29 DE JUNHO DE 1882 – LISBOA: ALFREDO TINOCO DA SILVA, OUTRO GRANDE CAVALEIRO TAUROMÁQUICO DE SEMPRE

 

O grande cavaleiro tauromáquico era amigo e foi várias vezes sócio de José Bento de Araujo.
GRAVURA: Diário Illustrado, Lisboa - Biblioteca nacional de Portugal (Tratada por IA) 

Alfredo Tinoco da Silva

            Quem ha ahi que o não conheça?

            Percorram toda a cidade, perguntem a toda a gente desde Santa Apolonia até Alcantara e desde Arroyos ao Caes dos Soldados, se conhece o Tinoco.

            Nem um só dirá que não.

            

            Todos o conhecem e todos sympathisam com elle.

 

            Quando passa na rua com a sua physionomia sympathica e insinuante

com aquelle seu modo de andar elegante e distincto, com o seu sorriso

habitual, um sorriso amavel, um sorriso que agrada, um sorriso que captiva,

os transeuntes acotovelam-se dizendo:

            — É elle, é o Tinoco!

            — Qual? Qual?

            — Este que vae aqui para baixo.

            — É verdade! olha, olha, é o Tinoco.

            Outras vezes:

            — Vês este, vês este de chapeu alto? é o Tinoco!

            — É elle é. Ó rapazesm, olhem o Tinoco.

            — Ó meninos, é o Tinoco.

            Isto succede todos os dias, elle se o quizer confessar que o diga.

            Quantas vezes, passando pelas ruas, ouve elle murmurar estas tres palavras:

            — É o Tinoco!

            É que não ha inguem mais popular.

            Se um dia quizer propor-se a deputado, dou mais pela sua eleição, do que pela do candidato do governo, seja qual for.

            E como adquiriu elle este pretigio? Como foi, não me dirão?

            Quando ha annos eu o conheci no Lyceu Francez com os livrinhos debaixo do braço, quando elle estudava a historia de Portugal de Midosi e eu o systema metrico de Moreira de Sa, quem me diria a mim que aquelle rapaz — o n.º 122 ou 123, não sei bem, — viria a ser tão fallado, tão estimado e tão querido da nossa gente!

            Quando o via entrar acanhado no collegio, mal diria eu que, d’ali a annos haveria de despertar tanto enthusiasmo no nosso publico.

            Parece-me ainda estar a vê-lo, acanhado, timido, dando voltas em redor do professor, elle que hoje as dá sem medo em redor do 69 ou do Pimpão.

            Elle que n’outros tempos receiava uma pergunta de corographia, não teme hoje a investida d’um touro.

            Não quer isto dizer que não estudasse, pelo contraio, estudava bastante, o que elle era n’esse tempo, era muito timorato e... muito cabula.

            Depois d’isso começou a deixar-se arrastar pela pandega, pela dourada pandega, e um dia vejo eu annunciado o seu nome nos cartazes da praça do Campo de Sant’Anna. Eram cavalleiros —  o marquez de Castello Melhor, o marquez de Bellas e D. José de Avillez; mais abaixo d’estes nomes lia-se:

NETO

Alfredo Tinoco da Silva

            Fez-me especie quando vi o seu nome.

            É elle !

            Não é elle!

            É por força. Não ha outro. Era capaz d’isso. E fui vel-o.

            Que brilhante estreia. Quasi que tive vontade de saltar da trincheira e de lhe dar um abraço! Não saltei porque tive medo do touro!

            Que neto, que neto aquelle! Sabia tanto d’aquillo que mais parecia o avô.

            Depois d’isto, segue-se uma carreira infinita de ovações e de enthusiasmos despertados por elle.

            Agora dou-lhe um doce se me disser alguma coisa do systema metrico.

            Dou-lhe um doce, disse eu? Dou-lhe um confeiteiro em peso!

            Lá do systema metrico aposto já que elle não se lembra! Do resto não digo nada, creio que sim.

