6 DE ABRIL DE 1903 - LISBOA: CORRIDAS DE TOUROS E "JORNALISMO" POLITICAMENTE CORRECTO...

 


Arquivo TROVE
https://trove.nla.gov.au/

TELEGRAMS.

            King Edward VII, of England, who is on a visit to King Carlos, of Portugal, witnessed a bull fight in Lisbon.

            King Edward will arrive in Paris on May 2n , and President Loubet will return  the visit in the autumn.

            It has transpired that the tournament King Edward visited was a purely spectacular display of gymnastics and skill in evading the bulls, which were turned into the arena with blunted horns.

(NOTA: A corrida de touros passou a ser, portanto, um mero espectáculo de ginástica acrobática com os toureiros a fugirem dos bichos embolados. O rei Eduardo VII era o «patrono real» da Sociedade Protectora dos Animais da Inglaterra - RSPCA. É uma explicação para a deturpação dos factos...)

In THE MACKAY MERCURY, Brisbane (Austrália) – 11 de Abril de 1903

1 DE MARÇO DE 1762 - SALVATERRA DE MAGOS: A ÚLTIMA CORRIDA COM TOUROS DE MORTE...

 


Biblioteca nacional de Portugal

Ultima corrida de touros em Salvaterra

            O Senhor D. José, primeiro do nome, era em Salvaterra um rei em férias. A verdade é que os maldizentes notavam, em segredo, que Sua Magestade em Lisboa estava sempre ao throno. O proloquio fundava se na habilidade mechanica do monarcha como torneiro, e no caracter dominador do marquez  como ministro.

            Vicejavam os campos em plena primavera. A amendoeira cobria-se de flôres, os bosques enfolhavam se, as veigas vestiam se e matizavam se, e a brisa doudejava indiscreta arregaçando o lenço á donzella que passava, ou roubando um beijo á rosa perfumada. Tudo eram alegrias e canticos... os rouxinoes nas moutas, o coração nos amortes, e a natureza nos sorrisos ao sol esplentido que a dourava.

            Uma tourada real chamára a côrte a Salvaterra. Os fidalgos respiravam n’estas occasiões menos opprimidos. Não os assombtava tão de perto a privança do ministro. Os touros eram bravos, os cavalleiros destros, o amphitheatro pomposo, e o cortejo das damas adoravel. O prazer ria na bocca de todos. Por cumulo de venturas o marquez de Pombal ficára em Lisboa, retido pelo conflicto com o embaixador de Hespanha.

            Contava-se em segredo nos recantos do palacio o dialogo travado entre o enviado castelhano e o secretario de estado portuguez, louvando-o uns em alta voz, para os ecos d’aquellas paredes repetirem o elogio, crucificando-o outros sem piedade, para saciarem os odios. As devotas e os fidalgos puritanos eram pelo hespanhol, e pediam a Deus que os rebates da guerra proxima despenhassem o plebeu nobilitado. Os magistrados e os homens de capa e volta defendiam o marquez e respondiam com meios sorrisos ás fogosas jaculatorias dos zelosos do throno e do altar. O marquez tinha se negado com firmeza ás concessões exigidas imperiosamente pelo governo castelhano.

            — Muito bem, atalhou o embaixador, um exercito de sessenta mil homens entrará em Portugal e fará...

            — O quê? Perguntára o marquez sorrindo se, com a tremenda luneta assestada e no tom mais indifferente.

            — Fará entender a rasão e a justiça de el-rei, meu amo, a Sua Magestade e a vossa excellencia! redarguiu meia oitava acima o hespanhol, suppondo o ministro fulminado.

            Sebastião José de Carvalho franziu as sobrancelhas, carregou a viseira, e cravando a vista e a luneta no diplomata, retorquiu lhe friamente:

            — Sessenta mil homens muita gente é para casa tão pequena; mas, querendo Deus, el-rei, meu amo e senhor, sempre hade achar onde possa hospedal-a. Mais pequena era Aljubarrota e lá couberam os que D. João de Castella trouxe. Vossa excellencia póde responder isto ao seu governo.

