7 DE SETEMBRO DE 1902 – LISBOA: O FUNERAL DE GUILHERMINA D’ARAUJO, ESPOSA DE JOSÉ BENTO DE ARAÚJO, OCORRE UM DIA DEPOIS DA FESTA DO CAVALEIRO TAUROMÁQUICO NA PRAÇA DE TOUROS DE ALGÉS

 

Biblioteca nacional de Portugal

LUTUOSA

            Falleceu hontem (Guilhermina d'Araujo) a esposa do distincto cavalleiro José Bento de Araujo. O prestito funebre sahe, pelo meio dia, do hospital Estephania, para onde a desditosa senhora tinha recolhido, afim de soffrer uma delicada operação em resultado da qual succumbiu. Ao estimado artista e a toda a sua familia os nossos sentidos pesames.

In VANGUARDA, Lisboa – 8 de Setembro de 1902

7 DE SETEMBRO DE 1902 – LISBOA: A ATRIBULADA FESTA DO CAVALEIRO JOSÉ BENTO DE ARAÚJO ...

 
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Praça de Algés

Beneficio de José Bento (de Araújo)

            O mais popular dos cavalleiros tauromachicos, José Bento d’Araujo, organisou para domingo 7 do corrente na praça de Algés uma corrida com elementos de valor, mas a que não faltou tambem a nota predominante de todas as corridas organisadas por este artista: d’esta vez foi a segunda apresentação do touro Capirote.

            Que mal, antes isto que a Reverte!...

            Os elementos de valor eram formados pelos touros de Estevão d’Oliveira, o espada Bombita e os seus bandarilheiros Rodas e Pulguita, alguns dos nossos, bandarilheiros, o cavalleiro Simões Serra e o facto de ser dada a alternativa ao cavalleiro amador José Luiz Bento.

            Esta alternativa, que foi a primeira dada fóra da praça do Campo Pequeno, tem levantado dezenas de discussões.

            No numero antecedente d’este semario já o nosso collega Fiastol tratou o assumpto, e, pelo que deprehendemos, parecenos que pende para a opinião de que é o artista e não a praça que deve dar a alternativa.

            Este assumpto que entre nós nunca foi discutido, tem daedo azo em hespanha ás mais acirradas polemicas, sendo uma das mais importantes aquella em que tomaram parte o mestre Sanchez de Neira, Sentimentos, etc.

            Nós não queremos estabelecer discissão mas julgamo-nos incursos no dever de fazer-mos publica e nossa opinião, e, portanto eil-a: Deve ser a para que dá a alternativa.

            Os argumentos a favor são muitos; mas, aquelle que nos parece de mais alta importancia, para o nosso meio, aquelle que deve calar no animo do publico e artistas é o seguinte:

            Supponhamos que um artista qualquer, por conveniencia particular, dá a alternativa a um qualquer D. Melchiades na praça da Ribeira de Carinhos ou Maçãs de D. Maria...

            Os outros artistas são obrigados a respeitar essa alternativa?

            Não me parece rasoavel.

            Porque é preciso que nos convençamos que, acceite o principio, se dariam casos escandalosos.

            Em Hespanha depois que acabaram as praças da maestrança ficou entendido ainda que tacitamente, que, para a praça de Madrid, só as alternativas ali recebidas tinham valor.

            Ainda deve estar na memoria de todos os aficionados o que aconteceu com Conejito depois de receber a alternativa de Guerrita na praça de Badajoz.

            Portanto, o que nos parece rasoavel é que os amigos de José Luiz Bento procurem levar a empreza da praça do Campo Pequeno a permittir a confirmação da alternativa cedida na praça d’Algés pelo mais antigo dos cavalleiros, que, com esta cedencia, julgou José Luiz Bento apto para alternar com todos os seus collegas.

A praça de touros de Algés é hoje um parque de estacionamento com via rápida ao lado...
FOTO: DR

            E vamos á corrida.

