10 DE OUTUBRO DE 1897 – LISBOA: AS VERDADEIRAS CORRIDAS DE TOUROS... TÊM TOUROS DE MORTE

 


Biblioteca nacional de Portugal

Verdadeiras corridas de touros

            A arte de tourear em Portugal nunca poderá ter o brilhantismo que possue a arte hespanhola, pelo motivo de as corridas serem aqui parodiadas.

            O touro deve ser corrido puro e em hastes limpas.

            O touro deve ser picado, bandarilhado e morto.

            O toureiro deve entrar na arena cheio de valor e valentia.

            O vivente nasceu para morrer, portanto, tanto faz ser hoje como ámanhã.

            O homem que exerce a arte de tourear, sabe de antemão o perigo da sua profissão.

            Os touros nasceram para depois de nutridos, serem abatidos n’um matadouro para proveito do publico. Por conseguinte, tanto faz serem mortos no matadouro como na arena.

            Será o meu grito, e tenho esperança que ha-de ser ouvido por aquelles que podem fazer uma grande revolução na tauromachia nacional.

            Não desanimemos porque mais dia menos dia será satisfeito o nosso desejo.

            Proclame-se a morte do touro para depois assistirmos ás verdadeiras corridas de touros.

Vivam os touros de morte!

In A CORRIDA, Lisboa – 10 de Outubro de 1897

22 DE JUNHO DE 1919 – CASCAIS: UMA CORRIDA COM FRANCISCO BENTO DE ARAÚJO, FILHO DO CAVALEIRO JOSÉ BENTO DE ARAÚJO

 
Hemeroteca Digital - CML

TAUROMAQUIA

            EM CASCAES. — No proximo domingo realisa-se n’esta praça uma corrida mixta de 5 touros e 5 vacas, pertencentes ao lavrador sr. Manuel Ventura Vitorino.

Francisco Bento d'Araujo, filho do cavaleiro José Bento de Araújo
FOTO: © RUI ARAÚJO

            Na lide toma parte o notavel cavaleiro amador D. Alexandre de Mascarenhas e o profissional Francisco Bento de Araujo. Na lide de pé tomam parte D. Carlos e D. João de Mascarenhas e João Malhou da Costa, auxiliado pelos artistas José da Costa, Rodrigo Largo e Alvaro Xavier.

In A IMPRENSA, Lisboa – 21 de Junho de 1919

15 DE JULHO DE 1909 - LISBOA: «NOTAS D'UM ESPECTADOR»...

 
Biblioteca nacional de Portugal

TOURADA

(Notas d’um espectador)

            A inauguração das touradas nocturnas constituiu sem duvida alguma, um grande acontecimento tauromachico. Os esforços que a arrojada empreza desenvolveu foram coroados do melhor exito. Albino José Baptista e Lacerda devem estar satisfeitissimos não só pela enorme concorrencia do publico, como pelo conjuncto de circunstancias que cooperaram para abrilhantar essa interessante e aprazivel festa.

            A illuminação electrica é primorosa pela grande quantidade de lampadas e pela sua artistica disposição. Os mais ligeiros contornos de architectura arabe da praça estão postos em relevo e na arena vê se tão bem, tão claro, como se fora dia. Accresce que a corrida tendo os attractivos d’este genero de espectaculos não foi prejudicada nem pelo calor, nem pela poeira, nem pelos reverberos intensos da luz do sol em pleno estio.

            Um encanto.

            O programma da festa foi executado á risca e todos cumpriram, todos, desde os artistas... até aos touros!

            A praça trasbordava de espectadores e os applausos foram unanimes.

            Sem sermos aficionados de cartel, as corridas de touros, interessam-nos e prendem-nos o espirito. Alguns ha a quem já teem prendido o corpo; a nós nunca.

            Ha-de haver uma duzia d’annos distribuiranos o papel de moço de curro, n’uma tourada de amadores, em uma cidade do Alemtejo. Ficamos mal vistos mas desistimos. Com franqueza, achamos preferivel lidar com Sckespeare (NOTA: Shakespeare) ou Molière do que com... cornupetos!

