TAUROMACHIA
Bello dia o de hontem para touradas. Como todos os domingos de Agosto, este que abriu o primaveril setembro teve tambem uma manhã brumosa e humida; mas para a tarde o sol brilhou francamente, e a hora do inicio da tourada foi clara a linda.
Como a corrida era dedicada ao Sport Nautico Brasileiro, havia dous caamrotes, ornados de colchas e bandeiras, onde se achavam representantes dos varios clubs da regatas.
Não occupados nem metade dos camarotes da vasta praça; mas, nos que estavam cheios, viam-se bellas e elegantes senhoras.
Certo que a frequencia ás touradas tem diminuido, n’estas ultimas; mas o enthusiasmo dos aficionados indefectiveis não arrefeceu. E hontem foi mesmo uma das tardes mais barulhentas d’esta época.
Houve um momento em que uma parte do publico se portou até inconvenientemente, chegando uns tres ou quatro individuos á brutalidade de atirar garrafas á arena. A policia não póde nem deve consentir semelhante desacato, que póde pôe em perigo os artistas que alli vão trabalhar para divertir a maioria do publico, que abomina taes actos de estupidez e selvageria.
As touradas agora, quasi sem artistas e com o gado muito corrido, pois cada touro tem pelo menos quatro praças, não podem ser boas. O publico indignou-se porque os moços de forcado não conseguiram effectuar uma pèga de cernelha. São cousas que acontecem. Os cabrestos não são educados e o touro escoiceava como um cavallo: quem se lhe approximava ia á terra. A intelligencia, com uma energia que ainda não lhe tinhamos visto mandou recolher a fera, e o publico não gostou: d’ahi o barulho, que perturbou a lide de Rufino (de Oliveira) no terceiro touro, que era offerecida a todos os patricios do esperançoso bandarilheiro, que é paraense.
Emfim, parece que tudo vai em breve melhorar, porque, segundo nos disse hontem pessoa bem informada, a empreza vai dar só mais uma corrida, dedicada ás escolas superiores d’esta capital, e em seguida suspenderá os seus trabalhos até que cheguem os novos touros e os novos artistas que mandou vir.
Como attractivo, consta-nos que ainda n’esta época teremos de admirar... uma cavalleira.
Já vimos d’isso n’uma praça de provincia e, francamente, não gostámos...
Emfim, o que todos nós, aficionados e criticos, devemos implorar a Jupiter (foi transformado em touro que ele arrebatou a linda Europa) é que esta cavalleira toreie um pouco melhor do que aquellas celebres bandarilheiras que ha tres annos, as miseras! andaram beijando o pó d’esta mesma praça, como se nada mais houvera n’este mundo que beijar.
Os progressos do feminismo ainda não deram, e quiçá não darão nunca, á mulher a agilidade e a robustez do homem. E dóe as almas delicadas, e é ante-esthico e consternador ver-se uma mulher mettida em bombachas, citar uma vez em falsete e rolar em seguida na terra dura da praça, com um touro em cima ás cornadas, ignobilmente machucada e suja. Não; touros com mulheres, só quando elles tiverem aprendido com o pae dos deuses a lamber o pé formoso da filha de Agenor, como no quadro do Veronezo. Tudo mais será brutalidade. É verdade que, no caso da picadora, entre ella e o touro estará o cavallo, que é animal nobre, capaz de defender a sua dama.
Mas vamos á resenha da tourada de hontem, que já não é sem tempo:
Antes de
sahir o 1º touro, e logo depois das cortezias, Adelino Raposo, montado no seu
ginete de toureio, dirigindo-se aos camarotes adornados, brindou «pelos briosos
rapazes que ganharam o premio do campeonato de 1901» (tomámos em tachygraphia;
é para que saibam!).
O touro que lhe coube, como aliás todos os outros agora, não lhe permittio a sorte á sahida; mas dos sete ferros que elle cravou, tres foram muito bons, dous largos á meia volta e um curto á estribeira; teve um á garupa muito mal, que o obrigou a ir mudar de cavallo, trocando o castanho pelo russo, que é um artista, — e outro a tira, curto, pessimo.