            E, levanrando se para despedir o embaixador, accrescentou:

            — Bem sabe vossa excellencia que póde tanto cada um em sua casa, que mesmo depois de morto são precisos quatro homens para o tirarem!

            O embaixador saíu jurando por Dios y la Virgen Santísima e o marquez preparou-se para a guerra. O caso é, como dizia o nosso Zeferino na Sobrinha do Marquez, que Sebastião José de Carvalho foi um grande ministro e que fez muito pela nação. Hoje ha menos quem responda assim á lettra ás ameaças dos estrangeiros. Berra-se muito, dorme-se a somno solto ao som dos hymnos patrioticos, e depois salva o castello de madrugada e está salva a patria.

            O marquez de Pombal presava as artes e protegia e animava as classes medias. Esse pouco que o reino progrediu deveu-se a elle. Se a industria nunca acabou de sair da infancia, a culpa quasi toda foi dos maus governos que succederam ao seu, e tambem do povo que não quiz trabalgar deveras... Mas vamos aos touros reaes. D’esses é que o ministro não gostava nada. Queria-os ao arado e não á farpa, e parecia-lhe melhor, que os toureadores, sendo fidalgos, servissem o Estado com a penna ou com a espada, e, sendo mechanicos, que lavrassem, tecessem  e ganhassem honradamente a vida, enriquecendo-se a si e á nação.

            Mas el-rei D. José, cedendo em tudo ao marquez, quanto so touros não admittia reflexões. N’isto era rei a valer e Bragança legitimo. Os fidalgos sabiam-n’o e por isso disfructavam dôces prazeres — a satisfação do gosto nacional, e a contradicção da vontade do ministro. Desattendel-a sem perigo e pela mão do soberano era para elles um deleite e um triumpho.

            N’estas funcções não vigorava a severidade das ultimas pragmaticas. Outro motivo de jubilo. Quem queria podia arruinar-se em luxuosos vestidos, enfeites e toucados. As bordaduras e os recamos de ouro, os velludos e sedas de fóra, talhados á franceza, resplandeciam constellados de perolas e diamantes. Por cima dos mais ricos trajos e das mais vistosas córes desenrolavam-se os anneis ondeados das empoadas cabelleiras. As damas ostentavam as graças de seus dionaires e tufados, e emmoldurando o bello oval dos rostos nos penteados caprichosos, sorriam-se para os gentis capeadores, e seus olhos cheios de luz e de promessas estimulavam até os timidos.

            Correram-se as cortinas da tribuna real. Rompem as musicas. Chegou el-rei, e logo depois entra pelos camarotes o vistoso cortejo, e vê-s ondear um oceano de cabeças e de plumas. Na praça resoam brava alegria as trombetas, as charamellas e os timbales. Apparecem os cavalleiros, fidalgos distinctos todos, com o couto das lanças nos estribos e os brazões bordados no velludo das gualdrapas dos cavallos. As plumas dos chapeus debruçam-se em matizados cocares, e as espadas em bainhas lavradas pendem de soberbos talins.

            Os capinhas e forcados vestem com garbo á castelhana antiga. No semblante de todos brilha o ardor e o enthusiasmo.

            O conde dos Arcos, entre os cavalleiros, era quem dava mais na vista. O seu trajo, cortado á moda da côrte de Luiz XV, de velludo preto, fazia realçar a elegancia do corpo. Na golla da capa e no corpete sobresahiam as finas rendas da gravata e dos punhos. Nos joelhos as ligas bordadas deixavam escapar com artificio os tufos de cambraieta alvissima. O conde não excedia a estatura ordinaria; mas, esbelto e proporcionado, todos os seus movimentos eram graciosos. As faces eram talvez pallidas de mais, porém animadas de grande expressão, e o fulgor das pupillas negras fuzilava tão vivo e por vezes tão recobrado, que se tornava irresistivel. Filho do marquez de Marialva, e discipulo querido de seu pae, do melhor cavalleiro de Portugal, e talvez da Europa, a cavallo, a nobreza e a naturalidade do seu porte enlevavam os olhos. Elle e o corsel, como que ajustados em uma só peça, realizavam a imagem do centauro antigo.

