A tourada de hontem, a setima da presente temporada, realizou-se com grande concorrencia, em contraste com a vasante da ultima funcção.
Para justificar a deserção dos aficionados não é preciso mais do que citar o fiasco das quatro primeiras diversões, tendo como consequencia o abandono do redondel do campo de Marte, justamente nas duas ultimas touradas, quando o trabalho correu um pouco melhor.
Para explicar a enchente de hontem, basta lembrar que era a estréa de Clotilde Mejstrik, (NOTA: A “amazona” Clotilde de Mejstrik, grafada nos cartazes e na imprensa da época como “Madame Clotilde de Maestrick”, “Mayestrick” ou “Majestrick”, participou, designadamente, em corridas nas praças portuguesas (Lisboa, Porto, etc.) e nas arenas do Brasil (Rio de Janeiro, Porto Alegre, etc.). A cavaleira pertencia a uma família de artistas de circo e equitação, que criou, por exemplo, o Circo Mejstrik que marcou no início dos anos 1900 presença na Feira de Alcântara, em Lisboa.) cavalleira precedida de fama, com grande tirocinio nas praças de Portugal.
A sombra poucos claros apresentava. O sol quasi cheio. As cadeiras regularmente occupadas. Alguns camarotes tomados, principalmente os da sombra.
Em uma resenha rapida como esta não se deve entrar em detalhes. Vão, pois, rapidas notas sobre o occorrido.
A estréante agradou. Não é elegante, já vae adeantada em annos, não é bonita figura sobre o animal, mas trabalha bem, com calma, embora estivesse com a natural emoção da estréa. O touro que lhe deram, o 3º, não era dos melhores. Peor que elle só o 2º. Clotilde entretanto fez a lide de modo a merecer applausos, collocando todos os quatro ferros á meia volta, o ultimo curto, o que provocou estrondosa e merecida ovação. É uma excellente acquisição esta que a empreza acaba de fazer. Assim o entendeu o publico, que a chamou ao redondel, applaudindo-a calorosamente, bem como a toda a cuadrilla.
As honras do dia couberam ao (Francisco) Simões Serra, o modesto e correcto cavalleiro. Excepção de um cochilo ao lidar o 1º touro, representado por um ferro mal cravado na espadua, todo o seu trabalho foi optimo, cravando bons ferros largos, e excellentes curtos, estes principalmente. Depois dos saudosos (Alfredo) Tinoco, Fernando de Oliveira e Albano Custodio, é o Serra, em nossa humilde opinião, o melhor cavalleiro que tem trabalhado em nossas praças. Sem reclamos, sem espalhafato, vae correctamente dando conta de seu recado.
Zé Bento (José Bento de Araujo) esteve infeliz. Montado em um bello cavallo negro, novo na praça, não conseguiu despertar o enthusiasmo que de outras vezes tem provocado. Falharam-lhe varios ferros.
Alexandre Vieira, Alfredo Santos e Canario comportaram-se magnificamente e mereceram os applausos recebidos. O segundo, depois de enxovalhado pelo touro, applicou cinco bons pares de ferros de castigo.
Segurita sempre na linha, applaudido e festejado.
Machaquito esteve sem sorte. Foi logo emborcado e volteado. Depois de desfeiteado tentou metter novos ferros, mas foi de novo colhido.
O intelligente, que póde entender de tudo menos daquilo, deu o signal para a péga, não reparando que o bicho estava sem o castigo sufficiente. O resultado foi que os forcados nada conseguiram, sendo o Russo e o Pouca Roupa violentamente volteados.
Pela corrida de hontem, se conclue que não faltam elementos para o successo da empreza: os touros são bons, a cuadrilla é magnifica. O que falta é direcção.
O Zé Bento (José Bento de Araujo) que tenha calma e applique os seus conhecimentos, que não são poucos.
Em resumo: a tourada de hontem foi boa, apesar de alguns senões.
Teve uma feliz estréa, excellentes lides, colhidas sem desastres a lamentar, enchente, enthusiasmo, sol, moscas e o Camarão, nos eternos protestos e nas calorosas reclamações.
Frascuelo
In O SECULO, Rio de Janeiro - 5 de Novembro de 1906



























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