Biblioteca nacional do Brasil
TAUROMACHIA
O dia de
hontem não se prestava ao inicio das touradas. Estava sombrio, encoberto, e de
quando em quando caia uma chuvinha impertinente e desalentadora. O sol, uma vez
ou outra mandava para a terra os seus raios isso mesmo a medo, sumindo-se logo.
Tudo fazia
prever portanto pequena concorrencia ao redondel do campo de Marte.
Entretanto tal
não aconteceu. A affluencia de
afficionados era grande.
Apenas meia
duzia de camarotes estavam desoccupados.
A sombra quasi cheia. O sol com poucos claros. Uma boa casa.
É que o
nosso publico aprecia esse genero de diversões. Infelizmente, ao entrar elle
teve logo uma decepção. Em pedaços de papel vermelho, de fórma rectangular,
pregados por toda a praça, lá estava a declaração do que em virtude do
paragrapho 7.º do art. 15, do novo regulamento policial para os theatros e
corridas de touros, ficavam proibidas as pégas. Ora, tourada, sem a péga, é
como um guisado sem o competente molho, como obtemperou o Camarão que a não ser esta piada, soltada em conversa, esteve
triste e quieto durante todo o divertimento.
A policia,
nesse regulamento em que até se julgou competente para crear impostos, enxertou
entre as suas disposições esse artigo prohibindo as pégas. O povo ou porque não
lesse ou porque tivesse saudades das scenas dos forcados em frente aos cornupetos, gritava de vez em
vez: á unha, á unha, não podendo naturalmente ser attendido.
É que elle
ignorava que o dr. Alfredo Pinto veiu regenerar a sociedade e as touradas.
Deixemos de
lado a apreciação que o caso comporta e que será renovada em outra occasião, e
descrevamos a diversão.
Ás 4 e 15 o
intelligente, o chapeleiro Guimarães, occupou a sua cadeira e o Zé Lisboa deu o
primeiro signal de clarim.
Entrou a
quadrilha e fez os torneios da praxe.
Finda esta e tocado o clarim, entrou o
primeiro touro para o José Bento (de Araujo), que applicou bem todos os ferros
menos um, sendo o animal colhido uma vez. Teve grandes applausos, sendo chamado á
praça e acclamado.
O 2.º touro
veiu para João de Oliveira e Ribeiro Thomé, que o trabalharam regularmente.
O 3.º coube
o Manoel dos Santos que foi festejado ao saltar na praça pretendendo fazer a
sorte da gaiola.Esta falhou e o toureiro beijou o solo. Depois, applicou tres
pares regularmente e com o capote tirou alguns passes.
O espada Cantaritos quiz tirar alguns passes
com el trapo mas não o conseguiu e
levou alguns tombos. Talvez a commoção da estréa.
Houve o
intervallo, sem a collecta dos forcados, porque não houve péga, e veiu o 4.º
touro para Victor Marques, que applicou bem alguns ferros, sendo ao estrear
fortemente beijado o seu cavallo.
Maera,
apontado como o primeiro peão de brega
em Portugal e Hespanha, lidou o 5.º touro. Tem boa figura, tem planta, é insinuante, mas estava
visivelmente nervoso. Seu trabalho foi, apesar disso, bom, conquistou muitas e
sympathias teve ao terminar calorosas acclamações.
Alfredo dos
Santos alcançou um verdadeiro successo com o 6.º touro.
Só um par de
ferros applicado magistralmente valeu por todo o divertimento. Foi o melhor
trabalho do dia. Tambem não lhe faltaram ruidosas ovações.
O 7.º e
ultimo touro veiu para ser trabalhado por quatro forcados, que, não podendo
fazer as pégas, vieram fantasiados e tomaram parte na palhaçada.
A scena
estava agradando, mas o intelligente mandou retirar depressa o animal, com
grandes protestos do publico, que prorompeu em retubante vaia.
A chuva
principiou a cair e o povo começou a debandar, trazendo bôa impressão da
tourada, que esteva regular.
Frascuelo
In O
SECULO, Rio de Janeiro - 18 de Novembro de 1907