Biblioteca nacional de Portugal
GARRACHÕES E BANDARILHAS
Muito haveria que dizer ácerca das touradas
em Portugal, que teem tido como amadores enragés
alguns dos nossos reis e dos nossos principes. Assim, D. Sancho II era
toureiro, e D. Duarte corria touros a cavallo em pello e sem arreios, e até
ensinava, na sua obra, um golpe para alancear os touros. D. Affonso V apreciava
immenso os combates taurinos, e os que, no seu reinado, se realisaram em S.
Christovão e na Rua Nova deixaram fama. D. João II tinha-os egualmente em
grande predilecção. D. Sebastião era um insigne toureador, tanto que, n’uma
corrida em Almada, fez melhores sortes que o marquez de Torres Novas, o que deu
grande contentamente á rainha. No seu tempo correram-se touros no Terreiro do Paço.
Há mais
referencias a corridas durante este reinado nas Memorias para a Historia del Rei D. Sebastião, de Diogo
Barbosa Machado, e na Historia Sebastica
de Fr. Manoel dos Santos.
Quando o rei
Felippe II de Hespanha veiu a Portugal, houve festas e touradas em Lisboa,
picando o alguazil da Côrte, Pedro Vergel, a quem Lope de Veja chamava el mejor mozo de España. Superfluo seria
dizer que os divertimentos taurinos constituiam e constituem o supremo
divertimento castelhano. Pan y toros !
Eis o grito que ainda se ouve dos Pyreneos aos Cantabricos e á Sierra Nevada.
Por isso foi em vão que a bulla de Pio V fulminou com a pena d’excommunhão a
todos os que assistissem a esse espectaculo sangrento.
O principe
D. Pedro, filho de D. João IV, foi notavel amador tauromachico, D. Affonso VI
toureou no pateo d’Odivellas, e D. Pedro II pegava bois á unha, batia o pé aos
cornupetos com a insolencia d’um desafio.
D. Miguel
era o typo perfeito do aficionado.
Como o rei de Hespanha seu contemporaneo, Fernando VII, dispensou grande
protecção a este genero de divertimentos e aos seus cultores. A praça que fez
levantar na Quinta Velha, ou da Bemposta (junto á Tapada e confrontando com a
antiga travessa do Pintor), era toda de cantaria grosseira, tendo pouco mais do
que a altura d’um homem, com uns esconderijos para refugio dos lidadores, e uma
grande janella de sacada oara a Familia real assistir á lucta.
As tardes de
touros no tempo de D. João V eram cheias de bulicio e de ruidos, como se
conclue da simples leitira do Pinto
Renascido, que descreve as touradas em que vinham touros de fogo, sahiam os
gigantes, as dansas, as deusas eem carros puchados por mulas, em que os baetas apanhavam boléo bravio e em que
até appareciam panellas com pombos para se atirarem, levando cada um deu mote
debaixo da aza :
Fugindo venho a meu mal,
Esconda-me, por quem é,
Debaixo do guarda-pé,
Que o donaire é um pombal.
Eu escapei d’escopeta,
Livrei de quem mais me enlaça ;
Sentirei fugir da caça,
E vir a dar em baeta.
Temos ainda outro
importante testemunho contemporaneo. É a Arte de Tourear dedicada ao Apólo do
Terreiro do Paço, em que o auctor, depois de dar varias indicações para o
toureio a rojão e á espada, acaba por pedir uma nova Postura ao Senado, pela
qual fossem punidos os bulhentos e os outros. Assim devia soffrer castigo todo
o que fizesse algazarra e atirasse com cascas de melancia aos baetas ; todo o que ourinasse (!) em
camarote por baixo do qual estivessem homens de cabelleira : toda a que visse a
festa de camarote por secia e fosse para casa, ficando sem ceia ; todo o que
alugasse sege a mulher-dama para ir aos touros, e ella fosse á pata : toda a regateira que rogasse
pragas ao netto : etc.
Parece que
as regateiras e outras pessoas costumavam soltar muito a lingua n’estas
funçanatas.
N’este mesmo
reinado deram-se corridas de touros em diversos sitios nas proximidades de Lisboa.
