Biblioteca nacional de Portugal
CHRONICA
VIVAM AS TOURADAS!...
Os jornaes
de Lisboa noticiaram ultimamente, que o deputado sr. Carlos Testa, official da
marinha portugueza, apresentará á Camara uma proposta pedindo a suppressão das touradas.
Até aqui,
nada de mais natural. O sr. Testa detesta as touradas ; tem voz dentro do
parlamento ; e pede que as supprimam.
A questão consiste
em saber se o Parlamento vota a proposta (o que eu não creio) — e se o povo
está disposto a submetter-se ao sentimentalismo piegas das Camaras... o que eu
tambem não creio !
As
auctoridades competentes já supprimiram em Lisboa o repicar dos sinos e as
procissões — o que é um idiotismo indiscutivel, attendendo a que em nome d'um
falso espirito civilisador se supprimem os lados pittorescos d'uma capital, os
aspectos caracteristicos e inoffensivos, emquanto que por outro lado só reina a
banalidade, o crime e a vadiagem impudente. Antes de supprimir os sinos, por
que não tratou o sr. Arrobas de supprimir os faias?
Á suppressão
dos sinos e das procissões, como a do Corpus
Christi — o povo da capital não pôz opposição.
Mas agora
que pensam em supprimir os seus divertimentos favoritos — as touradas, e depois
as festas populares das vesperas de Santo Antonio, São João e São Pedro — então
o povo ha de vir para o meio da rua, e estou certo que não ha de ser nem a
municipal, nem a policia, que lhe hão de metter mêdo...
Que um
Governador civil imprudente tente tocar-lhe nos seus divertimentos — e n'esse
dia andará o Diabo á solta pelas ruas da cidade.
Não respondo
pelos vidros do palacio do senhor Governador !
A proposta
do illustre deputado o sr. Testa, o mesmo que contesta que possa ser um prazer
d'homens civilisados ver metter um par de ferros no cachaço d'um touro — teria passado
desappercebida, como frouxo grito d'um sentimentalismo d'importação, se um
cavalleiro tauromachico portuguez não viesse provar dias deois ao sr. Testa,
que n'uma praça de touros tambem ha mais espirito e humorismo do que n'um parlamento,
e mesmo do que em muitos folhetins de folhetinistas na moda.
O cavalleiro
tauromachico José Bento d'Araujo vendo que um official de marinha e deputado,
em vez de estudar questões maritimas ou coloniaes do seu paiz, passa no seu
gabinete a estudar as questões tauromachicas — o que pensam os leitores que
decidio o cavalleiro?...
Estudar por
seu turno as questões que dizem respeito ao ministerio da marinha ! E tratou de
promover um meeting composto de todos
os amadores de touradas, em plena praça do Campo de Sant'Anna, para pedir ao
Parlamento que acabe com o uso da chibata a bôrdo dos nossos navios de guerra !
A lição não
podia ser mais fina, nem mais eloquente...
Francamente,
que não faço a menor ideia do espanto e da surpreza que deviam ter assaltado o
sr. Testa, no momento em que leu semelhante noticia...
E a sua
proposta de lei para a supressão das touradas — mesmo que fosse merecedora dos
applausos de toda a camara e de todo o paiz — não precisa ser discutida nem
posta á votação, para ter de cahir redondamente pelo ridiculo.
A lição é
tanto mais dura, quanto ella é espirituosa e inoffensiva. Lembra-me até a
famosa lição das Précieuses ridicules de Molière, quando as duas mulheres tomam
o marquez de Mascarille e o amigo por dois personagens da côrte... quando não
passam dos criados dos homens que ellas não quizeram por maridos, julgando-os
homens excessivamente vulgares, sem distinção e sem espirito.
Pois o sr.
Testa, official de marinha, lembra-se
de propôr ao parlamento a suppressão das touradas
— quando na marinha portugueza não são touros que são corridos, mas são
marinheiros, mas são homens como nós, como eu e tu leitor, que são corridos á chibata?!...
Que um outro
deputado — talvez por ter levado em môço uma bôa bolada d'um touro, no sitio em
que os touros ironicamente costumam ferir os medrosos — se lembrasse de
supprimir as touradas, d'accordo. Mas que um official da marinha portugueza se
lembre de pedir a suppressão das touradas, por que deixam o animal a escorrer
sangue, emquanto na nossa ramda, á força de chibata, ficam a escorrer sangue os
lombos dos nossos irmãos, isto em nome da Disciplina, com o consentimento da
lei, e á sombra do Pendão das quinas — é o que passa todos os limites do
inverosimil!...
Este facto e
este contraste tão prodigiosamente comico, que mais parecem extrahidos d'alguma
comedia extravagante de Labiche — provam mais uma vez que o Figaro tem carradas de razão, quando diz
ácerca das coisas de Hespanha... que prefere rir de tudo, com mêdo de ter de
chorar...
Pois n'esta
scena de comedia, os meus leitores não vêem os disparates e a anarchia que
reinam em todas as classes da nossa sociedade?...
Um deputado,
official de marinha — que eu aliás
respeito tanto mais, quanto não tenho a honra de o conhecer — em vez de se
preoccupar com as altas questões que diariamente o cercam ; e de auxiliar com a
sua intelligencia e com os seus conhecimentos, a resolução do problema maritimo
e colonial, hoje que toda a Europa, áparte a questão do Oriente, só tem os
olhos fixados sobre as questões africanas — um deputado, official de marinha, limita-se no parlamento, como se fosse uma
questão que preoccupasse a Europa e de que estivesse dependente a nossa
independencia... a pedir ao governo a suppressão das touradas !
