16 E 23 DE ABRIL DE 1905 — 21 E 28 DE MAIO DE 1905 – PORTO: QUATRO CORRIDAS COM CARTEL HISPANO-PORTUGUÊS DE LUXO


 

Biblioteca Digital de Castilla y León

ESTAFETA TAURINA

            — El empresario de la plaza de Sierra del Pilar, Alvaro d’Almeida, organiza las siguientes corridas: 16 y 23 de Abril y 21 y 28 de Mayo, con los espadas Machaquito, Quinito, Bombita chico, Cocherito de Bilbao y Gallito.

            Se lidiarán toros de Infante da Camara, Esteban d’Oliveira, Luis Gama y Carlos Marques.

            Como rejoneadores, cuenta la empresa con José Bento d’Araujo, Manuel Casimiro, Joaquín Alves, Simões Serra, Eduardo Macedo e José Casimiro.

            Están ajustados los banderilleros portugueses: Theodoro, Cadete, Saldanha, Roche y Manuel de los Santos. — FRANCISCO MONTERO, Monterito.

In SOL Y SOMBRA, Madrid – 30 de Março de 1905

3 DE JULHO DE 1898 – RIO DE JANEIRO: UMA TOURADA PERIGOSA...

 
Biblioteca nacional do Brasil

TAUROMACHIA

            Não ha mal que sempre dure, nem bem que não se acabe.

            Assim diz o dictado, e assim é. Esta nossa vida é um verdadeiro vae-vem continuo de illusões e desillusões, tristezas e alegrias.

            Em compensação a essas alegrias, que não duram, temos as nossas tristezas, que felizmente tambem acabam. E tanto assim é que tenho hoje duas boas noticias a dar aos amadores de touradas e assiduos frequentadores da bella praça das Laranjeiras.

            A primeira boa noticia é a seguinte. José Bento (de Araujo), o sympathico e arrojado cavalleiro, parte brevemente para a Europa.

            Mas, meu Deus! Decerto exclamarão os meus caros leitores. Vamos ficar muito peior do que já estavamos. Se o Club Tauromachico Federal já tanto se resentia da falta de bons toureiros, como poderemos regosijar-nos com a partida de José Bento (de Araujo), um dos poucos artistas de valor que possuimos!? Pois é verdade.

            José Bento (de Araujo) e os leitores d’estas chronicas tauromachicas devem alegrar-se , e muito, ao sabel qual é o motivo da sua partida. Eil-a:

            José Bento (de Araujo) parte, mas volta breve: vai tão sómente com o fim de contratar bons artistas e comprar touros, mas touros bons de casta e puros. Se por um lado vamos ficar privados do sympathico artistas por algumas semanas, teremos como recompensa a esta ausencia a certeza de que dentro em breve vamos gozar no redondel das Laranjeiras verdadeiras touradas com uma quadrilha de artistas, escolhida entre toureiros de primeira ordem, e com boas féras.

            Assim, pois, acabará aquella pasmaceira, a que tristes temos assistido todos os domingos, e, com enchentes á cunha, será ella substituida por delirante enthusiasmo.

            Entre os artistas que José Bento (de Araujo) espera contratar figura o celebre espada Faico. (NOTA: Francisco González «Faico» (Sevilha, 1872-1933) foi um célebre espada, especialmente famoso por ter chefiado a grande «cuadrilla» dos «Niños Sevillanos» ao lado de Enrique Vargas «Minuto».)

            É um bom artista. Vimol-o trabalhar por differentes vezes em Madrid e Sevilha, e podemos garantir que deve agradar muito aqui. Em Madrid é elle tido hoje como um dos primeiros espadas hespanhóes.


Francisco González «FAICO»
La Lidia, Madrid - Biblioteca Digital de Castilla y León

            Emquanto aos touros, dizem-nos que serão apartados por José Bento (de Araujo) em pessoa, e tirados das manadas dos melhores ganaderos de Portugal. Isto equivale a dizer que teremos boas féras.

            Levantemos, pois, todos um hurrah a José Bento (de Araujo), que não se poupa a sacrificios quando se trata de bem servir o publico. Boa viagem, e que volte breve a encontrar n’esse mesmo publico, por quem se sacrifica e que tanto o estima, justa recompensa a esses sacrificios.