            A bizarria com que percorreu a praça, domando sem esforço o fogoso corcel, arrancou prolongados e repetidos applausos. Na terceira volta, obrigando o cavallo quasi a ajoelhar-se deante de um camarote, fez que uma dama escondesse turvada no lenço as rosas vivissimas do rosto, que de certo descobririam o melindroso segredo da sua alma, se em momentos rapidos como o faiscar do relampago pudesse alguem adivinhar o que só dois sabiam.

            El-rei, quando o mancebo o cumprimentou pela ultima vez, sorriu-se, e disse voltando se:

            — Por que virá o conde quasi de lucto á festa?

            Principiou o combate.

            Não é proposito nosso descrevermos uma corrida de touros. Todos teem assistido a ellas e sabem de memoria o que o espectaculo offerece de notavel. Diremos só que a raça dos bois era apurada, e que os touros se corriam desembolados, á hespanhola. Nada diminuia, portanto, as probabilidades do perigo e a poesia da lucta.

            Tinham-se picado alguns bois. Abriu-se de novo a porta do curro, e um touro preto investiu com a praça. Era um verdadeiro boi de circo. Armas compridas e reviradas nas pontas, pernas delgadas e nervosas, indicio de grande ligeireza, e movimentos rapidos e bruscos, signal de força prodigiosa. Apenas tocára o centro da praça, estacou como deslumbrado, saccudiu a fronte e, escarvando a terra impaciente, soltou um mugido feroz no meio do silencio, que succedêra ás palmas e gritos dos espectadores. Dentro em pouco os capinhas, salvando (saltando ?) a pulos as trincheiras, fugiam á velocidade espantosa do animal, e dois, ou tres, cavallos expirantes, denunciavam a sua furia.

            Nenhum dos cavalleiros se atreveu a sahir contra elle. Fez se uma pausa. O touro pisava a arena ameaçador e parecia desafiar em vão um contendor. De repente viu-se o conde dos Arcos firme na sella provocar o impeto da féra e a hastea flexivel do rojão ranger e estalar, embebendo o ferro no pescoço musculoso do boi. Um rugido tremendo, uma acclamação immensa do amphitheatro inteiro, e as vozes triumphaes das trombetas e charamellas encerraram esta sorte brilhante. Quando o nobre mancebo passou a galope por baixo do camarote, deante do qual pouco antes fizera ajoelhar o cavallo, a mão alva e breve de uma dama deixou cahir uma rosa, e o conde curvando-se com donaire sobre os arções, apanhou a flôr do chão sem afrouxar a carreira, levou-a aos labios, e metteu-a no peito. Investindo depois com o touro, tornado immovel com a raiva concentrada, rodeou-o estreitando em volta d’elle os circulos até chegar quasi a pôr-lhe a mão na anca.

            O mancebo desprezava o perigo e pago até da morte pelos sorrisos, que seus olhos furtavam de longe, levou o arrojo a arripiar a testa do touro com a ponta da lança. Precipitou-se então a animal com furia cega e irresistivel. O cavallo baqueou traspassado, e o cavalleiro, ferido na perna, não pôde levantar-se. Voltando sobre elle o boi enraivecido arremessou-o aos ares, esperou lhe a queda nas armas, e não se arredou senão quando, assentando-lhe as patas sobre o peito, conheceu que o seu inimigo era um cadaver.

            Este doloroso lance occorreu com a velocidade do raio. Estava já consummada a tragedia e não havia expirado ainda o echo dos ultimos applausos.

            De repente um silencio, em que se conglobavam milhares de agonias, emmudeceu o circo. Rei, vassallos e damas, meio corpo fóra dos camarotes, fitavam a praça sem respirar e erguiam logo depois a vista ao ceu como para seguir a alma, que para lá voava envolta em sangue.

