17 DE NOVEMBRO DE 1907 - RIO DE JANEIRO: UMA TOURADA REGULAR APESAR DA CHUVA...

 

Biblioteca nacional do Brasil

TAUROMACHIA

            O dia de hontem não se prestava ao inicio das touradas. Estava sombrio, encoberto, e de quando em quando caia uma chuvinha impertinente e desalentadora. O sol, uma vez ou outra mandava para a terra os seus raios isso mesmo a medo, sumindo-se logo.

            Tudo fazia prever portanto pequena concorrencia ao redondel do campo de Marte.

            Entretanto tal não aconteceu. A affluencia de afficionados era grande.

            Apenas meia duzia de camarotes estavam desoccupados.

            A sombra quasi cheia. O sol com poucos claros. Uma boa casa.

            É que o nosso publico aprecia esse genero de diversões. Infelizmente, ao entrar elle teve logo uma decepção. Em pedaços de papel vermelho, de fórma rectangular, pregados por toda a praça, lá estava a declaração do que em virtude do paragrapho 7.º do art. 15, do novo regulamento policial para os theatros e corridas de touros, ficavam proibidas as pégas. Ora, tourada, sem a péga, é como um guisado sem o competente molho, como obtemperou o Camarão que a não ser esta piada, soltada em conversa, esteve triste e quieto durante todo o divertimento.

            A policia, nesse regulamento em que até se julgou competente para crear impostos, enxertou entre as suas disposições esse artigo prohibindo as pégas. O povo ou porque não lesse ou porque tivesse saudades das scenas dos forcados  em frente aos cornupetos, gritava de vez em vez: á unha, á unha, não podendo naturalmente ser attendido.

            É que elle ignorava que o dr. Alfredo Pinto veiu regenerar a sociedade e as touradas.

            Deixemos de lado a apreciação que o caso comporta e que será renovada em outra occasião, e descrevamos a diversão.

            Ás 4 e 15 o intelligente, o chapeleiro Guimarães, occupou a sua cadeira e o Zé Lisboa deu o primeiro signal de clarim.

            Entrou a quadrilha e fez os torneios da praxe.

            Finda esta e tocado o clarim, entrou o primeiro touro para o José Bento (de Araujo), que applicou bem todos os ferros menos um, sendo o animal colhido uma vez. Teve grandes applausos, sendo chamado á praça e acclamado.

Detalhe do painel de azulejos patente na fachada do prédio que o cavaleiro José Bento de Araujo mandou construir da Rua da Sociedade Farmacêutica, em Lisboa.
FOTO ORIGINAL: LC Com Rui Araujo (Tratada por IA)

            O 2.º touro veiu para João de Oliveira e Ribeiro Thomé, que o trabalharam regularmente.

            O 3.º coube o Manoel dos Santos que foi festejado ao saltar na praça pretendendo fazer a sorte da gaiola.Esta falhou e o toureiro beijou o solo. Depois, applicou tres pares regularmente e com o capote tirou alguns passes.

             O espada Cantaritos quiz tirar alguns passes com el trapo mas não o conseguiu e levou alguns tombos. Talvez a commoção da estréa.

            Houve o intervallo, sem a collecta dos forcados, porque não houve péga, e veiu o 4.º touro para Victor Marques, que applicou bem alguns ferros, sendo ao estrear fortemente beijado o seu cavallo.

            Maera, apontado como o primeiro peão de brega em Portugal e Hespanha, lidou o 5.º touro. Tem boa figura, tem planta, é insinuante, mas estava visivelmente nervoso. Seu trabalho foi, apesar disso, bom, conquistou muitas e sympathias teve ao terminar calorosas acclamações.

            Alfredo dos Santos alcançou um verdadeiro successo com o 6.º touro.

            Só um par de ferros applicado magistralmente valeu por todo o divertimento. Foi o melhor trabalho do dia. Tambem não lhe faltaram ruidosas ovações.

            O 7.º e ultimo touro veiu para ser trabalhado por quatro forcados, que, não podendo fazer as pégas, vieram fantasiados e tomaram parte na palhaçada.

            A scena estava agradando, mas o intelligente mandou retirar depressa o animal, com grandes protestos do publico, que prorompeu em retubante vaia.

            A chuva principiou a cair e o povo começou a debandar, trazendo bôa impressão da tourada, que esteva regular.

Frascuelo

In O SECULO, Rio de Janeiro - 18 de Novembro de 1907