Nas de Pedrouços
tomaram parte o marquez de Tavora, o duque de Cadaval, seu sobrinho o marquez de
Tavora, o duque de Cadaval, o seu sobrinho o marquez d’Alegrete, Manoel de
Mattos, monteiro mór de Coruche, D. Antonio d’Almeida e Fernando José da Gama Lobo.
As de Belem, em que entravam cães de fila, eram concorridas das senhoras da
côrte. As da Junqueira (1738 1741) foram dadas pelo duque de Cadaval.
No reinado
de D. José tambem as corridas taurinas estiveram em muito apreço.
Em Queluz
realisaram-se algumas sob a direcção do marquez de Marialva, tomando parte n’ellas
o Antonico e outros picadores da Casa Real, segundo refere o marquez de Rezende
no Panorama. Nas corridas de Santarem
picou o famoso cavalleiro José Roquette, que tambem toureou no Terreiro do
Paço.
Em
Salvaterra davam-se touradas reaes (em que chegaram a haver combates de touros
com javalis), caçadas aos javardos, que iam de Pancas em gaiolas, tiro aos
pombos, e caça aos falcões e gerifaltes. A Familia Real era conduzida para alli
em bergantins.
Em 1754 deram-se
combates de touros no Rio de Janeiro, e em 1761 na Real Praça de Belem, picando
Carlos Antonio Ferreira, alferes de cavallos, Miguel Moreira, capitão da
Ordenança da Côrte, Carlos Antonio Xavier e Antonio José Xavier.
No reinado de
D. Maria I as touradas não tiveram grande importancia. Verdade é que se
realisaram algumas no Terreiro do Paço, em 1777, festejando a sua acclamação, e
em 1795 celebrando o nascimento da priceza da Beira.
A esta
ultima vieram picar os hespanhoes Bertholdo Ximenes e o celebre Pedro Romero, o
competidor de Pepe Hillo, que veio ganhar dois contos de réis. Foram o marquez
de Marialva, D. Diogo, e o conde d’Obidos, que fizeram a medição das bancadas
nos palanques para as fidalgas.
Por occasião
de casamento ou baptisado de pessoa real havia sempre combates de touros, que,
no dizer de Latino Coelho, eram n’aquelles tempos a expressão mais grata e
popular do regosijo nacional.
Como já dissemos,
bastantes corridas de touros se realisaram no Terreiro do Paço, onde eram previamente
annunciadas por meio d’um mastro que ahi se erguia, muitos dias antes das
funcções, e onde depois se afixava o edital com os detalhes da festa.
No Rocio
fizeram-se touradas até 1755. N’uma relação existente nos Manuscriptos da
Secção Pombalina da Bibliotheca Nacional conta-se d’uma tarde de touros, e,
referindo-se aos dois ultimos, diz-se :
Um e outro era manso e era caseiro,
Podiam ser amantes d’um mosteiro ;
Não vi touros jámais tão bem soffridos,
Bofé que os desejei para maridos.
A corrida
repetiu-se n’uma sexta feira, e n’ella morreu um forcado chamado o Caróla, que a todos deixara assombrados
nas festas de Madrid.
Nos antigos
combates de touros empregou-se primeiro o venabulo de caça ou a lança, e,
depois, o rojão e a espada. A lança transformou-se no garrochão e na garrocha,
e esta na farpa do cavalleiro e na bandarilha do capinha. O garrochão servia
para matar o touro, a garrocha para farpeal-o.
O toureio a
pé era considerado deshonroso, era o castigo infligido ao cavalleiro ou
rojoneador que se deixava desfeitar pelo touro. Por isso este lidador não devia
desconhecer aquella sorte de lide, visto que se lhe tornava necessaria para se
desaffrontar do enxovalho recebido.
O poema Os Toiros, apresentando as regras da
arte, diz :
Outro preceito impõem. Se
o Combatente
Perder cilha, chapéo,
perder cavallo,
Posto a pé, dispa a
espada ; então valente
Chame o Toiro incivil, vá
castigallo.
Encontra-se noticia da existencia d’algumas
praças de touros no seculo passado a principios do actual : a de Valverde
(antigo Passeio Publico), a do Campo Pequeno, a de Belem, a da Estrella, a do
Campo de Sant’Anna, além da do Salitre.