            E a segunda boa noticia?

            Ahi vai ella: Temos em perspectiva uma magnifica tourada. Como adeus, antes de partir, faz José Bento (de Araujo), domingo proximo, a sua festa artistica, que, com a sua fidalga gentileza, offerece á illustrada imprensa fluminense.

            No intuito de bem servir o publico, não se tem poupado o incansavel artista a trabalhos e sacrificios. Serão lidados domingo 7 touros em vez de 6, como até aqui, entre os quases veremos os celebres bichos de cavallo Caraça e Torrado.

            Tambem trabalhará n’essa tarde o nosso elegante e sympathico artista Alfredo Tinoco e toda a quadrilha. (NOTA: Os cavaleiros Alfredo Tinoco da Silva e José Bento de Araujo fizeram algumas corridas juntos tanto em Portugal como no Brasil.)

            Ninguem deixe domingo de ir applaudir José Bento (de Araujo) na sua festa de despedida.

            Até domingo, pois, e até lá passemos uma vista de olhos sobre a — Distribuição da corrida.

1.ª PARTE

1.º touro para ser farpeado por Alfredo Tinoco.

            2.º touro, para ser bandarilhado por Calabaça, Felix e Rocha.

            3.º touro (celebre Caraça) farpeado por José Bento de Araujo.

2.ª PARTE

            4.º touro, bandarilhado por Ezequiel, Rodrigues e Morenito.

            5.º touro, farpeado por José Bento de Araujo.

            6.º touro, para a afamada troupe Pae Paulino.

            7.º touro (o celebre Torrado) farpeado por José Bento de Araujo.

Minuto.

In A NOTICIA, Rio de Janeiro – 1 – 2 de Julho de 1898

NOTA

O perfil de FAICO pode ser consultado aqui:

https://historiadeltorero.com/toreros/f/francisco-gonzalez-faico/

MAIS INFORMAÇÃO SOBRE A ATRIBULADA CORRIDA DE 3 DE JULHO DE 1898:

https://corridasportugalespanafrance.blogspot.com/2022/12/3-de-julho-de-1898-rio-de-janeiro.html

https://corridasportugalespanafrance.blogspot.com/2025/03/3-de-julho-de-1898-rio-de-janeiro.html

https://corridasportugalespanafrance.blogspot.com/2022/12/3-de-julho-de-1898-rio-de-janeiro-festa.html

15 DE JANEIRO DE 1910 – LISBOA: A «MULHER QUE RIA» ERA A ACTRIZ CECILIA NEVES, AMIGA DE PEITO DO CAVALEIRO JOSÉ BENTO DE ARAÚJO


 

CECILIA NEVES (Actriz do Theatro D. Amelia)
Documento: Biblioteca nacional de Portugal 
(Foto da publicação A RAJADA restaurada com a ajuda da IA)

A MULHER QUE RIA

Seu rosto tinha a doce transparencia

Das louças do Japão: era judia;

Em seus olhos azues quanta innocencia!

Mas dos sonhos de amor zombava e ria.

 

Mixto de sombra e luz: ás vezes pura

Como aerea visão me apparecia;

Outras vezes, extranha creatura!

Era a pagã que entre meus braços ria.

 

Se de amor doces phrases eu soltava,

E febril seus cabellos desprendia,

De meus joelhos, douda, resvalava,

E beijando-me, Esther, cantava e ria.

 

Minha alcôva era um ninho perfumado,

E entre flores a vida me corria:

O socego perdi, enamorado

D’essa mulher, que ora cantava, ou ria.

 

Uma vez, n’uma ceia deslumbrante,

Entre o ruidoso estrepito da orgia,

Nos braços desmaiou d’um estudante:

Depois, deixou-me só... cantava e ria.

 

Que saudades eu tive! em meu caminho

Vi-a hontem passar, triste e sombria,

Solta na espádua a trança em desalinho:

Era a sombra de Esther, pois já não ria.


