1 DE DEZEMBRO DE 1899 - RIO DE JANEIRO: A DESPEDIDA...

 


Biblioteca Digital do Senado do Brasil

JOSÉ BENTO DE ARAUJO

            Veiu despedir-se de nós o estimado artista tauromachico José Bento (de Araújo), que tantos applausos tem colhido na nossa praça de touros.

            D’esta vez, em logar do sympathico (Alfredo) Tinoco (da Silva), seu antigo e inseparavel companheiro, era um distincto cavalheiro que o acompanhava.

            Sentimo-nos um tanto tristes e trocámos algumas palavras sobre aquelle que lá ficou no Amazonas e nunca mais voltará!

In DON QUIXOTE, Rio de Janeiro - 2 de Dezembro de 1899

22 DE DEZEMBRO DE 1907 - RIO DE JANEIRO: DOIS CAVALEIROS PORTUGUESES E A FAMOSA «LA PEPITA», QUE BANDARILHA A CAVALO AO ESTILO MEXICANO...

 


In JORNAL DO BRASIL. Rio de Janeiro - 21 de Dezembro de 1907

1 DE DEZEMBRO DE 1907 - RIO DE JANEIRO: UMA TOURADA CHEIA DE ENCANTO...





Biblioteca nacional do Brasil

Tauromachia

    Tarde soberba de luz! O céo era uma immensa turqueza a perder-se no engaste do horizonte longinquo. A praça apresentava aspecto garrido; sombra animadissima, sol com muitos claros, quasi não se via sombra de gente ao sol.

    Lá no alto, no renque de camarotes, espoucava a graça feminina, em toilettes claras; em um delles, o 17, a toureira pepita que vae estrear breve, em trajes da sua terra, a seu lado duas patricias sympathicas faziam pender da balaustrada o classico manton de seda bordado. Nisto os olhos do poeta chronista sentiram-se offuscados, em uma mirada para o camarote 22. Toda a salerosa graça de Sevilha alli estava resumida! Senhoril, graciosa, entrou Carmen Ruiz, a evolar alegria de seu sorriso vivo; a multidão acclamou-a, o alarido alacre das almas em festa traduziu-se em applausos, quando viram a rainha da festa derramar sobre o peitorial a seda brilhante de seu manton de manilla, com as côres hispanicas. O poeta sentiu vibrar as cordas do enthusiasmo:

Dá que eu veja, como esmola

Ou como excelsa offerenda,

O teu perfil de hespanhola

Sob a mantilha de renda!

    Seu traje, lilaz claro, perdia-se sob o rendado da mantilha, que, em rendilhados finos, acariciava-lhe os cabellos. Rubros claveles redolentes alcatifavam-lhe o collo, com a graça infinita que só ella possue, e tanta, que o poeta não resistiu:

Vive minh'alma confusa

Ao ver belleza tamanha

No teu olhar de andaluza

Toda a volupia de Hespanha!

Bello porte aristocrata,

Maneira da raça antiga!

---- Trouxeste o punhal de prata

Atravessado na liga?

    Nisto sôa o clarim e o companheiro Justo Verdades toma do lapis para fazer a resenha da corrida:

«A intelligencia desta vez encontrou pessoa com geito, o cavalheiro Victor Marques, que se portou correctamente.

Entra a cuadrilla para as solemnes cortezias, com todas as regras do estylo.

Em seguida, o clarim toca o signal para o 1º touro, côr de lusco-fusco, mais claro do que escuro, que foi o melhor cornupeto da tarde. Com elle fez o cavalheiro Morgado de Cóvas uma estrêa garrida e brilhante, cravando-lhe cinco ferros largos esplendidos, al quite e um curto magnifico, com intento.

Ganhou applausos em penca, muitas flôres e muitos charutos; uma bella ovação.

