27 DE ABRIL DE 1902 – LISBOA: O CAVALEIRO JOSÉ BENTO DE ARAÚJO NÃO VAI EM CANTIGAS...

 
Biblioteca nacional de Portugal

RECORTES

            A troupe dos Astrologos queria barreiras para hoje, em Algés...

            Seria para lançarem os seus sabios oculos de longa vista para o Fernando de Oeiras ou para o José Luiz Bento?

            Hum!... não me parece!...

            Qualquer d’elles não tem nariz para oculos e o Fernando já deu provas d’isso... não é verdade?

            Muito me tinha eu farto de rir se no domingo passado a troupe olhasse para o José Bento de Araujo! Mas... isso sim!...

            Nada, que elle com um socco já partiu uma mesa de pedra e depois com um dos pés da mesma mesa, correu pela porta fóra meia duzia de valentes!...

            O pobre Torres Branco é que os atura...

            Já ao Manuel dos Santos elles tambem não apoquentam... (Frequentadores do Montanha sabem porquê).

            E o caso é que a troupe julga-se muito entendida mesmo depois do fiasco de domingo, em obrigar o Botas a mandar bandarilhar um touro manso, como logo á primeira vista se conhecia.

In REVISTA TAURINA, Lisboa- 4 de Maio de 1902

12 DE AGOSTO DE 1909 – LISBOA: MAIS UMA CORRIDA NOCTURNA NA PRAÇA DO CAMPO PEQUENO

 
Biblioteca nacional de Portugal

Touros

            Eis o programma da grande corrida de amanhã.

            Dez formosissimos touros de Emilio Infante, sendo 6 puros destinados aos peões e aos picadores.

            Cavalleiros, José Bento (de Araújo) e Morgado de Covas.


O matador mexicano Rodolfo Gaona.
FOTO: La Ilustración Semanal, México - 18 de Novembro de 1913.

            Espada, o celebre Rodolfo Gaona (NOTA: Rodolfo Gaona nasceu no dia 22 de Janeiro de 1888 em León de los Aldama, México, de pai navarro e mãe indígena. Faleceu em 1975 na Cidade do México. Este matador é considerado um dos toureiros mais elegantes e universais. Tinha duas alcunhas: «Califa de León» e «El Indio Grande». Chegou a Espanha em 1908.), cuja «cuadrilla» é assim composta: Picadores, Manuel Martinez («Aguletas») e Manuel Fernandez («Chanito»); bandarilheiros, Miguel Gonzalez («Recalcao»), Carlos del Aguila («Aguilita») e Geronimo Orejon («Geromo»).

            Bandarilheiros portugueses, Theodoro e Carlos Gonçalves, Manuel e Alfredo Santos.

A bilheteira do Campo Pequeno na praça dos Restauradores.
FOTO: Arquivo CML

            Hontem, abriu a bilheteira da praça dos Restauradores, ficando tomados grande numero de logares de bancada de sombra e sol, fauteuils, camarotes, etc.


In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 11 de Agosto de 1909

20 DE AGOSTO DE 1902 – ALGÉS: UMA BURLA CHAMADA CORRIDA...

 
Biblioteca nacional de Portugal

UMA BURLA

            É o unico titulo que pode dar-se ao que no ultimo domingo se passou na praça d’Algés!

            No tempo em que aquella praça era explorada por um emprezario que ali queria fazer reviver a da Cruz Quebrada, (NOTA: A praça de madeira na Cruz Quebrada  funcionava sobretudo durante a época balnear. Teve um período de actividade efémero. Com a construção da praça de Algés, a arena da Cruz Quebrada desapareceu.) não era o publico tão torpemente enganado.

            Annunciaram os cartazes uma corrida de dez bravissimos touros, e o que ali se viu foi apenas dez reverendissimos bois, alguns d’elles, senão todos, mais dignos de choupa que de garrochas!