            É que para nós se — fazer mal aos animaes, é indicio de mau caracter — correr e farpear um touro, animal tão nobre, é um acto não só violento como incorrecto. Agrada, é certo, ver a arte subjugar a força; mas com os demonios! Nos antigos circos romanos, por exemplo, nos combates dos gladiadores, vencedores ou vencidos, todos, todos, quando saudavam o Imperador, — Avé Cezar, moriturite salutand (NOTA: A formulação correcta é Ave, Caesar, morituri te salutant. Em Português: «Ave, César, os que vão morrer te saúdam!»), já d’antemão sabiam o quarto d’hora que os esperava; o boi não!

            Quando os campinos vão alli, ás pastagens do ribatejo, apartar os touros, nas manadas do Palha Blanco ou do João Patricio, quando vão arrancar os animaes ao seu socego, ao seu remanso, sabem estes por ventura, pensam por acaso qual o fim de similhante incommodo e impertinencia?!

            Ora ponhamos o caso, salvo seja, em qualquer alma christã?! .. Ponderemos, raciocinemos... sim... É por isso que nós quando assistimos a uma corrida, já não falo em Hespanha, referimo-nos a Portugal... nós concordamos que o touro é uma victima da crueldade humana!

            Confessemos, porém, que temos estima e apreço pelos artistas tauromachicos portuguezes e com alguns, mantemos relações mais do que cortezes, relações até amistosas. Mas, a lucta é desigual e para o nosso ponto de vista o ruminante é o mais fraco. Quando vemos na praça o touro aborrecido, exasperado, marrando para a direita e para a esquerda, investindo com raiva, tomando crença... tudo achamos justo e comprehensivel! Por vezes ha touros tão teimosos, que parecem ter cabeça de burro; é logico!

            Ora de de que na lide, o artista adestrado, sabe o que lhe cumpre fazer e o touro ignora, aquelle tem os recursos da sua profissão, e este sómente os expedientes proprios dos seus impetos e da sua força, resultam sem duvida alguma d’esta desvantagem, as peripecias mais estranhas e imprevistas. Ha exemplos, de por vezes o touro, perder as estribeiras, — perdôem nos o plebieismo — e atrever se a colher... os intestinos do seu contendor. Em Hespanha este caso é vulgar.

            Concordemos que em contraposição á profunda arte dos dustros (NOTA: ilustres) os touros, por vezes são verdadeiras boite á surprises. (NOTA: "boîte à surprises "? As expressões mais comuns em França no século XIX eram: "Pochette-surprise", "Boîte à malice" ou "Boîte de Pandore".).

            D. João da Camara, (NOTA: O dramaturgo e escritor D. João Gonçalves Zarco da Câmara (1852–1908) foi o primeiro português nomeado para o Prémio Nobel da Literatura (1901) e é um dos maiores dramaturgos do século XIX, a sua ligação à tauromaquia é cultural e histórica) contou nos, que um amigo seu, depois de haver lido, estudado, manusiado com afinco e constancia a arte do toureio do grande Montes, (NOTA: O título exacto do tratado que define a lide moderna é «TAUROMAQUIA COMPLETA – Ó SEA EL ARTE DE TOREAR EN PLAZA, TANTO A PIE COMO A CABALLO» (1836). Este livro foi escrito por Francisco Montes, mais conhecido por "Paquiro". O original da obra pode ser consultado aqui: https://www.gutenberg.org/files/63030/63030-h/63030-h.htm) se offereceu, para n’uma corrida de amadores lidar um touro.

            Chegou o dia, a hora, o momento e o bandarilheiro amador, na artena, depois de haver salivado as farpas das bandarilhas, cheio de si, conscio dos seus conhecimentos artisticos, citou o animal, mediu com a vista o ponto onde lhe cumpria quadrar-se com elle, o lado porque devia sahir, em summa a maneira de rematar a sorte, e eil-o ahi vae, lepido, de braços erguidos para a cabeça do touro, que investindo com o joven, o atira aos ares, marra-lhe á vontade e após im derradeiro coice deixa-o estatelado na arena.

