CAMPO PEQUENO
La Reverte
A corrida que se realisou no domingo 24 na praça do Campo Pequeno, veio evidenciar o extraordinario valor que o grande publico reconhece nos artistas tauromachicos e a seria aficion dos seus promotores.
É duro, mas tem de dizer-se.
Toda a gente afirmava que a corrida era promovida por dois negociantes de espectaculos de sensação e por um artista tauromachico.
Os primeiros estão no seu papel, mas o ultimo nunca deveria ligar o nome a semelhante borracheira!
Ha negocios que deslustram o nome de um artista!
O que não se devia admittir, é que se annunciasse como corrida formal, dando-lhe demais o subtitulo de corrida de anniversario da praça, uma pepineira d’aquella ordem!
Até se quiz fazer comprehender que Feliz Velasco alternaria com a Reverte,ou Reverta, (NOTA: «La Reverte» era María Salomé Silva, María Salomé Rodríguez Tripiana ou ainda Agustín Rodríguez em 1908, ano em que confessou ser homem. Em 1912, abandonou a lide.) como lhe chama um nosso amigo para evitar confusões.
Para que tudo fosse completo, até os 6 touros de Laranjo que estavam annunciados, foram á ultima hora substituidos por touros de Paulino da Cunha!
Touros!...
Pode dar-se este nome a taes bichos?!...
Tanto os do sr. Paulino como os da Companhia da(s) Lezirias eram o que de mais ordinario se pode apresentar n’uma praça.
Nem mesmo vale a pena empregar tinta na sua apreciação.
O grrrande attractivo da corrida era a Reverte.
Esta mulher que conseguiu crear nome apenas em Lisboa, levou ao Campo Pequeno uma multidão que lá não iria se annunciasssem um espada de merito.
Pelo seu valor como artista?
Não; por ser mulher e ser toureira.
Ninguem nega que ella é valente; mas, o que sentimos é que o publico da capital, depois de ter visto desfilar pela arena do Campo Pequeno todas as sumidades do toureio, eleve de tal modo uma mulher que não tem a recommendal-a outro predicado que não seja o da valentia!
Note-se: valentia como mulher!...
Tem tido, felizmente para ella, a extraordinaria sorte de não lhe ter sahido um touro difficil para bandarilhar, porque, entãoé que o publico veria o que vale a Reverte como artista.
O tourete que lhe coube n’esta corrida, alem de nobre, estava derreado por completo dos quartos trazeiros e nem mesmo se devia consentir que fosse corrido.
Que enorme berreiro não se faria se qualquer toureiro pegasse em bandarilhas para um touro naquelle estado!
Com o capote e a muleta é que se evidencia o nenhum conhecimento que a Reverte tem do toureio.
Nada fez de valor n’esta corrida mas o publico applaudi-a com enthusiasmo.
É o publico do á unha! e do fora gallegos!...
Na corrida tambem tomou parte um espada: Felix Velasco.
Mas este não veio como attractivo: era para dar fóros de corrida formal áquella borracheira.
Todos os que seguem com interesse o movimento tauromachico da nossa visinha Hespanha, sabem que Velasco, nunca conseguiu salientar-se entre os seus collegas matadores de touros, mas o que tambem sabem, é que em Hespanha não se concede a alternativa a qualquer, e, ainda que ha muitos que pouco valem, qualquer d’elles, como artista, vale por todas as Revertes.
Nunca vimos tourear Felix Velasco mas no domingo estamos convencidos que elle não fez nada porque não quiz.
Estamos até em acreditar que estava envergonhado!
Realmente um matador ver um publico enthusiasmado com uma mogiganga d’aquella ordem, era para fazer sorrir de desdem e envergonhar-se de tomar parte n’ella!...
Dir se-ha que elle veio ganhar dinheiro e devia, portanto, trabalhar.
Mas o que nós não conhecemos é as condições em que elle veio.
O que elle não quiz foi alternar de qualquer modo com a Reverte e por isso elle com razão se recusou a passar de muleta o touro em que ella tinha feito os quites aos picadores.
No touro que lhe coube bandarilhar, o publico indignou-se por elle não ir para a gaiolla, não se lembrando que até o grande Guerrita fazia o mesmo.
O tal bicharoco sahiu ordinario entre os ordinarios e Velasco quasi ficava de cocoras quando cravava as bandarilhas, tão grande elle era.
Ora nós comprehendemos que um toureiro se arrime e se enthusiasme quando em frente de um touro, mas em frente de um choto, d’uma cabra com cornos de boi...
Deve fazer a mesma cara que qualquer homem fará ao cahir por tropeçar n’um cãosinho felpudo.
Não queremos, de modo nenhum que se vá comprehender que temos em mira a defeza de Felix Velasco; não, o que desejavamos é que todos vissem bem a situação d’um homem que está acostumado a ver-se em corridas onde ha touros e toureiros e soffrer a rapida transicção para onde havia uns bicharocos com chavlhos, que podiam ser caracoes! — e um publico que delira ante uns pares de bandarilhas collocados por uma mulher!
Mesmo nas nossas corridas mais bem organisadas nós vemos, com raras excepções, que os toureiros hespanhoes de mais fama não fazem metade do que os vemos fazer em Hespanha.
Entre outras ha para isso duas rasões de muito peso:
A primeira reside no facto dos toureiros serem embollados e isso ser para elles algo vergonhoso; a outra, é a preoccupação que elles teem de que todos os touros são já corridos.
Por todas estas rasões não nos admirou, portanto, que Felix Velasco se retrahisse.
Os cavalleiros foram José Bento (de Araújo) e Simões Serra.
O
primeiro não esteve feliz, rematando sempre as sortes d’uma fórma
deselegantissima, talvez influenciado pelo desgraçado halito anti-artistico que
ali se respirava.
Simões Serra conseguiu salvar-se da derrocada.
Collocou algumas farpas de valor e gostámos de o ver citar para algumas das sortes.
Não se esqueça da formula, porque pode perder o papel em que está escripta, e andar ás aranhas, como lhe tem succedido esta epoca em quasi todas as corridas.
Do trabalho dos picadores nada diremos porque não nos queremos lembrar das gargalhadas que elles darão ao recordarem em Hespanha os pobres animaes que em Lisboa lhe largaram para picar.
Os benemeritos da arte, promotores d’esta corrida, deligenciaram buscar entre os nossos bandarilheiros aquelles de menos merito, deixando escapar por engano Thomaz da Rocha.
Foi este o unico que metteu um par de valor e que bregou
regularmente, ainda que remattando quasi sempre no terreno de dentro.
Emende esse defeito, Rocha, e verá como o publico lhe
premiará os seus esforços!
Para que o Campo Pequeno parecesse por completo a saudosa praça da Cruz Quebrada, até os forcados metteram la pata.
Houve um que pegou um touro de costas, citando sentado n’uma cadeira.
E o intelligente consentiu, e a auctoridade não procedeu!
Consta que na proxima corrida haverá uma pega feita dentro de uma barrica.
M. T. David
In REVISTA TAURINA, Lisboa – 31 de Agosto de 1902
NOTA
Mais informação sobre La Reverte nesta página do diário madrileno ABC:
ou nesta edição do jornal «La Correspondencia
de España»
https://hemerotecadigital.bne.es/hd/viewer?oid=0000473252&page=2
ou neste blog alojado no site da Biblioteca Nacional de España:

























