Visita dos reis de Hespanha — Festejos
Á 1 hora da tarde de hontem chegou á estação de Lisboa o comboyo que conduzia os reaes visitantes.
A gare, conforme dissemos hontem, achava se vistosamente adornada, sobresaindo as côres hespanholas e portuguezas, e os brazões de Portugal, Italia, Hespanha e Austria.
A banda da guarda municipal achava-se na extremidade da gare.
O nosso monarcha, seu augusto pae el-rei o sr. D. Fernando e o principe real D. Carlos entraram na estação pouco antes da chegada dos regios visitantes.
Na plataforma do sul estavam cerca de 600 pessoas, entre as quaes figuravam camaristas e ajudantes de serviço, officiaes móres, pares, deputador, altos funccionarios, generaes de terra e mar, representantes da côrte, e muitos hespanhoes.
A platafórma norte, para a qual a companhia dos caminhos de ferro fez convites por meio de bilhetes achava se completamente cheia de senhoras, que se assentavam em quatro ordens de cadeiras a todo o comprimento da platafórma, estando o resto do espaço todo cheio de cavalheiros.
Apenas chegou o comboyo real, el-rei D. Affonso, saindo da sua carruagem, abraçou el-rei o sr. D. Luiz.
O rei de Hespanha vestia a farda de capitão general. D. Maria Christina trajava vestido de velludo azul, chapeau de pellucia branca com plumas da mesma côr.
Na gare foram apresentados, na sala do throno, a suas magestades catholicas, por el-rei D. Luiz, alguns dos srs. Ministros, camaristas, ajudantes de campo, officiaes ás ordens, e altos funccionarios do paiz.
Decorridos alguns minutos de descanço, as pessoas reaes dirigiram-se para as carruagens ricas de gala, que as esperavam.
Seguiu então o cortejo, indo na frente um esquadrão de lanceiros, precedendo-o uma carruagem da casa real, onde ia o sr. duque de Loulé, e depois mais seis carruagens, tiradas umas a duas e outras a tres parelhas, com os camaristas portuguezes e hespanhoes.
Seguia-se então a carruagem dos reis.
Os reis de Hespanha tomavam assento no logar do fundo, tendo á frente el-rei D. Luiz e sua alteza real o principe D. Carlos. Á estribeira ia o sr. infante D. Augusto, commandante da brigada.
Á carruagem real seguia o regimento de lanceiros 2 e o de cavallaria 4, e após esta força a carruagem d’el-rei o sr. D. Fernando, carruagens de ministros, corpo diplomatico, funccionarios, alguns trens particulares e diversos cavalleiros.
A guarnição formou desde Santa Apoloniaaté a rua do Arsenal. Em Belem estava postada junto do palacio uma força para fazer as honras devidas aos regios visitantes.
A concorrencia pelas ruas era enorme. As janellas achavam-se apinhadas de senhoras.
Em todo o trajecto suas magestades foram respeitosamente cumprimentados, mostrando assim o povo de Lisboa, que sabe acolher com a delicadez que lhe é tradicional, os seus visitantes.
Os nossos reaes hospedes eram esperados no paço de Belem por sua magestade a rainha a sr.ª D. Maria Pia, acompanhada de todas as suas damas de honra. A sr.ª D. Maria Pia fez a apresentação de cada uma das suas damas.
A parte do palacio destinada aos soberanos, compõe-se dos seguintes aposentos:
1.º A sala dourada, em cujo tecto se admirar excellentes quadros e ornamentos.
Esta sala tem resposteiros, cortinas e guarnições escarlates, grandes espelhos e mobilia antiga. Ao lado está um singelo oratorio.
2.º A sala de jantar, com dois grandes consolos dourados com espelhos antigos, e guarnição moderna, toda de mogno.
3.º A sala da recepção mais rica com mobilia, antiga e moderna, esta de forro escarlate, e a outra amarella; as guarnições e decorações são amarellas.