            Se entre nós o seu nome se tem popularisado, em Hespanha todos tambem o conhecem, tal foi a brilhante figura que elle fez em Madrid e acaba de fazer agora em Badajoz, ao lado de Carlos Relvas, tambem um amador distincto dos mais distinctos da peninsula.

            Quando Tinoco entra na arena não se imagina a satisfação, a alegria que tem o publico; os corações enchem-se d’um jubilo, d’um prazer indescriptivel; quando elle cita para uma sorte, ficam todos suspensos, quando a termina corrompe tudo n’um applauso, que o illustre afficionado póde ser a certeza que é sincero.

            O seu garbo, a sua pericia, a sua distincção, a sua elegancia, os seus conhecimentos de equitação fazem lembrar o conde dos Arcos de quem Rebello da Silva diz:

            «O conde dos Arcos, entre os cavalleiros, era quem dava mais na vista. O seu trajo, cortado á moda da côrte de Luiz XV, de veludo preto, fazia realçar a elegancia do corpo. Na golla da capa e no corpete sobresaiam as finas rendas da gravata e dos punhos. Nos joelhos as ligas bordadas deixavam escapar com artificio os tufos de cambraeta alvissima. O conde não excedia a estatura ordinaria, mas esbelto e proporcionado, todos os seus movimentos eram graciosos. As faces eram talvez pallidas de mais, porém animadas de grande expressão e o fulgor das pupillas negras fuzilava tão vivo e por vezes tão requebrado, que se tornava irresistivel. Filho do marquez de Marialva, e discipulo querido de seu pae, do melhor cavalleiro do Portugal, e talvez da Europa, a cavallo, a nobreza e a naturalidade do seu porte enlevavam os olhos. Elle e o corsel, como que ajustados em uma só peça, realisavam a imagem do centauro antigo.

            A bizarria com que percorreu a praça, domando sem esforço o fogoso corsel, arrancou prolongados e repetidos applausos.»

            A sua carreira de amador tem sido uma serie não interrompida de applausos; nunca o vi entrar na praça que não saísse victorioso.

            Em Madrid, então, causou verdadeiro fanatismo. Os jornaes diziam cousas extraordinarias a seu respeito; nunca amador algum conseguiu egual successo.

            Nas nossas praças figura a par de Castello Melhor e de Vimioso, excedendo os por vezes e não se deixando nunca offuscar pelo brilho da sua nomeada.

            O seu nome figura ao lado dos d’aquelles dois illustres amadores, que se o vissem farpear teriam por certo o mesmo grande enthusiasmo que actualmente se apossa de nós.

            E terminando estas breves linhas escriptas para acompanhar o seu retrato, hoje dia da sua festa, enviamos ao nosso amigo um sincero aperto de mão e um bravo pelos brilhantes triumphos que tem tido sempre e oxalá continue a ter.                                                                                                                                                          

Antonio de Menezes

FOTO: Serões - Biblioteca nacional de Portugal (Tratada por IA)

In DIARIO ILLUSTRADO – 26 de Junho de 1882

9 DE ABRIL DE 1882 – LISBOA: INÍCIO DE TEMPORADA NA PRAÇA DO CAMPO DE SANT’ANNA COM TOUREIROS DE ESPANHA E DE PORTUGAL

 

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 8 de Abril de 1882

9 DE ABRIL DE 1882 – LISBOA: INÍCIO DE TEMPORADA NA PRAÇA DO CAMPO DE SANT’ANNA COM TOUREIROS DE ESPANHA E DE PORTUGAL


 

Biblioteca nacional de Portugal

            Acha-se definitivamente ligado á empreza da praça do Campo de Sant’Anna, o estimado cavalleiro Manuel Mourisca Junior. É sem duvida, uma boa nova para os amadores e para o publico, porque, em verdade, Mourisca é artista muito apreciado.

O cavaleiro Manoel Mourisca
FOTO: Serões - BNP (Tratada por IA)

            Estão egualmente ligados os estimados cavalleiros José Maria Casimiro Monteiro e José Bento de Araujo.

