Factura liquidada por Antonio José d'Almeida, presidente da República Portuguesa, à empresa do cavaleiro José Bento d'Araujo
DOCUMENTO: COPYRIGHT Museu da Presidência da República, Lisboa.
O recibo carimbado em 18 de Dezembro de 1919 é
peremptório: a Nova Empreza de Carruagens Alliança, propriedade do cavaleiro
tauromáquico José Bento de Araujo, comunica a liquidação da factura emitida em nome de Antonio
José d’Almeida, relativa ao aluguer de um “coupé” durante 18 dias, em Lisboa.
O cliente, Antonio José d’Almeida é, então,
Presidente da República.
Antonio José d'Almeida
IMAGEM: Museu da República, quadro de Henrique Medina.
Eis a biografia do médico, jornalista e político (disponível na página oficial da Presidência da República Portuguesa):
"Foi eleito em 6 de agosto de 1919, com o apoio dos partidos Evolucionista e Unionista e de muitos apoiantes do Partido Democrático.
À data da sua eleição, era já uma das
figuras mais prestigiadas do republicanismo, em grande parte pela eloquência e
capacidade retórica que faziam dele «o tribuno da República».
Foi o único Presidente que, durante a I
República (1910-1926) cumpriu na íntegra os quatro anos de mandato presidencial
fixados pela Constituição de então.
António José de Almeida nasceu em Vale da
Vinha, concelho de Penacova, em 17 de julho de 1866, filho de José António de
Almeida e Maria Rita das Neves Almeida.
De origens modestas, o seu pai tornou-se um
pequeno industrial e comerciante local, chegando a ocupar a presidência da
Câmara de Penacova no final do século XIX.
Em 1880, matriculou-se no Liceu Central de
Coimbra, terminando o Curso Geral dos Liceus em 1885. Nesse mesmo ano,
inscreveu-se nos preparatórios de Medicina.
Em julho de 1889, ingressou no curso de
Medicina da Universidade de Coimbra e, em 1894, concluiu o bacharelato,
recebendo o Prémio Barão de Castelo de Paiva pelas suas qualidades como
estudante.
No ano seguinte, finalizou o curso de
Medicina, sendo novamente agraciado pelas suas qualidades como aluno («1.º
distinto»). Foi aprovado por unanimidade com a classificação de «Bom» (15
valores) no exame de formatura em Prática Médica e Cirúrgica.
Apesar dos bons resultados, não foi admitido
no corpo docente da Faculdade como era seu desejo. O episódio foi por si
denunciado na obra Desaffronta (História d'uma perseguição), publicada ainda em
1895. Nela acusava três professores de terem preparado a sua exclusão,
elogiando, pelo contrário, os que o haviam defendido.
Em 14 de dezembro de 1910, casou-se com
Maria Joana Morais Queiroga, de quem teve uma filha (Maria Teresa).
Atividade Profissional: Médico de «doenças dos países
quentes»
Depois de lhe ter sido recusado o ingresso
no corpo docente da Faculdade de Medicina, partiu para São Tomé e Príncipe
(1896), onde exerceu clínica e se especializou em doenças tropicais.
Permaneceu na colónia até 1903, amealhando
uma pequena fortuna que gastou, mais tarde, no jornalismo e na política.
Regressado a Lisboa em julho desse ano, partiu para uma viagem de estudo e
descanso a França, Itália, Suíça e Holanda.
No início do ano seguinte, retornou à
capital e abriu consultório na Rua do Ouro como médico das «doenças dos países
quentes» (conforme o cartão de visita), mudando-se depois para a Praça de
Camões. Tornou-se querido de uma vasta clientela popular.
Percurso Político: o «tribuno popular»
Republicano desde o início do seu percurso
académico, viveu intensamente o período do Ultimato inglês (11 de janeiro de
1890), distinguindo-se por um contundente ataque ao rei D. Carlos no jornal
académico de Coimbra O Ultimatum, onde publicou um artigo intitulado «Bragança,
o último» (23 de março de 1890).
Na sequência deste episódio, foi-lhe
instaurado um processo judicial e condenado a uma pena de três meses de prisão.
Manuel de Arriaga patrocinou a sua defesa. Aquando da sua libertação, foi alvo
de grandes aclamações populares.
Ainda estudante, assinou o Manifesto da
Academia de Coimbra, no qual se afirmavam os princípios republicanos (1890), e
apoiou a revolta republicana do Porto sem sofrer consequências (1891).
Começou, por essa altura, a colaborar nos
jornais O Alarme e Azagaia.
Ainda em 1891, publicou o folheto As Manifestações
Académicas do dia 18, no qual pugnou pelo direito dos estudantes se
manifestarem contra a família real e a Monarquia. O panfleto teve origem nos
acontecimentos de 18 de novembro em Coimbra, quando a família real, ao passar
pela estação dessa cidade, foi alvo de manifestação de protesto por parte dos
estudantes republicanos, episódio que causou grande perturbação.