E é um
cavalleiro tauromachico que chama espirituosamente á ordem esse senhor deputado
e inutilisa a proposta do sr. deputado-official de marinha — promovendo um meeting na praça de toiros de Lisboa,
para pedir ao governo que supprima o supplicio da chibata a bôrdo dos nossos
navios de guerra !
Donde se
póde concluir, sem maldade, o seguinte :
Que seria
conveniente submetter a um conselho de medicos os dois antagonistas. Talvez os
homens de sciencia, graças aos maravilhosos recursos de que hoje dispõem,
encontrassem no sr. Testa uma vocação errada, e um optimo temperamento para
presidente da Associação protectora dos animaes — e no sr. José Bento d'Araujo
uma vocação decidida para contra-almirante !...
Parece-me
escusado insistir nas vantagens d'uma tal descoberta. Os touros podiam dormir
tranquilos — e se é facto que a chibata existe, o nosso paiz podia contar uma
vergonha de menos !...
Mas que mania
é esta, em nome d'um falso sentimentalismo, d'uma falsa civilisação e d'um falso
progresso — de quererem dar cabo das touradas, quando a tourada é o unico divertimento, é o unico espectaculo, verdadeiramente portuguez, que nós hoje
possuimos ?...
Em nome de
que principio é que se vae tirar a um povo uma das suas raras distracções ?
Supprimir as
touradas porque não é um espectaculo
edificante — equivale a dizer que em seguida se vão supprimir as romarias, que é um espectaculo ainda
menos edificante que o primeiro.
Eu pergunto aos
nobres deputados que estejam atacados da raiva da civilisação, qual é mais
ridiculo e mais immoral — ver um touro sangrando porque lhe metteram um par de
ferros no cachaço... ou ver a Virgem sahir d'um templo, ser collocada dentro
d'uma berlinda ridicula, e ser levada por um cirio mascarado, através das
povoações, ser levada para um bando de borrachos até ao templo da Senhora da
Nazareth ?...
Se a
moralidade do meu paiz dependesse das
touradas, eu supprimia primeiro os cirios
— porque isso toca á nossa fé, toca á nossa religião !
Mas ao
contrario dos moralistas de fancaria — eu, que me considero homem moderno e
homem livre, que amo e combato pela dignidade da minha terra, que só peço ao
Deus de todas as religiões que no meu paiz haja uma mais justa ideia da
verdadeira Moral — da moral publica e da moral privada — eu não hesito em
defender as touradas como um
espectaculo essencialmente nacional, com o qual nada tem que soffrer a
moralidade publica, — assim como defendo os cirios,
porque não olho para os ridiculos que só saltam á vista d'um atheu de
contrabando, e porque nos cirios só
vejo o seu lado pittoresco e a poesia ingenua e pagã que d'elles se evola, e
que os torna encantadores !...
Querem
supprimir as touradas ?... Mas por que divertimento pensam os srs. moralistas substituir
esse divertimento predilecto do nosso povo ?...
Os srs.
moralistas gostam mais das corridas de cavallos, das regatas e do tiro aos
pombos. D'accordo. São espectaculos mais mundanos — mais catitas, como diz o lisboêta na sua linguagem abandalhada.
Mas porque
os srs. Moralistas gostam do divertimento catita,
não contestem ao povo o direito de gostar do divertimento popular.
Apesar
de me não inspirar o menor intresse nem uma corrida de cavallos, nem um
concurso de tiro aos pombos, nem por isso deixo de convir que são coisas elegantes
— e distracções tão crueis e tão immoraes como uma corrida de touros !
Mas prefiro
uma tourada — e querem os srs.
Moralistas saber porquê ?...
Porque de
todos os grandes espectaculos a que tenho assistido em Lisboa, nenhum me ficou
tão gravado na memoria, nenhum me apparece ainda hoje ao meu espirito mais
deslumbrante, mais pittoresco e mais enthusiastico — do que a ultima corrida
organisada em Lisboa, ha uns bons quinze annos, por esse nobre e distincto
representante da antiga fidalguia portugueza, que se chamou Marquez de Castello
Melhor.
Porque ainda
tenho presente aos meus olhos o deslumbramento da praça do Campo de Sant'Anna,
toda adornada se setins e damascos ; a elegante figura do Marquez, vestido á
Marialva, como se fosse uma soberba e magestosa ressurreição d'um portuguez e
d'um cavalleiro do seculo XVIII ; todo o grupo de rapazes distinctos que o
rodeava, de bellos rapazes d'uma geração de que parece ter-se perdido a
semente, e que foi substituida mais tarde pelo janotinha do Chiado, de
collarinhos postiços e monoculo ; e o publico applaudindo em delirio, cobrindo
de flôres e charutos a praça.
E em todo
aquelle maravilhoso espectaculo, sem maldade e sem immoralidade, parecia ainda
viver uns restos d'esse bello Portugal do seculo passado, quando um cataclysmo
medonho arrazava Lisboa, e ainda havia em terras de Portugal portuguezes que
sabiam em pouco tempo, sobre as ruinas d'uma cidade, edificar outra cidade !...
Supprimir touradas ?!... Mas não é d'isso que está
dependente o nosso decoro, nem tão pouco a nossa fortuna...
Em vez de
supprimir touradas — tenham a bondade
de supprimir secretarias ! E que o
parlamento auctorise o Governo, ou o Governo auctorise a Camara — a construir
uma bella praça de touros ás portas de Lisboa. (NOTA : Foram edificadas poucos anos depois duas praças : a do Campo
Pequeno e a de Algés, nos arredores da capital).
É preciso
que o povo se divirta — pobre povo que não faz senão pagar !...
MARIANO PINA
In A
ILLUSTRAÇÃO, Paris - 20 de Fevereiro de 1888