            Como dissemos, a empresa conta inaugurar os seus espectaculos, no proximo domingo de Paschoa, para o que já está separado um formidável curro, pertencente a um dos nossos mais acreditados lavradores do Ribatejo, e no qual plenamente se confia.

            A praça fica elegante. Os arranjos effectuados, era indespensaveis.

            A empreza tenciona apresentar tambem, em algumas lides, os mais afamados espadas do visinho reino, e para isso tem empregado e continua a empregar todos os seus melhores exforços afim de que as corridas, por sua conta dadas, attinjam o maximo brilhantismo e sejam, em tudo, digno do primeiro circo tauromachico portuguez.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 25 de Março de 1882

18 DE JUNHO DE 1882 - LISBOA: UMA CORRIDA «IRREGULAR» E AO MESMO TEMPO «INTERESSANTE» NA PRAÇA DO CAMPO DE SANT'ANNA

 
Biblioteca nacional de Portugal

Tauromachia

            Foi muito irregular mas ao mesmo tempo interessante a corrida de domingo na praça do Campo de Sant’Anna, em beneficio de Manuel Mourisca.


O cavaleiro Manoel Mourisca.
FOTO: Revista Serões - BNP (Tratada por IA)

            O gado era desegual. Appareceram alguns touros muito bravos e mesmo puros, outro de mas qualidades, matreiros ou cobardes.

            Mourisca, comquanto sempre correcto, só brilhou no 1.º touro da 2.ª parte. Em compensação trabalhou com inexcedivel mestria.

            O animal era muito bravo, de grande corpo, e rapido mas sabido. Mourisca lidou o a ferros curtos, aproveitando a sorte de gaiola de uma maneira tão distincta como ha muito não vimos, e merecendo por isso uma ovação.

            Todas as restantes bandarilhas com que enfeitou o animal foram collocadas conforme os preceitos da arte e em sortes arrojadas. Depois de recolhido o touro, foi o cavalleiro chamado, applaudido e brindado com alguns presentes e flores.

            José Monteiro (José Maria Casimiro Monteiro) apenas teve um touro, mas de ruins qualidades, que enfeitou com um ferro muito bem collocado. José Bento (de Araujo) e Antonio Monteiro (Antonio Maria Monteiro) tiveram, além dos touros que lhes coube em competencia com os capinhas, um bello touro salgado para picarem sorte a sorte. O animal era bravo, mas difficil; era preciso lidal-o com cautela, mas a verdade é que não o aproveitaram bem, sendo talvez a verdadeira causa d’isso os cavallos negarem se um pouco.

O cavaleiro José Maria Casimiro Monteiro.
FOTO: Revista Serões - BNP - BNP (Tratada por IA)

            Robertos e Peixinho distinguiram-se.

            O torneio devia ser de 15 touros, mas os espectadores tiveram de se contentar com 12 porque assim o determinou o 11.º bicho.

            O episodio não foi mau. O touro negou-se a ser recolhido, tomou querença no meio da praça e não havia maneira de arrancal-o d’ali. Conseguiram laçal-o, mas mal; mas o bicho de tal fórma sacudiu o laço que conseguiu libertar-se d’elle, ficando desembolado. Afinal foi Peixinho quem teve arte para o laçar deveras.

            Era já noite quando saiu o 12.º touro em que Mourisca devia metter a pé um par de bandarilhas. Apesar da escuridão ainda conseguimos vêr Mourisca dar um trambulhão quando pretendeu metter os ferros no animal.

            Acreditamos que sabe metter um par de bandarilhas, mas a fallar a verdade ás escuras, só pelo desejo de cumprir o programma.

            De todos os modos um conselho: toureie a cavallo, e deixe-se de bandarilhar a pé; é mestre como cavalleiro, é apreciado e applaudido pelo publico, e não precisa para attrair concorrencia e para alcançar applausos de andar aos trambulhões pela arena.