P 2º touro já é sarado, malandro como elle só, mas assim mesmo procurou dar conta do recado, recebendo de Maera um par al quarteo superior e outro supimpa, pois o bravo hespanhol, sem deixar as bandarilhas, preparou a féra com bellos passes de capote para tal fim.

Oliveira cravou um par regular e outro aproveitando.

Maera, em seguida, fez varios passes magnificos com a capa.


    Ao cavalleiro José Bento (de Araújo), um bravo que bebeu o elixir da juventa e não diz a ninguem o segredo da sua eterna mocidade, a esse veterano destemido coube o terceiro touro.

    Alfredo Santos fez a sorte da vara com resultado. A féra, a principio, fez negaças, depois resolveu-se a arremetter e José Bento (de Araújo) crvou-lhe tres ferros largos de primeirissima, dos quaes um en tabla, e um ferro curto muito bom. Applausos e ovações a José Bento (de Araújo). Nesse momento appareceu a figura do Camarão, o mais celebre dos afficionados, os espectadores saudaram-no com effusão, emquanto o poeta, embevecido, perpetrava mais umas rimas para o guapo camarote:

Teu olhar vibra scentelhas,

Teu labio inspira desejo,

Que mette milhões de abelhas

Zumbindo dentro de um beijo.

    Sôa de novo o clarim, e entre o quarto touro, Manuel Santos mette-lhe meio par, Alfredo Santos faz um bello cambio de rodillas, Cantarito mette meio par, intentando cambiar com valentia.

    Manuel Santos faz um luzido preparo e a féra, depois de capeada optimamente por Maera, recebe de Manuel Santos um bello par de castigo.

    Cantarito intenta com ardor a sorte da cadeira, a féra não ajuda, mas recebe um par magnifico.

    Mais outro par bonito de Manuel Santos e Cantarito então pratica a sorte da muleta, passe natural, é desarmado, mas rapidamente faz um bello pase de peito pela direita, outro em redondo muito bom e faz a sorte da morte cravando no animal uma boa estocada.

    Applausos em penca.

    O 5º touro, negro, dorso estriado, saltador, cachaçudo, coube ao cavalleiro Morgado de Cóvas, que montava um soberbo tordillo andaluz, puro sangue, ginete adestradissimo, que elegantemente fazia a manobra sem o menor castigo.

    Apezar das negaças da féra, Morgado crava-lhe tres ferros largos superiores e mais um á meia volta, recebendo muitas palmas.

    Houve ahi uma interrupção; onde está o homem está o perigo, na sombra armou-se um sarilho de repente, assustando as damas e obrigando os homens a alguns safanões e cotoveladas.

    Faz-se de novo a paz tranquilla, graças á conferencia de Haya do supplente que presidia á corrida.

    Entra o 6º touro, preto; Alfredo crava-lhe um par al quiebro, mas foi volteado pela féra, crava-lhe outro par, aproveitando, a meia volta. Thomé crava tres pares bons, bem lançados. Alfredo mais dous pares e meio, um delles entrando no terreno do cornupeto. Foi capeado luzidamente por Maera, Cantarito, Thomé, Oliveira e Alfredo. Seguiu-se a pantomina Cortajaca, muito parecida com a de domingo passado, dando os rapazes muita sorte com o touro que lhes coube, entre dansas, saracoteos, tambalhotas e saltos mortaes. Resumo: tarde esplendida, gado um pouco melhor do que o das corridas passadas, sortes soberbas, animação completa e a poesia, lá em cima, completamente integrada nessa figura dominadora e gracil que prendia e empolgava, perturbadoramente linda, soberbamente encantadora. E o poeta, á sahida, monologava, inspirado:

Senhora de mago encanto

Que extasia e maravilha,

És como a flor de amarantho

De um castello de Sevilha!