            O curro fornecido pelo Sr. Estevão d’Oliveira era composto de tudo. Appareceram touros grandes, outros que parweciam ser filhos d’elles; alguns muito anafados, outros que pareciam estar a cargo da Assistencia; houve bichos de bom trapio, alguns deixavam muito a desejar; emfim, o lavrador, como homem pratico quizs mandar para todos paladares.

            Com excepção de trez, todos mostraram que lhes corre nas veias sangue para marrar; e, se houvesse melhor lide por certo que teriamos visto uma corrida rasoavel.

            Ainda que alguns sabiam latim!

            Não queremos dizer com isto que elles fossem todos ou quasi todos corridos; não, o que nos parece, é que, naturalmente o lavrador juntou nas lezirias a estes puros, alguns dos que haviam sido já corridos e elles, nas vigilias d’essas noites de luar de Agosto, ensinaram a estes a maneira de se deffenderem, caso algum dia passassem pelos mesmos trabalhos que elles haviam soffrido.

            Depois d’esta evidente prova de amisade taurina, não seria mau que os creadores impozessem nas ganaderias o mais absoluto silencio ou mandassem cortar... a lingua aos touros já corridos. O cavalleiro José Bento (de Araújo) a quem coube um dos que mais lições tinha, não conseguiu brilhar.

            Collocou dois ferros compridos, nem peixe nem carne, e rematou com um curto depois de sahir em falso umas poucas de vezes.

            E note-se, que Pulguita o coadjuvou magistralmente.

            Simões Serra a quem largaram um matutão, foi colhido junto á trincheira logo na primeira entrada, e, apesar de estar contundido em uma perna, continuou a tourear valentemente, dando ao touro a lide que elle pedia, e pena foi que cedesse a pegar no ferro curto que elle devia ter visto que não poderia collocar senão por mero accaso e com grande exposição.

            Foi muito applaudido.

            José Luiz Bento toureou correctamente o touro que lhe coube, que era um animal bonito e não offerecia difficuldades.

            O cavalleiro amador Fernando Alão a quem por primeira vez vimos tourear, cae bem e não nos pareceu destituido de valor e de conhecimentos, mas reservaremos a nossa opinião para quando o vejamos com outro touro.

            O espada era, como dissémos, Emilio Torres Bombita.

            El ninõ de la sonrisa está muito gordo e ha já algumas epochas que não nos consegue enthusiasmar.

            N’esta corrida collocou tres pares de bandarilhas em sortes parecidas com o «quiebro» e deu uns passes de muleta no 2.º e 3.º que nada valeram. No 4.º apenas teve um de peito de muita vista e um ajudado de «rodillas».

            Dos seus bandarilheiros teve Rodas um bom par á gaiolla no 4.º, e Pulguita no 7.º meio par muito bom e meio horrivelmente baixo, em virtude de um extranho do touro.

            Dos nossos apenas poderemos citar meio par bom de Silvestre e dois regulares, um de José Martins e outro de Thomaz da Rocha.

            Os dois praticantes José Costa e Francisco Cruz lidaram o ultimo touro mas não conseguiram brilhar.

            Na brega distinguiu-se Pulguita e cumpriram José Martins e Rocha.

            O tratador Manuel Gentil desembolou como costuma o Capirote depois d’este ser regalado com alguns pares de bandarilhas. O publico premiou-lhe o arrojo com palmas e muitas moedas de prata e cobre.

            A direcção, a cargo do sr. Jayme Henriques, muito acertada.