            A concorrencia foi grande.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 20 de Junho de 1882

9 DE ABRIL DE 1882 – LISBOA: INAUGURAÇÃO DA TEMPORADA NUMA PRAÇA DO CAMPO DE SANT’ANNA PARCIALMENTE REMODELADA

 
Biblioteca nacional de Portugal

            São importantes os reparos que se estão procedendo na praça do Campo de Sant’Anna.

            A trincheira falsa é toda nova, assim como quasi toda a bancada do sol. Os camarotes foram todos restaurados, apresentando excellente effeito.

Praça do Campo de Sant'Anna, Lisboa.
FOTO: Arquivo CML

            A actual empreza conta poder inaugurar a proxima epoca tauromachica no domingo de Paschoa, 9 de Abril.

            Estão já contratados os seguintes artistas:

            Cavalleiros — Manuel Mourisca Junior, Alfredo Tinoco (da Silva), José Maria Casimiro Monteiro, Antonio Maria Monteiro e José Bento de Araujo.

            Bandarilheiros Irmãos Robertos, Calabaça, Peixinho, Sancho, Caixinhas e Costa.

            Está aberta a assignatura de camarotes, cadeiras e logares de trincheiras.

            As reclamações podem ser dirigidas para a rua da Bitesga, 71, até 30 do corrente mez.


In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 17 de Março de 1882

12 DE JANEIRO DE 1882 – LISBOA: CORRIDA OFERECIDA PELA PRAÇA DE TOUROS DO CAMPO DE SANT’ANNA A “ALFONSO XII, REY DE ESPAÑA” COM 3 CAVALEIROS PROFISSIONAIS, INCLUINDO JOSÉ BENTO DE ARAUJO, E OUTROS TANTOS AMADORES

 
Biblioteca nacional de Portugal

Visita dos reis de Hespanha — Festejos

            Á 1 hora da tarde de hontem chegou á estação de Lisboa o comboyo que conduzia os reaes visitantes.

            A gare, conforme dissemos hontem, achava se vistosamente adornada, sobresaindo as côres hespanholas e portuguezas, e os brazões de Portugal, Italia, Hespanha e Austria.

            A banda da guarda municipal achava-se na extremidade da gare.

            O nosso monarcha, seu augusto pae el-rei o sr. D. Fernando e o principe real D. Carlos entraram na estação pouco antes da chegada dos regios visitantes.

            Na plataforma do sul estavam cerca de 600 pessoas, entre as quaes figuravam camaristas e ajudantes de serviço, officiaes móres, pares, deputador, altos funccionarios, generaes de terra e mar, representantes da côrte, e muitos hespanhoes.

            A platafórma norte, para a qual a companhia dos caminhos de ferro fez convites por meio de bilhetes achava se completamente cheia de senhoras, que se assentavam em quatro ordens de cadeiras a todo o comprimento da platafórma, estando o resto do espaço todo cheio de cavalheiros.

            Apenas chegou o comboyo real, el-rei D. Affonso, saindo da sua carruagem, abraçou el-rei o sr. D. Luiz.

            O rei de Hespanha vestia a farda de capitão general. D. Maria Christina trajava vestido de velludo azul, chapeau de pellucia branca com plumas da mesma côr.

            Na gare foram apresentados, na sala do throno, a suas magestades catholicas, por el-rei D. Luiz, alguns dos srs. Ministros, camaristas, ajudantes de campo, officiaes ás ordens, e altos funccionarios do paiz.

            Decorridos alguns minutos de descanço, as pessoas reaes dirigiram-se para as carruagens ricas de gala, que as esperavam.

            Seguiu então o cortejo, indo na frente um esquadrão de lanceiros, precedendo-o uma carruagem da casa real, onde ia o sr. duque de Loulé, e depois mais seis carruagens, tiradas umas a duas e outras a tres parelhas, com os camaristas portuguezes e hespanhoes.

            Seguia-se então a carruagem dos reis.

            Os reis de Hespanha tomavam assento no logar do fundo, tendo á frente el-rei D. Luiz e sua alteza real o principe D. Carlos. Á estribeira ia o sr. infante D. Augusto, commandante da brigada.