José
Baretti, italiano de Turim, que visitou Portugal em 1760, publicou umas cartas
curiosissimas, em que fala da praça do Campo Pequeno. Descreve uma tourada a
que alli assistiu, e conta que, depois da morte do oitavo ou nono touro,
houvera uma algazarra atroadora, uma balburdia medonha, em que os espectadores
se lançavam na arena, e que, infallivelmente, haveria enormes desgraças a
lamentar, se o rei não tivesse acenado com o leque para aquietar os animos, e a
rainha e as princezas se não tivessem debruçado do camarote, fazendo signaes
para que o publico se acalmasse.
Soube-se
depois que o tumulto fôra provocado por uns gatunos que gritaram : Terramoto ! Terramoto ! a fim de se
aproveitarem do teror e da confusão consequente que tal grito produzia n’aquelle
tempo.
Achámos um documento relativo a este motim.
É a portaria de 6 d’Agosto de 1760, assignada por Francisco Xavier de Mendonça
Furtado e dirigida a Gaspar Ferreira Aranha. Diz que a Sua Magestade se fizera
muito estranha a desordem que no domingo proximo passado houvera na Praça do Campo
Pequeno, causada pelo pouco cuidado na construção dos palanques, razão por que
estiveram em perigo muitos dos seus vassallos. Mandava que o tenente-coronel
Carlos Mardel e o capitão Caetano Jeronymo examinassem, na presença de todo o
Senado da Camara, os palanques e camarotes da referida Praça, fazendo demolir
os que não estivessem seguros, e que os empreiteiros que os haviam fabricado e
os mestres que os deram por bons fôssem todos presos debaixo de chave no
Limoeiro, onde se lhes abriria assento á ordem de S. M.
Temos ainda dois folhetos que se referem a
esta praça. Um intitula-se Primeira
Assembléa que fizeram os interessados em o festivo combate de touros que se há-de
fazer na Praça do Campo Pequeno, Domingo 13 do corrente mez de Julho de 1760.
Dada á luz por J. J. de J. R. e S. in-34.º de 8 pag. O outro é o Romance joco-serio. A Antonio Valente que nas duas tardes em que toureou no Campo Pequeno
fez maravilhas (Setembro 1741)
in-fol 1 pag.
Como
prova da existencia da Praça de Belem temos este documento :
«Para o conde Almirante.»
«S.
M. é servido que V. Ex.ª na primeira e terceira tarde de touros que se hão de
fazer na praça de Belem, a vá alimpar com os soldados da Guarda na forma praticada
em semelhantes occasiões. Deus guarde a V. Ex.ª Paço em 23 de Setembro de 1761.
Francisco Xavier de Mendonça Furtado.»
A portaria de 18 de Maio de 1763 refere se á
Praça da Estrella, quando diz que as religiosas do mosteiro de Sacavem,
precisando de dinheiro para acabar a capella do convento, pediam que lhes fôsse
concedido dar seis festividades de touros em qualquer dos sitios da Estrella ou
de Campo d’Ourique. Receberam auctorisação, ficando o Senado obrigado a
superintender na construcção dos palanques.
Podemos citar mais o folheto que se occupa d’esta
praça de touros e que se intitula : Nova
Relação e verdadeira noticia exposta ao publico, das magnificas e vistosas
festas de touros, que se hão de celebrar no sitio do Casal da Estrella com a
mais luzida, e grandiosa pompa este presente anno de 1763… em obsequio do
senhor D. José Principe da Beira… sendo author d’estas festividades Francisco
de Mattos Ferreira Souto. Lisboa, Offic. De Ignacio Nogueira Xisto, 1763,
in-4.º
No seculo XVIII existiu praça de touros no
Campo de Sant’Anna. Já vimos uma noticia
descrevendo uma tourada que ahi se realisaria, a ultima das seis que o Senado
concedera n’aquelle anno. Entravam como contendores Angelo Borges de Carvalho
Castello Branco, couteiro Regio das coutadas extra-muros, Antonio José d’Araujo
Garamato e José Soares Maduro. Fazia um intervallo o Côxo de Benavente. N’essa tarde deviam morrer vinte touros, haveria
dansas de mascaras hollandezas, um gigante e dois macacos.