            Frascuelo (NOTA: Don Salvador Sánchez Povedano, más conocido como Frascuelo, nació en Churriana de la Vega, Granada el 23 de diciembre de 1842 y murió en Madrid el 8 de marzo de 1898. Torero español. Tomó la alternativa en Madrid el 27 de octubre1867 de manos de Cúchares y se distinguió por su valentía y por su dominio del estoque. In"Ayuntamiento de Granada") em erva recolhe á enfermaria da praça com uma costella partida, e após larga convalescença em casa, no seio da familia, lamentava-se ao glorioso auctor dos Velhos.

            — Ora... Succeder muito... e mim... que tantas horas passei a estudar o livro de Montes!

            — Pois sim, rematou D. João; mas... o boi é que não sabendo ler desconhecia a arte do toureio.

            Na corrida de hontem todos cumpriram e até os touros bos deram a impressão de haverem lido o celebre livro de Montes!

            Os cavalleiros satisfizeram; ambos são garbosos sobre as selas dos seus ginetes.

            Os toureiros portuguezes rivalisaram nas bandarilhas com os artistas hespanhoes.

            O espada Regaterín é um artista distincto. Manejando a muleta com desembaraço e acerto, preparou os touros que lhe couberam, e com o estoque na mão simulou com pericia a morte das feras. Ninguem se perturbou com isto, por que todos sabiamos que as estocadas... eram, como se costuma dizer, para inglez vêr.

            Portanto não houve sustos, as damas conservaram-se tranquillas e sómente, n’um camarote, perto do nosso, para as bandas da tribuna, é que durante as peripecias das pégas uma formosa senhora, Madame X., morena, com os olhos negros, aveludados, trajando um lindo vestido marron foncè (NOTA: marron foncé) de mangas e collo de rendas velava a cara, tapando os olhos com a contornada mão. Nós, observando o susto aliás justificado, desviamos a attenção das cambalhotas dos forcados, para pensarmos nas pulsações alteradas... d’aquelle sensivel coração.

O Senhor D. Affonso assistiu á corrida.

16 de julho de 1909.

A.    De M.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 17 de Julho de 1909

21 DE JULHO DE 1909 – LISBOA: O MAIOR MUNICÍPIO DA «PIOLHEIRA» E AS TREVAS...

 
Biblioteca nacional de Portugal

ECHOS

            A empreza da Praça do Campo Pequeno, requereu á Camara Municipal (de Lisboa) que augmentasse a illuminação electrica em torno da praça durante as touradas nocturnas.

            O publico afflue em abundancia e o movimento dos trens de praça, dos automoveis e dos electricos torna-se perigoso para os traseuntes.

            A camara não attendeu o pedido. A empreza prontificou se a collocar as lampadas desde que a Camara lhe fornecesse a electricidade para a illuminação.

            A camara nem burra nem quatro vintens.

            Então a empreza montou a illuminação exterior da praça á sua custa, para o que obteve licença com alguma difficuldade!

            Fazemos sentir á Camara, que emquanto os operarios andam mudando o coreto de musica de Herodes para Pilatos, isto é, do Rocio para o Terreiro do Paço, uma empreza particular faz á custa do seu bolso a illuminação n’um logar publico para garantir a vida e as cabeças dos habitantes da cidade.

            Ora se os eleitores pensarem maduramente sobre o caso, para a nova camara municipal devem votar e portanto sahir eleitos vereadores, os srs. Lacerda e Albino José Baptista.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 21 de Julho de 1909

6 DE ABRIL DE 1903 – LISBOA: CORRIDA EM HOMENAGEM A EDUARDO VII, «PATRONO REAL» DA SOCIEDADE PROTECTORA DOS ANIMAIS DE INGLATERRA

 


Praça do Campo Pequeno, Lisboa.
FOTO: Arquivo Fotográfico da CML

EDUARDO VII

A corrida de hontem

            A festa annunciada para hontem, em homenagem a Eduardo VII, na praça do Campo Pequeno, e que era das do programma uma que despertava maior interesse, foi coroada de successo, movimentando-se milhares de pessoas, uns, os felizes para irem gozar o espectaculo, outros para a conducção e ainda muitos para ficarem a guarnecer as ruas e os passeios desde a Avenida, em animado e vivido elemento decorativo.

