Biblioteca nacional de Portugal
TAUROMACHIA
Praça do Campo Pequeno
Realisou-se
hontem a corrida promovida pelo bandarilheiro João Roberto.
A
concorrencia foi numerosa e a corrida esteve animadissima.
O clou da tarde era a reapparição dos
irmãos Robertos, artistas que, durante epocas succesivas, se fizeram applaudir
na praça do Campo de Sant’Anna. Decerto se recordam os leitores afficionados dos esplendidos trabalhos
então executados. São artistas completos. Tornaram-se notaveis pelas suas
sortes de gaiola, pois, dispondo de umas pernas de aço, aguardavam os toiros
mui cerca do toiril. Os cavalleiros trabalhavam desassombradamente,pois
encontravam n’estes artistas um poderoso auxiliar, já porque punham os toiros
em sorte, já porque os seus capotes eram os primeiros a ser lançados ao toiro, quando
elle carregava sobre o cavallo.
Com a muleta, ainda hontem vimos o applauso
que mereceu o seu trabalho.
Ultimamente,
porém, já sobremaneira cançados e doentes, retiraram-se mais do toireio e foi
hontem a primeira vez, na presente epoca, que vestiram os seus fatos.
Mas
vamos á corrida:
Findas
as cortezias, foram os irmãos Robertos alvo de grandes ovações.
Vicente (Roberto) entrega a farpa ao cavalleiro José Bento (de Araujo), que espera.
O 1.º — Veado. Negro, bragado, alvorado de rama,
abarbellado, listão. O cavalleiro
colloca tres ferros á meia volta, um
dos quaes muito bom, e um á garupa. Pegando
em curtos, deixou um bom par á meia volta. José Bento (de Araujo) ouve muitas
palmas.
2.º — Picanço. Negro, bragado.
Vicente
Roberto pediu a auctoridade licença para bandarilhar e foi para a gaiola. Não
empregou os ferros, sendo, porém, muito applaudido pela maneira como esperou a
rez.
Collocou
depois meio par.
Roberto
da Fonseca deixou tres pares e meio a quarteio, muito bem apontados.
Com o
capote tirou dez veronicas e um pharol.
Magnifica
péga de cara.
Vicente,
Roberto e forcado muito applaudidos.
3.º — Calcinhas. Negro, caraça, bragado,
listão.
É
esperado por Minuto, (mais
exactamente o espada sevilhano Enrique Vargas González, «Minuto» – 1870-1930) que nada faz á
gaiola, deixando um bom par. João Roberto colloca um par de primeira ordem. Minuto cuartea por tres vezes, deixando
outros tantos pares.
«MINUTO»
FOTO: EL ENANO- Hemeroteca Digital BNE (tratada por IA)
João
Roberto prende par e meio.
Minuto, com o capote, dá sete veronicas e duas navarras.
Boa péga
de cara.
Grande
ovação a Roberto e Minuto.
4.º —Boneco. Negro, listão, bocalvo.
Saldanha
colloca um par deanteiro. Gonçalves, meio descaido. O primeiro poz mais par e
meio e o segundo um par. Pescadero
tirou, com o capote, cinco veronicas.
O Boneco foi pegado de cernelha.
Manuel
Casimiro offerece a primeira sorte a Vicente Roberto e vae esperar o
5.º — Caracol. Negro.
Depois de
varias saidas falsas, sem que o animal arrancasse, sae Calabaça e esperta-o com
um par de bandarilhas.
Manuel
Casimiro colloca então tres pares curtos, á
meia volta, e um á garupa.
6.º — Espingardo. Negro.
João
Roberto poz a quarteio quatro pares muito bem apontados. Vicente Roberto
empregou n’este toiro um par a cuarteo.
Roberto da
Fonseca tira, com a muleta, nove naturaes
e nove de peito.
Finda a
linde (lide) d’este toiro, o publico
chamou e applaudiu muito Vicente, Roberto e João, recebendo o ultimo brindes de
collegas e amadores. Por essa occasião, varios afficionados, constituidos em commissão, pediram aos irmãos
Robertos para tomar parte na festa do bandarilheiro Raphael Peixinho.
7.º — Caracol. Negro, bragadinho.
José Bento (de Araujo) enfeita o morrillo do Caracol com tres ferros á tira,
um á estribeira e um citando á tira e rematando a garupa.
Deixa depois dois bons pares curtos á garupa.
José Bento (de Araujo) teve chamada especial.
8.º — Estorninho. Negro.
João
Calabaça, que prende á gaiola um bom par, aponta depois um par a quiebro.
Roberto
da Fonseca deixa dois pares e Vicente um par.
Vicente,
Roberto, Calabaça e Sancho ouvem palmas.
9.º — Barbeiro. Negro, caraça, bragado.
É
esperado por Pescadero, que colloca
um par á gaiola.
Vicente
põe dois bons pares e Minuto dois e meio.
Sancho
tira, com o capote, seis veronicas, e
Pescadero, com a muleta, dá tres naturaes,
dois com a direita e quatro de peito.
Rija a
péga de cara executada n’este toiro.
10.º — Barrete.
Negro, caraça, bragado.
Manuel
Casimiro aponta tres farpas á tira e
uma á meia volta.
Pegando em
curtos, deixa tres pares: dois á tira e
um á meia volta.
11.º — Barrete. Negro, caraça, bragado.
Gonçalves
colloca tres pares, saindo emborcado no primeiro.
Saldanha
deixa tres pares e Torres Branco par e meio.
Minuto, com o capote, dá cinco veronicas.
Em resumo:
Os toiros. — Pertenciam seis ao lavrador
Branco e seis a Roberto & Irmão.
Cumpriram,
saindo, porém, melhores os da segunda parte, pertencentes a Roberto &
Irmão.
Os cavalleiros. — José Bento (de Araujo)
trabalhou muito bem.
Ouviu merecidos applausos pelo seu trabalho no segundo
toiro, o celebre Caracol, animal já muito corrido e de difficil lide.
Manuel
Casimiro foi tambem applaudido pelo seu correcto trabalho.
Os bandarilheiros.— Vicente Roberto e
Roberto da Fonseca, dois artiostas de nome, tão arrojados quanto distinctos e
conhecedores de todas as subtilezas da arte, foram applaudidissimos, recebendo
do publico as maiores manifestações de sympathia e apreço.
Vicente,
devido ao seu estado de saude, pouco pôde fazer.
Roberto
teve ferros de merecimento e com a muleta,
no sexto toiro, deu passes admiraveis,
cingindo-se e parando-se.
João
Roberto esteve muito feliz. Trabalhou muito bem.
Minuto muito bem como bandarilheiro e
opportuno nos quites.
Calabaça
teve uma boa gaiola no oitavo toiro e um par a quiebro no mesmo toiro. Bravo.
Pescadero
deixou um bom par no nono toiro e uns passes de muleta muito bons.
A casa
boa. O publico satisfeito.— J. M.
Revista SOL Y SOMBRA, Madrid
Biblioteca nacional de España (tratada por IA)
Domingo, beneficio dos camaroteiros.
Trabalham os saltadores francezes. Cavalleiros, José Bento (de Araujo) e o amador
Fernando Ricardo Pereira. Os toiros são do sr. João Thomaz Piteira. Daremos
noticia d’esta magnifica toirada.
In A VANGUARDA, Lisboa – 20
de Agosto de 1894