Biblioteca nacional de Portugal
TOURADA
(Notas d’um espectador)
A inauguração das touradas nocturnas constituiu sem
duvida alguma, um grande acontecimento tauromachico. Os esforços que a arrojada
empreza desenvolveu foram coroados do melhor exito. Albino José Baptista e
Lacerda devem estar satisfeitissimos não só pela enorme concorrencia do publico,
como pelo conjuncto de circunstancias que cooperaram para abrilhantar essa
interessante e aprazivel festa.
A illuminação electrica é primorosa pela grande
quantidade de lampadas e pela sua artistica disposição. Os mais ligeiros contornos
de architectura arabe da praça estão postos em relevo e na arena vê se tão bem,
tão claro, como se fora dia. Accresce que a corrida tendo os attractivos d’este
genero de espectaculos não foi prejudicada nem pelo calor, nem pela poeira, nem
pelos reverberos intensos da luz do sol em pleno estio.
Um encanto.
O programma da festa foi executado á risca e todos
cumpriram, todos, desde os artistas... até aos touros!
A praça trasbordava de espectadores e os applausos foram
unanimes.
Sem sermos aficionados de cartel, as corridas de touros,
interessam-nos e prendem-nos o espirito. Alguns ha a quem já teem prendido o
corpo; a nós nunca.
Ha-de haver uma duzia d’annos distribuiranos o papel de
moço de curro, n’uma tourada de amadores, em uma cidade do Alemtejo. Ficamos
mal vistos mas desistimos. Com franqueza, achamos preferivel lidar com Sckespeare (NOTA: Shakespeare) ou Molière
do que com... cornupetos!
É que para nós se — fazer mal aos animaes, é indicio de
mau caracter — correr e farpear um touro, animal tão nobre, é um acto não só
violento como incorrecto. Agrada, é certo, ver a arte subjugar a força;
mas com os demonios! Nos antigos circos romanos, por exemplo, nos combates dos
gladiadores, vencedores ou vencidos, todos, todos, quando saudavam o Imperador,
— Avé Cezar, moriturite salutand (NOTA: A formulação correcta é Ave, Caesar, morituri te salutant. Em Português:
«Ave, César, os que vão morrer te saúdam!»), já d’antemão sabiam o quarto d’hora
que os esperava; o boi não!
Quando os campinos vão alli, ás pastagens do ribatejo,
apartar os touros, nas manadas do Palha Blanco ou do João Patricio, quando vão
arrancar os animaes ao seu socego, ao seu remanso, sabem estes por ventura,
pensam por acaso qual o fim de similhante incommodo e impertinencia?!
Ora ponhamos o caso, salvo seja, em qualquer alma
christã?! .. Ponderemos, raciocinemos... sim... É por isso que nós quando
assistimos a uma corrida, já não falo em Hespanha, referimo-nos a Portugal...
nós concordamos que o touro é uma victima da crueldade humana!
Confessemos, porém, que temos estima e apreço pelos
artistas tauromachicos portuguezes e com alguns, mantemos relações mais do que
cortezes, relações até amistosas. Mas, a lucta é desigual e para o nosso ponto
de vista o ruminante é o mais fraco. Quando vemos na praça o touro aborrecido,
exasperado, marrando para a direita e para a esquerda, investindo com raiva,
tomando crença... tudo achamos justo e comprehensivel! Por vezes ha touros tão
teimosos, que parecem ter cabeça de burro; é logico!
Ora de de que na lide, o artista adestrado, sabe o que
lhe cumpre fazer e o touro ignora, aquelle tem os recursos da sua profissão, e
este sómente os expedientes proprios dos seus impetos e da sua força, resultam
sem duvida alguma d’esta desvantagem, as peripecias mais estranhas e
imprevistas. Ha exemplos, de por vezes o touro, perder as estribeiras, — perdôem
nos o plebieismo — e atrever se a colher...
os intestinos do seu contendor. Em Hespanha este caso é vulgar.