            Á carruagem real seguia o regimento de lanceiros 2 e o de cavallaria 4, e após esta força a carruagem d’el-rei o sr. D. Fernando, carruagens de ministros, corpo diplomatico, funccionarios, alguns trens particulares e diversos cavalleiros.

            A guarnição formou desde Santa Apoloniaaté a rua do Arsenal. Em Belem estava postada junto do palacio uma força para fazer as honras devidas aos regios visitantes.

            A concorrencia pelas ruas era enorme. As janellas achavam-se apinhadas de senhoras.

            Em todo o trajecto suas magestades foram respeitosamente cumprimentados, mostrando assim o povo de Lisboa, que sabe acolher com a delicadez que lhe é tradicional, os seus visitantes.

            Os nossos reaes hospedes eram esperados no paço de Belem por sua magestade a rainha a sr.ª D. Maria Pia, acompanhada de todas as suas damas de honra. A sr.ª D. Maria Pia fez a apresentação de cada uma das suas damas.

            A parte do palacio destinada aos soberanos, compõe-se dos seguintes aposentos:

            1.º       A sala dourada, em cujo tecto se admirar excellentes quadros e ornamentos.

            Esta sala tem resposteiros, cortinas e guarnições escarlates, grandes espelhos e mobilia antiga. Ao lado está um singelo oratorio.

            2.º       A sala de jantar, com dois grandes consolos dourados com espelhos antigos, e guarnição moderna, toda de mogno.

            3.º       A sala da recepção mais rica com mobilia, antiga e moderna, esta de forro escarlate, e a outra amarella; as guarnições e decorações são amarellas.

            Ha n’esta sala um bonito relogio antigo de Lenoir, jarrões grandes de Sèvres, antigos jarrões da China, cestos e outras louças da Saxonia, um esplendido étagère antigo, com espelhos, com embutidos e figuras de metal. Dois armarios, antigos, um dos quaes, tem delicadas pinturas. Uma secretaria grande com embutidos, obra portugueza dada a el rei D. Pedro V.

            N’esta secretaria, muito curiosa, leem-se em medalhas os nomes dos nossos principaes generaes, navegadores e homens de letras; o nome das mais importantes batalhas ganhas pelos portuguezes, e ainda muitos outros disticos allegoricos.

            A meza do centro tem um rico panno, branco e outro. É n’esta sala que está o piano.

            4.º       Segue-se o quarto do rei D. Affonso, com mobilia e guarnições azues, espelhos e cama de metal amarello. Contiguo, o quarto de toilette, gosto moderno, com todos os pertences necessarios.

            Um grande espelho dourado reveste inteiramente a parede do topo do quarto.

            Estas salas e o quarto e toilette de el-rei, abrem todas sobre os jardins e terraços, e disfructam a magnifica vista do Tejo.

            5.º       O quarto de el rei está separado do quarto da rainha, pelas antigas salas de baile onde se davam as recepções e soirées no tempo da rainha a sr.ª D. Maria II.

            Esta sala branca e dourada conserva toda a sua simplicidade; apenas está adornada com placas e vasos de flores.

            6.º       O quarto da rainha, que segue, como dissémos á sala do baile, e deitam as janellas para a calçada da Ajuda, está guarnecido de damasco amarello, com reposteiros de lhama de ouro. (NOTA: Tecido luxuoso) A cama é antiga, do principio d’este século, com, seu docel, muito rico, que pertenceu á sr.ª D. Carlota Joaquina, da mobilia mixta, antiga e moderna, consolos, mesa de centro. Chaise longue, armario de espelho, candelabros, e relogio, tudo dourado e muito rico. Contigua,e a seguir para a banda do jardim, está uma pequenina sala, de gosto moderno, em jacarandá, com estofo e guarnições amarellas, e ao lado d’esta, o quarto do toucador, bastante simples. Proximos os aposentospara as pessoas do serviço immediato da rainha.

            Por toda a parte vasos, flores, lindas camelias, muitos arbustos, muitos luestres, candelabros, serpentinas, a luz a jorros, n’aquellas grande salas.