            Na praça do Campo Pequeno, quando ali chegávamos, ainda cedo, estava-se dando os ultimos toques á ornamentação da tribuna real, cujo balcão estava coberto a velludo carmezim, franjado, sobre que se destacavam grinaldas de rosas brancas, que ao centro enlaçavam n’um grande festão. Verdura e outras flores completavam a ornamentação da tribuna, d’onde se destacavam ainda grinaldas de rosas brancas a ligar nos camarotes mais proximos, seguindo-se d’esses para os outros ligações de verdura.

            Os varandins dos camarotes, como os do parapeito das galerias do sol, estavam todos enfeitados com cobrejões e colchas, e da linha geral da cornija destacavam-se a espaços pavilhões e galhardetes.

            Mas isso era o menos. O que dava uma apparencia unica, incomparavel, magnifica, era o espectaculo da multidão enchendo todos os logares, n’um concerto alegre onde as fardas dos militares e os fatos dos paisanos eram largamente cortados por manchas alegres de vestuarios festivos das senhoras e creanças, que occupavam a maioria dos logares.

            A arena estava tambem decorada, desenhando-se largos festões em toda a volta das trincheiras.

            As cortezias começaram por um monumental fiasco, pois os charamelleiros, em numero de 7, depois de darem a volta á praça e fazerem e atroada do estylo, ficaram-se e ficou-se o intelligentee ficaram todos á espera do seguimento. Emfim apontaram na praça os dois coches, cada um a 3 parelhas de muares, conduzindo os cavalleiros. Cada coche era escoltado por 10 moços com fardas da casa real.

            A banda da guarda toca o «God save the King», o publico levanta-se e quasi todos se descobrem; é o rei Eduardo VII que entra trajando o uniforme de cavallaria 3, o sr. D. Carlos, com um uniforme estrangeiro, o sr. D. Affonso, de general de brigada, o general Clarke, o ministro da Inglaterra, o marquez de Soveral, que tiveram logar, ficando ao centro da tribuna Eduardo VII, dando a direita á rainha D. Maria Pia, que vestia um riquissimo traje.

            Após os ultimos compassos do estopante hymno britannico seguiu-se a ultima parte das cortezias, feita como de costume, mas havendo hontem a dar-lhes maior brilho a comparencia na arena dos cavallos de combate, ricamente cobertos e acompanhados por moços vestindo librés novas e vistosas, fechando o quadro 10 campinos a cavallo. Houve então uma ovação calorosa, e emquanto os 4 pagemsitos se recolhiam e um dos grupos de forcados se destacava para fazer a casa da guarda, era dado o toque para o 1.º touro de cavallo.

            Sahiu um bicho ordinarissimo, com que José Bento (de Araújo) e Fernando de Oliveira pouco poderam fazer, apesar de opportunamente ajudados com os capotes de Theodoro e Manuel dos Santos. O bicho investiu com a casa de guarda, depois do que foi passado de capote e mestre Botas deu signal para o touro ser pegado. Mas, pobres forcados, tanto quizeram honrar o estranho espectador de hontem, que receberam larga distribuição de sopa economica. Oito vezes foi o bicho citado, outras tantas vezes mostrou conservar-se disposto a repellir qualquer jugo.

            Nem de cernelha, depois, o animalejo se deixou pegar. Valha esta teimosia a redimir a féra de modo ordinario como se tinha portado com os cavalleiros.

            O 2.º da manada sahiu para Theodoro e Cadete. O primeiro fez uma gaiola, sahindo pela direita, mas pena foi ficarem os ferros muito distanciados.

            Este bandarilheiro, com os ferros pouco mais poude fazer, e egual desventura teve o seu collega, devido mais, em grande parte, á má qualidade do animalejo que tinham a lidar. Citem-se, entretanto, de cada um, um para «cuarteo». Theodoro passou de capote e a lide do 2.º rematou com uma pega que sahiu boa porquanto as ajudas (contra o costume, triste é dizel-o) foram muito opportunas e valentes.

            O 3.º touro da tarde foi para Manuel Casimiro e Joaquim Alves. Nem um nem outro poderam brilhar. O bicho não dava a Joaquim Alves, apesar d’isso, receava chegar-se. Casimiro ainda poz um ferro regular. Cadete, ao fugier do touro, ia sendo colhido, recolhendo não á enfermaria, mas de gatas, a pôr-se ao abrigo da «casa da guarda».