Gonçalves Crespo


Documento: Biblioteca nacional de Portugal

In A RAJADA, Lisboa – 15 de Janeiro de 1910

NOTA 1 (FONTE IA):

A ACTRIZ CECILIA NEVES

        A actriz Cecilia Neves foi, de facto, uma figura de destaque no teatro de revista e na comédia entre o final do século XIX e o início do XX, tanto em Portugal como no Brasil.

        A sua presença nas corridas de José Bento de Araujo (1851–1924) era um reflexo do prestígio social de ambos: as touradas de gala eram os grandes eventos mundanos da época, onde a classe artística e a aristocracia se cruzavam.

        Aqui estão mais detalhes sobre a actriz e essa ligação:

   Carreira entre Dois Mundos: Cecilia Neves integrou várias companhias de prestígio, como a de Rafael de Oliveira e a de Eduardo Pereira. No Brasil, brilhou em palcos como o Teatro Carlos Gomes e o Teatro Recreio no Rio de Janeiro, interpretando papéis marcantes como Mariana em «Amor de Perdição» (1914).

   Vedeta da Época: Em Portugal, foi uma das estrelas da peça «Vénus» no Teatro D. Amélia (actual São Luiz, Teatro Municipal), chegando a ser imortalizada em bilhetes-postais da época, o que demonstra a sua enorme popularidade.

   Presença nas Touradas: Naquela época, o "estrelato" não se limitava ao palco.

        As actrizes de sucesso eram figuras obrigatórias nas barreiras das praças de touros, especialmente nas corridas de José Bento de Araújo, que era o cavaleiro preferido da elite e da família real. A presença de Cecilia Neves era tão regular que se tornou parte da "crónica social" não escrita das lides de José Bento de Araujo.

   Cinema Mudo: Cecilia também teve uma incursão precoce no cinema, participando no filme «A Viuvinha do Cinema« (1917).

Essa associação entre a "estrela do palco" e o "mestre da arena" simboliza o auge do romantismo tardio em Portugal, onde o teatro e a tauromaquia eram os pilares do entretenimento público.

A relação entre os dois simbolizava o cruzamento entre as elites do espectáculo e da Festa Brava da época:

   O Cavaleiro nas Plateias: José Bento de Araújo era uma das figuras mais prestigiadas do toureio a cavalo, admirado pela sua elegância e "educação esmeradíssima". A sua presença assídua nos teatros onde Cecilia Neves actuava, como o Teatro Carlos Gomes ou o Teatro Trianon, era um evento social comentado nas crónicas da época.

O cavaleiro José Bento de Arujo
Documento: Museu Tauromáquico de Nimes, França (imagem restaurada pela IA)  

   A Actriz nas Bancadas: Por outro lado, Cecilia Neves era presença habitual nas corridas de touros em que o cavaleiro participava, tanto em Portugal (como na Praça de Touros de Sintra ou Algés) como no estrangeiro, onde o cavaleiro gozava de fama internacional. (NOTA DE Rui Araújo: José Bento de Araujo actuou em Espanha (Madrid, Barcelona, Bilbao, Caudete, San Sebastián, Santander, etc.), França (Paris, Arles, Avignon, Marselha, Mont-de-Marsan, Nimes, etc.), Brasil (Rio de Janeiro, Florianópolis, Belém, etc.) e quiçá Peru.)

   Contexto Cultural: Cecilia Neves integrou companhias de renome, como a de Leopoldo Fróes, e destacou-se em papéis dramáticos como Mariana em «Amor de Perdição» (1914) e em comédias como «A Viuvinha do Cinema». O apoio mútuo entre as duas carreiras alimentava a mística de um par que dominava as duas maiores paixões populares de então: o teatro de revista/drama e a tauromaquia.

        Este "intercâmbio" de públicos era uma marca da sociabilidade da época, onde as vedetas do palco e os "heróis" da arena partilhavam o mesmo círculo de admiração e prestígio.

NOTA 2 (FONTE WIKIPEDIA):

O POETA GONÇALVES CRESPO

•   António Cândido Gonçalves Crespo (Rio de Janeiro, 11 de Março de 1846 — Lisboa, 11 de Junho de 1883) foi um jurista e poeta português de influência parnasiana, membro das tertúlias intelectuais portuguesas do último quartel do século XIX. Nascido nos arredores da cidade do Rio de Janeiro, filho de mãe escrava, fixou-se em Lisboa aos 14 anos de idade e estudou Direito na Universidade de Coimbra. Dedicou-se essencialmente à poesia e ao jornalismo.

