Touradas
Deixou satisfeitos os espectadores a tourada que hontem se realisou na praça do Campo Pequeno e melhor teria sido ainda, se a tarde, em vez de fria e desagradavel, estivesse quente e propria para taes diversões.
Comtudo o sol tinha uma enchente, e a sombra estava quasi toda occupada, porque as pessoas mais nutridas tomavam dois logares.
Assistiram á tourada sua magestade a rainha D. Amelia e o senhor infante D. Affonso.
Foram corridos touros do sr. Estevão de Oliveira, que já hoje são bom reclame, e tomaram parte na lide artistas na maioria conhecidos do publico e deveras apreciados.
As nossas noticias não podem ser tão minuciosas como desejariamos, porque nos escasseia o espaço e o tempo, e por isso nos limitamos em geral a indicar os factos que mais nos impressionaram e que melhor retivemos de memoria.
Os touros, materia prima da festa, cumpriram, distinguindo-se pela bravura o 7.º, sendo tambem boiantes o 2.º e 8.º
Os 5 touros para cavallo eram corpulentos e de boa estampa; os 5 de pé não passavam de garraios, bem tratados e com aspecto de raça taurina.
Vimos, portanto, mais um curro desegual, o que sinceramente não nos agrada, porque desejamos, como todos os bons aficionados, que na praça de Lisboa sejam corridos unicamente touros com edade propria para a lide, logo que nos cartazes sejam annunciadas corridas de touros.
Tudo o mais que se faça é simplesmente ludibriar o publico, e nós n’este jornal é só do publico que vivemos e por isso pugnamos sempre pelos seus justos direitos.
A lide a cavallo do 7.º touro foi brilhantissima, executada a duo por José Bento (de Araujo) e Fernando de Oliveira.
Ambos se houveram com arrojo e mestria salientando-se comtudo Fernando (de Oliveira) na maneira por que preparou e rematou as sortes, e seriamos injustos de não repetissemos que este artista não póde ser excedido em pericia e arte.
Innegavelmente José Bento (de Araujo) é um toureiro de alma, arrojado, de incomparavel sangue frio, mas tambem é certo que, em competencia com Fernando (de Oliveira) não mostra tanta certeza na medição dos terrenos, nem prepara as sortes com o mesmo luzimento e apparato do seu collega.
O touro que picaram era nobre e bravo e valeu uma justa chamada ao lavrador sr. Estevão de Oliveira, tendo tambem os cavalleiros uma ovação merecida.
(NOTA: O cavaleiro Fernando d’Oliveira faleceu menos de 2 anos depois. Foi colhido na tarde de 12 de Maio de 1904 pelo touro ‘Ferrador’ na praça do Campo Pequeno numa corrida em que participava também o seu amigo José Bento de Araujo.)
Joaquim Alves apresentou-se, como sempre, bem montado, trazendo o seu ginete na mão e obediente, mas precisa mostrar mais sangue toureiro, mais valor, mais energia e mais vida na lide.
Necessita ir para os touros, cital-os e alegral-os com calor.
Não gostamos de o ver com um toureio timido, sem graça, e sempre á espera dos acontecimentos de sensação que o touro possa proporcionar-lhe.
No primeiro animal que lhe largaram perdeu duas sortes, por não entrar a tempo, e nós perdemos o tempo a vel-o.
Os touros querem quem os procure, e quando Alves esperar na arena que lhe ponham o muro em sorte faça ao menos mexer o cavallo, porque de contrario parece o homem de ferro da procissão de S. Jorge.
O espada era Juan Sal, vulgo Saleri, que demonstrou apenas serenidade e diligencia.
O sr. Sal não tem sal nem pimenta, antes, pelo contrario, é um grande insonso na lide, a ponto de nos enfastiar bastante, algumas vezes, com o seu trabalho.
Os passes barrendo os lombos do touro, quando o animal ia fugindo, estão abaixo de toda a critica e póde ir mostral-os para uma aldeia, porque para cá não servem.
O seu muleteio não teve graça nem elegancia, apezar do vento tambem concorrer para isso.
Apenas no 8.º touro tirou dois passes bons, parando-se e dando-lhes o devido luzimento e remate.
Deu um salto de vara com habilidade, sorte esta que foi offerecida de joelhos a sua magestade a rainha.
Os nosos artistas tiveram bons pares, e sobresairam na lide a pé.
O melhor trabalho foi executado por Cadete, que collocou tres bons pares.
Manuel dos Santos fez dois quiebros de joelhos, e poz um bello par, preparando tambem com muito acerto, a passes de capote, a cabeça do touro, que foi valentemente pegado de cara por Alcorriol.
Torres Branco e Thomaz da Rocha tiveram dois excellentes pares cada um.
A lide tornou-se n’algumas occasiões em verdadeira desordem; comtudo, houve quites opportunos de Cadete e Santos.
O touro Capirote correspondeu á espectativa do publico.
Começou por dar uma prova de bravura, estampando contra a trincheira o bandarilheiro José da Costa, que se atreveu a fazer-lhe a sorte de gaiola.
O Capirote nasceu lá para os lados de Coruche, era propriedade dos lavradores Guizados e foi depois adquirido pelo creador sr. Luiz Patricio, que, por sua vez, o vendeu, segundo dizem, a José Bento (de Araujo).
O Capirote é capirote de pinta, pois que tem o pescoço e a cabeça de côr differente do restante pello, e conta a bonita edade de oito annos.
Foi corrido umas poucas de vezes, e continuará a sel-o, porque parece ter comprehendido bem o seu papel de touro.
O tratador afagou o animal depois de lidado, e tirou-lhe a embolação, sendo muito applaudido.
O tratador apresentou-se com quatro grandes medalhas ao peito, que nos disseram ser offerecidas pela união fabril, toureiros voluntarios da Porcalhota, sociedade tauromachica do Pará e companhia dos tabacos de Portugal.
Esquecia-nos dizer que o forcado Fressura fez com natural valentia uma rija péga de costas, e teimou em fazer esta péga porque não desejava que o touro o visse agora de bigode. — Zé Jaleco.
In O SÉCULO, Lisboa - 2 de Junho de 1902




