            Sahiu o 4.º para Manuel dos Santos e Torres Branco.

            Manuel dos Santos, ao empunhar os ferros, botou discurso. Eil-o, segundo a nota official:

            «Tenho a honra de saudar pelas prosperidades de vossas magestades e pela alliança dos povos.»

            Torres Branco sahe para a gaiola, e sem discursos, mas com arte, prende um bom par. Depois os dois artistas seguiram pareando a rez, mas sem poderem luzir, porque o touro era ordinario como os manos. Manuel dos Santos, com a «muleta, tirou uns passes atrevidos, cingindo-se á cabeça do touro com valentia. Depois, o Botas, que estava zangado com os forcados, mandou-os outra vez para a «sopa», mas houve uma pega regular.

            O 5.º touro, para Simões Serra e Eduardo Macedo, era da raça e do prestimo dos anteriores. Recebeu uns ferros, a que não poude fugir; foi passado de capote por Theodoro e acabou-se a 1.º parte, com uma pega de volta.

            O intervallo foi pouco demorado, mas no emtanto deu tempo a que muitas pessoas se retirasse já enjoadas com a massadoria de uma corrida ordinaria.

            O novo toque dos charamelleiros, saiu o 6.º touro, 1.º da 2.ª parte e que foi o melhor. Coube a José Bento (de Araújo) e Fernando (de Oliveira), que começaram desconfiados, mas animaram-se ao ver que tinham a lidar um touro voluntario e nobre. José Bento (de Araújo), até discursou (hontem era o dia dos enthusiasmos com expansão oratoria) e brindou ao seu amigo Estevão de Alcochete, (NOTA: O «Estêvão de Alcochete" era na realidade Estêvão António de Oliveira, um influente lavrador e ganadeiro de Alcochete. Alguns dos seus touros foram lidados por José Bento de Araujo. Segundo a IA, na corrida de gala em homenagem a Eduardo VII, o gesto do cavaleiro foi não só um brinde como também uma saudação à tradição e à robustez da criação de gado nacional.) brindou á imprensa (muito obrigado amigo), e por fim saudou para a sombra arremessando com o tricornio e saindo a pôr uns bellos «curtos», no que foi bem acompanhado por Fernando (de Oliveira). Ambos os cavalleiros tiveram demorado e enthusiastica ovação. Este touro foi bem pegado pelo forcado Manuel.

O 7.º coube a João Calabaça e José Martins. Nem o boi dava nem os artistas estavam com sorte.

            O 8.º para Manuel Casimiro e Joaquim Alves tambem siu de pouco prestimo, mas em compensação o 9.º era muito espero e o 10.º, o ultimo da tarde, foi quasi tão bom como o touro com o que abrira a 2.ª parte. Silvestre Calabaça, á gaiola, em sorte de cadeira, prendeu meio par e Thomaz da Roche tambem mostrou o seu valor de bandarilheiro.

            Uma ovação calorosa e merecida tiveram os cavalleiros a quem coube a lide do 10.º touro, sendo pena que tão tarde ella começasse. O rei Eduardo retirou ao findar a lide do 7.º touro. (NOTA: No comments!) Quando elle saiu repetiram-se as acclamações com que á entrada o tinham saudado.

            — O serviço policial na praça era feito sob o commando directo do sr. coronel Moraes Sarmento.

            — A guarda muncipal de serviço, um pelotão de cavallaria e outro de Infantaria, apresentou-se de grande uniforme.— A. N.

            Um conflicto — Depois de lidado o 2.º touro, viu-se no sector n. 4, bancada geral, perfeitamente «á cunha», um individuo de chapeu d’aba larga e de luvas amarellas, passar até á altura do portão dos cavalleiros, e como ali lh’aprouvesse sentar-se, só o conseguiu depois de certa benevolencia de um nosso amigo, e não pela cortezia do recem-chegado.

            Resultou ficarem apertadas demasiadamente as pessoas que n’esta bancada já lá estavam, dando logar a certo desabafo de dichotes, como é natural, levantando-se aquelle individuo com altivez, altercando e ameaçando a quem lhe não desse logar.