Justo Verdades e Raul

 

In JORNAL DO BRASIL, Rio de Janeiro - 2 de Dezembro de 1907

17 DE OUTUBRO DE 1897 - RIO DE JANEIRO: UMA TOURADA GRANDIOSA...

 


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TOURADAS

Realisar-se-à manhã, na praça do Boulevard, mais uma grandiosa corrida de sete bravissimos touros.

Tomam parte Alfredo Tinoco, que farpeará o 1º touro, sendo o ultimo farpeado pelos dois cavalheiros Tinoco e José Bento (de Araújo), sendo que este farpeará só o 5º touro.

El Gordito bandarilhará o 6º touro. Um programma cheio, que não deixará um lugar na praça do Boulevard, tantos são os «aficcionados» do bello espectaculo, nesta Capital.

In GAZETA DA TARDE, Rio de Janeiro - 16 de Outubro de 1897

NOTA

Eis o anúncio com os detalhes da corrida (jornal O PAIZ, Rio de Janeiro - 6 de Outubro de 1897):

3 DE JULHO DE 1904 - LISBOA: FESTA DO CAVALEIRO JOSÉ BENTO DE ARAÚJO NA PRAÇA DO CAMPO PEQUENO

 


Hemeroteca Digital CM Lisboa


Praça do Campo Pequeno

11.ª corrida

    Esteve por vezes animada a corrida effectuada no ultimo domingo, em beneficio do popular e estimado cavalleiro José Bento de Araujo.

    Os elementos de que dispunha o cartaz eram dos melhores, podendo até dizer-se que era uma corrida mais para satisfazer ao publico do que para ganhar.

    Os touros pertenciam ao reputado ganadero de Paucas, sr. Estevam de Oliveira, que enviou uma corrida superior, tanto em typos como no respeitante a tratamento, grandes e eguaes, e se não enthusiasmaram quanto a bravura, deve-se isso unica e exclusivamente á lide que lhes deram, pois foram recortados escandalosamente, deixando-os sem faculdades nenhumas logo após a entrada no redondel. E é isto que actualmente succede, quando um creador tem o arrojo e o gosto de apresentar touros de presença e de respeito!

    Dos cavalleiros, foi José Bento (de Araújo) quem teve as honras da tarde na lide do 5.º, que toureou com desusada valentia, e no qual collocou alguns ferros magnificos, principalmente um á tira, que causou grande enthusiasmo, pela fórma como preparou e consumou a sorte.

    Manuel Casimiro toureou tambem com vontade e foi muito applaudido, sendo colhido e quasi desmontado pelo 1.º touro, ao collocar o primeiro ferro, pelo motivo de muito apertar. No fim da lide, o publico chamou á arena o estimado artista, dispensando-lhe uma carinhosa manifestação de sympathia.

    Eduardo Macedo esteve bem na lide do 6.º, terminando com um curto superior, que lhe valeu uma justa ovação.

    Victor Marques, a quem José Bento (de Araújo) concedeu a alternativa no 3.º, não passou de regular, toureando pouco, por motivo do animal se inutilisar logo depouis de sahir á arena.

    Os espadas Algabeño e Machaquito, não fizeram prodigios: com as bandarilhas tourearam com pouco luzimento, e com o capote e a muleta estiveram pode demais desconfiados, e com poucas ganas de se arrimarem e parar. Ainda assim, foi no 6.º que a assistencia mais gostou de vêr Machaquito, em que esteve deveras valente, e a Algabeño no 9.º, no qual tirou um ou outro passe de muleta mais artistico e em que se confiou tambem mais que nos restantes.

    Dos bandarilheiros, Cadete e Rocha tiveram alguns pares que foram applaudidos; dos das cuadrillas dos espadas, Patatero e Moyano, que mais uma vez se evidenciaram dois bandarilheiros disctinctissimos.

    Os forcados, com pouca fortuna, sendo um dos do grupo conduzido á enfermaria bastante maltratado.

    A direcção, má.

