É ámanhã, na praça de touros do Principe Real, á
Junqueira, o beneficio do novel cavalleiro José Bento de Araujo.
Os touros são do sr. Roquete. Entre elles vem o Ligeiro, e o Voador.
O primeiro é magnifico para cavallo, e o segundo é o que saltou ao quarto banco, na segunda corrida da mesma praça.
O mudo de Alcantara picará a cavallo o 8.º touro.
Não faltará concorrencia.
In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa - 26 de Maio de 1878
NOTA
O cavaleiro José Bento de Araujo tem, então, 26 anos de idade.
O MUDO DE ALCÂNTARA
“O mudo de Alcântara, outra figura que levou sumiço, era um latagão de torso poderoso, arcaboiço bovino, pernilongo, carão talhado como uma carranca decorativa, dentes grandes e amarellos como um jogo de dominó de botequim, mandibulas de gorilha, pulso d’uma canna, manapulas avantajadas. Possuia a força athletica d’um gigante do biceps. Apontava uma boa verba de valentias no seu activo de luctador.
Musculoso, apparatoso, bestial, fazia lembrar um heroe da Illiada, um grandalhão dos tempos barbaros.
Acceitou varios desafios com gymnastas luctadores que estiveram aqui, no circo do Price e no antigo Colyseu dos Recreios. Quando entrava n’estes prelios em publico punha-se a gosto — pantalonas anchissimas e blouse de zuarte. Alojava os enormes pés de machacaz n’uns sapatões, que fariam o desespero do Dr. Garré — o inventor da scarpologia.
Agora, inutilisado, arrasta os ultimos dias de vida no asylo dos Invalidos do Trabalho.”
— in “LISBOA D’OUTROS TEMPOS”, de João Pinto Ribeiro de Carvalho (Tinop), Livraria de Antonio Maria Pereira , Lisboa, 1898.