Na
Bibliotheca Nacional de Lisboa há um folheto que trata d’esta praça. É a Relaçam preta d’uma festividade branca
ou (mais claro) retracto em papel branco por um pincel de azeviche e delineação
do applauso dos seis dias de touros, que estão proximos a cair, ou propincos a
executarem-se na Praça de S. Anna d’esta Corte de Lisboa. Lisboa. Offic. De Caetano
Ferreira da Costa. 1767. In-4.º de 8 pag. em verso.
Depois d’esta existiu outra no Campo de Sant’Anna,
e no mesmo local onde esteve a que ultimamente demoliram. Em Março de 1808,
Caetano Benci, director d’uma companhia de bailarinos de corda, requereu a Mr.
Hermann, queixando-se do procedimento de Francisco José de Carvalho, a quel
sublocara a praça do Campo de San’Anna, e pedindo que o sublocante o indemnisasse
dos prejuizos e lhe restituisse a chave. Já depois d’expulsos os francezes, o
mesmo Benci pediu á Intendencia para trabalhar com a sua companhia na citada
praça. Mas o aviso de 6 de Outubro de 1808 negou lhe a licença.
A moderna praça do Campo de Sant’Anna tem a
seguinte historia :
José Maria Pimentel Bettencourt, que já
tivera a praça de Buenos Ayres, e a do Poço dos Negros (em 1808), pediu em 1824
para edificar outra n’uns terrenos situados por detraz da egreja de S. Mamede,
a qual receberia o nome de Real Praça do
Senhor Infante. Mas os acontecimentos politicos da epocha impediram-n’o de
levar a effeito o seu designio. Em 8 de Janeiro de 1828 requereu ao Senado para
este lhe aforar o terreno do Campo de Sant’Anna, onde já estivera uma praça de
touros. O Senado deferiu, mandou proceder á medição do terreno e ao exame do
risco da praça e tribuna real, mas exigiu o beneplacito regio. As plantas e
alçados baixaram da Secretaria do Reino á Intendencia, e, em Julho de 1829
ainda não havia resolução alguma, do que Bettencourt se lamentava.
Aquella tentativa abortou. Antonio Joaquim
dos Santos, administrador da Casa Pia, pediu então para construir a praça, o
que foi auctorisado por decreto de 30 de Julho de 1830. O Senado da Camara fez
proceder á medição do terreno, e arbitrou o fôro, mas exigiu tambem o direito dominical de ter alli um camarote.
A resolução de consulta de 21 de Março de 1831 decidiu n’estes termos : — «Como
parece ao Senado, fazendo aquelle abatimento no fôro que merece a Casa Pia, e
escusado, quanto ao camarote, por deverem pagar todas as pessoas que
concorrerem ao espectaculo que prepara.»
Os
mestres d’obras queriam quarenta contos de réis pela construção, mas a Casa pia
teve licença para fazel-a por sua conta, e importou, apenas, em 22.455$931
réis.
Foi
inaugurada por D. Miguel e sua irmã, a infanta D. Maria d’Assumpção, em 3 de
Junho de 1831, 3.º anniversario da entrada do exercito realista do general Povoas
no Porto.
A
praça do Campo de Sant’Anna cahiu sob o camartello demolidor em 1889, e ainda há
pouco (Fevereiro de 1897) o ministerio do Reino officiava ao das Obras Publicas
a fim de que a Casa Pia fôsse desonerada do pagamento de 40$000 réis de fôro,
que ella dava á Camara Municipal pelo terreno, que está hoje na posse do
Estado.
Quanto
á praça do Salitre não podemos fixar, no certo, a data da sua construção, mas
podemos dizer que é d’entre 1777 e 1780, porque um aviso de 6 d’Outubro d’este
anno diz que João Gomes Varella não devia consentir jogos alguns dos
prohibidos, nem outro divertimento mais que o dos Touros, para que lhe fôra
concedida licença pela Rainha. No anno immediato apparece Pedro Antonio Favery
querendo dar divertimento de sortes na praça do Salitre, o que não lhe
consentiram, porque só tinha permissão para touros. E, no mesmo anno, o Pina
Manique ameaçou o Varella de que o castigaria, se annunciasse espectaculos para
os quaes não tinha licença.