Em 15 de janeiro de 1893, foi o principal
orador no funeral de José Falcão, professor de Matemática e fervoroso
republicano.
Durante a sua estadia em São Tomé, promoveu
a Associação Pró Pátria, destinada a dar apoio ao colono, ao seu eventual
repatriamento e/ou dos seus familiares.
Em 24 de janeiro de 1905, discursou no
funeral do artista republicano Rafael Bordalo Pinheiro.
Estreou-se na atividade partidária nas
fileiras do Partido Republicano Português (PRP). Nas eleições de 1905,
apresentou-se como candidato pelo círculo de Lisboa, não sendo, no entanto,
eleito.
No Congresso do PRP de julho de 1906, foi
eleito para o directório com António Luís Gomes, Bernardino Machado, Afonso
Costa e Celestino de Almeida. Cedo se tornou uma das figuras mais conhecidas e
prestigiadas do republicanismo.
Nas eleições de 19 de agosto do mesmo ano,
foi eleito deputado do PRP pelo círculo oriental de Lisboa, ao lado de Afonso
Costa, Alexandre Braga e João de Meneses (estes dois últimos por Lisboa
Ocidental).
Escreveu para vários jornais, sobretudo para
A Lucta, mas foi no Parlamento e nos comícios dos últimos anos da Monarquia que
a sua eloquência e arte retórica fizeram dele o caudilho indiscutível da causa
republicana.
Durante o debate sobre a questão dos
«adiantamentos à Casa Real» (1906), e na sequência da expulsão de Afonso Costa
e Alexandre Braga da Câmara dos Deputados pelos seus «excessos verbais» contra
o rei, Almeida improvisou um discurso convidando os soldados a aliar-se à
revolução republicana.
Em 1907, entrou na Maçonaria (loja Montanha,
n.º 214, de Lisboa) com o nome simbólico de Álvaro Vaz de Almada (um dos
companheiros do infante D. Pedro). Mais tarde, veio ainda a pertencer à
Carbonária.
Conspirador contra a ditadura de João
Franco, participou ativamente na preparação do movimento revolucionário para
derrubar a Monarquia.
A ação repressiva da ditadura provocou uma
mudança na definição da estratégia do PRP. Gradualmente, a linha que defendia a
ação revolucionária imediata foi ganhando terreno, o que conduziu à aliança com
outras forças, nomeadamente a Carbonária e a Corporação dos Sargentos.
Uma denúncia levou à prisão dos principais
chefes: Luz de Almeida, Afonso Costa, Egas Moniz, João Chagas e António José de
Almeida, que estabeleceu os contactos entre o diretório do partido e a
organização revolucionária. Privado dos seus principais líderes, o movimento
veio para a rua, mas foi prontamente sufocado. António José de Almeida foi
preso em 26 de janeiro de 1908 e logo libertado após o regicídio.
Em 5 de abril de 1908, foi novamente eleito
como deputado.
No Congresso Republicano de 1909, foi
nomeado um Comité Revolucionário. Da secção militar faziam parte Cândido dos
Reis, João Chagas e Afonso Costa e a direcção da parte civil foi entregue a
António José de Almeida.
Em 1910, fundou às suas expensas a revista
Alma Nacional, que dirigiu, e onde colaborou assiduamente até à proclamação da
República.
Nas eleições de 28 de agosto de 1910 (as
últimas da Monarquia Constitucional), foram eleitos 14 deputados republicanos,
entre os quais Almeida.
Proclamada a República em 5 de outubro de
1910, foi nomeado ministro do Interior do governo provisório presidido por
Teófilo Braga. À frente do Ministério, que tutelou até setembro de 1911,
desenvolveu uma intensa atividade, sobretudo no campo da instrução pública.
Todavia, o destaque vai para o decreto da
sua autoria, lançado em 14 de março de 1911, que revogava a Lei Eleitoral de
1901 - a «Ignóbil Porcaria», como ficou conhecida. Entre outras medidas, este
decreto alargava substancialmente o sufrágio: foi concedido direito de voto a
todos os portugueses maiores de 21 anos (não especificando o sexo) que
soubessem ler e escrever, ou que, não o sabendo, fossem chefes de família há
mais de um ano. Ao contrário do que sempre fora defendido pelo republicanismo,
este decreto não instituiu o sufrágio universal.
Ainda ministro, fundou e dirigiu o jornal
República (1911), que se tornou o órgão de combate e de expressão dos
republicanos que se oponham a Afonso Costa e às suas tendências radicais. Aí
escreveu continuamente até 1919.
Em fevereiro de 1912, fundou o Partido
Evolucionista (PE), por discordar da linha política seguida por Afonso Costa no
PRP. Mau grado a sua aparente força e a projeção nacional que alcançou, as
alianças e as atitudes levadas a cabo pelos seus representantes parlamentares
deram-lhe uma imagem demasiado direitista.
