MORTE DO CAVALLEIRO
FERNANDO D’ OLIVEIRA
Foi dolorosamente assignalada por um facto que
entristeceu profundamente os milhares de pessoas que enchiam quasi por completo
a praça do Campo Pequeno, a corrida de 12 de maio de 1904, que ali se realisou,
Fernando d’Oliveira, o cavalleiro tauromachico tão dilecto e apreciado pelos
primores do seu trabalho artistico e nobres qualidades de caracter que possuia,
foi victima d’uma tremenda colhida, tão grave que pouco depois exhalava o
ultimo suspiro na casa de operações do hospital de S. José.
O horroroso desastre que fez desapparecer Fernando
d’Oliveira, não se apagará tão cedo da memoria das pessoas que tiveram a
desdita de o presencear, e que ficaram na mais lancinante espectação até
conhecerem noticias pormenorisadas do estado do infeliz cavalleiro.
Chamára grande concorrencia a corrida d’aquelle dia,
em virtude dos elementos que a constituiam.
No camarote real, além de suas magestades el-rei e a
rainha, viam-se suas altezas o principe real e os infantes D. Affonso e D.
Manuel.
Os camarotes e fauteuils
eram occupados pelas familias mais distinctas da nossa sociedade, realçando a
formosura das senhoras as suas toilettes frescas e de côres variegadas, que
davam ao conjuncto da praça um tom alegre e encantador.
Nas trincheiras de outros logares da praça a multidão
movia-se constantemente, abanando-se a gesticulando, n’um incessante frenesi,
ávida de ver começar a lide, que promettia ser interessante pelo nome do
lavrador e pela escolha dos toureiros.
E, para animar ainda mais todo esse aspecto brilhante,
que por si só era agradibilissimo, o sol irradiava com toda a sua pujança,
aquecendo a multidão e tornando-a mais buliçosa e irrequieta. Emfim, uma tarde
de touros!
A quadrilha, ao entrar na arena, foi recebido com desusado
enthusiasmo, partindo as palmas de todos os lados da praça.
O cortejo compunha-se dos cavalleiros José Bento (de
Araújo), o mallogrado Fernando de Oliveira, Joaquim Alves e Simões Serra; dos
espadas Bombita Chico e Chicuello; dos nossos bandarilheiros Theodoro
Gonçalves, Manuel dos Santos e Thomaz da Roche; e dos hespanhoes, Antolin,
Morenito, Currinche e Zucato. Accrescente-se ainda o numeroso pessoal de moços
de forcado, moços da praça e mais os cavallos de combate conduzidos por creados
de libré, e os campinos trazendo á redea os seus cavallos, e póde-se assim
julgar da imponencia do luzido cortejo.
Terminadas as cortezias, foram os lidadores occupar os
seus postos e tocou o clarim para sair o primeiro bicho, das manadas do marquez
de Castello Melhor, que pertenceu a José Bento (de Araújo).
Este festejado cavalleiro prendeu com algum trabalho
uns ferros no animalejo que era manso, e, que por isso, difficultou a lide.
Foi depois o bicho bandarilhado por Theodoro Gonçalves
e Manuel dos Santos, pondo este um bom par a quarteio, como quasi sempre
succede.
O segundo touro era para Fernando de Oliveira e
bandarilheiros hespanhoes Antolin e Morenito, visto que n’esta corrida a
maioria das rezes devia ser lidada em todos os tercios, isto é farpeada pelos cavalleiros, bandarilhada e passada
de muleta pelos peões.
Feito o signal para começar a lide do referido touro,
entrou na arena Fernando de Oliveira vestindo casaca encarnada, bordada a
prata, e, sorridente e bem disposto, acceitou, conforme a praxe, a farpa que
lhe foi entregue pelo bandarilheiro Currinche.
Fernando montava o seu cavallo Azeitona, comprado por alto preço ao sportsman Pinto Barreiros. Era um bonito corcel e com boas
qualidades para o toureio.
Fernando dirigiu, conforme o costume, a sua montada
até á frente do camarote real, fazendo os cumprimentos ás magestades e altezas.
Em seguida, foi esperar o touro á gaiola.
O animal, que lhe saiu, era, conforme já disse, como
todos os mais picados n’essa tarde, das manadas do Marquez de Castello Melhor,
e oriundo de cruzamento hespanhol. Na vaccada era conhecido por Ferramenta, e tinha o ferro do lavrador
e a marca 3 b. O pello era castanho e o quarto dianteiro torrado, com bragas no
ventre, caldeiro (armas um tanto baixas e unidas), e corpulento.
Fernando, perdendo a sorte á gaiola, entrou logo n’uma
meia volta que rematou com intrepidez e valor.
Reconhecendo que o seu antagonista não era voluntario
em arrancar, saiu em falso uma vez e iniciou outra sorte com resolução e
coragem, cravando um excellente ferro á tira, que causou enthusiasmo. Aquecido
pelos applausos que vibravam em toda a praça, o desditoso cavalleiro sentiu se
na disposição de apertar, como se diz
em linguagem tauromachica, e que significa tambem esforçar-se por tourear bem e
manter os seus creditos artisticos.