    Ao sr. Manuel Botas se deve uma parte do insuccesso do gado, ou seja de não cumprir como devia, pois de fórma alguma devia consentir na arena cinco e seis artistas propositadamente recortando os touros para lhe tirarem as pernas, como aconteceu do primeiro ao ultimo da corrida.

    Assim todos dirigem.

    Da mesma auctoridade que usou para com José Bento (de Araújo) e Manuel Casimiro, quando pretendiam collocar ferros curtos no 8.º, a que com muita e justificada razão se negou, era assim que desejamos procedesse com os bandarilheiros hespanhoes, não consentindo aquelles consecutivos grupos de peões, sempre de capote na mão em volta dos touros, que só faziam o seu jogo inutilisando-os por completo para a lide com uma série interminavel de capotazos e de recortes.

    Colloque-se o sr. Botas no seu logar, e imponha-se, pois ainda ha quem veja, e n'essas occasiões não se sentirá desacompanhado, póde ter a certeza. E ainda n'esta tarde teve a prova.

    C.A. (NOTA: iniciais de Carlos Abreu)

In O GRANDE ELIAS, Lisboa - 7 de Julho de 1904

NOTA : Eis outro artigo do jornalista Carlos Abreu sobre esta corrida, publicado no SOL Y SOMBRA de Madrid :

https://corridasportugalespanafrance.blogspot.com/2020/04/3-de-julho-de-1904-lisboa-corrida-em.html

24 DE NOVEMBRO DE 1907 - RIO DE JANEIRO: 2.ª TOURADA DA NOVA CUADRILLA LUSO-ESPANHOLA NA PRAÇA DO CAMPO DE MARTE



Biblioteca nacional do Brasil

PRAÇA DE TOUROS

(CAMPO DE MARTE)

AMANHÃ

Domingo 24 de Novembro 1907

Ás 4 1/4 da tarde

2.ª apresentação da nova cuadrilha de toureiros portuguezes e hespanhoes, a melhor que tem vindo ao Brasil.

SURPREENDENTE CORRIDA DE 7 BRAVISSIMOS TOUROS PORTUGUEZES

Cavalleiros: José Bento de Araujo e Victor Marques

UM TOURO para o valente e estimado bandarilheiro Manuel dos Santos, para o formidavel PEÃO DE BREGA Antonio Maera.

Um grupo de 4 TOUREIROS EXCENTRICOS, fará, pela unica vez, nesta praça, A Grã Duqueza de Gerolstein (Successo de gargalhada).

Bilhetes á venda no armazem Derby, largo do Rocio cocheira Recreio, rua do Senado n. 35, e Confeitaria Castellões, rua do Rosario 33 A e rua de São Christovam 32 A.

AOS TOUROS!

NOTA — Tomam tambem parte na corrida os bandarilheiros Ribeiro Thomé, João de Oliveira e Alfredo dos Santos.

In JORNAL DO BRASIL, Rio de Janeiro - 24 de Novembro de 1907

23 DE MAIO DE 1895 - ALGÉS: INAUGURAÇÃO DA PRAÇA DE TOUROS

 


Hemeroteca Digital CM Lisboa

Inauguração da Praça d'Algés

VIVA A BELLA RAPAZIADA


NOTA

CAVALEIROS:

Fernando de Oliveira

Alfredo Tinoco

Manuel Casimiro

José Bento de Araújo (É o segundo cavaleiro, partindo da esquerda para a direita)

LINKS ÚTEIS

https://corridasportugalespanafrance.blogspot.com/2019/11/23-de-maio-de-1895-alges-inauguracao-da.html

https://corridasportugalespanafrance.blogspot.com/2019/11/23-de-maio-de-1895-alges-inauguracao-da.html

In O ANTÓNIO MARIA, Lisboa - 30 de Maio de 1895

1 DE JUNHO DE 1895 - LISBOA: A ESPERA DOS TOUROS...

 

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A ESPERA DOS TOUROS

(LISBOA CONTEMPORANEA)

            Chegou quasi a ser tradicional em Lisboa a espera dos touros.

