15 DE JANEIRO DE 1910 – LISBOA: A «MULHER QUE RIA» ERA A ACTRIZ CECILIA NEVES, AMIGA DE PEITO DO CAVALEIRO JOSÉ BENTO DE ARAÚJO


 

CECILIA NEVES (Actriz do Theatro D. Amelia)
Documento: Biblioteca nacional de Portugal

A MULHER QUE RIA

Seu rosto tinha a doce transparencia

Das louças do Japão: era judia;

Em seus olhos azues quanta innocencia!

Mas dos sonhos de amor zombava e ria.

 

Mixto de sombra e luz: ás vezes pura

Como aerea visão me apparecia;

Outras vezes, extranha creatura!

Era a pagã que entre meus braços ria.

 

Se de amor doces phrases eu soltava,

E febril seus cabellos desprendia,

De meus joelhos, douda, resvalava,

E beijando-me, Esther, cantava e ria.

 

Minha alcôva era um ninho perfumado,

E entre flores a vida me corria:

O socego perdi, enamorado

D’essa mulher, que ora cantava, ou ria.

 

Uma vez, n’uma ceia deslumbrante,

Entre o ruidoso estrepito da orgia,

Nos braços desmaiou d’um estudante:

Depois, deixou-me só... cantava e ria.

 

Que saudades eu tive! em meu caminho

Vi-a hontem passar, triste e sombria,

Solta na espádua a trança em desalinho:

Era a sombra de Esther, pois já não ria.


Gonçalves Crespo


Documento: Biblioteca nacional de Portugal

In A RAJADA, Lisboa – 15 de Janeiro de 1910

NOTA 1 (FONTE IA):

A ACTRIZ CECILIA NEVES

        A actriz Cecilia Neves foi, de facto, uma figura de destaque no teatro de revista e na comédia entre o final do século XIX e o início do XX, tanto em Portugal como no Brasil.

        A sua presença nas corridas de José Bento de Araujo (1851–1924) era um reflexo do prestígio social de ambos: as touradas de gala eram os grandes eventos mundanos da época, onde a classe artística e a aristocracia se cruzavam.

        Aqui estão mais detalhes sobre a actriz e essa ligação:

   Carreira entre Dois Mundos: Cecilia Neves integrou várias companhias de prestígio, como a de Rafael de Oliveira e a de Eduardo Pereira. No Brasil, brilhou em palcos como o Teatro Carlos Gomes e o Teatro Recreio no Rio de Janeiro, interpretando papéis marcantes como Mariana em «Amor de Perdição» (1914).

   Vedeta da Época: Em Portugal, foi uma das estrelas da peça «Vénus» no Teatro D. Amélia (actual São Luiz, Teatro Municipal), chegando a ser imortalizada em bilhetes-postais da época, o que demonstra a sua enorme popularidade.

   Presença nas Touradas: Naquela época, o "estrelato" não se limitava ao palco.

        As actrizes de sucesso eram figuras obrigatórias nas barreiras das praças de touros, especialmente nas corridas de José Bento de Araújo, que era o cavaleiro preferido da elite e da família real. A presença de Cecilia Neves era tão regular que se tornou parte da "crónica social" não escrita das lides de José Bento de Araujo.

   Cinema Mudo: Cecilia também teve uma incursão precoce no cinema, participando no filme «A Viuvinha do Cinema« (1917).

Essa associação entre a "estrela do palco" e o "mestre da arena" simboliza o auge do romantismo tardio em Portugal, onde o teatro e a tauromaquia eram os pilares do entretenimento público.

A relação entre os dois simbolizava o cruzamento entre as elites do espectáculo e da Festa Brava da época:

   O Cavaleiro nas Plateias: José Bento de Araújo era uma das figuras mais prestigiadas do toureio a cavalo, admirado pela sua elegância e "educação esmeradíssima". A sua presença assídua nos teatros onde Cecilia Neves actuava, como o Teatro Carlos Gomes ou o Teatro Trianon, era um evento social comentado nas crónicas da época.

O cavaleiro José Bento de Arujo
Documento: Museu Tauromáquico de Nimes, França (imagem restaurada pela IA)  

   A Actriz nas Bancadas: Por outro lado, Cecilia Neves era presença habitual nas corridas de touros em que o cavaleiro participava, tanto em Portugal (como na Praça de Touros de Sintra ou Algés) como no estrangeiro, onde o cavaleiro gozava de fama internacional. (NOTA DE Rui Araújo: José Bento de Araujo actuou em Espanha (Madrid, Barcelona, Bilbao, Caudete, San Sebastián, Santander, etc.), França (Paris, Arles, Avignon, Marselha, Mont-de-Marsan, Nimes, etc.), Brasil (Rio de Janeiro, Florianópolis, Belém, etc.) e quiçá Peru.)

   Contexto Cultural: Cecilia Neves integrou companhias de renome, como a de Leopoldo Fróes, e destacou-se em papéis dramáticos como Mariana em «Amor de Perdição» (1914) e em comédias como «A Viuvinha do Cinema». O apoio mútuo entre as duas carreiras alimentava a mística de um par que dominava as duas maiores paixões populares de então: o teatro de revista/drama e a tauromaquia.

        Este "intercâmbio" de públicos era uma marca da sociabilidade da época, onde as vedetas do palco e os "heróis" da arena partilhavam o mesmo círculo de admiração e prestígio.

NOTA 2 (FONTE WIKIPEDIA):

O POETA GONÇALVES CRESPO

•   António Cândido Gonçalves Crespo (Rio de Janeiro, 11 de Março de 1846 — Lisboa, 11 de Junho de 1883) foi um jurista e poeta português de influência parnasiana, membro das tertúlias intelectuais portuguesas do último quartel do século XIX. Nascido nos arredores da cidade do Rio de Janeiro, filho de mãe escrava, fixou-se em Lisboa aos 14 anos de idade e estudou Direito na Universidade de Coimbra. Dedicou-se essencialmente à poesia e ao jornalismo.