Biblioteca nacional de Portugal
Visita dos reis de Hespanha — Festejos
A tourada de
hontem, em honra de suas magestades catholicas, e dada pela empreza Custódio
Vidal, foi extraordinariamente concorrida. Não havia um camarote sem alugador,
e nas trincheiras viam-se muitos espectadores por não chegarem os palanques de
sombra e sol para a grande quantidade de gente que affluiu.
"CORRIDA DE TOROS ORGANIZADA POR EL CABALLEIRO DOS ANJOS:
CABALLEROS EN LA PLAZA SALUDANDO Á SS. MM."
Desenho de J. Comba - La Ilustración Española y Americana - 30 de Janeiro de 1882 - BNE, Madrid.
A tourada começou ás 2 horas, como estava
annunciado, sendo as cortezias feitas pelos tres cavalleiros de profissão José (Casimiro
Monteiro) e Antonio Monteiro, e José
Bento d’Araujo.
Na 1.ª parte
o que houve de mais notavel foi o segundo touro passado de muleta, com
verdadeira mestria, pelo bandarilheiro Roberto da Fonseca, que obteve extraordinarios
applausos.
Findo o
intervallo, entrou na arena o sr. Tinoco (Alfredo Tinoco da Silva), á Marialva,
e foi picado o 1.º touro com a valentia e denodo que aquelle dextro cavalleiro
amador costuma exhibir.
O empresario
mendou então suspender por algum tempo o espectaculo para a chega de suas
magestades os reis de Hespanha e os de Portugal. Como tardassem, foi a pedido
do publico corrido o 2.º touro para capinhas, chegando as familias reaes na
occasião em que este era recolhido.
Quando os
reis de Hespanha, a sr.ª D. Maria Pia, principes, e comitiva deram entrada no
camarote real as bandas de caçadores 5, e dos cegos da casa pia tocaram o hymno
hespanhol, descobrindo-se e ponde-se de pé todos os espectadores.
Sua
magestade el-rei o sr. D. Luiz não compareceu.
Aos
cumprimentos do publico corresponderam suas magestades com a affabilidade e fina
delicateza que os distingue.
Trocados os
cumprimentos entre o publico e os monarchas, proseguiu o espectaculo, dando
entrada na arena o dextro e elegante cavalleiro amador o sr. Alfredo Marreca e
o sr. Tinouco,(Tinoco) que apesar de não lhe pertencer tourear mais de que um
touro na 2.ª parte teve de aceder ao pedido dos espectadores, que sabendo que
el rei D. Affonso dera em Madrid os mais evidentes testemunhos de apreço pela
dextreza d’esse cavalleiro amador, quiz que o nosso hospede tivesse occasião de
o ver mais uma vez trabalhar.
O animal que
os srs. Marreca e Tinoco tiveram de lidar não possuia as melhores qualidades;
investia a custo, tomava querenças, (NOTA: O touro deixou de investir de
forma franca e aberta no centro da arena, obrigando o cavaleiro a correr riscos
para tirá-lo das tabelas.) e emfim só se prestava sendo muito citado.
O sr.
Alfredo Marreca foi mais feliz, innegavelmente porque o touro tinha mais
vontade á côr do seu cavallo castanho do que ao russo do sr. Tinoco; de toso os modos o primeiro d’estes
cavalleiros teve ensejo de fazer brilhantissima figura, como sempre, mettendo
algumas farpas em sortes irreprehensivelmente executadas. O sr. Tinoco, sem
desmerecer da sua dextresa, teve sim muitas palmas, porque as Merecia, mas pela
razão que já indicámos, não poude metter egual quantidade de ferros á que
metteu o sr. Marreca.
Depois de
mais um touro bandarilhado com muita arte pelos irmãos Robertos, e bem passado de
muleta pelo Roberto da Fonseca entrou na arena o sr. Luiz do Rego, montado no
seu brioso Léotard.
Digamol o
com a imparcialidade que costumamos sempre, o sr. D. Luiz foi quem teve as
honras da tarde, e merecidamente.
O touro era
bravo e de muitas pernas; de
ordinario investia sempre quando citado e não carregava; mas algumas vezes
desmentiu estas qualidades tornando-se de sentido.
O sr. D.
Luiz do Rego soube aproveital o em sortes á meia volta e á tira, e pôz dois
pares de ferros com arte e valentia inexcediveis.
A ultima d’estas
sortes produziu uma extraordinaria ovação ao arrojado amador. O touro achava se
entrincheirado junto á porta dos cavalleiros, quando citado não investia, mas
partindo inesperadamente, quando o habil
amador se achava a maeio da praça foi recebido com valentia pelo denodado
cavalleiro que o castigou n’uma esplendida sorte á garupa, mas executada com
audacia e perfeição tal, que o publico irrompeu n’uma ovação que se approximava
muito do delirio.
Quando saiam
os tres cavalleiros de profissão para picarem o toiro que lhes pertencia na
segunda parte, appareceu o cavalleiro Manoel Mourisca offerecendo os ferros.
O publico
pediu logo que Mourisca picasse o touro, tendo os 3 cavalleiros que se achavam
na praça a delicadeza de lhes offerecerem os seus cavallos. Mourisca não aceitou
e indo buscar o cavallo em que o sr. Marreca trabalhara, voltou e lidou bem o
animal que se achava na arena, e que então já tinha recebido dos 3 cavalleiros
alguns ferros muito bem postos.
Peixinho
executou com luzimento o salto da vara, e todos os capinhas trabalharam bem, sobresahindo
os Robertos.
Houve a má
idéa de mandar pegar um touro, contando-se para isso com uns forcados que se
achavam nas trincheiras; com o que não se contou foi que muitos outros
individuos saltassem tambem, estabalecendo se assim a confusão.Afinal o touro
foi pegado mal por um dos moços do curro.
Em
conclusão, o gado saiu regular, e a funcção esteve animada, não saindo o
publico descontente, apesar d’algumas irregularidades.
In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 13 de
Janeiro de 1882