18 DE JUNHO DE 1882 - LISBOA: UMA CORRIDA «IRREGULAR» E AO MESMO TEMPO «INTERESSANTE» NA PRAÇA DO CAMPO DE SANT'ANNA

 
Biblioteca nacional de Portugal

Tauromachia

            Foi muito irregular mas ao mesmo tempo interessante a corrida de domingo na praça do Campo de Sant’Anna, em beneficio de Manuel Mourisca.


O cavaleiro Manoel Mourisca.
FOTO: Revista Serões - BNP (Tratada por IA)

            O gado era desegual. Appareceram alguns touros muito bravos e mesmo puros, outro de mas qualidades, matreiros ou cobardes.

            Mourisca, comquanto sempre correcto, só brilhou no 1.º touro da 2.ª parte. Em compensação trabalhou com inexcedivel mestria.

            O animal era muito bravo, de grande corpo, e rapido mas sabido. Mourisca lidou o a ferros curtos, aproveitando a sorte de gaiola de uma maneira tão distincta como ha muito não vimos, e merecendo por isso uma ovação.

            Todas as restantes bandarilhas com que enfeitou o animal foram collocadas conforme os preceitos da arte e em sortes arrojadas. Depois de recolhido o touro, foi o cavalleiro chamado, applaudido e brindado com alguns presentes e flores.

            José Monteiro (José Maria Casimiro Monteiro) apenas teve um touro, mas de ruins qualidades, que enfeitou com um ferro muito bem collocado. José Bento (de Araujo) e Antonio Monteiro (Antonio Maria Monteiro) tiveram, além dos touros que lhes coube em competencia com os capinhas, um bello touro salgado para picarem sorte a sorte. O animal era bravo, mas difficil; era preciso lidal-o com cautela, mas a verdade é que não o aproveitaram bem, sendo talvez a verdadeira causa d’isso os cavallos negarem se um pouco.

O cavaleiro José Maria Casimiro Monteiro.
FOTO: Revista Serões - BNP - BNP (Tratada por IA)

            Robertos e Peixinho distinguiram-se.

            O torneio devia ser de 15 touros, mas os espectadores tiveram de se contentar com 12 porque assim o determinou o 11.º bicho.

            O episodio não foi mau. O touro negou-se a ser recolhido, tomou querença no meio da praça e não havia maneira de arrancal-o d’ali. Conseguiram laçal-o, mas mal; mas o bicho de tal fórma sacudiu o laço que conseguiu libertar-se d’elle, ficando desembolado. Afinal foi Peixinho quem teve arte para o laçar deveras.

            Era já noite quando saiu o 12.º touro em que Mourisca devia metter a pé um par de bandarilhas. Apesar da escuridão ainda conseguimos vêr Mourisca dar um trambulhão quando pretendeu metter os ferros no animal.

            Acreditamos que sabe metter um par de bandarilhas, mas a fallar a verdade ás escuras, só pelo desejo de cumprir o programma.

            De todos os modos um conselho: toureie a cavallo, e deixe-se de bandarilhar a pé; é mestre como cavalleiro, é apreciado e applaudido pelo publico, e não precisa para attrair concorrencia e para alcançar applausos de andar aos trambulhões pela arena.

            A concorrencia foi grande.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 20 de Junho de 1882