O cavaleiro José Bento de Araújo (painel de azulejos na frontaria do prédio que foi seu, em Lisboa).
FOTO: © LC com RUI ARAUJO

M. T. David

In REVISTA TAURINA, Lisboa – 7 de Setembro de 1902

7 DE SETEMBRO DE 1902 – ALGÉS: TRAGÉDIA NA FESTA DO CAVALEIRO JOSÉ BENTO DE ARAÚJO

 
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TAUROMACHIA

            A festa de José Bento (Araújo)É hoje que o nosso publico, aficionados e não aficionados, vão á praça d’Algés assistir á grande festa do insigne cavalleiro José Bento d’Araujo e gosar uma das mais attrahentes corridas. Bombita, o celebre espada, o grande toureiro da actualidade, chegou hontem a Lisboa com a sua «cuadrilla» de bandarilheiros. Ha enorme empenho em admirar o surprehendente phenomeno, o incomparavel touro «Capirote», que tanto agradou no Campo Pequeno e no Porto.

            Eis o detalhe de tão deslumbrante corrida:

            1.º, touro, para o beneficiado; 2.º, para Silvestre Calabaça e José Martins; 3.º, para Carlos Gonçalves e Thomaz da Rocha; 4.º, Manuel Rodas e Pulguita; 5.º, para José Luiz Bento; 6.º, para Simões Serra; 7.º, para Pulguita e Manuel Rodas; 8.º, para o celebre touro Capirote; 9.º, para Fernando Alão; 10.º, para Francisco Cruz e José Costa. 

In VANGUARDA, Lisboa – 7 de Setembro de 1902

7 DE SETEMBRO DE 1902 – ALGÉS: “ESTRONDOSA FESTA” DO CAVALEIRO JOSÉ BENTO DE ARAÚJO QUE VAI TERMINAR EM TRAGÉDIA...

 
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TAUROMACHIA

            Algés É amanhã que, n’esta praça, se realisa a estrondosa festa do denodado cavalleiro José Bento (de Araújo), com uma brilhantissima corrida. Este facto diz tudo e nada mais é preciso accrescentar, para se saber que ninguem faltará ao seu posto.

In VANGUARDA, Lisboa – 6 de Setembro de 1902

7 DE SETEMBRO DE 1902 – ALGÉS: TOURADA EM BENEFÍCIO DO CAVALEIRO JOSÉ BENTO DE ARAÚJO TERÁ POUCA GENTE...

 
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TOUROS

            Enthusiasmo enorme pela festa do denodado cavalheiro José bento d’Araujo, que com uma corrida completamente extraordinaria e sensacional se realisa hoje na magnifica praça d’Algés.

            Pessoas que viram os touros do sr. Estevão d’Oliveira, garantem que ha muito não nas ha nossas praças, curro tão admiravel.

            Bombita, o grande toureiro da actualidade, chegou hontem a Lisboa com a sua cuadrilla de bandarilheiros.

            Eis o programma:

1.º touro para o beneficiado. (José Bento de Araújo)

            2.º —Silvestre Calabaça e José Martins.

            3.º —Carlos Gonçalves e Thomaz da Rocha.

            4.º —Manoel Rodas e Pulguita.

            5.º —José Luis Bento.

            6.º —Simões Serra.

            7.º —Pulguita e Manoel Rodas.

            8.º —O celebre touro Capirote.

            9.º —Fernando Alão.

          10.º —Francisco Cruz e José Costa.

            O espada Bombita bandarilhará um dos touros destinados aos seus bandarilheiros.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 7 de Setembro de 1902

7 DE SETEMBRO DE 1902 – ALGÉS: FESTA DO CAVALEIRO JOSÉ BENTO DE ARAÚJO ACABA EM DRAMA...

 

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Necrologia

            José Bento d’Araujo recebeu hontem um golpe dolorissimo.

            Quando acabava de tourear no Campo Pequeno onde effectuava a sua festa artistica deram-lhe a triste noticia que falleceu sua esposa a sr.ª D. Guilhermina d’Araujo. (NOTA: A corrida em causa realizou-se na praça de touros de Algés e não na do Campo Pequeno.)

            A pobre senhora recolheu ao hospital Estephania para soffrer uma operação melindrosissima, devendo o seu funeral effectuar-se hoje, pelo meio dia, d’aquelle estabelecimento.

