Biblioteca nacional de Portugal
Revista tauromachica
A corrida de
domingo foi uma das melhores das que tem havido n’esta época. Era o beneficio
do distincto cavalleiro Manoel Mourisca, e não só por esse facto, mas tambem pelos
attractivos que se offereciam n’dsta tourada, não faltaram os amadores,
rnchendo-se a praça como poucas vezes. Chegou mesmo a retirar muita gente por
falta de logar.
Os touros pertenciam
ao sr. Motta Gaspar e eram irregulares: bravos, finos, outros velhacos e alguns
cobardes.
Além do cavalleiro beneficiado, que se apresentou trajando
á Marialva, tomaram tambem parte na
corrida José Monteiro, Antonio Monteiro e (José) Bento de Araujo.
(Manoel)
Mourisca farpeou com toda a arte 0 1.º touro, corpulento e de recarga. Enfeitou-o
com 8 ferros á meia volta, muito bem,
collocados todos. Pertenceu-lhe tambem o 7.º touro, leal, investindo bem; e
pôz-lhe 3 farpas á meia volta, e uma
a sesgo. Diligenciou enfeital-o com
um par de bandarilhas, a pedido dos espectadores, mas não o conseguiu, porque o
animal se negou. O cavalleiro foi muito applaudido.
O cavaleiro Manoel Mourisca
FOTO: Serões - Biblioteca nacional de Portugal (Tratada por IA)
José
Monteiro farpeou o 4.º touro, pondo lhe uma farpa á meia volta e 3 a sesgo.
Antonio Monteiro trabalhou muito
regularmente no 8.º touro, de poucas posses, mas dando bem. Enfeitou-o com 4
farpas á meia volta e 2 da sesgo, bem collocadas.
Coube a (José) Bento d’Araujo o 10.º
touro, um animal de sentido, entrincheirando-se sempre, e que só podia ser farpeado
com muita pericia e sangue frio. José Bento (de Araujo) mostrou o seu grande
arrojo e verdadeira aptidão. O partido que soube tirar d’aquelle animal tão
difficil para o toureio, affirma a sua habilidade. Era muito sabedor o touro, e
além d’isso de grande pé e muitas posses, e no entanto o cavalleiro enfeitou-o
com 3 ferros á meia volta, e 3 a sesgo muito bem postos, e mais um tambem a sesgo
n’uma sorte admiravelmente executada, e que tinha offerecido ao sr. visconde da
Graça. José Bento (de Araujo) teve uma ovação, muito merecida, sendo chamado
depois de recolhido o touro.
O 12.º
touro pertenceu aos cavalleiros José e Antonio Monteiro e José Bento (de
Araujo), sendo picado em selim raso. Era um animal corpulento, bem armado e de
sentido.
José
Monteiro esperou-o á gaiola e foi colhido. O animal era de muito pé e tomou-lhe
o terreno; era dever seu terminar a sorte de recurso, mas não o fez e o resultado foi apanhar o cavallo uma
grande pancada, sendo o cavalleiro cuspido do selim. N’este touro não conseguiu José Monteiro metter ferro algum. Antonio
Monteiro pôz 2 ferros á meia volta, e José Bento (de Araujo) 4 á meia volta e 3
a sesgo, em sortes arriscadas.
Os bandarilheiros que tomaram parte
na corrida foram Cadete, Roberto da Fonseca, Peixinhos, Canxinhas (Caixinhas!), Pontes, Sancho e Raphael.
Roberto e Peixinho
executaram alguns quarteios em touros
difficeis, com muita arte.
Pontes
trabalhou muito e com facilidade, mostrando se no entanto pouco certeiro na
collocação das bandarilhas. Mariou
alguns touros dextreza, (destreza!) mas
esse trabalho tantas vezes repetido é mareio
de mais; deve varial-o com algumas sortes de capa e de muleta.
O trabalho que
executou no 8.º touro valeu-lhe comtudo uma ovação e as honras da tarde; mariou o animal a ponto de lhe cortar
os cordeis da embelação deixando-o em hastes
nuas, e dando lhe em seguida alguns passes.
Sancho não
passou os touros destinados a pegas como devia; deitava-os muito fóra, sacando a capa pelo alto; a desculpa porém d’esse
defeito está em que precisava defender se, porque tem uma perna magnada, não
dispondo de toda a sua agilidade.
Em resumo: a corrida deixou satisfeitos os amadores; dos
cavalleiros distinguiram-se (Manoel) Mourisca e José Bento (de Araujo); dos
bandarilheiros, foi Pontes quem mais sobresaiu.
Fizeram-se
algumas pegas bem feitas.
(Manoel)
Mourisca foi muito applaudido no intervalloe brindado com ramos, charutos, e um
retrato.
No ultimo
touro, que não queria recolher-se ao
curro, foi colhido um dos rapazes que saltaram á praça. Cumpre á policia evitar
que se repitam d’esses factos, prendendo os infractores.
A direcção
da corrida foi regular.
In
DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa - 24 de Junho de 1879