14 DE OUTUBRO DE 1906 - RIO DE JANEIRO: QUARTA CORRIDA MÁ EM TUDO...

 


TAUROMACHIA

            Uma ponta de sol alegrava domingo ultimo o redondel do Campo de Marte, e, apesar disso, da promessa de uma boa corrida, o publico talvez aborrecido dos tres desaires anteriores, deixou-se ficar em casa, não conseguindo mesmo a empreza uma boa meia casa.

            O proprio sol estava muito claro.

            O dr. Pereira Passos assistiu á corrida, que começou, depois das continencias, pela alternativa, passando o Zé Bento (José Bento de Araujo) o seu turno ao cavalleiro (Antonio) Nobre Infante, que neste e no seu, não conseguiu brilhar, apesar dos esforços que patenteava.

            Ainda precisa de certas qualidades que a pratica e uma escola cuidada podem dar.

            De toda a tourada, que, sem contestação, foi a melhor das quatro realizadas, ha a notar a muleta e seus passes, limpos e seguros, de Machaquito no 5º touro com um bom ferro ao alto, posto bem na cornea do 2º touro, por Alexandre Vieira, e outro de Santos, merecedores de applausos, bem como um quiebro á gaiola, do Canario.

Trinidad Pérez y Pérez, Machaquito de Sevilla
FOTO: Beauchy Photos (Tratada por IA)

            O mais foi máo, reinando a mesma indisciplina e azar em toda a praça durante a corrida.

            Assim a péga do 3º touro, que o Lisboa queria á força fazer, sendo óbstado pelo Zé Cabeça, que se atirou muito ao bicho, sendo emborcado.

            Verissimo foi o 2º, menos affoito, e conseguiu pela segunda vez fazer uma péga ruim.

            O 5º bicho não se enfeitou com o Russo, que pegou bem e limpo.

            Nota-se que a indisciplina que reina na praça durante as corridas é devida ao intelligente, que desiste da sua autoridade e submisso deixa que o Zé Bento (José Bento de Araujo) o substitua sempre que quer ou entende dever fazel-o.

            No tempo do Mattos e do dr. Daniel de Almeida não se dava isso, porque, ??? e conscientes da sua autoridade, faziam valer o seu modo de dirigir as corridas.

            O Zé Cabeça, carregado em braços para fóra da praça, por ter sido amassado pelo 3º touro, deu ensejo a que o Zé Bento (José Bento de Araujo) lhe appplicasse um curativo simples e engraçado.

            Encheu o Zé Bento (José Bento de Araujo) a bocca de agua e borrifou a figura do Cabeça, sendo salutar essa nova medicação e comica a presteza com que o Zé (Bento de Araujo) arranjou o irrigador.

            O publico manifestou o seu desagrado e, forçoso é dizer, que teve razão, porquanto, ainda não assistimos, nesta temporada, a uma só corrida corrida que nos fizesse esquecer as outras, apesar de ter a empreza declarado que é esta a melhor cuadrilla que ao Brazil tem trazido.

            Não causou tambem boa impressão o facto do Zé (José Bento de Araujo) acompanhar a collecta feita pelos forcados, que, francamente, nada fizeram.

Fracuelo


Biblioteca nacional do Brasil

In O SECULO, Rio de Janeiro - 16 de Outubro de 1906