Ha n’esta sala um bonito relogio antigo de Lenoir, jarrões grandes de Sèvres, antigos jarrões da China, cestos e outras louças da Saxonia, um esplendido étagère antigo, com espelhos, com embutidos e figuras de metal. Dois armarios, antigos, um dos quaes, tem delicadas pinturas. Uma secretaria grande com embutidos, obra portugueza dada a el rei D. Pedro V.
N’esta secretaria, muito curiosa, leem-se em medalhas os nomes dos nossos principaes generaes, navegadores e homens de letras; o nome das mais importantes batalhas ganhas pelos portuguezes, e ainda muitos outros disticos allegoricos.
A meza do centro tem um rico panno, branco e outro. É n’esta sala que está o piano.
4.º Segue-se o quarto do rei D. Affonso, com mobilia e guarnições azues, espelhos e cama de metal amarello. Contiguo, o quarto de toilette, gosto moderno, com todos os pertences necessarios.
Um grande espelho dourado reveste inteiramente a parede do topo do quarto.
Estas salas e o quarto e toilette de el-rei, abrem todas sobre os jardins e terraços, e disfructam a magnifica vista do Tejo.
5.º O quarto de el rei está separado do quarto da rainha, pelas antigas salas de baile onde se davam as recepções e soirées no tempo da rainha a sr.ª D. Maria II.
Esta sala branca e dourada conserva toda a sua simplicidade; apenas está adornada com placas e vasos de flores.
6.º O quarto da rainha, que segue, como dissémos á sala do baile, e deitam as janellas para a calçada da Ajuda, está guarnecido de damasco amarello, com reposteiros de lhama de ouro. (NOTA: Tecido luxuoso) A cama é antiga, do principio d’este século, com, seu docel, muito rico, que pertenceu á sr.ª D. Carlota Joaquina, da mobilia mixta, antiga e moderna, consolos, mesa de centro. Chaise longue, armario de espelho, candelabros, e relogio, tudo dourado e muito rico. Contigua,e a seguir para a banda do jardim, está uma pequenina sala, de gosto moderno, em jacarandá, com estofo e guarnições amarellas, e ao lado d’esta, o quarto do toucador, bastante simples. Proximos os aposentospara as pessoas do serviço immediato da rainha.
Por toda a parte vasos, flores, lindas camelias, muitos arbustos, muitos luestres, candelabros, serpentinas, a luz a jorros, n’aquellas grande salas.
No vestibulo, nas escadarias guarnições luxuriantes de verdura, e de flores, cadeiras antigas de couro, bufetes de pau santo, quadros, bustose estatuas.
Por delicada manifestação de affecto de sua magestade a rainha D. Maria Pia, vêem-se no quarto da rainha de Hespanha, e nas salas e gabinetes, sobre consolos e etagéres, (NOTA: étagères)diversas photographias com retratos de pessoas das familias dos augustos viajantes.
Os ministros, e o pessoal da casa civil e militar do rei, ficam alojados nos aposentos chamados do picadeiro, communicando com os jardins e tendo a sua entrada principal pela escadaria que dá para a Praça de Belem.
As senhoras são alojadas no segundo pavimento, nos quartos chamados da Arrabida.
Pouco depois das 8 horas da noite, serviu-se no palacio da Ajuda o jantar.
A meza foi de cento e tantos talheres, achando-se esplendidamente servida com a rica baixela da casa real. (NOTA: “Baixela” é um serviço de mesa em prata.)
O aspecto da sala era magnificente.
Além da comitiva dos reis de Hespanha, foram convidados os officiaes de serviço, camaristas, e veadores, ministros, corpo diplomatico, damas de sua magestade a rainha, officiaes-móres, etc.
O menu era delicadissimo.
É de presumir que possamos dar noticia minuciosa d’este jantar.