FOTO: © Rui Araújo

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PORTUGAL

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NOTA:

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https://www.combonianos.pt/noticia/14/421/apoiar-a-missao-atraves-do-irs/

15 DE JULHO DE 1909 – LISBOA: PRIMEIRA CORRIDA NOCTURNA COM «DIESTROS» DE ESPANHA E O CAVALEIRO JOSÉ BENTO DE ARAÚJO

 


Biblioteca nacuional de Portugal

Touros

            A corrida nocturna que se realisa hoje no Campo Pequeno, ás 9 ½, é assim distribuida:

          1.º para José Bento d’Araujo, 2.º para Jorge Cadete e José Moyano, 3.º para Manuel dos Santos e Ribeiro Thomé, 4.º para morgado de Covas (NOTA: Morgado de Covas), 5.º para espada «Regatería» (NOTA: «Regaterín», aliás Antonio Boto Madrid, 1876 – Barcelona, 1938), 6.º para José Bento d’Araujo, 7.º para Alexandre Vieira e Alfredo dos Santos, 8.º para espada «Regaterín», 9.º para morgado de Covas, 10.º para Manuel dos Santos e José Moyano.

Regaterín — O toureiro da «Villa de Arbeteta» (Guadalajara)
FOTO: Villa de Arbateta

          A´s 8,27 sae do Rocio um comboio, custando a passagem 40 réis em 3.ª e 50 réis em 2.ª

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 15 de Julho de 1909

MAIS INFORMAÇÃO SOBRE «REGATERÍN»

https://villadearbeteta.es/2025/03/07/el-torero-regaterin-y-arbeteta/

22 DE JULHO DE 1909 – LISBOA: SEGUNDA CORRIDA NOCTURNA NA PRAÇA DO CAMPO PEQUENO

 
Biblioteca nacional de Portgal

TOUROS

Campo Pequeno

Tourada nocturna

            É certo que as touradas á noite teem mais amadores.

            Já duas collossaes entradas o confirmam.

            A animação n’ellas avulta mais.

            Realmente o espectaculo, sob os jorros de luz electrica, disposta com arte e gosto como esta, tem um tanto de phantastico, de magico!

            O espirito está bem disposto.

            Espraia-se a vista por qualquer sector, e o coração pulsa intenso, porque as mulheres bonitas são aos kilos, são ás arrobas, ás...

            A luz da electricidade attrahe-as como se mariposas fossem, não ha duvida, pois que, em corrida alguma, tanto rosto formoso vimos, e tanto corpo elegante, como n’estas nocturnas. E principalmente ante-hontem.

            Não se póde descrever o effeito d’essa profusão de flôres raras e bellas, realçando, ora em «bouquets», ora disseminadas, d’entre o silvestre e espinhoso matto — o bicho homem — do meio de bravios e asperos cardos — as matronas de caras pelludas e ferozes — e das traiçoeiras e ortigas — o terrivel flagello das sogras, algumas das quaes vimos então sorrir (caso raro!) ante a assombrosa faena que o grande Bombita offereceu ao 5.º de Valle da Figueira, que por signal era «berrendo», bonito e nobre.

            Após uns quiebros, que só maestros consagrados como elle podem realisar, arma-se Bombita com os avios, e eil-o levando a assistencia ao rubro, por seus adornos, variedades e perfeição de lances; frio, sereno e arrimado.

            Por mais varias vezes levantou o senado, com suas largas, capotazos varios, e «quiebro de rodillas».

            Acompanhava-o Patatero, que não esteve feliz com palitroques.

            Salientou-se muito Cadete, em duas brilhantes gaiolas, e varios sesgos. Vieira cambiou bem um par, e metteu outro tambem de valor, de frente, no mesmo morrillo em que Thomé á gaiola prendeu um de muitas palmas. Manuel dos Santos cravou com acerto no 2.º.

