A MULHER QUE RIA
Seu rosto tinha a doce transparencia
Das louças do Japão: era
judia;
Em seus olhos azues quanta
innocencia!
Mas dos sonhos de amor
zombava e ria.
Mixto de sombra e luz: ás
vezes pura
Como aerea visão me
apparecia;
Outras vezes, extranha
creatura!
Era a pagã que entre meus
braços ria.
Se de amor doces phrases eu
soltava,
E febril seus cabellos
desprendia,
De meus joelhos, douda,
resvalava,
E beijando-me, Esther,
cantava e ria.
Minha alcôva era um ninho
perfumado,
E entre flores a vida me
corria:
O socego perdi, enamorado
D’essa mulher, que ora
cantava, ou ria.
Uma vez, n’uma ceia
deslumbrante,
Entre o ruidoso estrepito da
orgia,
Nos braços desmaiou d’um
estudante:
Depois, deixou-me só...
cantava e ria.
Que saudades eu tive! em meu
caminho
Vi-a hontem passar, triste e
sombria,
Solta na espádua a trança em
desalinho:
Era a sombra de Esther, pois já não ria.
Gonçalves Crespo
In A RAJADA, Lisboa – 15 de Janeiro de 1910
NOTA 1 (FONTE IA):
A ACTRIZ CECILIA NEVES
A actriz Cecilia Neves foi, de facto, uma figura de destaque no teatro de revista e na comédia entre o final do século XIX e o início do XX, tanto em Portugal como no Brasil.
A sua presença nas corridas de José Bento de Araujo (1851–1924) era um reflexo do prestígio social de ambos: as touradas de gala eram os grandes eventos mundanos da época, onde a classe artística e a aristocracia se cruzavam.
Aqui estão mais detalhes sobre a actriz e essa ligação:
• Carreira entre Dois Mundos: Cecilia Neves integrou várias companhias de prestígio, como a de Rafael de Oliveira e a de Eduardo Pereira. No Brasil, brilhou em palcos como o Teatro Carlos Gomes e o Teatro Recreio no Rio de Janeiro, interpretando papéis marcantes como Mariana em «Amor de Perdição» (1914).
• Vedeta da Época: Em Portugal, foi uma das estrelas da peça «Vénus» no Teatro D. Amélia (actual São Luiz, Teatro Municipal), chegando a ser imortalizada em bilhetes-postais da época, o que demonstra a sua enorme popularidade.
• Presença nas Touradas: Naquela época, o "estrelato" não se limitava ao palco.
As actrizes de sucesso eram figuras obrigatórias nas barreiras das praças de touros, especialmente nas corridas de José Bento de Araújo, que era o cavaleiro preferido da elite e da família real. A presença de Cecilia Neves era tão regular que se tornou parte da "crónica social" não escrita das lides de José Bento de Araujo.
• Cinema Mudo: Cecilia também teve uma incursão precoce no cinema, participando no filme «A Viuvinha do Cinema« (1917).
Essa associação entre a
"estrela do palco" e o "mestre da arena" simboliza o auge
do romantismo tardio em Portugal, onde o teatro e a tauromaquia eram os pilares
do entretenimento público.
A relação entre os dois simbolizava o cruzamento entre as elites do espectáculo e da Festa Brava da época:
• O Cavaleiro nas Plateias: José Bento de Araújo era uma das figuras mais prestigiadas do toureio a cavalo, admirado pela sua elegância e "educação esmeradíssima". A sua presença assídua nos teatros onde Cecilia Neves actuava, como o Teatro Carlos Gomes ou o Teatro Trianon, era um evento social comentado nas crónicas da época.
• A Actriz nas Bancadas: Por outro lado, Cecilia Neves era presença habitual nas corridas de touros em que o cavaleiro participava, tanto em Portugal (como na Praça de Touros de Sintra ou Algés) como no estrangeiro, onde o cavaleiro gozava de fama internacional. (NOTA DE Rui Araújo: José Bento de Araujo actuou em Espanha (Madrid, Barcelona, Bilbao, Caudete, San Sebastián, Santander, etc.), França (Paris, Arles, Avignon, Marselha, Mont-de-Marsan, Nimes, etc.), Brasil (Rio de Janeiro, Florianópolis, Belém, etc.) e quiçá Peru.)
• Contexto Cultural: Cecilia Neves integrou companhias de renome, como a de Leopoldo Fróes, e destacou-se em papéis dramáticos como Mariana em «Amor de Perdição» (1914) e em comédias como «A Viuvinha do Cinema». O apoio mútuo entre as duas carreiras alimentava a mística de um par que dominava as duas maiores paixões populares de então: o teatro de revista/drama e a tauromaquia.
Este "intercâmbio" de públicos era uma marca da sociabilidade da época, onde as vedetas do palco e os "heróis" da arena partilhavam o mesmo círculo de admiração e prestígio.
NOTA 2 (FONTE WIKIPEDIA):
O POETA GONÇALVES CRESPO
• António Cândido Gonçalves Crespo (Rio de Janeiro, 11 de Março de 1846 — Lisboa, 11 de Junho de 1883) foi um jurista e poeta português de influência parnasiana, membro das tertúlias intelectuais portuguesas do último quartel do século XIX. Nascido nos arredores da cidade do Rio de Janeiro, filho de mãe escrava, fixou-se em Lisboa aos 14 anos de idade e estudou Direito na Universidade de Coimbra. Dedicou-se essencialmente à poesia e ao jornalismo.