            Foi o bastante para se estabelecer um desaguisado de murros e bengaladas, e a policia pol-o fóra, mas, já sem chapeu, de bengala partida e bem convidado pelo atrevimento.

            O desordeiro, dizia-se, ser da Inspecção do sello, e chamar-se Joaquim Nicolau Gomes.  

O cavaleiro José Bento de Araujo na praça do Campo Pequeno.
FOTO: Arquivo Fotográfico da CML

In VANGUARDA, Lisboa – 7 de Abril de 1903

12 DE JANEIRO DE 1896 - LISBOA: UMA ESCOLA DE TOUREIO...

 
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Escola de toureio em Lisboa

            Deve ser brevemente inaugurada em Lisboa, na rua do Carrião, dirigida pelo distincto bandarilheiro Vicente Mendes (El Pescadero), contando já grande numero de socios.

Vicente Méndez, «El Pescadero».
FOTO: Emilio Beauchy, Sevilha

(NOTA: Vicente Méndez, «El Pescadero». Este grande bandarilheiro, que era provavelmente natural de Madrid, participou, por exemplo, enquanto peão de brega no dia 18 de Agosto de 1892 na corrida de inauguração de praça do Campo Pequeno, em Lisboa. )

            Brevemente faremos a discripção de tão util estabelecimento.

In A ESTREIA, Lisboa – 12 de Janeiro de 1896

15 DE JULHO DE 1909 – LISBOA: A «ASSISTÊNCIA ELEGANTE» DA PRIMEIRA CORRIDA NOCTURNA COM «DIESTROS» DE ESPANHA E O CAVALEIRO JOSÉ BENTO DE ARAÚJO

 
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HIGH-LIFE

No Campo Pequeno

            Assistencia elegante á corrida nocturna de hontem:

            Condessas de Alto Mearim e de Pinhel e filhas, D. Julia e D. Henriqueta Seabra de Castro, D. Alice Schrœter de Oliveira Pires e filha, D. Maria da Silveira de Vasconcellos e Sousa (Catello Melhor), D. Maria Helena de Almada e Lencastre (Souto d’El-Rei), D. Maria da Graça de Saldanha Marreca e filha, madame Tenreiro Ilharco, D. Alice Ilharco Vianna, D. Andrelina Moraes de Carvalho e filha, D. Alice de Assis Furtado, D. Alice Guedes de Heredia, D. Maria Emilia Taborda Trigueiros Martel, D. Emilia Barbosa Mauperrin dos Santos e filhas, D. Josephina de Brissac Neves Ferreira Lobo de Campos, D. Elvira de Albuquerque d’Orey, D. Maria das Dores e D. Maria Nazareth de Almeida Centeno, D. Eugenia Talaya Botelho, D. Albertina Dias Ferreira Trancoso, D. Albina de Carvalho, etc.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 16 de Julho de 1909

20 DE JUNHO DE 1909 – LISBOA: UMA FESTA FALHADA POR CAUSA DOS TOUROS MANSOS...

 
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TOURADAS

A festa de José Bento (de Araújo)

            No passado domingo realisou-se no Campo Pequeno, a festa artistica d’este popular cavalleiro.

José Bento (de Araújo) tinha organisado um programma em que entravam artistas de grande valor, que se os touros que se lidaram resultassem bravos, seria talvez a primeira corrida da epoca, mas infelizmente, os touros do sr. Commendador Paulino da Cunha e Silva, sairam na maioria, maus, e difficeis de lidar, do que resultou o pouco brilho da lide, apesar da boa vontade por parte de todos os artistas.


DOCUMENTO: Biblioteca nacional de Portugal

Abriu a corrida o valente cavalleiro Morgado de Covas, cravando alguns ferros bons á tira e meia volta, que a assistência applaudiu.

O trabalho d’este artista foi correcto, mas não teve o luzimento que deveria ter, por o seu baio se negar algumas vezes. No 6.º cravou quatro ferros á valentona, porque o touro era manso. Ouviu applausos da assistencia pela diligencia e boa vontade.

O festejado toureou o 5.º e 6.º, este a duo com Manuel dos Santos.