            Quando o mancebo, dobrado no ar, exhalava a vida antes de tocar o chão, um gemido agudo, composto de soluços e choro, cahiu sobre o cadaver como uma lagrima de fogo. Uma dama desmaiada nos braços de outras senhoras soltára aquelle grito estridente, derradeiro ai do coração ao rebentar no peito.

            El-rei D. José, com as mãos no rosto, parecia petrificado.

            A côrte d’esta vez acompanhava o sinceramente na sua dôr.

            Mas o drama ainda não tinha concluido. Quem sabe?! O terror e a piedade iam cortar de novas maguas o peito a todos.

            O marquez de Marialva assistira a tudo do seu logar. Revendo se na gentileza do filho, seus olhos seguiam-lhe os movimentos brilhando radiosos a cada sorte feliz. Logo que entrou o touro preto, carregou-se de de uma nuvem o semblante do ancião. Quando o conde dos Arcos sahiu a farpea o, as feições do pae contrahiram-se e a sua vista não se despregou da arriscada lucta.

            De reptente o velho soltou um grito suffocado e cobriu os olhos, apertando depois as mãos na cabeça. Os seus receios haviam se realizado. Cavallo e cavalleiro rolavam na arena, e a esperança pendia de um fio tenue! Cortou lh’o rapidamente a morte, e o marquez, perdido o filho, luz da sua alma e ufania de suas cãs, não proferiu uma palavra, não derramou uma lagrima; mas os joelhos fugiam lhe trtemulos, e a elevada estatura inclinou se vergando ao peso da magua excruciante.

            Voleu, porém, em si, decorridos momentos. A livida pallidez do rosto tingiu-se de vermelhidão febril subitamente. Os cabellos desgrenhados e hirtos revolveram-se na fronte inundada de suor frio como as sedas da juba de um leão irritado. Nos olhos amortecidos faiscou instantaneo, mas terrivel, o sombrio clarão de uma colera, em que todas as ancias insoffridas da vingança se accumulavam.

            Em um impeto a presença reassumiu as proporções magestosas e erectas como se lhe corresse nas veias o sangue do mancebo que perdêra. Levando por acto instinctivo a mão ao lado, para arrancar da espada, meneou tristemente a cabeça.

            A sua boa espada, cingira-a elle proprio ao filho n’este dia que se convertêra para sua casa em dia de eterno lucto!

            Sem querer ouvir nada, desceu os degraus do amphitheatro, seguro e resoluto como se as neves de setenta annos lhe não branqueassem a cabeça.

            — Sua magestade ordena ao marquz de Marialva, que aguarde as suas ordens! Disse um camarista detendo o pelo braço.

            O velho fidalgo estremeceu como se accordasse sobresaltado, e cravou no interlocutor os olhos desvairados, em que reluzia o fulgor concentrado d’um pensamento immutavel. Desviando depois a mão, que o suspendia, baixou mais dois degraus.

            — Sua magestade entende que este dia foi já bastante desgraçado e não quer perder n’elle dois vassallos... O marquez desobedece ás ordens de el-rei?!...

            — El rei manda nos vivos e eu vou morrer! Atalhou o ancião em voz aspera, mas sumida. Aquelle é o corpo de meu filho, e apontava para o cadaver. Está alli! Sua magestade póde tudo menos desarmar o braço do pae, menos deshonrar os cabellos brancos do creado que o serve ha tantos annos. Deixe me passar, e diga isto.

            D. José vira o marquez levantar-se e percebêra a sua resolução. Amava no estribeiro as virtudes e a lealdade nunca desmentidas. Sabia que da sua bocca não ouvira senão a verdade, e a ideia de o perder assim era lhe insupportavel. Apenas lhe constou que elle não accedia á sua vontade, fez-se branco, cerrou os dentes convulso, e, debruçado para fóra da tribunqa, aguardou em ancioso silencio o desfecho da catastrophe.

