A tourada offerecida á commissão da Kermesse
Não foi certamente a primeira funcção d’esta epoca, se attendermos a que de ordinario o amador só fica satisfeito quando lhe apresentam um curro bravo e egual; pode no entanto asseverar-se que foi a mais sympathica de todas essas diversões attento o fim que se tinha em mira, qual o de contribuir com a sua receita para a sustentação das creches.
Póde pois dizer-se: o gado não prestou, mas o publico saiu satisfeitissimo.
Á hora marcada compareceram no camarote da auctoridade o sr. commissario geral de policia e o sr. commissario da 1.ª divisão, dando-se começo ao torneio.
Saiu o 1.º touro, animal corpulento, mas de sentido, investindo com pouca vontade. (Manoel) Mourisca, que era o cavalleiro, não poude realisar a sorte de gaiola, mas enfeitou o touro com uma farpa em um sesgo bem executado. Preparou-se para uma meia volta, mas o seu cavallo, que era o Cascaes de (José) Bento de Araujo, quando galopava no terreno em que devia terminar-se a sorte, chapou-se, ficando (Manoel) Mourisca maltratado e impossibilitado de proseguir no torneio.
Valeu-lhe ainda assim o soccorro prestado a tempo pelos bandarilheiros, porque o touro que ainda investiu com o cavallo já chapado acabaria por investir o cavalleiro então prostado e indefezo.
Segundo nos disseram (Manoel) Mourisca tem uma entorce na perna direita.
Seguiram-se o 3.º e 4.º touros para os bandarilheiros, e que nada fizeram.Eram animaes de sangue fraco e cobardes que só diligenciavam safar-se da arena saltando para as trincheiras.
Quando se corria o 3.º touro deram entrada na tribuna El-Rei o sr. Luiz, Sua Magestade a Rainha, o Principe D. Carlos e o Infante D. Affonso.
As bandas da guarda municipal e cegos da casa pia entoaram então o hymno real, que foi ouvido pela maioria dos espectadores de pé e descobertos.
Proseguindo o torneio, veiu para a arena o cavalleiro Casimiro Monteiro, para lidar o 4.º touro. Pouco poude fazer. Apenas conseguiu metter no touro, animal brando e refractarioás sortes, uma farpa á meia volta, mas em sorte bem executada.
O 1.º touro da 2.ª parte, um animal corpolento e bravo coube a Antonio Monteiro que o lidou com valentia, enchendo-o de farpas e terminando com um ferro curto que lhe proporcionou muitos applausos e uma chamada.
José Bento de Araujo que na occasião do desastre succedido a (Manoel) Mourisca se magoara bastante no braço esquerdo, teimou, apezar d’isso, em lidar o touro que lhe pertencia.
Coube-lhe um touro valentissimo, que aproveitou com muito arrojo em bem terminadas sortes. A pedido do publico enfeitou o bicho com dois ferros curtos que lhe valeram uma ovação. Teve as honras da tarde.
Os restantes touros para pé, não foram superiores aos dois da primeira parte que mencionamos.
No intervallo da 1.ª á 2.ª parte foram offerecidos por parte da commissão da Kermesse, bonitos bouquets a todos os artistas, que tanto se enobreceram promovendo aquella festa e desempenhando-se gratuitamente da sua perigosa profissão.
A familia real applaudiu os artistas que se distinguiram na lide, dispensando-lhes o maior agrado.
Suas magestades e altezas retiraram-se logo que foi corrido o 10.º touro, que foi o que pertenceu a José Bento (de Araujo).
Nos camarotes via-se a fina flor da sociedade portugueza.
A concorrencia
nas trincheiras foi muito regular.
In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa - 16 de Maio de 1884