No 5.º toureou com a sua costumada valentia, citando por vezes de caro, empregando alguns ferros de valor, terminando a lide com um bello ferro curto, dedicado ao publico, recebendo no fim da lide uma grande ovaçao e muitos e valiosos brindes dos seus amigos, alguns de bastante valor e fino gosto.

No 6.° cravou très bons-ferros, n’uma lide vistosa e valente. N’este touro teve Manuel dos Santos dois superiores pares de bandarilhas de muito valor, pela maneira como entrou, levantando os braços como um mestre e saindo limpo da cabeça do touro.

Tanto José Bento (de Araújo) como Manuel dos Santos, foram bastante victoriados.

Da pionagem, damos o primeiro logar aos eximios amadores Eduardo Perestrello e D. Carlos de Mascarenhas, que ao sairem ao redondel para lidarem o 7.º, cuja lide offereceram ao distincto cavalleiro amador sr. Victorino Froes.

O touro que lhe destinaram resultou manso, e por isso os sympathicos amadores, apenas empregaram alguns pares, de pouco luzimento, mas em sortes artisticamente preparadas. O publico applaudiu-os pela diligencia que os distinctos amadores empregaram, mas com um touro d’aquella natureza ninguem brilhava. 

Saleri, que já vimos no Campo Pequeno este anno enthusiasmar o publico com o seu artistico trabalho quer em bandarilhas, quer com a muleta, n’esta corrida pouco se salientou pela má qualidade dos touros que lhe destinaram, apesar da sua boa vontade, só no 4.º deixou dois bons pares, sendo um a cambio. Com a muleta esteve valente no trasteo empregado no 2.º tirando alguns passes bons e um de rodilhas acceitavel. Esteve incansável no auxilio da lide

O sympathico sevilhano, que conhecemos desde pequeno, e que conta em Lisboa numerosos amigos e admiradores, teve uma tarde superior, apesar de ter que se defrontar com touros mansos, mas o sympathico artista com tanta arte e intelligencia, conseguiu que o seu trabalho aquecesse um pouco os espectadores que o applaudiram com justiça.

Em bandarilhas teve no 4.° tres pares de frente, um superior; com a muleta o seu trabalho foi magistral, principalmente no 5.º touro em que teve passes de peito, em redondo, d’uma valentia e arte extraordinaria, toureando a dos dedos de los pitones. Não é possivel com touros d’aquella qualidade tourear com mais frescura e elegancia.

Durante a lide tirou algumas largas superiorissimas e auxiliou a lide muito e bem.

O publico applaudiu o sympathico artista com grandes ovações muito justas, porque em nosso intender, Bienvenida esteve toda a tarde trabalhador, porque com touros maus é que se conhece o artista.

Na lide de pé pouco ha a salientar, pela má qualidade dos touros, apenas Theodoro teve uma excellente gaiola no 2.º e mais dois pares bons e José Moyano, dois bons pares. Cadete, no 3.º um bom par, e Maera outro, isto porque o touro era manso perdido.

Alfredo dos Santos, deu um bom salto de vara e teve um bom par no 10.

Na briga salientaram-se além dos espadas, Theodoro, Moyano e Maera, estes dois ultimos estiveram incansáveis toda a tarde.

O 7.º touro foi passado de muleta pelo novilheiro José Moyano, mas o publico não poude apreciar esse trabalho, por a intelligencia mandar terminar a lide, sem motivo justificado. Se fosse outro diestro que estivesse passando de moleta.. . Temos notado que a intelligencia ha uns tempos a esta parte está descurando muito a sua auctoridade.

Com respeito a pégas, uma lastima. Já por mais de uma vez temos manifestado a nossa opinião a tal respeito; forcados assim, é melhor a empreza supprimir essa verba.

A praça teve uma concorrência muito regular nos lugares superiores e fraca no sol.

Aos distinctos amadores que tão gentilmente tomaram parte n’esta corrida, offereceu José Bento (de Araújo) ricos alfinetes de manta.

In REVISTA TAURINA, Lisboa – 27 de Junho de 1909

22 DE JULHO DE 1909 – LISBOA: CORRIDA NOCTURNA COM ARTISTAS DE ESPANHA E DE PORTUGAL

 

Biblioteca nacional de Portugal

TOUROS

            Eis o programma da corrida nocturna que se realisa hoje no Campo Pequeno.

