Biblioteca nacional de Portugal
Tentativa de suicidio
Tres quartos de hora antes de principiar a corrida de
domingo, na praça do Campo de Sant’Anna, foi accommetido d’uma syncope o
beneficiado Antonio Maria Monteiro, ficando impossibilitado de trabalhar n’aquella
tarde.
Ja ha
quatro mezes approximadamente, soffreu Antonio Monteiro egual ataque no café
Marrare, facto que noticiámos na nossa folha. Crê se que em ambos os casos
actuara com grande força a preoccupação mental.
Antonio Monteiro
ficara desgostoso com a falta de cumprimento do programma da sua festa
artistica. O distincto amador D. Luiz do Rego não tinha podido comparecer por
causa do seu estado de saude, e o touro mocho, parte principal do espectaculo,
morrera, quando de manhã chegou á praça; parece que em resultado de suffocação.
O animal fugira de noite na estrada da Luz e só de manhã conseguiram agarral-o perto
de Alcantara, atando-o com cordas a um carro; uma laçada mais forte no pescoço,
foi o que, dizem, lhe causou a morte.
O cavaleiro Antonio Maria Monteiro
FOTO: Biblioteca nacional de Portugal (Tratada por IA)
Antonio (Maria) Monteiro sahiu
hontem de casa em companhia de um seu amigo chamado Barbosa, mas, no meio do
caminho separou-se d’elle, e foi comprar um revolver de seis tiros, fogo
central.
Eram pouco mais de 5 horas, quando
entrou na typographia Central, estabelecida na rua do Arco do Bandeira e
pertencente á sr.ª D. Carolina Franco Amorim; pedindo licença á dona da casa, foi
deitar-se em cima de uma cama, porque, dizia, se achava algum tanto
incommodado.
Antonio (Maria) Monteiro já tinhas
ali ido, de manhã, pedir que lhe fizessem algum abatimento no custo da
impressão dos bilhetes, o que promptamente lhe fôra concedido.
Momentos depois de ter tirado o casaco e o collete e de
se ter deitado em cima de uma cama, foi ter com elle o sr. Henrique Franco
Amorim, filho da dona da typographia, convidando o com instancia a que fosse
fazer-lhe companhia a jantar. Antonio (Maria) Monteiro recusou abertamente,
pretextando achar se incommodado e necessitar de algum repouso.
Estavam a jantar
havia 10 minutos, quando se sentiu um grande estrondo; Julgou-se, ao principio,
que tinha sido alguma forma que caira sobre a machina, mas o aprendiz Joaquim
disse que não e que na casa contingua ao quarto onde estava Antonio (Maria)
Monteiro havia fumo.
Correram todos ali e viram Antonio (Maria) Monteiro caido
de costas no chão, junto de uma janella, com a camisa desabotoada e cheia de
sangue, esfregando com a mão direita o lado esquerdo do peito. Ao lado estava
um revolver sem uma das cargas.
A sr.ª D. Carolina Amorim chegou logo á janella e pediu
soccorro. Acudiram muitas pessoas, entre ellas o sr. Picão e o cocheiro João
Gonçalves, compadre do cavalleiro José Bento de Araujo, que levou o ferido no
seu trem ao hospital de S. José.
Estava ali de serviço o sr. dr. Simões Raposo, que tratou
do ferido com toda a sollicitude, conseguindo, pouco depois, extrair lhe a bala
que, sendo disparada contra o coração, resvalara pelas costellas para baixo e um
pouco sobre a esquerda.
Disse-nos o sr. dr. Raposo que o estado do
enfermo não era grave e que, a não haver alguma contrariedade imprevista,
brevemente estaria restabelecido.
O doente ficou n’um quarto particular do hospital.
Estavam ali todos os irmãos e alguns amigos de Antonio
(Maria) Monteiro.
Diz-se que a causa que
o levou a tentar pôr termo á vida fôra o ter faltado ao programma da sua festa
artistica.
Alfredo Tinoco (da Silva), padrinho de casamento de
Antonio (Maria) Monteiro vae promover uma tourada em que entrarão por obsequio todos os
amadores e artistas, e em que o curro será fornecido gratuitamente por alguns
lavradores.
É digno de todo o elogio o nosso amigo Alfredo Tinoco (da
Silva) pela excellente iniciativa que tomou.
In
DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa - 19 de Agosto de 1884