            A esse tempo já o marquez pisava a praça, firme e intrepido como os antigos romanos deante da morte.

            Dentro do peito o seu coração chorava, mas os olhos aridos queimavam as lagrimas quando subiam a rebentar por elles. Primeiro do que tudo queria a vingança.

            Por impulso instantaneo, todo o ajuntamento se poz de pé. Os semblantes consternados e os olhos arrazados de agua, exprimiam aquella dolorosa contensão de espirito, em que um sentido parece concentrar todos.

            Deixae-o ir ao velho fidalgo! A magoa que o traspassa, não tem egual. O fogo, que lhe presta vida e forças, é a desesperação. Deixae-o ir, e de joelhos! Saudae a mgestade do infortunio!

            O pae angustiado ajoelhou junto do corpo do filho e pousou-lhe depois um osculo na fronte. Desabrochou lhe depois o talim e cingiu-o, levantantou-lhe do chão a espada e correu-lhe a vista pelo fio e pela ponta de dois gumes. Passou depois a capa no braço e cobriu se. Decorridos instantes estava no meio da praça e devorava o touro com a vista chammejante, provocando-o psts o combate.

            Cortado de commoções tão crueis, não lhe tremia o braço e os pés arraigavam-se na arena como se um poder occulto e superior lh’os tivesse ligado repentinamente á terra.

            Fez-se no circo um silencio gelido, tremendo e tão profundo, que poderiam ouvir-se até as pulsações do coração do marquez, se n’aquella alma de bronze o coração valesse mais do que a vontade.

            O touro arremette contra elle... Uma e muitas vezes o investe cego e irado, mas a destreza do marquez esquiva sempre a pancada.

            Os ilhaes da féra arfam de fadiga, a espuma franja-lhe a bocca, as pernas vergam e resvalam, e os olhos amortecem de cansaço. O ancião zomba da sua furia. Calculando as distancias, frustra lhe todos os golpes sem recuar um passo.

            O combate demora se.

            A vida dos espectadores resume-se nos olhos.

            Nenhum ousa desviar a vista de acima da praça.

            A immensidade da catastrophe immobiliza todos.

            De subito solta el-rei um grito e recolhe-se para dentro da tribuna. O velho aparava a peito descoberto a marrada do touro, e quasi todos ajoelharam para resarem por alma do ultimo marquez de Marialva.

            A afflictiva pausa apenas durou momentos. Por entre as nevoas, de que a pupila tremula se embaciava, viu se o homem crescer para a féra, a espada fuzilar nos ares e logo após sumir-se até aos copos entre a nuca do animal.

            Um bramido, que atroou o circo, e o baque do corpo agigantado na arena, encerraram o extremo acto do funesto drama.

            Clamores unisonos saudaram a victoria. O marquez, que tinha dobrado o joelho com a força do golpe, levantava-se mais branco do que um cadaver. Sem fazer caso dos que o rodeavam, tornou a abraçar o corpo do filho, banhando-o de lagrimas e cobrindo o de beijos.

            O touro ergueu se, e cambaleando com a sezão da morte, veiu apalpar o sitio onde queria expirar. Ajuntou alli os membros e deixou se cahir sem vida ao lado do cavallo do conde dos Arcos.

            N’esse momento os espectadores olhando para a tribuna real estremeceram. El rei, de pé e muito pallido, tinha junto de si o marquez de Pombal, coberto de pó e com signaes de ter viajado depressa.

            Sebastião José de Carvalho voltava de proposito as costas á praça falando com o momarcha. Punia assim a barbaridade do circo.

            — Temos guerra com a Hespanha, senhor. É inevitavel. Vossa magestade não póde consentir queos touros lhe matem o tempo e os vassallos. Se continuassemos n’este caminho... cedo iria Portugal á vela.

            — Foi a ultima corrida, marquez. A morte do conde dos Arcos acabou os touros reaes emquanto eu reinar.

