“UM TESOURO NO DESERTO — O Algarve entre montes e memórias”
Agradeço a Isabel Daires, Mário Beja Santos e ao meu amigo Alfonso Armada, as palavras que teceram sobre o meu livro. Ignoro se há mais resenhas...
ISABEL DAIRES - "MIL FOLHAS"
"Um Tesouro no Deserto" - Rui Araújo
Tremelgo de Cima, Balurco de Baixo, Silgado, Deserto, Tesouro... são os nomes de alguns dos lugares percorridos por Rui Araújo, numa "excursão de moto, sem acompanhantes, sem destino e sem pressas", com a intenção de escutar memórias, testemunhos e silêncios das gentes esquecidas dos montes do Nordeste do Algarve. "Um Tesouro no Deserto": O Algarve entre Montes e Memórias" (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2025) é o registo dessa viagem, cumprindo plenamente o objectivo de dar voz a uma população envelhecioda, que se foi vendo cada vez mais só, entre a morte dos velhos conhecidos e a partida das massas para o litoral e para as urbes.
A impressão transmitida é a de um mundo no qual "tudo parece estar a desagregar-se". Apesar da rica descrição da vegetação, a canícula impera e faltam mãos para trabalhar nos campos que antes eram lavrados. As escolas encerraram, o acesso ao comércio e a outros serviços ficou cada vez mais distante, as poucas opções de vida reduziram-se ainda mais, e o futuro afigura-se sombrio. A maioria dos entrevisdtados cresceu pobre, tornou-se - quando muito - rtemediada, e vive numa solidaão reforçada pelo medo da bandidagem que se aproveita do isolamento. "Ignoramos quase tudo do viver e morrer destes homens e destas mulheres, dos seus sentimentos mais intensos, dos seus costumes e dos seus sonhos", escreve o autor. Não surpreende que as suas histórias de desalento mencionem com frequência a morte: por exemplo, o monte apropriadamente chamado Deserto - um "lugarejo perdido" onde o autor procura o casal de idosos "sós e tristonhos" que aí conhecera há una anos - ficou abandonado desde que os dois se finaram. Também num salto a Pescueza, "uma terriola da Estremadura espanhola", onde investiga um projecto que visa combater o despovoamento proporcionando "Uma vida mais digna e mais autónoma aos seus idosos", descobre que um velho poeta faleceu poucas semanas após o entrevistar. Porém, no meio da desolação, há quem se declare feliz e demonstre alegria de viver. E o presidente da Câmara de Alcoutim, o concelho "mais despovoado do Algarve e um dos mais pobres do país", tem ideias para reverter a situação.
Pelo caminho, Rui Araújo também descobre algo acerca de si próprio: "afinal, não é do campo nem do mar que eu gosto - é das pessoas". Trata-se de um facto que se nota na sua escrita, profundamente humanista, re4speitadora das diferencças de opinião e atenta a tudo quanto fica por dizer, na qual a reprodução dos diálogos é sabiamente cruzada com as descrições e as referências oportunas a escritores como Raul Brandão. Este livro é a sua sentida "homenagem aos camponeses da raia, que teimam em sobreviver onde a terra caba e nenhum mar começa...".
FONTE: https://deusmelivro.com/mil-folhas/um-tesouro-no-deserto-rui-araujo/
MÁRIO BEJA SANTOS - "MALOMIL" E "MAIS RIBATEJO"
14 de Maio de 2026
Os demónios da interioridade, as assimetrias que matam os sonhos dos homens.