            No vestibulo, nas escadarias guarnições luxuriantes de verdura, e de flores, cadeiras antigas de couro, bufetes de pau santo, quadros, bustose estatuas.

            Por delicada manifestação de affecto de sua magestade a rainha D. Maria Pia, vêem-se no quarto da rainha de Hespanha, e nas salas e gabinetes, sobre consolos e etagéres, (NOTA: étagères)diversas photographias com retratos de pessoas das familias dos augustos viajantes.

            Os ministros, e o pessoal da casa civil e militar do rei, ficam alojados nos aposentos chamados do picadeiro, communicando com os jardins e tendo a sua entrada principal pela escadaria que dá para a Praça de Belem.

            As senhoras são alojadas no segundo pavimento, nos quartos chamados da Arrabida.

            Pouco depois das 8 horas da noite, serviu-se no palacio da Ajuda o jantar.

            A meza foi de cento e tantos talheres, achando-se esplendidamente servida com a rica baixela da casa real. (NOTA: “Baixela” é um serviço de mesa em prata.)

            O aspecto da sala era magnificente.

            Além da comitiva dos reis de Hespanha, foram convidados os officiaes de serviço, camaristas, e veadores, ministros, corpo diplomatico, damas de sua magestade a rainha, officiaes-móres, etc.

            O menu era delicadissimo.

            É de presumir que possamos dar noticia minuciosa d’este jantar.

            Os reis de hespanha almoçam hoje na legação hespanhola, onde receberão os cumprimentos da colonia. Em seguida dirigir-se-hão para o hypodromo de Belem, para assistirem ás corridas que lhes são offerecidas pelo Jockey Club.

            Á noite ha recepção de gala e baile no palacio da Ajuda e illuminação na esquadra portugueza surta no Tejo.

            Ámanhã realisa-se a inauguração da exposição da arte ornamental.

            De tarde ha tourada (NOTA: Praça do Campo de Sant’Anna) offerecida pela empreza Custodio Vidal, e na qual tomam parte como cavalleiros, os eximios amadores Alfredo Marreca, Alfredo Tinoco (da Silva), e D. Luiz do Rego, e os cavalleiros de profissão José Maria Casimiro Monteiro, Antonio Maria Monteiro e José Bento de Araujo, e os principaes capinhas portuguezes.

            Á noite ha recita de gala no real theatro de S. Carlos.

            No domingo, dia em que realisa a tourada offerecida aos reis de Hespanha pelo sr. Alfredo Anjos, (NOTA: Alfredo Ferreira dos Anjos, era um abastado aristocrata, empresário e cavaleiro amador. O título de Conde de Fontalva ser-lhe-ia concedido mais tarde, em 1898, pelo rei D. Carlos I, consolidando o seu estatuto na nobreza portuguesa.) os reis de Portugal e os seus hospedes virão de Belem por mar nas galeotas, acompanhados pelos escaleres dos navios de guerra surtos no Tejo, até ao arsenal da marinha.

            A corrida offerecida pelo sr. Alfredo Anjos é revestida do maior luzimento.

            Os cavalleiros e lidadores terão padrinhos, á moda do que se fazia nas antigas touradas reaes e que hoje ainda é uso em Hespanha.

            Sua magestade el rei D. Luiz será padrinho do sr. Alfredo Anjos; o sr. conde das Galvêas, do sr. D. Antonio Galvêas; o sr. conde da Guarda do sr. Antonio de Portugal; o sr. conde de Mesquitella, do sr. Vellez Caldeira; o sr. Alfredo Anjos, do sr. Henrique Martins.

            Os cavalleiros farão as cortezias indo o sr. Anjos no seu cavallo Rialta; D. Antonio de Portugal no Emir, do sr. infante D. Augusto; D. Antonio Galvêas, n’um cavallo do sr. conde das Galvêas; Vellez Caldeira, n’um cavallo do sr. Carlos Éugenio de Almeida; e o sr. Henrique Martins no cavallo Pegáso, do sr. Anjos.