            — Assim o espero da sabedoria de vossa magestade. Não ha tanta gente nos seus reinos, que possa dar se um homem por um touro. El-rei consente que vá em seu nome consolar o marquez de Marialva?

            — Vá! É pae. Sabe o que hede dizer-lhe...

            — O mesmo que elle me diria a mim, se Henrique estivesse como está o conde.

            El-rei sahiu da tribuna, e o marquez de Pombal, entrando na praça em toda a magestade da sua elevada estatura, levantou nos braços o velho fidalgo, dizendo-lhe com voz meiga e triste:

            — Senhor marquez! Os portuguezes como vossa excellencia, são para darem exemplos de grandeza d’alma e não para os receberem. Tinha um filho e Deus levou-lh’o. Altos juizos seus! A Hespanha declara nos a guerra e el-rei, meu amo e meu senhor, precisa do conselho e da espada de vossa excellencia.

            E travando lhe a mão, levou-o quasi nos braços até o metterem na carruagem.

D. José I cumpriu a palavra dada ao seu ministro. No seu reinado nunca mais se picaram touros reaes em Salvaterra.

REBELLO DA SILVA.

In O OCCIDENTE, Lisboa – 10 de Maio de 1909


6 DE ABRIL DE 1903 – LISBOA: A FARSA QUE SÃO AS CORRIDAS DE TOUROS EM PORTUGAL TEM A PREFERÊNCIA DOS AUSTRALIANOS...

 

ARQUIVO TROVE

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A CONTRAST.

            A passage in our telegraphic news to-day reads curiously in contrast with certain incidents of public interest in New South Wales. King Edward VII is about to visit the King of Italy. On his way he will put in at Lisbon. Preparations are being made in the Portuguese capital to entertain the King of Great and Greater Britain at a review, a regatta, and a bull-fight! By all accounts, Portuguese bull-fights are not quite such sanguinary affairs as those of Spain, but even then they can be hardly more edifying spectacles than the dog-fight, which in country towns of Australia often agreeably relieves the monotony of public meetings, and of court proceedings. Anyway, there is a sharp contrast between the entertainment of King Edward at a bull-fight and the announcement of Sir John See, Premier of New South Wales, that he is the man to put down “glove contests.” They evidently manage these things differently in Portugal.


In EVENING NEWS, Sydney (Austrália) – 9 de Março de 1903

6 DE ABRIL DE 1903 – LISBOA: UMA CORRIDA DE TOUROS FALADA NA AUSTRÁLIA...


 

ARQUIVO TROVE

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The King’s Tour.

THE KING IN PORTUGAL.

HE ATTENDS A BULL-FIGHT.

LONDON, April 7.

            His Majesty King Edward VII, who is at present on a visit to Portugal, yesterday witnessed a magnificent bull tournament, which had been specially organised in his honour.

            A rearrangement has been made in His Majesty’s itinerary, and will not now reach Paris till the 2nd of next month.

            It is expected that President Loubet will return the visit by coming to London in the autumn.

LONDON, April 8.

            The King’s departure from Lisbon was marked with the same enthusiasm as greeted his arrival.

In THE WAGGA WAGGA ADVERTISER, Wagga Wagga (Austrália) – 9 de Abril de 1903

11 DE JULHO DE 1909 - LISBOA : CORRIDA COM 2 ESPADAS DE ESPANHA E 3 CAVALEIROS DE PORTUGAL

 
Biblioteca nacional de Portugal

Touros

            Na corrida de hoje no Campo Pequeno em festa da empreza Baptista & Lacerda o programma é o seguinte:

Praça do Campo Pequeno
FOTO: Arquivo da CML

            1.º touro para José Bento de Araujo, 2.º Theodoro Gonçalves e Jorge Cadete, 3.º lide á hespanhola, 4.º Eduardo Macedo, 5º «Saleri» e «Mazzantinito», 6.º Morgado de Covas, 7.º «Mazzantinito» e «Saleri», 8.º Manuel dos Santos e José Moyano, 9.º lide á hespanhola, 10.º Jorge Cadete e Alfredo dos Santos.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 11 de Julho de 1909