Em janeiro de 1913, foi chamado a formar
governo pelo Presidente da República, Manuel de Arriaga, o que não conseguiu,
sendo o executivo entregue ao seu adversário Afonso Costa.
Em agosto, foi eleito presidente do Partido
Evolucionista (PE).
Após a eclosão da I Guerra Mundial
(1914-1918), defendeu a intervenção de Portugal no conflito sob a alçada da
aliança inglesa.
Em 1915, apoiou o primeiro-ministro Pimenta
de Castro, mesmo depois da instauração da ditadura e da proibição de o
Congresso se reunir.
Em 1916, perante a gravidade da situação
internacional, António José de Almeida reconciliou-se com Afonso Costa e
aceitou a presidência do governo da «União Sagrada» (março de 1916 a abril de
1917), onde também geriu a pasta das Colónias.
Eleição
António José de Almeida foi eleito
Presidente da República em 6 de agosto de 1919. Proposto pelos partidos
Evolucionista e Unionista, dispôs do apoio de muitos Democráticos.
No primeiro escrutínio, teve uma vantagem de
apenas 5 votos relativamente a Manuel Teixeira Gomes. No segundo, também nenhum
candidato alcançou os dois terços necessários. Finalmente, no terceiro, António
José de Almeida obteve 123 votos contra 31 de Teixeira Gomes e 13 listas brancas.
Tomou posse em 5 de outubro de 1919.
António José de Almeida foi o único
Presidente da I República que cumpriu integralmente os quatro anos de mandato
(até 5 de outubro de 1923).
Depois da presidência
Findo o seu mandato presidencial, António
José de Almeida regressou ainda às lides políticas, sendo eleito deputado por
Lisboa em 1925.
Contudo, a breve trecho, a doença afastou-o
definitivamente da política. Obrigado a viver os últimos anos numa cadeira de
rodas, refugiou-se no convívio familiar, rodeado pelos amigos. Viveu
modestamente, gasta que estava a pequena fortuna que amealhara em São Tomé.
Até ao fim dos seus dias, continuou a ser
considerado como uma espécie de «presidente honorário» da República, estatuto
que lhe foi reconhecido mesmo pelos dirigentes da Ditadura Militar instaurada
em 1926, que ganharam o hábito de o visitar no dia 5 de outubro.
Em inícios de 1929, foi eleito Grão-Mestre
do Grande Oriente Lusitano, mas não chegou a tomar posse devido ao seu estado
de saúde.
Atacado de gota, morreu em Lisboa em 31 de
outubro de 1929. Em sua memória, foi erigido um monumento da autoria do
escultor Leopoldo de Almeida e do arquiteto Pardal Monteiro na atual Avenida
António José de Almeida (1937). A oposição à ditadura fará da romagem ao local,
nas comemorações do 5 de outubro, uma manifestação de protesto contra o regime.”
Antonio José d'Almeida
FOTO: COPYRIGHT Museu da Presidência da República, Lisboa
A Nova Empreza de Carruagens Alliança "acceita por preços relativamente modicos serviços aturados
para LISBOA, CINTRA e ESTORIL, ou outro qualquer local” e “garante o mais
cuidadoso serviço de carruagens modernas, magnificas parelhas e cocheiros
irreprehensivelmente fardados. Carros para casamentos e carruagens com aros de
borracha.” E “coupés” a que recorre o 6.º presidente da República Portuguesa...
A firma opera a partir da rua da Sociedade
Farmacêutica, no Bairro Camões. Tem filiais na rua do Ouro (nos números 62 e 214) e
no Largo de Camões (3). As suas sucursais estão dispersas por Lisboa e
arredores: Largo da Escola do Exercito (“vulgo Paço da Rainha”), “Mont'Estoril”
e “Cintra”.
"Nova Empreza de Carruagens Alliança" sucede à "Empreza de Carruagens Alliança" ou "Companhia de Carruagens Alliança"
DOCUMENTO (Detalhe): Museu da Presidência da República Portuguesa
A
concorrência directa da “Nova Empreza de Carruagens Alliança” dá pelos nomes de “Companhia
de Carruagens Lisbonenses”, “Empreza de Viação Eduardo Jorge” e sobretudo "Companhia Carris de Ferro de Lisboa" (CARRIS), que expande rapidamente as linhas
eléctricas pela cidade.
A sociedade cessa a actividade a seguir ao falecimento do cavaleiro, que tem lugar a 2 de Setembro de 1924.
MAIS INFORMAÇÃO AQUI:
https://www.museu.presidencia.pt/pt/conhecer/presidentes-da-republica-biografias/presidentes-da-i-republica/antonio-jose-de-almeida/
https://www.museu.presidencia.pt/pt/visitar/museu-da-presidencia-da-republica/exposicao-permanente/galeria-dos-retratos/antonio-jose-de-almeida/