Biblioteca nacional de Portugal
Manuel Mourisca
É
definitivamente depois de ámanhã quinta feira que se realisa a festa artistica
de Manuel Mourisca.
A esta
festa, protegida pela primeira sociedade, assistem suas magestades al altezas,
que assim dão testemunho do apreço em que teem o denodado e habilissimo
cavalleiro tauromachico.
O cavaleiro Manoel Mourisca
FOTO: Serões. Biblioteca nacional de Portugal (Tratada por Ia)
Bastaria
esse interesse para que houvesse o maior empenho pela famosa funcção. Dá-se,
porém a circunstancia de que se reunem attractivos taes que não é facil depois
d’esta qualquer outra tarde reunir melhor attractivo.
Treze touros
do mais afamado dos lavradores, o sr. Emilio Infante; Casimiro Monteiro, o
cavalleiro feliz da epoca, e José Bento
(de Araujo), o arrojado lidador sempre applaudido. Quanto a bandarilheiros,
tudo o que ha de melhor.
Vamos porém
á alta novidade:
Um touro lidado em pontas.
Este piteu que os amadores desejaram sempre, mas
que nunca apanharam, etá guardado para quinta feira.
Disseram-nos
que o touro desembolado será lidado pelos Robertos e Peixinhos.
É um
trabalho bem confiado.
Emfim, a
tourada é das taes que não consentem que qualquer amador fique em casa.
Os
srs. drs. Agostinho Lucio (da Silva) e Antonio Castello Branco foram hontem
recebidos pelo ministro da justiça.
In DIARIO ILLUSTRADO,
Lisboa - 19 de Agosto de 1884
NOTA
Agostinho
Lucio da Silva era médico (cirurgião) e Antonio Castello Branco jurista. Eram deputados da nação.
Para a
corrida do dia 21 de Agosto de 1884, a comissão promotora (que ambos integravam)
queria apresentar touros desembolados (com as pontas limpas), algo que atraía
muito mais público e, consequentemente, geraria receitas muito maiores para o Asylo de Maria Pia (que acolhia centenas
de crianças pobres e/ou orfãs no Palácio de Xabregas).
A ida ao Ministério: Os dois homens foram pedir no dia 18 ao ministro da Justiça,
Lopo Vaz de Sampaio e Melo, uma autorização especial ou tolerância excepcional
da autoridade civil para que os touros pudessem ser corridos desembolados na dita tourada de
quinta-feira, dia 21.
Após
intensas negociações e a intervenção directa no dia 18 de agosto, o espectáculo
da Praça de Touros do Campo de Sant’Anna
foi autorizado.
Os relatos da época
destacam:
Casa cheia, reis e alta sociedade: A moldura humana foi impressionante. A presença de
figuras de relevo da política regeneradora e da aristocracia lisboeta garantiu
que o evento fosse considerado o grande acontecimento social da semana na
capital.
O comportamento dos touros: O público, entusiasta e exigente, aplaudiu a valentia
dos bichos apresentados pela comissão. A autorização especial garantiu a emoção
que a assistência tanto procurava nas arenas do século XIX.
Sucesso financeiro: O objectivo
principal da audiência liderada por Agostinho Lucio e Antonio Castello Branco foi
plenamente alcançado. A receita angariada foi considerada excelente para os
cofres do Asylo de Maria Pia, preservando o plano de assistência social da
comissão para os meses seguintes.
Esta
combinação de espectáculo taurino, política e caridade institucionalizada era
uma marca profunda da Lisboa do final do século XIX, onde até os regulamentos
de segurança pública podiam ser negociados em nome da grande benemerência do
reino.