Alfredo Tinoco da Silva
Quem ha ahi que o não conheça?
Percorram toda a cidade, perguntem a toda a gente desde Santa Apolonia até Alcantara e desde Arroyos ao Caes dos Soldados, se conhece o Tinoco.
Nem um só dirá que não.
Todos o
conhecem e todos sympathisam com elle.
Quando passa na rua com a sua physionomia sympathica e insinuante
com aquelle seu modo de andar elegante e distincto, com o seu sorriso
habitual, um sorriso amavel, um sorriso que agrada, um sorriso que captiva,
os transeuntes acotovelam-se dizendo:
— É elle, é o Tinoco!
— Qual? Qual?
— Este que vae aqui para baixo.
— É verdade! olha, olha, é o Tinoco.
Outras vezes:
— Vês este, vês este de chapeu alto? é o Tinoco!
— É elle é. Ó rapazesm, olhem o Tinoco.
— Ó meninos, é o Tinoco.
Isto succede todos os dias, elle se o quizer confessar que o diga.
Quantas vezes, passando pelas ruas, ouve elle murmurar estas tres palavras:
— É o Tinoco!
É que não ha inguem mais popular.
Se um dia quizer propor-se a deputado, dou mais pela sua eleição, do que pela do candidato do governo, seja qual for.
E como adquiriu elle este pretigio? Como foi, não me dirão?
Quando ha annos eu o conheci no Lyceu Francez com os livrinhos debaixo do braço, quando elle estudava a historia de Portugal de Midosi e eu o systema metrico de Moreira de Sa, quem me diria a mim que aquelle rapaz — o n.º 122 ou 123, não sei bem, — viria a ser tão fallado, tão estimado e tão querido da nossa gente!
Quando o via entrar acanhado no collegio, mal diria eu que, d’ali a annos haveria de despertar tanto enthusiasmo no nosso publico.
Parece-me ainda estar a vê-lo, acanhado, timido, dando voltas em redor do professor, elle que hoje as dá sem medo em redor do 69 ou do Pimpão.
Elle que n’outros tempos receiava uma pergunta de corographia, não teme hoje a investida d’um touro.
Não quer isto dizer que não estudasse, pelo contraio, estudava bastante, o que elle era n’esse tempo, era muito timorato e... muito cabula.
Depois d’isso começou a deixar-se arrastar pela pandega, pela dourada pandega, e um dia vejo eu annunciado o seu nome nos cartazes da praça do Campo de Sant’Anna. Eram cavalleiros — o marquez de Castello Melhor, o marquez de Bellas e D. José de Avillez; mais abaixo d’estes nomes lia-se:
NETO
Alfredo Tinoco da Silva
Fez-me especie quando vi o seu nome.
É elle !
Não é elle!
É por força. Não ha outro. Era capaz d’isso. E fui vel-o.
Que brilhante estreia. Quasi que tive vontade de saltar da trincheira e de lhe dar um abraço! Não saltei porque tive medo do touro!
Que neto, que neto aquelle! Sabia tanto d’aquillo que mais parecia o avô.
Depois d’isto, segue-se uma carreira infinita de ovações e de enthusiasmos despertados por elle.
Agora dou-lhe um doce se me disser alguma coisa do systema metrico.
Dou-lhe um doce, disse eu? Dou-lhe um confeiteiro em peso!
Lá do systema metrico aposto já que elle não se lembra! Do resto não digo nada, creio que sim.
Se entre nós o seu nome se tem popularisado, em Hespanha todos tambem o conhecem, tal foi a brilhante figura que elle fez em Madrid e acaba de fazer agora em Badajoz, ao lado de Carlos Relvas, tambem um amador distincto dos mais distinctos da peninsula.
Quando Tinoco entra na arena não se imagina a satisfação, a alegria que tem o publico; os corações enchem-se d’um jubilo, d’um prazer indescriptivel; quando elle cita para uma sorte, ficam todos suspensos, quando a termina corrompe tudo n’um applauso, que o illustre afficionado póde ser a certeza que é sincero.
O seu garbo, a sua pericia, a sua distincção, a sua elegancia, os seus conhecimentos de equitação fazem lembrar o conde dos Arcos de quem Rebello da Silva diz:
«O conde dos Arcos, entre os cavalleiros, era quem dava mais na vista. O seu trajo, cortado á moda da côrte de Luiz XV, de veludo preto, fazia realçar a elegancia do corpo. Na golla da capa e no corpete sobresaiam as finas rendas da gravata e dos punhos. Nos joelhos as ligas bordadas deixavam escapar com artificio os tufos de cambraeta alvissima. O conde não excedia a estatura ordinaria, mas esbelto e proporcionado, todos os seus movimentos eram graciosos. As faces eram talvez pallidas de mais, porém animadas de grande expressão e o fulgor das pupillas negras fuzilava tão vivo e por vezes tão requebrado, que se tornava irresistivel. Filho do marquez de Marialva, e discipulo querido de seu pae, do melhor cavalleiro do Portugal, e talvez da Europa, a cavallo, a nobreza e a naturalidade do seu porte enlevavam os olhos. Elle e o corsel, como que ajustados em uma só peça, realisavam a imagem do centauro antigo.
A bizarria com que percorreu a praça, domando sem esforço o fogoso corsel, arrancou prolongados e repetidos applausos.»
A sua carreira de amador tem sido uma serie não interrompida de applausos; nunca o vi entrar na praça que não saísse victorioso.
Em Madrid, então, causou verdadeiro fanatismo. Os jornaes diziam cousas extraordinarias a seu respeito; nunca amador algum conseguiu egual successo.
Nas nossas praças figura a par de Castello Melhor e de Vimioso, excedendo os por vezes e não se deixando nunca offuscar pelo brilho da sua nomeada.
O seu nome figura ao lado dos d’aquelles dois illustres amadores, que se o vissem farpear teriam por certo o mesmo grande enthusiasmo que actualmente se apossa de nós.
E terminando estas breves linhas escriptas para acompanhar o seu retrato, hoje dia da sua festa, enviamos ao nosso amigo um sincero aperto de mão e um bravo pelos brilhantes triumphos que tem tido sempre e oxalá continue a ter.
Antonio de Menezes
In DIARIO ILLUSTRADO – 26 de Junho de 1882