1.º Touro para José Bento d’Araujo; 2.º Jorge Cadete e Manuel dos Santos; 3.º R. Thomé e Alexandre Vieira; 4.º Eduardo Macedo; 5.º banderilheiros do espada «Bombita»; 6.º José Bento de Araujo; 7.º Jorge Cadete e «Patatero»; 8.º banderilheiros do espada «Bombita»; 9.º Eduardo Macedo; 10.º M. Dos Santos, R. Thomé e A. Vieira.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 22 de Julho de 1909

24 DE JUNHO DE 1909 - CACILHAS : CORRIDA DO SÃO JOÃO COM OS CAVALEIROS EDUARDO DE MACEDO E JOSÉ BENTO DE ARAÚJO NA PRAÇA NOVA DE TOUROS (DEPOIS DE A DE ALMADA ARDER)

 


O cavaleiro José Bento de Araújo.
Painel de azulejos na fachada do prédio que mandou construir.em Lisboa.
FOTO: © LC & RUI ARAÚJO

CACILHAS

            A tradicional corrida do S. João, realisada n’esta praça, foi uma das melhores que se tem realisado n’esta praça. Poucas vezes mesmo no Campo Pequeno se tem visto corridas em que os espectadores saiam tão satisfeitos como sairam d’esta corrida.

            Os touros do acreditado lavrador Roberto & Roberto, estavam bem apresentados, apesar de alguns sairem refractarios ao castigo, a maioria cumpriu e todos, devido aos artistas que os lidaram, proporcionaram excellente lide.

            José Bento (de Araújo) lidou o 1.º com muita valentia e arte empregando boas farpas, mas no 6.º o seu trabalho enthusiasmou de tal maneira os espectadores que se levantou a praça em peso a applaudir o magnifico trabalho do calente cavalleiro, que ao terminar a lide offereceu um ferro curto ao sympathico diestro Bienvenida que assistia á corrida, valendo-lhe um delirio de palmas. Poucas vezes temos visto José Bento (de Araújo) tourear com tanta valentia como n’esta corrida; é sem duvida o unico cavalleiro que ainda enche uma praça com a sua valentia e arte com que toureia.

            Macedo no 4.º que era rapido, teve una lide intelligente, cravando excellentes ferros, terminando a lide com dois ferros curtos de grande valor, que lhe valeram extraordinarios applausos. No seu 2.º tambem esteve bem.

            Da gente de pé salientou-se Cadetee Theodoro, aquelle entre outros bons pares, teve no 7.º uma gaiola que hade ficar memoravel, raras vezes Cadete porá outro par como aquelle que lhe valeu uma grande ovação, até Bienvenida se levantou exclamando: olá, por los valientes!

            Theodoro, teve bons pares, assim como Manuel dos Santos, Thomé e Malagueño.

            Alfredo dos Santos deu um bom salto de vara e um quiebro de joelhos.

            Josepha Mala Pepita que se apresentava pela primeira vez n’esta praça depois do seu regresso das Terras de Santa Cruz.

            É uma muchacha com bastante habilidade, no pouco trabalho que lhe vimos exibir. Trasteou o garraio alargando bem os braços e collo com dois pares de bandarilhas rasoaveis e não fez mais nada por o garraio se ter desembolado.

            O seu bandarilheiro Minuto-Chico é um bom auxiliar.

            Os amadores esperam vel-a n’outra corrida para a verem trastear de muleta, trabalho que nos dizem ella executa na perfeição.

            Na brega distinguiu-se Ribeiro Thomé, Theodoro e Malagueño que estiveram incansaveis toda a tarde.

            No penultimo touro, a pedido dos espectadores, veio a arena o sympathico diestro Bienvenida, que assistia á corrida e deu alguns pares de muleta no touro, tendo por auxiliar o seu bandarilheiro Maera recebendo ambos uma grande ovação.

            Houve uma rija pega por José Russo e uma chamada ao lavrador.

            A corrida foi bem dirigida por Jayme Henriques.

In REVISTA TAURINA, Lisboa – 27 de Junho de 1909