Não há discurso político-partidário que não proclame a predisposição para pôr termo ás nossas interioridades, que não são poucas, estão prantadas na raia, até mesmo nas regiões ultraperiféricas, explicitam-se por fuga das gentes, falta de serviços, ausência de industrialização, esquecimento dos planificadores ou mesmo dos investidores, há ainterioridades nas beiras, na zona transmontana, em vastidões com aquela que vamos falar, pontos da serra algarvia, por ali se passa com um certo desfastio, às vezes com curioswidade, são itinerários obrigatórios para alcançar as paragens turísticas. No caso vertente do Barrocal Algarvio multiplicam-se os estudos, adivinham-se as potencialidades, sonha-se com desenvolvimento, espera-se pelo Encoberto. A Fundação Francisco Manuel dos Santos encomendou a um jornalista de alto coturno, Rui Araújo, que andasse por esses montes escalvados, o produto final que ele nos deus é uma reportagem assombrosa, chama-se Um Tesouro no Deserto, Retratos da Fundação, 2025. O autor começa por nos dizer ao que vem:
"A intenção é emprestar voz a esta gente esquecida dos montes do Nordeste do Algarve. Escutar as suas memórias. Os testemunhos. Os silêncios. Pintar nestas páginas a terra e as gentes." Rui Araújo é um andarilho com muitas provas dadas, sabe perguntar, sabe contextualizar, ora vejam:
"DESERTO. Foi ontem! As placas indicam Alcoutim, IC27 e Deserto. Opto por Deserto, o nome atrai-me. Deve ser um lugar diferente. Dou com idosos sentados diante de uma casa sem janelas, o que dá para imaginar o que a vista custa. Primeiro encontro. E, irremediavelmente, as primeias descrenças.
- Ah, tenho saudades, que a gente saía e via gente por aí todos, o mesmo que a gente. E, agora, uma pessoa sai e não vê ninguém... - diz-me dona Adelina.
A solidão imposta é sentida como um calvário. Diz-se, diz-se. E é capaz de ser memo assim. Ela veste blusa e avental azuis. Ele está de chapéi negro sobre os olhos e de camisa cor de burro quando foge. Daqueles pares de olhos, apesar dos óculos graduados, irradia tristeza, apenas tristeza."
A conversa mete muito desalento, quase que se ouvem os espetros, há memórias dos tempos com trabalho, a apanha da amêndoa e do figo. O jornalista volta ao local, veio de moto, contempla um furjal, nome que alguns algarvios dão aos terrenos vedados por árvores de sequeiro. Ainda na década de 1990 as terras eram todas cultivadas, havia trigo, aveia, centeio, azinheiras e muito mais. Agora as ruelas estão desertas. O jorbalista segue para Balurco de Baixo, mete conversa com Francisco José Cavaco Gonçalves, foi lavrador e trabalhou na Câmara de Alcoutim, a população é de velhos, mesmo os estrangeiros que por ali habitam. É tudo uma questão dos censos, em cerca de sessenta anos há quase dez vezes menos pessoas a trabalhar no campo e nem a pesca escapou à desgraça. Em Alcoutim já só resta um pescador. Nova localidade, o nome é Soudes, conversa com Agostinho Mestre Pereira, conta a sua vida, até a vida sentimental lhe foi madrasta. Mas não se esquece de dizer que antigamente se vivia pior. Pobre é uma palavra recorrente, não foram esquecidas as lembranças da vida frugal, "os brinquedos que et tive eram uma roda de cortiça redonda metida numa câmara-de-ar e correndo atrás daquilo."
Estamos no Torneiro. "Ao cabdo de uma ternidade, aparece diante da moradia branca uma idosa que me mede de alto a baixo. Digo-lhe, só para me dar ares de erudito, que estou a escrever um livro sobre a memória dos montes do Algarve. Dona Maria Dias Gomes Afonso manda-me entrar com um sorriso largo e bonacheirão." Vai recordar a sua infância, lembra as festas, a vida difícil, comia-se o que a gente colhia, agora nada se semeia e não há pessoas, diz que é uma mulher feliz.
Rui Araújo preparou-se a sério para esta digressão. Estamos agora na Bemposta, invoca-se a documentação atinente, temos mais conversa, desta vez com o senhor Domingos, nova expressão de desalento. "Se este monte tinha trinta e tal pessoas e hoje só há um. E vocês vão a esses montes que há por aí, passa igual. Em todo o concelho. As pessoas que viviam nesta serra todas viviam do campo. Estes campos que a gente vê aí cheios de mato não se via um pé de mato nem erva daninha. (...) E quando eu abalar daqui isto é capaz de acabar. As pessoas todas abalaram daqui. Toda a minha família. Nós éramos dez, só temos já cinco. Já morreram outros cinco. Éramos só dois machos. Um morreu na Guiné, em 1967."