            Aos sabbados havia na capital uma animação desusada, promovida por um publico especial, que adorava aquelle divertimento sui generis, synthese das grandes patuscadas dos estroinas de então.

Ir esperar os touros era o que hoje se chama, em linguagem plebéa, um pagode de estalo.

            O mundo facil das peccadoras réles, dos fadistas emeritos, dos estravagantes notaveis, dos valdevinos, dos vadios, dos borgas e de toda uma sucia de rapazes estroinas e mulheres perdidas, mettia-se, ahi pelas tres da tarde, em trens especiaes, com cocheiros lirós, de calça de belbotina, bota de polimento, jaleco com alamares de prata, chapeu  desalbado de feltro branco e cinta vermelha, e, em corrida vertiginosa, mercê de vibrantes chicotadas applicadas nos lombos de desventurados pilecas lazarentas, batia aquillo tudo para a Cruz do Taboado, primeira estação de comes e bebes, a predispor o espirito e o estomago para as grandes sensações da noite.

            Ordinariamente o menú constava de bellas postas de peixe espada frito, salada de alface, azeitonas, vinho á discrição, laranjas e queijo saloio.

            Comia-se muito, bebia-se ainda mais, as guitarras gemiam desafinados acordes, cantandores celebres psalmeavam versos errados e ordinarios de sentimentaes oitavas de fado, discutiam-se assumptos ligeiros, trocavam-se ditos obscenos, as malhas do chinquilho vibravam metallicamente na terra, erguendo nuvens de peira, dois faias riscavam n'um cumulo de pericia infame, as mulheres riam doidamente ou alardeavam a sua miserrima situação contando, em alta voz. serenas ridiculas de nojentas aventuras e avinhados galanteios, ás vezes alguns murros serviam de prato de resistencia, e não raro se ouvia o estalido secco da mola d'umqa navalha, abrindo-se n'uma algibeira, traidora e covardemente.

            Ao cahir da noite toda aquella multidão entre a qual chafurdavam alguns dos mais antigos brazões da nobreza portugueza, trocando o tu de confiança com o mais desprezivel cocheiro de praça, mettia-se nos trens, e lá iam, no meio d'uma algazarra infernal, replectos de vinho e de instinctos bestiaes, esperar o gado á porcalhota.

            A chusma augmentava com uma multidão, de cavalleiros, janotas uns, outros pelintras, hespanholas de grandes olhos negros e pés de creança, envoltas em longas mantilhas de seda branca ou chales de Tonkin, membros da élite e do sport, e alguns pandegos engraçados, montados em miseros jericos, que serviam de alvo aos motejos de tods aquella gente berradora e agitada.

            Proximo da hora anciosamente esperada, o barulho decrescia de intensidade até as conversações se travarem a meia voz, e os ouvidos apuravam-se para recolherem o bater do primeiro chocalho.

—  Lá veem elles! grtava um engraçado, ao qual respondia uma voz forte:

— Cala a bocca, bruto!

            E então, uma gargalhada enorme, colossal, sahia d'aquellas trezentas gargantas, e os rostos avinhados dos boleeiros appareciam á luz das lanternas, accendendo os nauseabundos cigarros.

            Finalmente sentia-se ao longe o tinir sonoro d'un chocalho.

            Na semi-obscuridade d'aquella noite especial, viam-se erguer nos trens os vultos das mulheres, encostando-se tremulas e receiosas aos homens meio embriagados, com os chapeus cheios de pó descahidos sobre os olhos.

            O ruido dos chocalhos augmentava, ouvia-se já distinctamente, e o silencio tornava-se profundo, a ponto de se poder distinguir o zumbido d'um mosquito.

            Á luz avermelhada dos lampeões da estrada descortinava-se ao longe uma nuvem de poeira avançando rapida, como uma onda prodigiosa em mar revolto.