            A tourada começa ao meio dia. Serão corridos 12 touros, pertencentes ao sr. D. Caetano Bragança.

            O sr. Anjos mandou adornar a praça e fazer doze moñas para os forcados; (NOTA: As “moñas” eram laços ou rosetas de cores vivas em seda ou cetim, que se prendiam à indumentária dos forcados para as corridas de gala.) corôas para offerecer aos cavalleiros e bouquets para os bandarilheiros e moços do curro.

            Os cavallos que entram na lide comparecerão ás cortezias, levados á mão por criados da casa real.

            O batalhão collegial traz á parada quatro pelotões de 25 filas cada um e os respectivos officiaes.

            A força total é de approximadamente 200 collegiaes.

            Esta força marchará como a divisão em columna aberta de pelotões.

            E-rei o sr. D. Luiz convidou a sua reverencia o cardeal-bispo do Porto para assistir ás festas da côrte em honra dos monarchas hespanhoes. Sua eminencia acha-se já em Lisboa.

            É grande a affluencia de visitantes hespanhoes em Lisboa. Das nossas provincias tem chegado enorme quantidade de gente.

            Os hoteis e hospedarias não teem nem um quarto para alugar. Acham-se muitas familias accommodadas em quartos particulares.

            Illuminaram hontem alguns edificios, o palacio da legação hespanhola e algumas casas particulares.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 11 de Janeiro de 1882

17 DE OUTUBRO DE 1882 - LISBOA: "TOUREIROS", A NOVA MARCA PARA OS FUMISTAS...

 

Anúncio publicado na página 4 da edição do jornal lisboeta "DIARIO ILLUSTRADO", 17 de Outubro de 1882.
Biblioteca nacional de Portugal

12 DE JANEIRO DE 1882 - LISBOA: «LA TORADA...»

 
Biblioteca nacional de Portugal

VIAJE DE SS. MM. Á PORTUGAL.

(De nuestro corresponsal.)

LISBOA 13 Enero.

Con más tiempo, puedo dar á V. más detalles de la torada de ayer. La plaza, pequeña, construida de madera, estaba adornada con follaje, flores y banderas con mucho gusto. Al llegar SS. MM. Se izó la bandera española y las músicas tocaron la marcha real, levantándose los de la sombra y permaneciendo tranquilos los tendidos más populares; el ganado fué bastante regular, dada la época del año y la condicion de los pastos, y las suertes ejecutadas lo fueron con bastante más acierto por los aficionados que por los del oficio. Nuestro amigo (Alfredo) Tinoco tuvo ocasion de lucirse, así como el antiguo amador Morisca (NOTA: Manoel Mourisca), que á peticion del público y en traje de calle y sin espuelas, ejecutó varias suertes á caballo levantado á la portuguesa y con banderillas cortas, con sumo acierto y lucimiento.

"CORRIDA DE TOROS ORGANIZADA POR EL CABALLEIRO DOS ANJOS: CABALLEROS EN LA PLAZA SALUDANDO Á SS. MM."
Desenho de J. Comba. La Ilustración Española y Americana, 30 de Janeiro de 1882 - BNE, Madrid.

Como uno de los toros rehusaba, (NOTA: Es decir: el bicho se negaba a embestir o a acudir al engaño.) encantado con tan agradable concurrencia, de retirarse, á pesar de las instancias que le hacian los cabestros, uno de los boyeros ejecutó la suerte de la pega, arrojándose sobre él y sujetándole. Parece ser que en la corrida del domingo; que ha de ser á la antigua portuguesa, se verificará esta misma suerte, hasta hoy prohibida, y que, autorizada por el Rey, ha sido causa de que el gobernador de Lisboa, el Xiquena de aquí, (NOTA: El gobernador de Lisboa se comportó de forma tan autoritaria, permisiva o polémica como solía hacerlo el Conde de Xiquena en Madrid con los asuntos de orden público o espectáculos.) haya dado su dimision, que, segun parece, no le será aceptada, por lo menos hasta que salgan los Reyes de España de esta ciudad.