É reportagem radioscópica, vai-se por Ourique, depois Pereiro, Tremelgo de Cima, na Serra do Caldeirão, mais adiante pinhal, à frente Marim, passa-se para Silgado, que é o primeiro nome do planalto do Pereirão, inflete-se para Pescueza, Convém aqui uma detença. Estamos na província de Cáceres, é uma vila rústica do século XV que tem uma particularidade de os velhos não estarem em lares, vivem nas casas onde ergueram telhados, mas não se façam juizos muito coloridos, pode correr o risco de desaparecer se não for invertida a dinâmica populacional. O jornalista foi ver o projeto onde se pretende quebrar a solidão e dar a gente na idade maior um astro de dignidade.
E temos agora o regresso a Alcoutim, lembra-se o contrabando e os contrabandistas, de lá para cá levava-se o café. A conversa de Rui Araújo com Paulo Paulino, o Presidente da Autarquia é de ler om maior atenção: "Somos o concelho do país com menor densidade populacional. O tamanho médio da propriedade é muito pequeno. Não existe dimensão para que as explorações sejam autossuficientes. "Solução que propõe: o emparcelamento. Refere ao entrevistador que há potencial na região, logo o rio Guadiana, faltam marinas pnde pudessem chegar veleiros, ao potencial turístico, as florestas e a área pastoril.
Se se começou no Deserto estamos agora no Tesouro, em fim de viagem, serra do Caldeirão, uma conversa luminosa com a professora Babi, octogen´ria, a não perder. De modo que tem todo o sentido a despedida que Rui Araújo nos faz: "Parti à procura do Deserto e descobri um inestimável Tesouro nos confins de Portugal. É das pessoas de carne e osso que gosto. O resto é paisagem. Só paisagem."
Uma belíssima incursão por um desses dolorosos recantos das nossas interioridades.
Mário Beja Santos
FONTE:
https://maisribatejo.pt/interioridade-portugal-assimetrias-alcoutim-rui-araujo/
ALFONSO
ARMADA — “REVISTA CULTURAL TURIA” (Teruel)
Número 159
Acabo com as bonitas palavras que o meu amigo (repórter, poeta e docente), Alfonso Armada, escreveu sobre o meu livro... Moitas grazas!
Por qué Lídia Jorge tiene la oreja cosida a la tierra del
Algarve
(...)
Como
complemento vitamínico a O dia dos prodígios (minuciosamente traducido
por Antonio Sáez Delgado), que invito encarecidamente a leer, como todo lo de
Lídia Jorge, me gustaría recomendar Um tesouro no deserto. O Algarve entre
montes e memórias, de Rui Araújo, publicado por la Fundación Francisco
Manuel dos Santos. Extraordinario periodista con quien trabé amistad eterna
durante el genocidio de Ruanda, Araújo mira el mundo con la curiosidad, el
respeto y la humanidad de John Berger, llama a las puertas de las casas y
entabla conversaciones que se entrelazan con la novela de Lídia Jorge como las
raíces de los pinos que sostienen los taludes de arena que socavan los ríos y
las de los magnolios que se burlan de la geopolítica cruzando fronteras por
debajo del radar de los aduaneros. Portugal es un vivero que no podemos dejar
de atender, como meritoriamente se esmera en hacer la editorial La Umbría y la
Solana.
—ALFONSO
ARMADA.
En «Por qué Lídia Jorge tiene la oreja cosida a
la tierra del Algarve», de Alfonso Armada, Revista Cultural Turia,
Instituto de Estudios Turolenses, Teruel, 2026.
— Lídia Jorge,
El día de los prodigios, traducción de Antonio Sáez Delgado, Madrid,
La Umbría y la Solana,
2025.
— Rui
Araújo, Um Tesouro no Deserto — O Algarve
entre montes e memórias, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos
(FFMS) - Colecção Retratos, 2025 - ISBN 978-989-9243-34-7
FONTE:
https://www.ieturolenses.org/revista_turia/index.php/revista-cultural-turia-numero-159.html

