            A José Bento (de Araújo) os nossos pesames.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 8 de Setembro de 1902

7 DE SETEMBRO DE 1902 – ALGÉS: CORRIDA DE BENEFÍCIO DO CAVALEIRO JOSÉ BENTO DE ARAÚJO COM POUCA GENTE...


 

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TOUROS

            Apesar de estamparem nos cartazes o nome de Bombita, um dos maestros mais distinctos da arte de «Montes», não foi grande a concorrencia á festa artistica do sympathico e valente cavalleiro José Bento d’Araujo, realisada ante-hontem em Algés. O aspecto triste do dia, e a feira da Luz, concorreram com certeza para que o circo se não enchesse.

            Quem ali foi não perdeu o seu dinheiro nem o tempo, porque o distincto espada trabalhou muito e bem.

            Escusado será referirmos-nos minuciosamente ás faculdades de que dispõe o diestro, por de mais conhecidas do publico, que, por varias vezes o tem visto bregar no Campo Pequeno.

            Portanto, diremos sómente, que continua a sua carreira sem se divorciar da arte e da valentia.

            Bandarilhou, cambiando y cuarteando, como sempre; isto é. com alma, citando com aprumo e alegria, entrando e sahindo dos pitones, com limpeza e elegancia, e rematando com lusimento.

            Nos quites mostrou-se apportuno.

            Não só com o percal como com o trapo desenhou passes de muito valor, lançando por alto e baixo, de peito e em redondo, de piton á cola, etc. etc., sempre cingido parado e gelado.

            A despachar mostrou bem o quanto o seu braço vale.

            O publico dispensou-lhe muitos e justos applausos.

            Os seus acolytos e os nossos infantes tambem cravaram alguns pares de merecimento, pelo que receberam palmas.

            A cavallaria era composta pelo beneficiado (José Bento de Araújo) , Simões Serra, Fernando Allão, e José Luiz Bento que tomou a alternativa das mãos de José Bento (de Araújo).

            Todos estes cavalleiros andaram correctamente; havendo, porém, um ferro de Serra, e outro de Allão que resultaram superiores.

            José Bento (de Araújo) brindou os seus collegas com lindos ramos, quando no intervallo do combate foi chamado ao redondel, onde foi obsequiado tambem com presentes de valor.

            O celebre touro «Capirote», depois de receber tres pares mettidos à la diable, foi desembolado pelo domesticador, e pela mão do qual comeu algumas talhadas de melancia.

            O publico gostou immenso d’este numero, e o homemsinho ainda mais, porque apanhou boa massa dos espectadores.

            Houve cinco pégas rijas.

            O gado, do afamado lavrador Estevão d’Oliveira, tinha magnifica apresentação. Agradou muito, porque alguns sahiram bravos, e os que o não eram cumpriram bem o seu dever.

            Foi um dos melhores curros que este anno vimos.

Marialva.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 9 de Setembro de 1902

27 DE ABRIL DE 1902 – LISBOA: O CAVALEIRO JOSÉ BENTO DE ARAÚJO NÃO VAI EM CANTIGAS...

 
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RECORTES

            A troupe dos Astrologos queria barreiras para hoje, em Algés...

            Seria para lançarem os seus sabios oculos de longa vista para o Fernando de Oeiras ou para o José Luiz Bento?

            Hum!... não me parece!...

            Qualquer d’elles não tem nariz para oculos e o Fernando já deu provas d’isso... não é verdade?

            Muito me tinha eu farto de rir se no domingo passado a troupe olhasse para o José Bento de Araujo! Mas... isso sim!...

            Nada, que elle com um socco já partiu uma mesa de pedra e depois com um dos pés da mesma mesa, correu pela porta fóra meia duzia de valentes!...

            O pobre Torres Branco é que os atura...

            Já ao Manuel dos Santos elles tambem não apoquentam... (Frequentadores do Montanha sabem porquê).

            E o caso é que a troupe julga-se muito entendida mesmo depois do fiasco de domingo, em obrigar o Botas a mandar bandarilhar um touro manso, como logo á primeira vista se conhecia.