In LA EPOCA, Madrid – 15 de Janeiro de 1882

12 DE JANEIRO DE 1882 – LISBOA: EXTRAORDINÁRIA CORRIDA OFERECIDA A “SUA MAGESTADE EL-REI D. AFFONSO XII DE HESPANHA” COM OS CAVALEIROS CASIMIRO MONTEIRO, ANTONIO MONTEIRO E JOSÉ BENTO DE ARAUJO

 

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Grande festa tauromachica

            Apesar da corrida desempenhada por curiosos, el rei D. Affonso assistirá tambem á que lhe foi, em tempo, offerecida pelo sr. Custodio Vidal, emprezario da praça do Campo de Sant’Anna, e acceite pelo nosso soberano, como já dissemos. A praça está lindamente ornada. É um perfeito jardim, apresentando excellente effeito. Por convite especial da empreza, tomam parte no torneio, os laureados e distinctissimos amadores Alfredo Marreca, D. Luiz do Rego e (Alfredo) Tinoco (da Silva). Trabalham egualmente os habeis artistas José Casimiro Monteiro, Antonio Monteiro, José Bento de Araujo, irmãos Robertos, Peixinhos, Calabaça, Caixinhas, Sancho, Raphael e Costa.

            Os touros que pertencem aos sympathicos irmãos Robertos, chegam hoje ás Marnotas. Nada diremos com respeito á escolha dos mesmos, porque todos sabem que Robertos são lavradores acredeitados, e basta saber-se que ha dois mezes que o gado está sustentado a boleta e fava. Podemos garantir isto.

            Esta extraordinaria corrida deverá ser digna de se registar e deixará, de certo, grata recordação.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 9 de Janeiro de 1882

22 DE MAIO DE 1881 – LISBOA: MAIS UMA CORRIDA HISPANO-PORTUGUESA NA PRAÇA DO CAMPO DE SANT’ANNA

 

Biblioteca nacional de Portugal

Tauromachia

            Chegam hoje a Friellas os touros que hão de ser corridos no domingo na praça do Campo de Sant’Anna. A fama dos bichos, que são realmente bravissimos, correu já toda a extensa fileira dos amadores, muitos dos quaes se preparam para ir hoje ás pastagens admirar tão excellente curro, que promette exceder o de domingo passado.

            Como se sabe, teem os amadores, na tarde de domingo, uma funcção tauromachica de primeira ordem. Não póde deixar de ser assim, em vista da qualidade do gado, e de trabalharem artistas afamados como são os dois espadas hespanhoes Filippe Garcia (NOTA: Felipe García Sánchez) e Joseito, (NOTA: Joseíto) e os habeis Robertos, Peixinhos, etc.

Praça do Campo de Sant'Anna
FOTO: Arquivo CML

            Mais um attractivo, e dos melhores, para uma enchente: veem alguns touros para cavallo, que teem nome temivel pelas suas proesas. Casimiro Monteiro e José Bento (de Araujo) vão ver Braga por um canudo.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 20 de Maio de 1881

22 DE MAIO DE 1881 – LISBOA: 13 TOUROS PARA ARTISTAS DE ESPANHA E DE PORTUGAL

 

Praça do Campo de Sant’Anna

Domingo 22 de maio de 1881

            ESPLENDUROSA corrida de 13 touros, eguaes senão superiores aos que no domingo 15 foram corridos n’esta praça, e pertencentes tambem ás manadas do fallecido lavrador o sr. visconde dos Olivaes.

            Trabalham os applaudidos espadas hespanhoes

            Filippe Garcia (NOTA: Felipe García Sánchez) e José Rodrigues, El Juseito (NOTA: José Rodríguez, El Juseíto ou El Joseíto)

            E os bandarilheiros portuguezes Cadete, Robertos, José J. Peixinho, Calabaça e Sancho. Cavalleiros, Casimiro Monteiro e José Bento d’Araujo.


            Os bilhetes de camarotes, cadeiras e trincheiras, estão á venda na tabacaria Climaco, na rua da Bitesga, 71.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 19 de Maio de 1881