Devemos, todavia, dizer que no estado de sabedoria em que está o curro, mal se póde apreciar a arte dos toureiros, de pé ou de cavallo, e que é muito louvavel o esforço que se lhes nota para rematar limpamente as sortes. Porque o publico, já conhecedor, assim pensa como nós, é que applaude ás vezes o artista que apparentemente não mereceu applausos.
O 2º touro foi enfeitado por José dos Santos, com dous bellos pares de bandarilhas a quarteio e á meia volta. É este o artista que tem, n’esta época, trabalhado com mais consciencia e limpeza.
Faculdades tambem prendeu dous pares e meio n’este bicho, sendo um bom.
Já dissemos acima que falhou a pèga de cernelha.
Ao sahir o 3º touro, Cortez, que já fizera o mesmo com os outros dous, collocado á esquerda da sahida com o capote, cortou a sorte de gaiola a Rufino de Oliveira, o Paraense, que depois só conseguio prender bem um par a sesgo.
Depois da passada de capa por Faculdades, muito mal, como sempre, os forcados tentaram em vão pegar esta rez. Houve muito trambulhão, e por fim a fera, enraivada, andou a passear por cima de um dos homens que cahira resupino (NOTA: "resupino" ou de costas), sem que houvesse meio de quitar o touro a capote; então Faculdades, talvez porque a consciencia lhe doeu, foi rabejal-o, conseguindo livrar o pobre diabo de tão critica situação. O publico fez-lhe uma ovação.
O 4º touro sahio para o novel cavalleiro Evaristo Raposo. Rufino (de Oliveira), que se preparou para o salto de garrocha, não conseguio dal-o, porque a fera não arrancou. O cavalleiro cravou seis ferros. Mas não lhe deviam permittir mais de tres, com tal gado, pois do terceiro em diante o seu trabalho deixa de luzir. Os tres primeiros, todos à meia volta, foram limpos, e n’elles o joven cavalleiro ainda d’esta vez revellou boas, excellentes qualidades para o toureio.
O 5º touro foi esperado por Cortez, que mal se ageitou com elle, não conseguindo pôr senão meios pares. Gordito poz um bom par, quarteando muito cingido. Depois nada mais fez.
Passado mal por Faculdades, cuspio este touro nada menos de tres homens que successivamente lhe cahiram entre as hastes. O dia não foi para pégas. Os bois, mal passados de capote, ensarilham muito e ficam com pernas para furiosos derrotes em que é difficillimo acompanhal-os.
Adelino Raposo offereceu a lide do 6º touro ao Sport Nautico, e foi esperal-o á sahida para fazer a sorte, do «toreio moderno», de garupa á gaiola. Mas o touro, que era dos antigos, não se prestou á modernice e enconchou. (NOTA: escondeu-se ou recuou ou se colou à barreira.) Foi preciso substituil-o por outro, que tambem se mostou inimigo de innovações. Mas depois o cavalleiro, esforçando-se visivelmente por cumprir o seu dever, collocou-lhe quatro ferros, dous dos quaes muito bem.
E as festa
tauromachica terminou entre applausos animadores. Deviam se ter seguido dous
numeros de pantomina e acrobacia, a que não assistimos, por não ser cousa da
nossa competencia. — Frascuelo.
P.S. — Vimos uma carta escripta de Lisboa pelo José Bento de Araujo (tem feito progressos, o demonio!) a um amigo d’esta capital, participando-lhe que a 13 do mez proximo passado tinha sahido de Lisboa, com destino ao Pará, uma companhia tauromachica organisada por aquelle esforçado e reforçado cavalleiro, com dous artistas de cavallo, dous matadores, cinco bandarilheiros, um grupo de poderosos moços de forcado do Ribatejo e trinta touros portuguezes. Esta cuadrilla seguirá do Pará para Montevidéo e Buenos-Aires, tendo alguns dias de demora no Rio de Janeiro.Ora, que bom se o José Bento (de Araujo)... Não; o melhor, como isto não é para nós, será esperarmos mesmo pelos quatorze touros que nos estão promettidos. — F. (NOTA: "F." de Frascuelo, pseudónimo adoptado pelo jornalista)
In A NOTICIA, Rio de Janeiro - 2 e 3 de Setembro de 1901
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https://corridasportugalespanafrance.blogspot.com/2025/06/1896-toreo-espanol-y-toreo-portugues-el.html