In REVISTA TAURINA, Lisboa- 4 de Maio de 1902

12 DE AGOSTO DE 1909 – LISBOA: MAIS UMA CORRIDA NOCTURNA NA PRAÇA DO CAMPO PEQUENO

 
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Touros

            Eis o programma da grande corrida de amanhã.

            Dez formosissimos touros de Emilio Infante, sendo 6 puros destinados aos peões e aos picadores.

            Cavalleiros, José Bento (de Araújo) e Morgado de Covas.


O matador mexicano Rodolfo Gaona.
FOTO: La Ilustración Semanal, México - 18 de Novembro de 1913.

            Espada, o celebre Rodolfo Gaona (NOTA: Rodolfo Gaona nasceu no dia 22 de Janeiro de 1888 em León de los Aldama, México, de pai navarro e mãe indígena. Faleceu em 1975 na Cidade do México. Este matador é considerado um dos toureiros mais elegantes e universais. Tinha duas alcunhas: «Califa de León» e «El Indio Grande». Chegou a Espanha em 1908.), cuja «cuadrilla» é assim composta: Picadores, Manuel Martinez («Aguletas») e Manuel Fernandez («Chanito»); bandarilheiros, Miguel Gonzalez («Recalcao»), Carlos del Aguila («Aguilita») e Geronimo Orejon («Geromo»).

            Bandarilheiros portugueses, Theodoro e Carlos Gonçalves, Manuel e Alfredo Santos.

A bilheteira do Campo Pequeno na praça dos Restauradores.
FOTO: Arquivo CML

            Hontem, abriu a bilheteira da praça dos Restauradores, ficando tomados grande numero de logares de bancada de sombra e sol, fauteuils, camarotes, etc.


In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 11 de Agosto de 1909

20 DE AGOSTO DE 1902 – ALGÉS: UMA BURLA CHAMADA CORRIDA...

 
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UMA BURLA

            É o unico titulo que pode dar-se ao que no ultimo domingo se passou na praça d’Algés!

            No tempo em que aquella praça era explorada por um emprezario que ali queria fazer reviver a da Cruz Quebrada, (NOTA: A praça de madeira na Cruz Quebrada  funcionava sobretudo durante a época balnear. Teve um período de actividade efémero. Com a construção da praça de Algés, a arena da Cruz Quebrada desapareceu.) não era o publico tão torpemente enganado.

            Annunciaram os cartazes uma corrida de dez bravissimos touros, e o que ali se viu foi apenas dez reverendissimos bois, alguns d’elles, senão todos, mais dignos de choupa que de garrochas!

A antiga praça de touros de Algés, nos arredores de Lisboa é hoje um parque de estacionamento...
FOTO: Arquivo da CML

            A auctoridade, que tão escrupulosa é sempre que se annuncia um espectaculo em qualquer theatro, não pôz duvida em pôr o seu visto n’um cartaz em que se annunciavam — dez bravissimos touros — quando a empreza tinha só dez mansissimos garraios para offerecer ao publico!

            Para a Reverte — que a empreza annunciava como sendo a unica artista que impunha como condição essencial nos seus contractos não terem menos de quatro annos os touros a ella destinados — largou-se um vitellinho que pela côr e tamanho mais parecia o cão do Freire Gravador, (NOTA: «A. L. Freire Gravador» era em 1902 uma das primeira casas de carimbos, prensas, balances, sinetes, etc. em Portugal com «officinas de typographia, lithographia, encadernador, papelaria, etc.» Terá sido fundada em 1882 pelo «gravador» Aires Lourenço Costa Freire e teve, designadamente, lojas na Travessa da Victoria e na Rua do Ouro. O cartaz do estabelecimento representava um cão a segurar um carimbo na boca. Esta imagem do animal com o carimbo integrou o imaginário da capital no princípio do século XX, aparecendo, por exemplo, em anúncios de jornais e brindes.) e que assim que se viu na praça começou — coitadito!  — a balir, a balir, para que o deixassem ir mammar nos uberes maternos!...