No
theatro contiguo subiu á scena em 1787, no beneficio do dansarino Perini, um
entremez de José Daniel intitulado A Arte
de Tourear.
Em
1798 tomou parte nos brincos de touros
(como tambem lhe chamavam) o cavalleiro João Antonio Maria Gambetta, assaz conhecido.
E o Favery, que então se dizia «mestre de florete e dos combates do real
theatro de S. M.», dava corridas com premios, e onde havia combates de touros
com cães de fila.
A praça do Salitre passou em 1788 para
Antonio Gomes Varella, que, em 1803, apparece dono do theatro. Antonio Gomes
Varella enforcou-se na tarde de 12 de Novembro de 1823.
Succedeu-lhe
na propriedade da praça seu filho João Gomes Varella, picador de D. Miguel, que
em 1829 dizia haver succedido aos seus maiores no dominio d’um prazo de livre
nomeação, em que elles haviam levantado a praça do Salitre. Por morte d’elle
pertenceu a sua mulher, D. Josepha Varella, filha d’Antonio Serrate.
Ainda era ella a proprietaria em 1852,
quando pedia para dar corridas de novilhos á moda hespanhola.
Na praça do Salitre davam-se touros de
morte. Sabemos que, em 1826, em cada corrida de doze bichos, quatro eram
mortos. A carne vendia-se em beneficio da Casa Pia. N’este anno tourearam ahi
os hespanhoes José Rodrigues, matador d’espada e seu filho Pedro Rodrigues.
A Casa Real fornecia gado para as cortezias.
Um officio da Casa Pia ao marquez d’Alvito, estribeiro mór, pedia dois cavallos
para cortezias, uma azemola para o caixote dos rajões, e duas parelhas de
muares para arrastarem os bois depois de mortos.
As corridas deviam proporcionar soffriveis
lucros ao emprezario. Basta vêr que para a tarde de 4 d’Agosto de 1822 se
vebderam 2,394 bilhetes d’embolação a 40 réis, 62 camarotes por 240$000 réis,
1.172 bilhetes de sombra a 480 réis, e 2.441 de sol a 240 réis, e mais quatro
por 76$800 réis. Um mappa de receita e despeza calculava o lucro provavel para
a Casa Pia , durante o anno de 1822, na quantia de 2.400$000 réis.
O decreto de 9 Setembro de 1821 tornou privativas
d’este estabelecimento de caridade as corridas de touros em Lisboa. Mas, algumas
vezes, aconteceu não receber os direitos que lhe pertenciam.
A
praça do Salitre desappareceu com o inicio das obras para a abertura da Avenida
da Liberdade, em 1879.
José Maria Pimentel Bettencourt mandou
edificar a praça do Poço dos Negros (á esquina do becco do Carrasco) em 1818.
Destinava-se a companhias d’arquelins, mas
tambem serviu para corridas de novilhos.
Existiram mais, pela sua ordem chronologica,
os seguintes circos para funambulos e volatins : o de Buenos Ayres, o do
Abarracamento de peniche, o da rua do Vigario, o da rua da Procissão, e o de
Madrid, no largo d’Annunciada.
O circo de Madrid abriu as portas em 15 de janeiro
de 1846, e teve o seu momento de celebridade com a companhia de Avrillon. A
Polletti, com alvas espaduas calandradas, a soberbia d’estatua sobre o
pedestal, e a fria correcção d’um gêsso, o pequenito Leon trabalhando sobre
quatro poneys em pello, o cavallo Phenix amestrado por M. Laribeau, e os
prodigios de Mr. Cocchi, constituiram o chamariz. O Rattel era um palhaço d’immensa
pilheria, e Madame Cocchi uma formosissima mulher, a quem os janotas se
fartavam d’arrastar a aza.
Mr.
Paul Laribeau ganhou uma fortuna, que metteu no banco de Lisboa, fortuna que
ficou reduzida a menos de metade, porque veio a Maria da Fonte e pagaram-lhe em notas de 4$800 réis, que apenas
valiam então quatro pintos (1$920 réis).
Em 1860 estabelece-se o circo de Price, na
rua do Salitre, 31, junto á travessa das Vaccas, e esta creação metteu na
sombra todas as velhas reminiscencias gymnastico-acrobaticas. Inaugurou-se na
noite de domingo, 11 de novembro d’aquelle anno.
