27 DE JANEIRO DE 1907 - RIO DE JANEIRO: CARNAVAL COM TOURADA NA PRAÇA DO CAMPO DE MARTE NA CAPITAL DO BRASIL

 


Biblioteca nacional do Brasil

CARNAVAL

            Vae por esta muito elegante city um contentamento geral pelas promessas feitas, de que as empolgantes festas em honra ao querido Momo serão deslumbrantes e estupefacientes, mirabolantes e archi-extraordinarissimas!

            Não há mortal, por mais pobre que seja, que se não prepare já para as pugnas da Folia.

            Os foliões, os celebres que em todos os carnavaes são a alma dos mesmos, gastam horas e horas em cavação de mil meios que possam, enchendo os dias de loucura, divertir os mais, sem offensa e com agrado geral.

            Os bailes á fantasia que os clubs realizam amanhã são como que a amostra do que será o Carnaval proximo, ainda que por muito enthusiasmados que elles sejam, não serão nem a pallida idéa do esplendor fantastico dos taes tres dias em que a Humanidade tem permissão de tudo, tudo fazer para divertir-se, isso sem offensa á moral, já se vé.

            Os cordões carnavalescos que tanto e tanto auxiliam as desejadas festas, e periodo das férias humanas, têm já quasi concluidos os seus bellos estandartes de maravilhoso effeito, pintados a capricho por artistas competentes.

            Estes são os incansaveis. Saem sabbado, á noite, e só se recolhem definitivamente pela madrugada alta de quarta-feira de cinzas, esbodegados, mais mortos do que vivos, mas inda sssim capazes de fazer outro carnaval seguidamente; são; uns heróes!!

            E dizer-se que essa boa gente, a dos cordões, leva o anno inteiro juntando nickel a nickel para de uma só vez, francamente, gastal-o com todo o gosto!

            É tambem a unica compensação que tem aos multiplos contratempos que o mundo lhe traz, nesta quadra de tanta miseria e injustiça tanta.

            Ai de nós, si nos faltasse o Carnaval, verdadeira amnistia ao muito que soffremos na grande luta pela vida!

            Ao menos durante o seu rapido periodo esquecemo-nos de tudo para só pensar em rir e folgar; emquanto reina Momo só nos lembramos do que é bom; maguas e desgostos pomos a um canto e nada mais nos importa sinão rir, rir muito, tanto quanto seja sufficiente para abafar as nossas dores, mesmo a dos dentes ou as dos callos.

            Portanto toca a zabumbar com ancia e vontade.

Isto é bom, isto é bom,

Isto é bom!

Isto é mesmo muito bom

Muito bom, bom bom. 

Tenentes

            É hoje o dia magno para o Grupo dos Atirados, pleiade fina de socios dos Tenentes.

            Os Atirados dão uma baile supimpa, cheio de attractivos mil, onde as deidades encontrarão um sem-numero de surpresas, cada qual mais entontecedora.

            Os salões da Caverna (NOTA: A Caverna é a sede da sociedade carnavalesca “Tenentes do Diabo”) estarão deslumbrantes, feericos, extraordinarios de luzes e de animação.

            A noite hoje na Caverna será de galas, noite sem jaca, (NOTA: “Noite sem jaca” significa que o baile requer uma postura irrepreensível, elegância e ordem. Hoje, ainda se usa no Brasil a expressão “enfiar o pé na jaca”, que corresponde a cometer excessos.) encantadora e limpida.

            Tambem o Grupo dos Dragões da Caverna, filho dos Tenentes, dá um ar de sua graça e uma prova de sua existencia, fazendo uma passeata de luxo amanhã, ás 2 horas da tarde, afim de acompanhar á Praça de Touros os cavalleiros portuguezes que se vão exhibir no beneficio do artista José Bento (de Araujo).

            A passeata sairá da séde dos Tenentes na seguinte ordem: banda de infanteria de marinha em caminhão-automovel; landau com a directoria, onde o Dragão empunhará o bello pavilhão rubro-negro, seguido de seis charamelleiros a cavallo, vestindo a caracter, landaus com socios levando estandartes; bello carro, artisticamente adornado com os cavalleiros portuguezes, trajando como manda a pragmatica do redondel; caminhão-automovel conduzindo os moços de forcado e muitos carros com socios e convidados. Eis o itinerario do prestito:

            Ruas Senador Dantas e Passeio, Avenida Central (em volta, ruas Assembléa e Carioca, praça Tiradentes, rua Visconde do Rio Branco, praça da Acclamação e rua Visconde de Itauna até a Praça de Touros.

            Depois da tourada voltará o prestito na mesma ordem e pelas mesmas ruas até a Caverna.

In O SECULO, Rio de Janeiro - 26 de Janeiro de 1907


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