            Todos se recolhiam aos trens, os cocheiros saltavam para as almofadas, os cavalleiros recuavam os cavallos, os peões subiam ás arvores, abriam-se as janellas das casas proximas, e, rapidos como um relampago, rodeados pelas chocas e pelos campinos, de focinho quasi de rojo, cheios de pó e de cansaço, soprando ruidosamente, cegos de colera por aquella corrida vertiginosa, passavam os bois.

            Em seguida toda aquella alluvião de trens e de cavallos desfilava loucamente, em carreira fanthastica e febril, no encalço do gado.

            Resoava então uma agazarra formidavel, augmentada pelo rodar dos trens; assobios d'um som agudissimo silvavam sem interrupção, durante o caminho, as mulheres batiam as palmas e riam desordenadamente; entoavam-se hymnos a Bacho e ao Amor, n'uma phraseologia de bordel puro, e o cortejo augmentava sempre de velocidade.

            Subito estalavam no caminho algumas bombas, um dos bois rompia o circulo formado pelas chocas e desapparecia ao longe, em desenfreada carreira, seguido por um campino de meias altas, sapatos largos e pampilho em punho.

            Todas as conversações se encaminhavam para as desgraças que o touro fugido iria occasionar na cidade, e ás duas horas da madrugada a chusma entrava na capital, despertando com o seu ruido e o seu delirio o somno socegado e tranquillo dos cidadãos pacificos.

            Era raro quando a festa terminava sem terem havido algumas facadas, cabeças partidas, rodas despedaçadas, ciumes, arrufos, vinganças, e mil outras mesquinhas expressões das almas rudes da maioria d'aquella multidão, que só comprehendia uma pega de cara, um estomago á prova de odre e um risco dado com arte.

            O tempo veio demonstrar, com a sua inexoravel sensatez, que as esperas dos touros eram tudo quanto de mais indigno e indecente podia ser concedido ás predilecções brutaes d'um publico sem illustração nem finura, que adorava as grandes commoções como os antigos romanos no Circo, perante as luctas sanguinarias dos homens lançados ás feras, e dos gladiadores.

Rocha Vieira, 1903 - Museu de Lisboa

            Com as esperas dos touros morreram os fadistas celebres, os fidalgos esturdios, as rameiras pimponas, os guitarristas notaveis, e toda essa troupe inutil á sociedade, que tinha passado perfeitamente sem ella, troupe humana onde o bom gosto era um boi, e a civilisação um litro de vinho.

            Ainda nas touradas em Lisboa; mas touros, na verdadeira acepção que esta palavra em tempos teve entre nós, acabaram-se — felizmente.

ALFREDO GALLIS

In A ILLUSTRAÇÃO PORTUGUEZA, Lisboa - 1 de Junho de 1895  

6 DE ABRIL DE 1903 - LISBOA: A TOURADA DE HOMENAGEM AO REI EDUARDO VII


 

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A tourada

    Um dos numeros mais interessantes e pittorescos do festivo programma de recepção.

    Começou, antes da chegada de Eduardo VII, por se espalhar que não haveria tourada, porque o Rei, presidente da Associação Protectora dos Animaes, não assistiria a ella. Dahi a pouco affirmava-se o contrario, pois sabia-se que El_Rei de Portugal lhe telegraphara e que a resposta de Eduardo VII era o assentimento. Logo a corrida foi posta no programma e o governo começou por tomar quasi todos os camarotes para o corpo diplomatico, ministros, deputações do parlamento, officiaes inglezes, etc.

    D'ahi em diante era uma febre, um delirio. Se para os pedidos de bilhetes a praça fosse quatro vezes maior — e leva 12.000 pessoas — era pequena ainda.

    Venderam-se camarotes a 200$ e logares de sombra a 20$000!

