27 DE MAIO DE 1878 - LISBOA: BENEFÍCIO DO JOVEM CAVALEIRO JOSÉ BENTO DE ARAUJO NA PRAÇA DE TOUROS DO PRÍNCIPE REAL D. CARLOS, À JUNQUEIRA

 

Biblioteca nacional de Portugal

            É ámanhã, na praça de touros do Principe Real, á Junqueira, o beneficio do novel cavalleiro José Bento de Araujo.

O cavaleiro José Bento de Araujo.
Painel de azulejos no prédio que mandou construir na rua da Sociedade Farmacêutica, em Lisboa.
FOTO:  © LC com Rui Araujo

            Os touros  são do sr. Roquete. Entre elles vem o Ligeiro, e o Voador.

            O primeiro é magnifico para cavallo, e o segundo é o que saltou ao quarto banco, na segunda corrida da mesma praça.

            O mudo de Alcantara picará a cavallo o 8.º touro.

            Não faltará concorrencia.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa - 26 de Maio de 1878

NOTA

            O cavaleiro José Bento de Araujo tem, então, 26 anos de idade.

O MUDO DE ALCÂNTARA

            “O mudo de Alcântara, outra figura que levou sumiço, era um latagão de torso poderoso, arcaboiço bovino, pernilongo, carão talhado como  uma carranca decorativa, dentes grandes e amarellos como um jogo de dominó de botequim, mandibulas de gorilha, pulso d’uma canna, manapulas avantajadas. Possuia a força athletica d’um gigante do biceps. Apontava uma boa verba de valentias no seu activo de luctador.

            Musculoso, apparatoso, bestial, fazia lembrar um heroe da Illiada, um grandalhão dos tempos barbaros.

            Acceitou varios desafios com gymnastas luctadores que estiveram aqui, no circo do Price e no antigo Colyseu dos Recreios. Quando entrava n’estes prelios em publico punha-se a gosto — pantalonas anchissimas e blouse de zuarte. Alojava os enormes pés de machacaz n’uns sapatões, que fariam o desespero do Dr. Garré — o inventor da scarpologia.

            Agora, inutilisado, arrasta os ultimos dias de vida no asylo dos Invalidos do Trabalho.” 

— in “LISBOA D’OUTROS TEMPOS”, de João Pinto  Ribeiro de  Carvalho  (Tinop), Livraria  de  Antonio  Maria  Pereira , Lisboa, 1898.