Concordemos que em contraposição á profunda arte dos dustros
(NOTA: ilustres) os touros, por vezes
são verdadeiras boite á surprises. (NOTA: "boîte à surprises "? As expressões mais comuns em França no século
XIX eram: "Pochette-surprise", "Boîte à malice" ou "Boîte de Pandore".).
D. João da Camara, (NOTA:
O dramaturgo e escritor D. João Gonçalves Zarco da Câmara (1852–1908) foi o
primeiro português nomeado para o Prémio Nobel da Literatura (1901) e é um dos
maiores dramaturgos do século XIX, a sua ligação à tauromaquia é cultural e
histórica) contou nos, que um amigo seu, depois de haver lido, estudado, manusiado
com afinco e constancia a arte do toureio
do grande Montes, (NOTA: O título exacto
do tratado que define a lide moderna é «TAUROMAQUIA COMPLETA – Ó SEA EL ARTE DE
TOREAR EN PLAZA, TANTO A PIE COMO A CABALLO» (1836). Este livro foi escrito por
Francisco Montes, mais conhecido por "Paquiro". O original da obra
pode ser consultado aqui: https://www.gutenberg.org/files/63030/63030-h/63030-h.htm)
se offereceu, para n’uma corrida de amadores lidar um touro.
Chegou o dia, a hora, o momento e o bandarilheiro amador,
na artena, depois de haver salivado as farpas das bandarilhas, cheio de si,
conscio dos seus conhecimentos artisticos, citou o animal, mediu com a vista o
ponto onde lhe cumpria quadrar-se com elle, o lado porque devia sahir, em summa
a maneira de rematar a sorte, e eil-o ahi vae, lepido, de braços erguidos para
a cabeça do touro, que investindo com o joven, o atira aos ares, marra-lhe á
vontade e após im derradeiro coice deixa-o estatelado na arena.
Frascuelo (NOTA:
Don Salvador Sánchez Povedano, más conocido como Frascuelo, nació en Churriana
de la Vega, Granada el 23 de diciembre de 1842 y murió en Madrid el 8 de marzo
de 1898. Torero español. Tomó la alternativa en Madrid el 27 de octubre1867 de
manos de Cúchares y se distinguió por su valentía y por su dominio del estoque. In"Ayuntamiento de Granada") em erva recolhe á enfermaria da praça com
uma costella partida, e após larga convalescença em casa, no seio da familia,
lamentava-se ao glorioso auctor dos Velhos.
— Ora... Succeder muito... e mim... que tantas horas
passei a estudar o livro de Montes!
— Pois sim, rematou D. João; mas... o boi é que não
sabendo ler desconhecia a arte do toureio.
Na corrida de hontem todos cumpriram e até os touros bos
deram a impressão de haverem lido o celebre livro de Montes!
Os cavalleiros satisfizeram; ambos são garbosos sobre as
selas dos seus ginetes.
Os toureiros portuguezes rivalisaram nas bandarilhas com
os artistas hespanhoes.
O espada Regaterín é um artista distincto. Manejando a
muleta com desembaraço e acerto, preparou os touros que lhe couberam, e com o
estoque na mão simulou com pericia a morte das feras. Ninguem se perturbou com
isto, por que todos sabiamos que as estocadas... eram, como se costuma dizer,
para inglez vêr.
Portanto não houve sustos, as damas conservaram-se
tranquillas e sómente, n’um camarote, perto do nosso, para as bandas da
tribuna, é que durante as peripecias das pégas
uma formosa senhora, Madame X., morena, com os olhos negros, aveludados,
trajando um lindo vestido marron foncè
(NOTA: marron foncé) de mangas e
collo de rendas velava a cara, tapando os olhos com a contornada mão. Nós, observando
o susto aliás justificado, desviamos a attenção das cambalhotas dos forcados,
para pensarmos nas pulsações alteradas... d’aquelle sensivel coração.
O Senhor D. Affonso assistiu
á corrida.
16 de julho de 1909.
A. De M.
In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa
– 17 de Julho de 1909