1 DE MAIO DE 1881 – LISBOA: O CAVALEIRO JOSÉ BENTO DE ARAUJO (29 ANOS DE IDADE) BRILHA NA SEGUNDA CORRIDA DA TEMPORADA NA PRAÇA DA CAPITAL...

 
Biblioteca nacional de Portugal

Tauromachia

            Realisou-se hontem a segunda corrida da época tauromachica na praça do Campo de Sant’Anna.

            Não se pode dizer que o curro saisse bravissimo: no entanto, em geral, o gado não era mau, porque, se houve alguns touros cobardes ou de outras condições más para o toureio, outros sairam muito bravos.

            Foram cavalleiros Antonio Monteiro e José Bento (de Araujo).

            O primeiro d’estes artistas, se nem sempre fez o que poderia faszer em tarde mais feliz, comtudo alcançou palmas algumas vezes justas.

            José Bento (de Araujo) está um cavalleiro muito apreciavel; o publico fez-lhe justiça, applaudindo-o.

            No primeiro touro que lhe coube, que foi o 5.º da primeira parte, realisou uma sorte de gaiola irrprehensivelmente executada.

            Valeu-lhe isso uma ovação.

            Metteu ainda mais alguns ferros as sesgo e á meia volta, todos bem.

            O touro que lhe pertenceu na 2.ª parte era ruim e não lhe permittiu que brilhasse.

            Repetimol-o, José Bento (de Araujo) está um cavalleiro muito digno de apreço, e tem feito visiveis progressos.

            Robertos sempre á altura da fama de bons toureiros. Ferros postos com arte e elegancia, e consciencia no trabalho.

            Roberto da Fonseca obteve uma ovação no trabalho da muleta executado no 7.º touro, que lhe pertenceu e a seu irmão.

            Peixinho trabalhou muito bem e foi applaudido.

            Calabaça, que é um bom artista, mas que na época passada parecia ter esfriado um pouco no interesse pela arte, está este anno um artista de primeira ordem, no trabalho das bandarilhas. Outro tanto, com franqueza, não lhe dizemos em relação ao trabalho do capote.

            Os restantes fizeram diligencia por agradar e conseguiram-o.

            E já que estamos dizendo o modo porque se houveram os capinhas, cumpre-nos pedir providencias com respeito ás caidas de capa. Na primeira parte da corrida correu bem n’esse sentido, mas na segunda chegou-nos a parecer a arena uma especie de feira da ladra.

            Evite-se esta irregularidade que entre outros inconvenientes tem o de estragar a cabeça aos touros pondo-os em pessimas condições para a lide.

            A empreza, esperamol-o, ha de fazer as suas recommendações para que tal se não repita.

            O publico, emfim, retirou-se satisfeito.

            A direcção foi acertada.

            A casa estava boa.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 2 de Maio de 1881