Attribuiu-se o desejo que Fernando mostrou n’aquelle
dia fatal de se tornar notavel, ao facto de ter sido distribuido no Campo
Pequeno um impresso intitulado «Resposta á lettra», assignado por um grupo de
aficionados, no qual se evidenciavam os meritos d’aquelle cavalleiro,
censurando os seus detractores, que lhe promoviam manifestações hostis que
muito desagradavam, principalmente, aos partidarios do saudoso toureiro.
Fernando, que era caprichoso e dotado de elevados
sentimentos, quiz n’esse dia provar mais uma vez o seu pundonor e valentia, e
resolveu cingir-se ao touro com coragem e decisão.
A colhida
O touro achava-se nos tercios da arena, em frente do sector n.º 6, sombra-sol, e acabara
de soffrer um lance de capote, quando Fernando, aproveitando a rez collocada,
fez partir o seu cavallo, citando-a em voz alta. Rematou a sorte á tira,
deixando o animal chegar ao estribo, e, consentindo-o de mais, cravou o ferro.
D’ahi resultou o touro colher o cavallo pela anca, e com a violencia da
pancada, o animal desequilibrou-se e caíu no solo. Ao mesmo tempo, o pobre
Fernando, talvez no intuito de se livrar da investida do touro, soltou-se da
sella, saindo pela cabeça do cavallo, mas, infelizmente, ficou com o corpo
debaixo da sua montada.
Presenciei o triste facto: Fernando fez esforços para
se erguer depois da queda, estando já a descoberto, porque o seu cavallo se
levantou rapidamente; n’essa occasião, o touro investe outra vez com os vultos,
o ginete foge, e então o desgraçado artista é afocinhado pela fera com furia
enorme. Atingiu certamente com as armas a cabeça do infeliz, n’uma das
arremettidas.
Fernando não se moveu mais.
As capas de dois hespanhoes que se achavam proximos,
conseguiram distrahir o cornuto um instante.
Mas para cousa alguma serviu esse auxilio prestado com
a maior solicitude; o infeliz artista estava já moribundo.
Por toda a praça correu um frémito de angustia, de
pavor; de muitas boccas saíram gritos afflictivos e bastantes espectadores,
vivamente impressionados, se levantaram dos seus logares, como se quizessem ir
acudir ao desgraçado cavalleiro, e outros saíram logo da praça.
Fernando jazia prostado de bruços na praça, com as
abas da casaca voltadas sobre as costas, emquanto o cavallo, sem governo correu
desordenadamente até lhe lançarem a mão e o conduzirem para a cavallariça.
Tudo isto se passou tão rapidamente, que nem tempo
houve para acudirem outros peões com as suas capas.
Desviada por fim a attenção do touro para outro ponto
da arena, o mallogrado toureiro foi levado em braços, pela trincheira, para a
enfermaria da praça, onde debalde lhe foram prestados os soccorros.
Fernando tinha o craneo fracturado na sua base superior.
Estava morto.
O funeral de Fernando d’Oliveira foi concorridissimo e
deveras commovente; n’elle estiveram representadas todas as classes da
sociedade, e viam-se olhos lacrimosos e toda a gente lastimava a perda de tão
grande artista, que deixou no toureio a cavallo uma vaga difficil de preencher.
O corpo do saudoso artista acha-se depositado no
cemiterio do Alto de S. João onde lhe foi erigido um mausoleu por subscripção
entre os seus mais devotados admirasdores.
Que descance em paz o pobre Fernando.
Continuação da tourada
Ignorando as pessoas que assitiam á tourada o
desenlace fatal do triste acontecimento, a lide continuou até final, sem outros
incidentes dignos de nota.
Era notorio o mau humor de que todos se resentiam pela
incerteza em que estavam; comtudo restava-lhes ainda a esperança de que não era
mortal o ferimento de tão querido artista.
Quasi ao terminar a corrida, constou a algumas pessoas
que Fernando tinha fallecido no hospital, aonde chegára em maca acompanhado de
numerosos amigos.
Foi este artista um dos mais correctos no toureio a
cavalllo e era considerado um mestre.
Nasceu em Benavente, a 12 de março de 1859, tendo
portanto 45 annos completos quando morreu.
Toureava ha 25 annos, e de dia para dia os seus
progressos eram notaveis na arte que tão distinctamente professava.
Lidou touros em todas as praças de Portugal, incluindo
as de Loanda e Lourenço Marques, e em Hespanha e no Brazil.
Soffreu apenas tres colhidas de maior importancia nas
arenas de Santarem, Barreiro e Campo Pequeno.
In TOUREIO EM PORTUGAL, por Antonio Rodovalho Duro (Zé Jaleco) – Antiga
Casa Bertrand, Lisboa, 1907