsel, arrancou prolongados e repetidos applausos.»
A sua carreira de amador tem sido uma serie não interrompida de applausos; nunca o vi entrar na praça que não saísse victorioso.
Em Madrid, então, causou verdadeiro fanatismo. Os jornaes diziam cousas extraordinarias a seu respeito; nunca amador algum conseguiu egual successo.
Nas nossas praças figura a par de Castello Melhor e de Vimioso, excedendo os por vezes e não se deixando nunca offuscar pelo brilho da sua nomeada.
O seu nome figura ao lado dos d’aquelles dois illustres amadores, que se o vissem farpear teriam por certo o mesmo grande enthusiasmo que actualmente se apossa de nós.
E terminando estas breves linhas escriptas para acompanhar o seu retrato, hoje dia da sua festa, enviamos ao nosso amigo um sincero aperto de mão e um bravo pelos brilhantes triumphos que tem tido sempre e oxalá continue a ter.
Antonio de Menezes
In DIARIO ILLUSTRADO – 26 de Junho de 1882
Acha-se definitivamente ligado á empreza da praça do Campo de Sant’Anna, o estimado cavalleiro Manuel Mourisca Junior. É sem duvida, uma boa nova para os amadores e para o publico, porque, em verdade, Mourisca é artista muito apreciado.
Estão egualmente ligados os estimados cavalleiros José Maria Casimiro Monteiro e José Bento de Araujo.
Como dissemos, a empresa conta inaugurar os seus espectaculos, no proximo domingo de Paschoa, para o que já está separado um formidável curro, pertencente a um dos nossos mais acreditados lavradores do Ribatejo, e no qual plenamente se confia.
A praça fica elegante. Os arranjos effectuados, era indespensaveis.
A empreza
tenciona apresentar tambem, em algumas lides,
os mais afamados espadas do visinho
reino, e para isso tem empregado e continua a empregar todos os seus melhores
exforços afim de que as corridas, por sua conta dadas, attinjam o maximo
brilhantismo e sejam, em tudo, digno do primeiro circo tauromachico portuguez.
In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 25 de Março de 1882
Tauromachia
Foi muito irregular mas ao mesmo tempo interessante a corrida de domingo na praça do Campo de Sant’Anna, em beneficio de Manuel Mourisca.
O gado era desegual. Appareceram alguns touros muito bravos e mesmo puros, outro de mas qualidades, matreiros ou cobardes.
Mourisca, comquanto sempre correcto, só brilhou no 1.º touro da 2.ª parte. Em compensação trabalhou com inexcedivel mestria.
O animal era muito bravo, de grande corpo, e rapido mas sabido. Mourisca lidou o a ferros curtos, aproveitando a sorte de gaiola de uma maneira tão distincta como ha muito não vimos, e merecendo por isso uma ovação.
Todas as restantes bandarilhas com que enfeitou o animal foram collocadas conforme os preceitos da arte e em sortes arrojadas. Depois de recolhido o touro, foi o cavalleiro chamado, applaudido e brindado com alguns presentes e flores.
José Monteiro (José Maria Casimiro Monteiro) apenas teve um touro, mas de ruins qualidades, que enfeitou com um ferro muito bem collocado. José Bento (de Araujo) e Antonio Monteiro (Antonio Maria Monteiro) tiveram, além dos touros que lhes coube em competencia com os capinhas, um bello touro salgado para picarem sorte a sorte. O animal era bravo, mas difficil; era preciso lidal-o com cautela, mas a verdade é que não o aproveitaram bem, sendo talvez a verdadeira causa d’isso os cavallos negarem se um pouco.
Robertos e Peixinho distinguiram-se.
O torneio devia ser de 15 touros, mas os espectadores tiveram de se contentar com 12 porque assim o determinou o 11.º bicho.
O episodio não foi mau. O touro negou-se a ser recolhido, tomou querença no meio da praça e não havia maneira de arrancal-o d’ali. Conseguiram laçal-o, mas mal; mas o bicho de tal fórma sacudiu o laço que conseguiu libertar-se d’elle, ficando desembolado. Afinal foi Peixinho quem teve arte para o laçar deveras.
Era já noite quando saiu o 12.º touro em que Mourisca devia metter a pé um par de bandarilhas. Apesar da escuridão ainda conseguimos vêr Mourisca dar um trambulhão quando pretendeu metter os ferros no animal.
Acreditamos que sabe metter um par de bandarilhas, mas a fallar a verdade ás escuras, só pelo desejo de cumprir o programma.
De todos os modos um conselho: toureie a cavallo, e deixe-se de bandarilhar a pé; é mestre como cavalleiro, é apreciado e applaudido pelo publico, e não precisa para attrair concorrencia e para alcançar applausos de andar aos trambulhões pela arena.
A concorrencia foi grande.
In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 20 de Junho de 1882