Documento © Rui Araújo

    Mas vamos á corrida:

    Já constituiu para o povo uma parte interessante do espectaculo a ida e volta pela avenida da Liberdade, passando as carruagens reaes entre as alas compactas de pessoas que se descobriam respeitosas á passagem do Rei de Inglaterra, que ia fardado de coronel portuguez, á direita de D. Carlos, fardado de coronel honorario do «Oxford-fire Light Infantery» (NOTA: Oxfordshire and Buckinghamshire Light Infantry).

    A ornementação da vasta praça do Campo Pequeno era vistosa e elegante. Colchas de seda, festões de verdura, bandeiras das duas nações, pannos azues, brancos e escarlates forrando as columnas, faixas de velludo carmezim nas balaustradas dos «fauteuils», o aspecto era encantandor.

    Cheia a praça, rostos gentilissimos esmaltando o quadro, içado o pavilhão real, entram no seu camarote os dous Reis, a Rainha, o Infante e uma luzida comitiva, da qual faz parte o marquez de Soveral.

    Todos de pé, tocam-se os hymnos, estrugem as acclamações: viva o Rei de Inglaterra, hurrah, hurrah! Soam palmas, agitam-se lenços, e Eduardo VII, visivelmente commovido, faz continencias militares e curva repetidas vezes a cabeça.

    Tomam em seguida logar, ficando o Rei de Inglaterra ao centro, dando a direita á Rainha D. Maria Pia e a esquerda a El-Rei  e ao Infante.

    Então, o director das corridas manda começar.


O COMBATE

Entram na arena os charamelleiros; depois o neto com quatro pagens, realizando as cortezias do estylo.

Logo após os dous coches da Casa Real, com criados de taboa, conduzindo os seis cavalleiros José Bento (de Araújo), Fernando de Oliveira, Manuel Casimiro, Joaquim Alves, Simões Serra e Eduardo de Macedo.

Os seis apeiam-se e, em linha, fazem a venia com o joelho em terra; levantam-se, sahem pela porta dos bandarilheiros, em direcção aos corredores, de onde se dirigem ao corredor dos cavalleiros, para montarem a cavallo.

Depois a mula das farpas na fórma costumada.

Entra em seguida na arena todo o cortejo, assim composto: seis cavalleiros, oito bandarilheiros, ficando quatro de cada lado; dezeseis moços de forcado, oito por banda; pessoal do touril, charamelleiros, doze cavallos de combate, conduzidos por criados de libré; dez campinos montados, etc., etc.

Executam-se então as cortezias, que tiveram o mais bello «ensemble».

Nesse momento o quadro que apresentava a arena era do mais soberbo effeito.

Os cavalleiros, vestindo fatos de grande valor, apresentaram os ginetes ricamente ajaezados.

Findas as cortezias, seguem-se os comprimentos aos soberanos por todo o pessoal. Avançam primeiro os oito bandarilheiros, que fazem a venia de joelhos em terra; depois avançam os 16 moços de forcado, que fazem outro tanto; o pessoal do touril, etc.

Os moços de forcado vão logo occupar os seus postos, fazendo casa da guarda.

Voltam á pista os cavalleiros José Bento (de Araújo) e Fernando de Oliveira.

A Fernando e a Manuel dos Santos couberam as honras da corrida. O Rei Eduardo, que pela primeira vez assistia a uma tourada, gostou immensamente e riu com vontade de todos os episodios.

Mandou distribuir 40$ pelos forcados.

No fim da lide do setimo touro retirou-se toda a familia real, repetindo-se por essa occasião os hymnos e as acclamações, que Suas Magestades e Altezas ouviram de pé.

Dezenas de photographos tiraram croquis do soberbo espectaculo, muitos dos quaes illustrarão as paginas da revista Brasil Portugal.

In JORNAL DO BRASIL, Rio de Jwneiro - 28 de Abril de 1903

1851 - 1924 - LISBOA : A VIDA ASSAZ MOVIMENTADA DO CAVALEIRO JOSÉ BENTO DE ARAÚJO...