            O emprezario, ou quem o seu nome empresta á empreza, não teve mais remedio que fazer a vontade ao publico, que não consentiu que o innocente fosse picado...

            Mas ha mais e melhor...

            Um dos maiores reclames de corrida, se não o maior, era a tal brilhantissima illuminação de dez mil bicos de incandescencia, de fórma que na praça parecesse estarmos em pleno dia, como é de primeira necessidade para a lide de rezes bravas.

            Pois essa brilhantissima illuminação de 10.000 bicos era composta unicamente por 16 lanternões comportando cada um onze bicos, e um outro ao centro da praça, que teria, quando muito, trinta e tantos lumes, de fórma que, com uns quarenta, se tanto, dispostos pelos camarotes, prefaziam a conta de duzentos e cincoenta bicos.

            Ora, em boas contas, para dez mil não parece que faltassem muitos...

            No fim d’isto, apenas perguntamos se a estes factos não se póde dar o nome de burla!...


            N’outro logar nos referimos á ultima corrida em Algés.

            Vamos agora dizer o que ella foi e quaes as impressões que nos deixou.

            É claro que o publico, apesar do reclame enorme feito á illuminação, já sabia de antemão que a claridade não poderia comparar-se á de uma tarde de sol, que é a condição mais essencial para uma boa tourada.

            O que, porém, nuinguem esperava é que escuridão fosse tão completa que das bancadas se não distinguissem as armas dos touros.

            Touros?!

            Garraios, se fazem favor.

            E a respeito de bravura, temos conversado...

            A não ser o 8.º, que pertenceu a José Luiz Bento, e em que este manifestou a sua pericia e manifesta vontade de progredir, todos os outros eram uns miseros animaes, com todos os defeitos que poderiam ter, incluindo a mais completa desegualdade.

            Para a Reverte sahiu um vitellinho tão novo e tão mansinho, que o publico não consentiu que fosse lidado, sendo substituido por um mano, que pouco mais velho seria, mas que denotava ser um pouco mais bravo.

            Os cavalleiros José Bento de Araujo e José Luiz Bento portaram-se á altura dos creditos de que gosam.

            José Luiz, como acima dizemos, salientou-se no seu segundo, pela maneira de citar e rematar, tanto mais que não tinha quem o auxiliasse, pondo-lhe os touros em sorte.

            Dos bandarilheiros apenas ha a mencionar um par de Torres Branco e outro de José Martins.

            Luciano Moreira, que appareceu no redondel só ás cortezias e no 7.º touro, pouco fez, já porque o bicho se não prestou, já porque o artista o não procurou bem.

            Calabaça e Varino receberam grossa somma de palmas por collocarem dois excellentes... brincos, no segundo.

            Na brega salientaram-se tambem José Martins e Torres Branco, estando aquelle incasavel (incansavel ?) em toda a corrida.

            Os mais... andaram muito tempo na praça, com os capotes de correr.

            Um dos forcados deu duas voltas ao redodel (redondel!), agarrado á cauda do touro e... foi muito applaudido...

            O intellegente, está velho, tem a vista cançada (cansada) e... não se deve já metter em taes assados.

C.

In REVISTA TAURINA, Lisboa – 24 de Agosto de 1902

24 DE AGOSTO DE 1902 – LISBOA: DESASTRE ANUNCIADO NA CORRIDA DO CAMPO PEQUENO...

 
Biblioteca nacional de Portugal

CAMPO PEQUENO

La Reverte

            A corrida que se realisou no domingo 24 na praça do Campo Pequeno, veio evidenciar o extraordinario valor que o grande publico reconhece nos artistas tauromachicos e a seria aficion dos seus promotores.

            É duro, mas tem de dizer-se.

            Toda a gente afirmava que a corrida era promovida por dois negociantes de espectaculos de sensação e por um artista tauromachico.

