13 DE JUNHO DE 1879 - BARQUINHA: UMA EXCELENTE TOURADA E UMA PERNA PARTIDA...

 

Biblioteca nacional de Portugal

            Barquinha, 14.

            Foi explendida a corrida de touros effectuada hontem 13 n’esta praça. O gado pertencia aos srs. Theodoro & Comp.ª, lavradores da Gollegã, e saiu bravissimo, e fino.

            O cavalleiro Manuel Mourisca brilhou no primeiro touro da corrida, que era corpulento, e bravo e do qual aproveitando as magnificas condições, mostrou mais uma vez quanto sabe na arte thauromachica (Tauromachica!): enfeitou o animal com 10 ferros magistralmente postos. (Manoel) Mourisca montava pela primeira vez um bonito cavallo, e com todas as condições para toureiro; tem 10 anos, edade egual a que tinha o seu famoso Russo quando principiou a trabalhar. Debutou na praça da Barquinha: tambem aqui debutou aquelle a quem chamam o primeiro cavallo toureiro. O primeiro touro da segunda parte foi magnificamente farpeado pelo cavalleiro José Bento d’Araujo, em um cavallo do sr. Carlos Relvas. (NOTA: Carlos Relvas, nascido na Golegã em 1838, era um aristocrata e proprietário de vastas terras no Ribatejo. Era ainda uma das figuras principais da fotografia em Portugal. Mantinha uma relação de grande amizade e camaradagem com o cavaleiro José Bento de Araujo, com quem partilhava praça. A 13 de junho de 1879, Carlos Relvas não só cedeu uma montada a José Bento de Araujo, como o convidou formalmente para tourear na emblemática praça da Golegã, onde Araújo viria a rejonear um toiro com enorme sucesso. 

Mais informação aqui:

https://www.cm-golega.pt/concelho/historia/item/157-carlos-relvas )

Carlos Relvas
FOTO: Município da Golegã - Terra do Cavalo
(Foto tratada por IA)

            Robertos trabalharam bem, e mereceu-lhes isso muitos applaudos.

            A festa porém terminou por um incidente bastante desagradavel. Quando o bandarilheiro José Corrêa saltava á trincheira, e quasi colhido pelo touro, deu tão forte pancada, que lhe resultou a fractura da perna direita. Lembramos aos senhores administradores do concelho a conveniencia de obrigar os emprezarios d’estes espectaculos para estarem prevenidos contra qualquer fatalidade, e para que os desgraçados não sejam privados dos primeiros curativos por 19 horas como hontem succedeu. José Corrêa foi conduzido para o hospital da Gollegã ficando sob a protecção do sr. Carlos Relvas.

(Do nosso correspondente.)

Painel de azulejos na frontaria da casa que o cavaleiro José Bento de Araujo mandou construir na rua da Sociedade Farmacêutica, em Lisboa.
FOTO: © LC com Rui Araujo - 2025

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa - 19 de Junho de 1879