12 DE JANEIRO DE 1882 – LISBOA: CORRIDA OFERECIDA PELA PRAÇA DE TOUROS DO CAMPO DE SANT’ANNA A “ALFONSO XII, REY DE ESPAÑA” COM 3 CAVALEIROS PROFISSIONAIS, INCLUINDO JOSÉ BENTO DE ARAUJO, E OUTROS TANTOS AMADORES

 
Biblioteca nacional de Portugal

Visita dos reis de Hespanha — Festejos

            A tourada de hontem, em honra de suas magestades catholicas, e dada pela empreza Custódio Vidal, foi extraordinariamente concorrida. Não havia um camarote sem alugador, e nas trincheiras viam-se muitos espectadores por não chegarem os palanques de sombra e sol para a grande quantidade de gente que affluiu.

"CORRIDA DE TOROS ORGANIZADA POR EL CABALLEIRO DOS ANJOS: 
CABALLEROS EN LA PLAZA SALUDANDO Á SS. MM."
Desenho de J. Comba - La Ilustración Española y Americana - 30 de Janeiro de 1882 - BNE, Madrid.

            A tourada começou ás 2 horas, como estava annunciado, sendo as cortezias feitas pelos tres cavalleiros de profissão José (Casimiro Monteiro) e Antonio Monteiro, e José Bento d’Araujo.

            Na 1.ª parte o que houve de mais notavel foi o segundo touro passado de muleta, com verdadeira mestria, pelo bandarilheiro Roberto da Fonseca, que obteve extraordinarios applausos.

            Findo o intervallo, entrou na arena o sr. Tinoco (Alfredo Tinoco da Silva), á Marialva, e foi picado o 1.º touro com a valentia e denodo que aquelle dextro cavalleiro amador costuma exhibir.

            O empresario mendou então suspender por algum tempo o espectaculo para a chega de suas magestades os reis de Hespanha e os de Portugal. Como tardassem, foi a pedido do publico corrido o 2.º touro para capinhas, chegando as familias reaes na occasião em que este era recolhido.

            Quando os reis de Hespanha, a sr.ª D. Maria Pia, principes, e comitiva deram entrada no camarote real as bandas de caçadores 5, e dos cegos da casa pia tocaram o hymno hespanhol, descobrindo-se e ponde-se de pé todos os espectadores.

            Sua magestade el-rei o sr. D. Luiz não compareceu.

            Aos cumprimentos do publico corresponderam suas magestades com a affabilidade e fina delicateza que os distingue.

            Trocados os cumprimentos entre o publico e os monarchas, proseguiu o espectaculo, dando entrada na arena o dextro e elegante cavalleiro amador o sr. Alfredo Marreca e o sr. Tinouco,(Tinoco) que apesar de não lhe pertencer tourear mais de que um touro na 2.ª parte teve de aceder ao pedido dos espectadores, que sabendo que el rei D. Affonso dera em Madrid os mais evidentes testemunhos de apreço pela dextreza d’esse cavalleiro amador, quiz que o nosso hospede tivesse occasião de o ver mais uma vez trabalhar.

            O animal que os srs. Marreca e Tinoco tiveram de lidar não possuia as melhores qualidades; investia a custo, tomava querenças, (NOTA: O touro deixou de investir de forma franca e aberta no centro da arena, obrigando o cavaleiro a correr riscos para tirá-lo das tabelas.) e emfim só se prestava sendo muito citado.

            O sr. Alfredo Marreca foi mais feliz, innegavelmente porque o touro tinha mais vontade á côr do seu cavallo castanho do que ao russo do sr. Tinoco; de toso os modos o primeiro d’estes cavalleiros teve ensejo de fazer brilhantissima figura, como sempre, mettendo algumas farpas em sortes irreprehensivelmente executadas. O sr. Tinoco, sem desmerecer da sua dextresa, teve sim muitas palmas, porque as Merecia, mas pela razão que já indicámos, não poude metter egual quantidade de ferros á que metteu o sr. Marreca.

            Depois de mais um touro bandarilhado com muita arte pelos irmãos Robertos, e bem passado de muleta pelo Roberto da Fonseca entrou na arena o sr. Luiz do Rego, montado no seu brioso Léotard.

            Digamol o com a imparcialidade que costumamos sempre, o sr. D. Luiz foi quem teve as honras da tarde, e merecidamente.

            O touro era bravo e de muitas pernas; de ordinario investia sempre quando citado e não carregava; mas algumas vezes desmentiu estas qualidades tornando-se de sentido.

            O sr. D. Luiz do Rego soube aproveital o em sortes á meia volta e á tira, e pôz dois pares de ferros com arte e valentia inexcediveis.

            A ultima d’estas sortes produziu uma extraordinaria ovação ao arrojado amador. O touro achava se entrincheirado junto á porta dos cavalleiros, quando citado não investia, mas partindo inesperadamente,  quando o habil amador se achava a maeio da praça foi recebido com valentia pelo denodado cavalleiro que o castigou n’uma esplendida sorte á garupa, mas executada com audacia e perfeição tal, que o publico irrompeu n’uma ovação que se approximava muito do delirio.

            Quando saiam os tres cavalleiros de profissão para picarem o toiro que lhes pertencia na segunda parte, appareceu o cavalleiro Manoel Mourisca offerecendo os ferros.

            O publico pediu logo que Mourisca picasse o touro, tendo os 3 cavalleiros que se achavam na praça a delicadeza de lhes offerecerem os seus cavallos. Mourisca não aceitou e indo buscar o cavallo em que o sr. Marreca trabalhara, voltou e lidou bem o animal que se achava na arena, e que então já tinha recebido dos 3 cavalleiros alguns ferros muito bem postos.

            Peixinho executou com luzimento o salto da vara, e todos os capinhas trabalharam bem, sobresahindo os Robertos.

            Houve a má idéa de mandar pegar um touro, contando-se para isso com uns forcados que se achavam nas trincheiras; com o que não se contou foi que muitos outros individuos saltassem tambem, estabalecendo se assim a confusão.Afinal o touro foi pegado mal por um dos moços do curro.

            Em conclusão, o gado saiu regular, e a funcção esteve animada, não saindo o publico descontente, apesar d’algumas irregularidades.

            In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 13 de Janeiro de 1882