            Os primeiros estão no seu papel, mas o ultimo nunca deveria ligar o nome a semelhante borracheira!

            Ha negocios que deslustram o nome de um artista!

            O que não se devia admittir, é que se annunciasse como corrida formal, dando-lhe demais o subtitulo de corrida de anniversario da praça, uma pepineira d’aquella ordem!

            Até se quiz fazer comprehender que Feliz Velasco alternaria com a Reverte,ou Reverta(NOTA: «La Reverte» era María Salomé Silva, María Salomé Rodríguez Tripiana ou ainda Agustín Rodríguez em 1908, ano em que confessou ser homem. Em 1912, abandonou a lide.) como lhe chama um nosso amigo para evitar confusões.

«LA REVERTE» na capa da edição da revista madrilena FIESTA NACIONAL datada de 6/10/1906.
Biblioteca nacional de España

            Para que tudo fosse completo, até os 6 touros de Laranjo que estavam annunciados, foram á ultima hora substituidos por touros de Paulino da Cunha!

            Touros!...

            Pode dar-se este nome a taes bichos?!...

            Tanto os do sr. Paulino como os da Companhia da(s) Lezirias eram o que de mais ordinario se pode apresentar n’uma praça.

            Nem mesmo vale a pena empregar tinta na sua apreciação.

            O grrrande attractivo da corrida era a Reverte.

            Esta mulher que conseguiu crear nome apenas em Lisboa, levou ao Campo Pequeno uma multidão que lá não iria se annunciasssem um espada de merito.

            Pelo seu valor como artista?

            Não; por ser mulher e ser toureira.

            Ninguem nega que ella é valente; mas, o que sentimos é que o publico da capital, depois de ter visto desfilar pela arena do Campo Pequeno todas as sumidades do toureio, eleve de tal modo uma mulher que não tem a recommendal-a outro predicado que não seja o da valentia!

            Note-se: valentia como mulher!...

            Tem tido, felizmente para ella, a extraordinaria sorte de não lhe ter sahido um touro difficil para bandarilhar, porque, entãoé que o publico veria o que vale a Reverte como artista.

            O tourete que lhe coube n’esta corrida, alem de nobre, estava derreado por completo dos quartos trazeiros e nem mesmo se devia consentir que fosse corrido.

            Que enorme berreiro não se faria se qualquer toureiro pegasse em bandarilhas para um touro naquelle estado!

            Com o capote e a muleta é que se evidencia o nenhum conhecimento que a Reverte tem do toureio.

            Nada fez de valor n’esta corrida mas o publico applaudi-a com enthusiasmo.

            É o publico do á unha! e do fora gallegos!...

            Na corrida tambem tomou parte um espada: Felix Velasco.

            Mas este não veio como attractivo: era para dar fóros de corrida formal áquella borracheira.

            Todos os que seguem com interesse o movimento tauromachico da nossa visinha Hespanha, sabem que Velasco, nunca conseguiu salientar-se entre os seus collegas matadores de touros, mas o que tambem sabem, é que em Hespanha não se concede a alternativa a qualquer, e, ainda que ha muitos que pouco valem, qualquer d’elles, como artista, vale por todas as Revertes.

            Nunca vimos tourear Felix Velasco mas no domingo estamos convencidos  que elle não fez nada porque não quiz.

            Estamos até em acreditar que estava envergonhado!

            Realmente um matador ver um publico enthusiasmado com uma mogiganga d’aquella ordem, era para fazer sorrir de desdem e envergonhar-se de tomar parte n’ella!...

            Dir se-ha que elle veio ganhar dinheiro e devia, portanto, trabalhar.

            Mas o que nós não conhecemos é as condições em que elle veio.

            O que elle não quiz foi alternar de qualquer modo com a Reverte e por isso elle com razão se recusou a passar de muleta o touro em que ella tinha feito os quites aos picadores.

            No touro que lhe coube bandarilhar, o publico indignou-se por elle não ir para a gaiolla, não se lembrando que até o grande Guerrita fazia o mesmo.