 


FOTO: DR - Rui Araújo

JOSÉ BENTO DE ARAÚJO

NASCIMENTO: 18 Setembro 1851 (Travessa da Boa-Hora, Freguesia da Ajuda, Lisboa)

FALECIMENTO: 2 de Setembro de 1924 (Rua da Sociedade Farmacêutica, Freguesia do Camões [hoje Coração de Jesus], Lisboa)

Arquivo Nacional Torre do Tombo

[TRANSCRIÇÃO DO ASSENTO DE BAPTISMO]

Aos cinco dias do mês de Outubro de mil oitocentos e cinquenta e um, baptizou solenemente e pôs os Santos Óleos o Reverendo Padre José Fortunato Gomes a Bento, que nasceu no dia dezoito do mês de Setembro próximo passado, filho de Domingos José d’Araujo e de Custódia de Jesus, recebidos, que disseram ser, na freguesia de São Pedro de Merelim, Arcebispado de Braga, e moradores nesta, na Travessa da Boa Hora. Foi Padrinho Bento Manoel Ferreira, e Madrinha Maria Joaquina, Lima de baptizado, todos moradores nesta mesma freguesia.

Padre Manoel Vaz Eugénio Gomes

MAIS INFORMAÇÃO:

https://www.paroquiaajudalisboa.com/a-igreja-paroquial/

https://www.paroquiaajudalisboa.com/a-igreja-paroquial-patrimonio/

25 DE OUTUBRO DE 1891 - PARIS: SUCESSO PARA TOUREIROS ESPANHÓIS E CAVALEIRO PORTUGUÊS NA 23.ª CORRIDA

 


Bibliothèque nationale de France

Nouvelles des Théatres

          Dimanche dernier, course très intéressante et très mouvementée aux arènes de la rue Pergolèse. C’était une des dernières de la saison. Aussi le public était-il fort nombreux. Valentín Martín, José Ruiz, José Bento de Araujo et les picadores ont, suivant leur habitude, obtenu un vif succès pleinement justifié. Dimanche prochain, 24ème course.

D’AINE.

In LES TRAVAUX OFFICIELS, Paris - 29 de Outubro de 1891

18 DE OUTUBRO DE 1891 - PARIS: BALANÇO DA 22.ª TOURADA DA TEMPORADA...

 


Bibliothèque nationale de France

Nouvelles des Théatres

            La 22ème course de taureaux, donnée dimanche aux arènes de la rue Pergolèse, était une des avant-dernières de la saison. Aussi les retardataires en ont-ils profité, et y avait-il une foule énorme. Angel Pastor, Valentín Martín, José Ruiz, José Bento de Araujo et les picadores ont été très brillants et ont exécuté avec adresse et courage des passes difficiles.

            Ils ont été applaudis à juste titre. Dimanche prochain, 23ème course.

D’AINE.

In LES TRAVAUX OFFICIELS, Paris - 22 de Outubro de 1891

18 DE OUTUBRO DE 1891 - PARIS: 22.ª TOURADA DA TEMPORADA...


 


Bibliothèque nationale de France

THÉATRES ET CONCERTS

            Aujourd’hui dimanche, vingt-deuxième course de taureaux aux arènes de la rue Pergolèse.

            Au programme : Angel Pastor, Valentín Martín, José Roiy (NOTA: José Ruiz) (Joseito) et leurs cuadrillas ; José Bento de Araujo, caballero en plaza, et les picadores. Comme on le voit, l’administration tient à corser de plus en plus son programme, et á donner jusqu’à la fin de la saison des courses de plus en plus brillantes.

            Il y en aura encore jusqu’au 1er ou jusqu’au 8 novembre, suivant l’état du temps.

S. HEYMANN.

In LA NOUVELLE LUNE, Paris - 18 de Outubro de 1891