            A cavallo toureiaram José Bento (de Araújo) e (Eduardo) Macedo.

            Aquelle no 1.º e no 6.º, houve-se com a costumada valentia, prendendo ferros de peso. No 6.º foi tocado algumas vezes, porque o diabo deitava trinta milhas á hora.

            Macedo, principalmente no 4.º, teve uma lide arrojada e feliz, e á qual deu variedade.

            Ambos os cavalleiros foram muito applaudidos.

            Foram bem pegados dois bichos.

            Emilio Infante apresentou um curro bonito e accusando bom pasto.

            O 1.º, 4.º e 6.º mostraram braveza. Dois cumpriram e os restantes fugiam.

Marialva.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 24 de Julho de 1909

22 DE JULHO DE 1909 – LISBOA: A SEGUNDA CORRIDA NOCTURNA NA PRAÇA DO CAMPO PEQUENO

 
Biblioteca nacional de Portugal

TOUROS

            Eis o programma da grande corrida nocturna d’amanhã, em que toma parte o incomparavel Ricardo Torres («Bombita»).

            Lidam-se 10 bonitos touros do sr. Emilio Infante, sendo 6 «berrendos» em differentes pintas.

            Cavalleiros, os festejadissimos artistas José Bento (de Araújo) e Eduardo Macedo. Bandarilheiros portuguezes, Jorge Cadete, Manuel dos Santos, Ribeiro Thomé e Alexandre Vieira. Espada, o grande «Bombita» com os seus dois bandarilheiros «Patatero» e «Morenito».

            «Patatero» toureia um touro com Cadete.

            A illuminação da praça, onde além dos arcos voltaicos já figuravam nada menos que 10:000 lampadas, será reforçada com mais 2:000 lampadas de côres na linha divisoria dos camarotes de 1.ª e 2.ª ordem em toda a volta da praça. O fim é meramente decorativo.

            Tambem a empreza mandou collocar no exterior da praça quatro arcos voltaicos para illuminar os passeios e inundar de luz o largo, nos pontos onde param as carruagens.

In DIARIO DE NOTICIAS, Lisboa – 21 de Julho de 1909

10 DE OUTUBRO DE 1897 – LISBOA: AS VERDADEIRAS CORRIDAS DE TOUROS... TÊM TOUROS DE MORTE

 


Biblioteca nacional de Portugal

Verdadeiras corridas de touros

            A arte de tourear em Portugal nunca poderá ter o brilhantismo que possue a arte hespanhola, pelo motivo de as corridas serem aqui parodiadas.

            O touro deve ser corrido puro e em hastes limpas.

            O touro deve ser picado, bandarilhado e morto.

            O toureiro deve entrar na arena cheio de valor e valentia.

            O vivente nasceu para morrer, portanto, tanto faz ser hoje como ámanhã.

            O homem que exerce a arte de tourear, sabe de antemão o perigo da sua profissão.

            Os touros nasceram para depois de nutridos, serem abatidos n’um matadouro para proveito do publico. Por conseguinte, tanto faz serem mortos no matadouro como na arena.

            Será o meu grito, e tenho esperança que ha-de ser ouvido por aquelles que podem fazer uma grande revolução na tauromachia nacional.

            Não desanimemos porque mais dia menos dia será satisfeito o nosso desejo.

            Proclame-se a morte do touro para depois assistirmos ás verdadeiras corridas de touros.

Vivam os touros de morte!

In A CORRIDA, Lisboa – 10 de Outubro de 1897

22 DE JUNHO DE 1919 – CASCAIS: UMA CORRIDA COM FRANCISCO BENTO DE ARAÚJO, FILHO DO CAVALEIRO JOSÉ BENTO DE ARAÚJO

 
Hemeroteca Digital - CML

TAUROMAQUIA

            EM CASCAES. — No proximo domingo realisa-se n’esta praça uma corrida mixta de 5 touros e 5 vacas, pertencentes ao lavrador sr. Manuel Ventura Vitorino.