MAIS INFORMAÇÃO

https://corridasportugalespanafrance.blogspot.com/2026/02/11-de-julho-de-1909-lisboa-corrida-com.html

https://corridasportugalespanafrance.blogspot.com/2025/06/11-de-julho-de-1909-lisboa-corrida-com.html

11 DE JULHO DE 1909 - LISBOA : CORRIDA COM 2 ESPADAS DE ESPANHA E 3 CAVALEIROS DE PORTUGAL

 
Biblioteca nacional de Portugal

Touros

            Já estão encerrados na praça do Campo Pequeno os 10 touros que serão lidados na corrida d’amanhã, festa da empreza Baptista & Lacerda.

            Quatro d’elles pertencem ao sr. Emilio Infante da Camara e são do mais bonito que se encontra na reputada «ganaderia» de Valle de Figueira. Dois foram comprados ao sr. Luiz Patricio e são d’aquelles que costumam ir a Hespanha para as corridas formaes. Estes estão destinados ás varas e são formosissimos. Outros dois são da afamada «vaccada» do sr. Marquez de Castello Melhor, da quinta do Campo, e finalmente, ha outros dois do sr. D. Caetano de Bragança (Lafões).

            Figuram no cartaz nomes tão festejados como os do José Bento (de Araújo), Eduardo Macedo, Morgado de Covas, «Saleri», «Bombita III», Moyano, Theodoro, Cadete, Manuel e Alfredo dos Santos, os «hermanos» Chaves, dois grupos de forcados.

            Hoje deve chegar a Lisboa o distincto «sportman» sr. Victorino Froes, que assumirá a direcção da corrida.


In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 10 de Julho de 1909

6 DE ABRIL DE 1903 - LISBOA: UMA CORRIDA PARA AUSTRALIANO VER...


Arquivo TROVE, Sidney - Austrália.
https://trove.nla.gov.au/

SUMMARY.

            The Lisbon bull-fight at which King Edward was present was purely a display of skill in evading the bull's blunted horns.

(NOTA: A corrida de touros passou a ser, portanto, um mero espectáculo de ginástica e de acrobacia com os toureiros a fugirem dos bichos embolados. O rei Eduardo VII era o «patrono real» da Sociedade Protectora dos Animais da Inglaterra - RSPCA. É uma explicação para a deturpação dos factos...)

In THE DAILY TELEGRAPH, Sydney (Austrália) - 9 de Abril de 1903

15 DE JULHO DE 1909 – LISBOA: A PRIMEIRA CORRIDA NOCTURNA COM «DIESTROS» DE ESPANHA E O CAVALEIRO JOSÉ BENTO DE ARAÚJO

 
Biblioteca nacional de Portugal

A primeira corrida nocturna

            Realisa-se effectivamente na proxima quinta-feira, 15 do corrente, a inauguração das corridas nocturnas na praça do Campo Pequeno, a que a empreza Baptista & Lacerda deseja imprimir o maior esplendor.

            O programma está organisado de modo que a primeira corrida deixe no publico uma boa impressão e o desejo de voltar ao Campo Pequeno em todas as noites de corrida.

            Estão contractados os famosos «diestros» irmãos Regaterín, que são toureiros de grande cartel em Hespanha.

            Os touros pertencem aos afamados «ganaderos» srs. Robertos, de Salvaterra, e estão apartados desde o começo da temporada para a inauguração das corridas nocturnas.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 13 de Julho de 1909

15 DE JULHO DE 1909 – LISBOA: INAUGURAÇÃO DAS CORRIDAS NOCTURNAS NA PRAÇA DO CAMPO PEQUENO

 
Biblioteca nacional de Portugal

Touros

            — A 1.ª corrida nocturna, no Campo Pequeno, realisa-se a 15 de julho. A praça será brilhantemente illuminada, devendo produzir um magnifico aspecto.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 3 de Julho de 1909