            O tal bicharoco sahiu ordinario entre os ordinarios e Velasco quasi ficava de cocoras quando cravava as bandarilhas, tão grande elle era.

            Ora nós comprehendemos que um toureiro se arrime e se enthusiasme quando em frente de um touro, mas em frente de um choto, d’uma cabra com cornos de boi...

            Deve fazer a mesma cara que qualquer homem fará ao cahir por tropeçar n’um cãosinho felpudo.

            Não queremos, de modo nenhum que se vá comprehender que temos em mira a defeza de Felix Velasco; não, o que desejavamos é que todos vissem bem a situação d’um homem que está acostumado a ver-se em corridas onde ha touros e toureiros e soffrer a rapida transicção para onde havia uns bicharocos com chavlhos, que podiam ser caracoes! — e um publico que delira ante uns pares de bandarilhas collocados por uma mulher!

            Mesmo nas nossas corridas mais bem organisadas nós vemos, com raras excepções, que os toureiros hespanhoes de mais fama não fazem metade do que os vemos fazer em Hespanha.

            Entre outras ha para isso duas rasões de muito peso:

            A primeira reside no facto dos toureiros serem embollados e isso ser para elles algo vergonhoso; a outra, é a preoccupação que elles teem de que todos os touros são já corridos.

            Por todas estas rasões não nos admirou, portanto, que Felix Velasco se retrahisse.

            Os cavalleiros foram José Bento (de Araújo) e Simões Serra.

            O primeiro não esteve feliz, rematando sempre as sortes d’uma fórma deselegantissima, talvez influenciado pelo desgraçado halito anti-artistico que ali se respirava.

            Simões Serra conseguiu salvar-se da derrocada.

            Collocou algumas farpas de valor e gostámos de o ver citar para algumas das sortes.

            Não se esqueça da formula, porque pode perder o papel em que está escripta, e andar ás aranhas, como lhe tem succedido esta epoca em quasi todas as corridas.

            Do trabalho dos picadores nada diremos porque não nos queremos lembrar das gargalhadas que elles darão ao recordarem em Hespanha os pobres animaes que em Lisboa lhe largaram para picar.

            Os benemeritos da arte, promotores d’esta corrida, deligenciaram buscar entre os nossos bandarilheiros aquelles de menos merito, deixando escapar por engano Thomaz da Rocha.

            Foi este o unico que metteu um par de valor e que bregou regularmente, ainda que remattando quasi sempre no terreno de dentro.

 

            Emende esse defeito, Rocha, e verá como o publico lhe premiará os seus  esforços!

 

            Para que o Campo Pequeno parecesse por completo a saudosa praça da Cruz Quebrada, até os forcados metteram la pata.

            Houve um que pegou um touro de costas, citando sentado n’uma cadeira.

            E o intelligente consentiu, e a auctoridade não procedeu!

            Consta que na proxima corrida haverá uma pega feita dentro de uma barrica.

            M. T. David 

In REVISTA TAURINA, Lisboa – 31 de Agosto de 1902

NOTA

Mais informação sobre La Reverte nesta página do diário madrileno ABC:

https://www.abc.es/archivo/abci-reverte-torero-travestido-engano-espanoles-sexo-durante-20-anos-202109060102_noticia.html?ref=https%3A%2F%2Fwww.abc.es%2Farchivo%2Fabci-reverte-torero-travestido-engano-espanoles-sexo-durante-20-anos-202109060102_noticia.html

ou nesta edição do jornal «La Correspondencia de España»

https://hemerotecadigital.bne.es/hd/viewer?oid=0000473252&page=2

ou neste blog alojado no site da Biblioteca Nacional de España:

https://www.bne.es/es/blog/blog-bne/la-mujer-que-invoco-la-constitucion-para-poder-torear#:~:text=Men%C3%BA%20*%20Vis%C3%ADtanos.%20*%20Colecciones.