HISTÓRIA
À tradição
lusitana do toureio equëstre (NOTA: Este livro foi publicado em 1944. Segundo o Acordo Ortográfico de 1943, escrevia-se "equêstre". A grafia "equëstre" é, portanto, uma mera gralha tipográfica.) se referem já crónicas de Strabão (NOTA: Estrabão ou Strabo), apontando-nos como
amigos dos jogos típicos, com touros, e outras que dão notícia de D. Sancho II,
alanceando ao gôsto da época, a as de Fernão Lopes, em relação a D. Fernando, e
as de Garcia de Resende, que descrevem el-rei D. João II no gôsto pelas
touradas e fazendo frente e matando à espada um touro que em Alcochete lhe saíu
ao caminho quando ia com a rainha.
Outras
crónicas descrevem façanhas do rei D. Sebastião como toureiro a cavalo. E
contam que o neto de Carlos V rejoneou em Cádiz de abalada para o sonho de
Alcácer. E muitos monarcas foram toureiros a cavalo. Até D. Miguel, que farpeou
em Salvaterra e na praça de Xabregas desta cidade de Lisboa, que viu tourear no
Rossio, no Terreiro do Paço, na Junqueira, no Largo da Anunciada, no local onde
está o Jardim da Estrêla, no Salitre, no Campo de Santana e, agora, no Campo
Pequeno.
Além de D.
Carlos, que criou touros, D. Luiz Filipe e D. Manuel em crianças entraram em
tourinhas. E quantos fidalgos lancearam e rojonearam nas festas dos nascimentos
de príncipes e das suas bodas, e nos torneios peninsulares com os continuadores
do Cid e de Villamediana, nas Praças Maiores das cidades espanholas, em nobre
competência, por sua dama, em alardes de valentia e de pompa pela gente de cada
bando, a cavalo e a pé, e com as armas e as côres de cada um.
Em Portugal,
manteve-se e aperfeiçoou-se a arte de Marialva, tornando famoso o nome do
grande senhor e cavaleiro a quem mestre Andrade (NOTA: Manoel
Carlos de Andrade) dedicou o seu notável tratado
de equitação. Desde então até os nossos dias têm sido sucessivas as gerações de
cavaleiros tauromáquicos. Estes e os forcados são os representantes do toureio
português, uma vez que os bandarilheiros, e os antigos «capinhas», quási se limitam
a imittar, até nos trajos, os seus iguais de Espanha.
«LUZ DA LIBERAL, E NOBRE ARTE DE CAVALLARIA, OFFERECIDA AO SENHOR D.
JOÃO PRINCIPE DO BRAZIL», por Manoel Carlos de Andrade. - Ed. facsimile de: Lisboa: na Regia Officina Typografica, 1790.
NOTA: Esta obra pode ser consultada na Biblioteca Nacional de Portugal aqui:
Os cavaleiros tauromáquicos têm indumentária própria — a casaca bordada e o tricórnio de plumas e botas altas, à Relvas, que antes foram do Morgado de Cuba e doutros cavaleiros do século XIX, em que brilharam Mourisca, Tinoco, Castelo Melhor e outros. Os forcados, que, como os campinos, são do Ribatejo, terra dos touros, também vestem de forma característica, com seu barrete verde, jaqueta de ramagens e calção, usando os campinos meia de agulha e o seu colete encarnado.
Após a já referida entrada dos forcados com a azêmola das farpas, os do barrete retiram-se para voltar para as cortesias e só saltar à praça quando o «inteligente», que nem sempre o é de facto, entende que o touro mete bem a cabeça e as hastes permitem a sorte. Os de chapéu de plumas, com a presença dos da «montera» em duas linhas, surgem então para as cortesias (outrora feitas ao som do hino real), caminhando passo a passo até sob o camarote da presidência, que saúdam em vénia de cabeça descoberta, depois recuando «cerimoniosamente», voltando a avançar para se separar nos cumprimentos aos quatro sectores da assistência, ladeando e cruzando-se no meio do redondel.
Necessita o cavaleiro de saber de equitação e de toureio, de estar bem a cavalo, conhecer o touro, saber distinguir-lhe as características e calcular-lhe os movimentos para a medição dos terrenos de cada sorte. Carece, também, de firmeza de joelhos para as reacções do cavalo — que o deve temer mais a êle que ao touro — boa mão esquerda para mandar com rapidez a boa direita para cravar certeiramente e pulso forte para aguentar a resistência. O cavalo deve estar ensinado para entrar e sair com ligeireza e obedecer sem hesitações.
O cavaleiro José Bento de Araujo numa corrida em Portugal
FOTO: Biblioteca nacional de Portugal
In «ABC DA TAUROMAQUIA»
de El Terrible Pérez (NOTA: Pseudónimo do jornalista,
escritor, tradutor e crítico tauromáquico luso-espanhol Rogério Garcia Pérez,
que trabalhou para o Diário de Lisboa, Heraldo de Madrid, La Voz,
Sol - 1890-1979), Edições VIC, Lisboa - 1944.
MAIS INFORMAÇÃO AQUI:
https://imprensanacional.pt/history/da-nobre-arte-da-cavalaria/
https://purl.pt/29638/4/res-784-a_PDF/res-784-a_PDF_24-C-R0150/res-784-a_0000_1-698_t24-C-R0150.pdf