Francisco Bento d'Araujo, filho do cavaleiro José Bento de Araújo
FOTO: © RUI ARAÚJO

            Na lide toma parte o notavel cavaleiro amador D. Alexandre de Mascarenhas e o profissional Francisco Bento de Araujo. Na lide de pé tomam parte D. Carlos e D. João de Mascarenhas e João Malhou da Costa, auxiliado pelos artistas José da Costa, Rodrigo Largo e Alvaro Xavier.

In A IMPRENSA, Lisboa – 21 de Junho de 1919

15 DE JULHO DE 1909 - LISBOA: «NOTAS D'UM ESPECTADOR»...

 
Biblioteca nacional de Portugal

TOURADA

(Notas d’um espectador)

            A inauguração das touradas nocturnas constituiu sem duvida alguma, um grande acontecimento tauromachico. Os esforços que a arrojada empreza desenvolveu foram coroados do melhor exito. Albino José Baptista e Lacerda devem estar satisfeitissimos não só pela enorme concorrencia do publico, como pelo conjuncto de circunstancias que cooperaram para abrilhantar essa interessante e aprazivel festa.

            A illuminação electrica é primorosa pela grande quantidade de lampadas e pela sua artistica disposição. Os mais ligeiros contornos de architectura arabe da praça estão postos em relevo e na arena vê se tão bem, tão claro, como se fora dia. Accresce que a corrida tendo os attractivos d’este genero de espectaculos não foi prejudicada nem pelo calor, nem pela poeira, nem pelos reverberos intensos da luz do sol em pleno estio.

            Um encanto.

            O programma da festa foi executado á risca e todos cumpriram, todos, desde os artistas... até aos touros!

            A praça trasbordava de espectadores e os applausos foram unanimes.

            Sem sermos aficionados de cartel, as corridas de touros, interessam-nos e prendem-nos o espirito. Alguns ha a quem já teem prendido o corpo; a nós nunca.

            Ha-de haver uma duzia d’annos distribuiranos o papel de moço de curro, n’uma tourada de amadores, em uma cidade do Alemtejo. Ficamos mal vistos mas desistimos. Com franqueza, achamos preferivel lidar com Sckespeare (NOTA: Shakespeare) ou Molière do que com... cornupetos!

            É que para nós se — fazer mal aos animaes, é indicio de mau caracter — correr e farpear um touro, animal tão nobre, é um acto não só violento como incorrecto. Agrada, é certo, ver a arte subjugar a força; mas com os demonios! Nos antigos circos romanos, por exemplo, nos combates dos gladiadores, vencedores ou vencidos, todos, todos, quando saudavam o Imperador, — Avé Cezar, moriturite salutand (NOTA: A formulação correcta é Ave, Caesar, morituri te salutant. Em Português: «Ave, César, os que vão morrer te saúdam!»), já d’antemão sabiam o quarto d’hora que os esperava; o boi não!

            Quando os campinos vão alli, ás pastagens do ribatejo, apartar os touros, nas manadas do Palha Blanco ou do João Patricio, quando vão arrancar os animaes ao seu socego, ao seu remanso, sabem estes por ventura, pensam por acaso qual o fim de similhante incommodo e impertinencia?!

            Ora ponhamos o caso, salvo seja, em qualquer alma christã?! .. Ponderemos, raciocinemos... sim... É por isso que nós quando assistimos a uma corrida, já não falo em Hespanha, referimo-nos a Portugal... nós concordamos que o touro é uma victima da crueldade humana!

            Confessemos, porém, que temos estima e apreço pelos artistas tauromachicos portuguezes e com alguns, mantemos relações mais do que cortezes, relações até amistosas. Mas, a lucta é desigual e para o nosso ponto de vista o ruminante é o mais fraco. Quando vemos na praça o touro aborrecido, exasperado, marrando para a direita e para a esquerda, investindo com raiva, tomando crença... tudo achamos justo e comprehensivel! Por vezes ha touros tão teimosos, que parecem ter cabeça de burro; é logico!

            Ora de de que na lide, o artista adestrado, sabe o que lhe cumpre fazer e o touro ignora, aquelle tem os recursos da sua profissão, e este sómente os expedientes proprios dos seus impetos e da sua força, resultam sem duvida alguma d’esta desvantagem, as peripecias mais estranhas e imprevistas. Ha exemplos, de por vezes o touro, perder as estribeiras, — perdôem nos o plebieismo — e atrever se a colher... os intestinos do seu contendor. Em Hespanha este caso é vulgar.