«Praça do Campo Pequeno  - Bilheteira»
FOTO: Arquivo municipal de Lisboa

MAIS INFORMAÇÃO:

https://corridasportugalespanafrance.blogspot.com/2020/09/15-de-julho-de-1909-inauguracao-das.html

6 DE ABRIL DE 1903 – LISBOA: A CORRIDA EM HONRA DE EDUARDO VII


Biblioteca nacional de Portugal

VISITA DE EDUARDO VII A PORTUGAL

A TOURADA

            A praça foi vistosamente decorada para a corrida em honra de Eduardo VII e quanto á lide raras vezes se tem dado que fosse tão completa não só devido á bravura dos animaes como pelo arrojado trabalho dos artistas que n’ella tomaram parte.

«TOIRADA NA PRAÇA DO CAMPO PEQUENO — AS CORTEZIAS».
FOTO: Arnaldo da Fonseca

             Constituiu um dos seus mais bellos attractivos o apparato com que a cerimonia das cortezias foi revestida, que nos transportou ás epocas em que estes espectaculos tinham toda a grandeza e esplendor de tempos mais aureos.

O rei Eduardo VII

In OCCIDENTE, Lisboa – 20 de Abril de 1903

29 DE AGOSTO DE 1909 – MONTEMOR-O-NOVO: ABERTURA DO RAMAL DO CAMINHO-DE-FERRO E INAUGURAÇÃO DA NOVA PRAÇA DE TOUROS COM CARTEL DE LUXO

 

Biblioteca nacional de Portugal

Touros

            Ha grande enthusiasmo em Montemór o Novo pela abertura do ramal do caminho de ferro, e inauguração da nova praça de touros que os importantes proprietarios srs. Francisco Malta e Francisco Romisco mandaram construir. A primeira corrida é no próximo domingo com um magnifico programma, no qual tomará parte o arrojado cavalleiro José Bento d’Araujo e os nossos melhores bandarilheiros, entre elles Theodoro Gonçalves e Jorge Cadete.

            O risco da praça é do conhecido architecto sr. José Pedro Felgueiras,

            Por essa occasião preparam-se alli grandes festejos.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 27 de Agosto de 1909

NOTA

        A inauguração do caminho-de-ferro de Montemor-o-Novo, que ligava aquela vila à estação mais próxima, só acabou por ocorrer no dia 2 de Setembro de 1909.

A estação terminal, em Montemor-o-Novo, do ramal do caminho-de-ferro do Sul e Sueste há pouco inaugurada.
FOTO: Illustração Portugueza, Lisboa - Hemeroteca Digital CML

        A praça de touros original, inaugurada na tarde de 6 de Agosto de 1882, tinha capacidade para 3.000 aficionados.

        A corrida inaugural da nova praça, realizada no domingo 29 de Agosto de 1909 para celebrar a conclusão das obras de ampliação, teve como figura central o cavaleiro José Bento de Araújo.

        O edifício é, hoje, gerido pela Santa Casa da Misericórdia de Montemor-o-Novo.

24 DE JUNHO DE 1909 – CACILHAS: CORRIDA COM TOUREIRA ESPANHOLA... E BICICLETA

 

Biblioteca nacional de Portugal

Touros

            No dia de S. João, a empreza Baptista & Lacerda dá uma corrida de touros na praça de Cacilhas, com a intervenção dos nossos mais applaudidos artistas e da toureira hespanhola Josefa Mota, «La Pepita», havendo serviço permanente de vapores entre as duas margens do Tejo.

            A passagem custa 50 réis, ida ou volta, e o publico tem a faculdade de adquirir o bilhete de vapor e da corrida conjunctamente.

            «Pepita» é uma bandarilheira, toureia de capa, de muleta, a cavallo e em bicycletta.

            Os cavalleiros para essa corrida são José Bento (de Araújo) e Eduardo de Macedo e os touros pertencem aos Robertos, de Salvaterra.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 22 de Junho de 1909