Na companhia vinha, pela primeira vez, a
augusta trindade da galhofa : Whytoine, Secchi, e Alfano. Whytoine era dotado d’uma
indole tristonha. Recordava aquelle Debureau, o celebre clown francez, que, tendo ido consultar um medico para o curar da
sua hypocondria, este, sem o conhecer, disse-lhe :
— Quer-se curar ? Vá vêr Dbureau !
— Ai ! respondia o palhaço, Debureau sou eu
! —
Depois tivemos as esplendorosas pantominas,
em que o prato de resistencia eram os combates de Garibaldi e o seu triumpho ao
som do hymno :
Viva la
Sicilia,
Viva la Toscana.
La lingua italiana,
E la libertà !...
Veio o Leotard, rival do Blondin, veio a
companhia do buffo Arderius, veio a
Zamacois…
Thomaz Price foi, por espaço de 15 annos,
uma figura popularissima de Lisboa.
Era de estatura meã, anafado, cara larga e
massiça, olhos pequenitos, tornados ainda mais pequenos á força de os piscar e
encolher as palpebras, uma cabelleirinha acompanhando a calva luzidia, e
derreava um ludo-nada a cabeça para o lado esquerdo como Alexandre o Grande. Nunca
se ria, fallava devagar, tinha no semblante uma bonhomia comica, uma ratice única,
e declarára-se em estado de guerra permanente com as doutrinas fuliginosas dos
pessimistas, e com a tristeza acida dos mysanthropos. Ninguem como elle fazia
estas tres coisas : apostar, avaliar um cavallo pelas orelhas e encher um copo
de cerveja. Conta-se que o Voltaire precisava d’uma pitada e d’uma chavena de
café para lhe espertar a veia, o Price necessitava d’um só coisa — cervejar.
Thomaz Price foi fulminado por uma
congestão, quando estava em Madrid em 1876.
Alas ! poor Yorick ! O bistre e o pó d’arroz
te sejam leves !
A diversão das touradas nem sempre foi
recebida com boa sombra por parte dos poderes publicos. O marquez de Pombal detestava-a,
prohibiu que se corressem touros desembolados, e, por fim, que se dessem
combates de touros.
A Regencia do Reino, durante a ausencia de
D. João VI, tambem não mostrou melhores disposições. Primeiro consentiu as
corridas, com a condição de se não matarem touros, e d’estes serem, apenas,
farpeados. Depois prohibiu-as. Borges Carneiro apresentou uma proposta para a
extincção das touradas, que foi discutida em Côrtes na sessão de 4 de Agosto de
1821. Travou-se debate em que tomaram parte diversos deputados, entre elles
Manoel Fernandes Thomaz que se pronunciou a favor das corridas. E a proposta
foi regeitada por 43 votos contra 30. Passos Manoel prohibiu-as por decreto de
19 de Setembro de 1836, que foi revogado pelo decreto de 30 de Junho de 1837.
A corrida de touros é uma diversão
eminentemente caracteristica, é o genuino divertimento nacional. Já não
possuimos os jogos d’agilidade e de força como no seculo XVI, em que havia a lucta, o jogo da bola ou da pella, o jogo
do dardo, o jogo do malhão, o jogo dos mancáces, o jogo da choca, e outros que
vemos citados nos Livros das Chancellarias, e que seviam para trenar os homens, para lhes insufflar as
energias viris da combatividade. Dos exercicios athleticos com que se avigorava
a fibra nacional, a tourada foi o único que nos ficou.
A Inglaterra tem o hippismo, e perpetúa o
culto nobre e pagão dos exercicios musculares ; a America do Norte tem os certamens
do box, em que os campeões ganham,
com simples cavatinas de murro, uma fortuna e uma gloria de tenor. Nós temos o
nos-o toureio, que se differença do hespanhol não só pela lide do cavalleiro, mas
porque em Portugal é um jogo de destreza, um torneio, emquanto que em Hespanha
é um duello de morte.
In LISBOA D’OUTROS TEMPOS – Figuras e scenas antigas, Pinto
de Carvalho (Tinop) ; Livraria de Antonio Maria Pereira — Editor ; Lisboa ;
1898.
FONTE
: Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) - Lisboa.