            Concordemos que em contraposição á profunda arte dos dustros (NOTA: ilustres) os touros, por vezes são verdadeiras boite á surprises. (NOTA: "boîte à surprises "? As expressões mais comuns em França no século XIX eram: "Pochette-surprise", "Boîte à malice" ou "Boîte de Pandore".).

            D. João da Camara, (NOTA: O dramaturgo e escritor D. João Gonçalves Zarco da Câmara (1852–1908) foi o primeiro português nomeado para o Prémio Nobel da Literatura (1901) e é um dos maiores dramaturgos do século XIX, a sua ligação à tauromaquia é cultural e histórica) contou nos, que um amigo seu, depois de haver lido, estudado, manusiado com afinco e constancia a arte do toureio do grande Montes, (NOTA: O título exacto do tratado que define a lide moderna é «TAUROMAQUIA COMPLETA – Ó SEA EL ARTE DE TOREAR EN PLAZA, TANTO A PIE COMO A CABALLO» (1836). Este livro foi escrito por Francisco Montes, mais conhecido por "Paquiro". O original da obra pode ser consultado aqui: https://www.gutenberg.org/files/63030/63030-h/63030-h.htm) se offereceu, para n’uma corrida de amadores lidar um touro.

            Chegou o dia, a hora, o momento e o bandarilheiro amador, na artena, depois de haver salivado as farpas das bandarilhas, cheio de si, conscio dos seus conhecimentos artisticos, citou o animal, mediu com a vista o ponto onde lhe cumpria quadrar-se com elle, o lado porque devia sahir, em summa a maneira de rematar a sorte, e eil-o ahi vae, lepido, de braços erguidos para a cabeça do touro, que investindo com o joven, o atira aos ares, marra-lhe á vontade e após im derradeiro coice deixa-o estatelado na arena.

            Frascuelo (NOTA: Don Salvador Sánchez Povedano, más conocido como Frascuelo, nació en Churriana de la Vega, Granada el 23 de diciembre de 1842 y murió en Madrid el 8 de marzo de 1898. Torero español. Tomó la alternativa en Madrid el 27 de octubre1867 de manos de Cúchares y se distinguió por su valentía y por su dominio del estoque. In"Ayuntamiento de Granada") em erva recolhe á enfermaria da praça com uma costella partida, e após larga convalescença em casa, no seio da familia, lamentava-se ao glorioso auctor dos Velhos.

            — Ora... Succeder muito... e mim... que tantas horas passei a estudar o livro de Montes!

            — Pois sim, rematou D. João; mas... o boi é que não sabendo ler desconhecia a arte do toureio.

            Na corrida de hontem todos cumpriram e até os touros bos deram a impressão de haverem lido o celebre livro de Montes!

            Os cavalleiros satisfizeram; ambos são garbosos sobre as selas dos seus ginetes.

            Os toureiros portuguezes rivalisaram nas bandarilhas com os artistas hespanhoes.

            O espada Regaterín é um artista distincto. Manejando a muleta com desembaraço e acerto, preparou os touros que lhe couberam, e com o estoque na mão simulou com pericia a morte das feras. Ninguem se perturbou com isto, por que todos sabiamos que as estocadas... eram, como se costuma dizer, para inglez vêr.

            Portanto não houve sustos, as damas conservaram-se tranquillas e sómente, n’um camarote, perto do nosso, para as bandas da tribuna, é que durante as peripecias das pégas uma formosa senhora, Madame X., morena, com os olhos negros, aveludados, trajando um lindo vestido marron foncè (NOTA: marron foncé) de mangas e collo de rendas velava a cara, tapando os olhos com a contornada mão. Nós, observando o susto aliás justificado, desviamos a attenção das cambalhotas dos forcados, para pensarmos nas pulsações alteradas... d’aquelle sensivel coração.

O Senhor D. Affonso assistiu á corrida.

16 de julho de 1909.

A.    De M.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 17 de Julho de 1909