Os reis de hespanha almoçam hoje na legação hespanhola, onde receberão os cumprimentos da colonia. Em seguida dirigir-se-hão para o hypodromo de Belem, para assistirem ás corridas que lhes são offerecidas pelo Jockey Club.
Á noite ha recepção de gala e baile no palacio da Ajuda e illuminação na esquadra portugueza surta no Tejo.
Ámanhã realisa-se a inauguração da exposição da arte ornamental.
De tarde ha tourada (NOTA: Praça do Campo de Sant’Anna) offerecida pela empreza Custodio Vidal, e na qual tomam parte como cavalleiros, os eximios amadores Alfredo Marreca, Alfredo Tinoco (da Silva), e D. Luiz do Rego, e os cavalleiros de profissão José Maria Casimiro Monteiro, Antonio Maria Monteiro e José Bento de Araujo, e os principaes capinhas portuguezes.
Á noite ha recita de gala no real theatro de S. Carlos.
No domingo, dia em que realisa a tourada offerecida aos reis de Hespanha pelo sr. Alfredo Anjos, (NOTA: Alfredo Ferreira dos Anjos, era um abastado aristocrata, empresário e cavaleiro amador. O título de Conde de Fontalva ser-lhe-ia concedido mais tarde, em 1898, pelo rei D. Carlos I, consolidando o seu estatuto na nobreza portuguesa.) os reis de Portugal e os seus hospedes virão de Belem por mar nas galeotas, acompanhados pelos escaleres dos navios de guerra surtos no Tejo, até ao arsenal da marinha.
A corrida offerecida pelo sr. Alfredo Anjos é revestida do maior luzimento.
Os cavalleiros e lidadores terão padrinhos, á moda do que se fazia nas antigas touradas reaes e que hoje ainda é uso em Hespanha.
Sua magestade el rei D. Luiz será padrinho do sr. Alfredo Anjos; o sr. conde das Galvêas, do sr. D. Antonio Galvêas; o sr. conde da Guarda do sr. Antonio de Portugal; o sr. conde de Mesquitella, do sr. Vellez Caldeira; o sr. Alfredo Anjos, do sr. Henrique Martins.
Os cavalleiros farão as cortezias indo o sr. Anjos no seu cavallo Rialta; D. Antonio de Portugal no Emir, do sr. infante D. Augusto; D. Antonio Galvêas, n’um cavallo do sr. conde das Galvêas; Vellez Caldeira, n’um cavallo do sr. Carlos Éugenio de Almeida; e o sr. Henrique Martins no cavallo Pegáso, do sr. Anjos.
A tourada começa ao meio dia. Serão corridos 12 touros, pertencentes ao sr. D. Caetano Bragança.
O sr. Anjos mandou adornar a praça e fazer doze moñas para os forcados; (NOTA: As “moñas” eram laços ou rosetas de cores vivas em seda ou cetim, que se prendiam à indumentária dos forcados para as corridas de gala.) corôas para offerecer aos cavalleiros e bouquets para os bandarilheiros e moços do curro.
Os cavallos que entram na lide comparecerão ás cortezias, levados á mão por criados da casa real.
O batalhão collegial traz á parada quatro pelotões de 25 filas cada um e os respectivos officiaes.
A força total é de approximadamente 200 collegiaes.
Esta força marchará como a divisão em columna aberta de pelotões.
E-rei o sr. D. Luiz convidou a sua reverencia o cardeal-bispo do Porto para assistir ás festas da côrte em honra dos monarchas hespanhoes. Sua eminencia acha-se já em Lisboa.
É grande a affluencia de visitantes hespanhoes em Lisboa. Das nossas provincias tem chegado enorme quantidade de gente.
Os hoteis e hospedarias não teem nem um quarto para alugar. Acham-se muitas familias accommodadas em quartos particulares.
Illuminaram hontem alguns edificios, o palacio da legação hespanhola e algumas casas particulares.
In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 11 de Janeiro de 1882

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