A antiga praça de touros de Algés, nos arredores de Lisboa é hoje um parque de estacionamento...
FOTO: Arquivo da CML

            A auctoridade, que tão escrupulosa é sempre que se annuncia um espectaculo em qualquer theatro, não pôz duvida em pôr o seu visto n’um cartaz em que se annunciavam — dez bravissimos touros — quando a empreza tinha só dez mansissimos garraios para offerecer ao publico!

            Para a Reverte — que a empreza annunciava como sendo a unica artista que impunha como condição essencial nos seus contractos não terem menos de quatro annos os touros a ella destinados — largou-se um vitellinho que pela côr e tamanho mais parecia o cão do Freire Gravador, (NOTA: «A. L. Freire Gravador» era em 1902 uma das primeira casas de carimbos, prensas, balances, sinetes, etc. em Portugal com «officinas de typographia, lithographia, encadernador, papelaria, etc.» Terá sido fundada em 1882 pelo «gravador» Aires Lourenço Costa Freire e teve, designadamente, lojas na Travessa da Victoria e na Rua do Ouro. O cartaz do estabelecimento representava um cão a segurar um carimbo na boca. Esta imagem do animal com o carimbo integrou o imaginário da capital no princípio do século XX, aparecendo, por exemplo, em anúncios de jornais e brindes.) e que assim que se viu na praça começou — coitadito!  — a balir, a balir, para que o deixassem ir mammar nos uberes maternos!...

            O emprezario, ou quem o seu nome empresta á empreza, não teve mais remedio que fazer a vontade ao publico, que não consentiu que o innocente fosse picado...

            Mas ha mais e melhor...

            Um dos maiores reclames de corrida, se não o maior, era a tal brilhantissima illuminação de dez mil bicos de incandescencia, de fórma que na praça parecesse estarmos em pleno dia, como é de primeira necessidade para a lide de rezes bravas.

            Pois essa brilhantissima illuminação de 10.000 bicos era composta unicamente por 16 lanternões comportando cada um onze bicos, e um outro ao centro da praça, que teria, quando muito, trinta e tantos lumes, de fórma que, com uns quarenta, se tanto, dispostos pelos camarotes, prefaziam a conta de duzentos e cincoenta bicos.

            Ora, em boas contas, para dez mil não parece que faltassem muitos...

            No fim d’isto, apenas perguntamos se a estes factos não se póde dar o nome de burla!...


            N’outro logar nos referimos á ultima corrida em Algés.

            Vamos agora dizer o que ella foi e quaes as impressões que nos deixou.

            É claro que o publico, apesar do reclame enorme feito á illuminação, já sabia de antemão que a claridade não poderia comparar-se á de uma tarde de sol, que é a condição mais essencial para uma boa tourada.

            O que, porém, nuinguem esperava é que escuridão fosse tão completa que das bancadas se não distinguissem as armas dos touros.

            Touros?!

            Garraios, se fazem favor.

            E a respeito de bravura, temos conversado...

            A não ser o 8.º, que pertenceu a José Luiz Bento, e em que este manifestou a sua pericia e manifesta vontade de progredir, todos os outros eram uns miseros animaes, com todos os defeitos que poderiam ter, incluindo a mais completa desegualdade.

            Para a Reverte sahiu um vitellinho tão novo e tão mansinho, que o publico não consentiu que fosse lidado, sendo substituido por um mano, que pouco mais velho seria, mas que denotava ser um pouco mais bravo.

            Os cavalleiros José Bento de Araujo e José Luiz Bento portaram-se á altura dos creditos de que gosam.

            José Luiz, como acima dizemos, salientou-se no seu segundo, pela maneira de citar e rematar, tanto mais que não tinha quem o auxiliasse, pondo-lhe os touros em sorte.

            Dos bandarilheiros apenas ha a mencionar um par de Torres Branco e outro de José Martins.

            Luciano Moreira, que appareceu no redondel só ás cortezias e no 7.º touro, pouco fez, já porque o bicho se não prestou, já porque o artista o não procurou bem.

            Calabaça e Varino receberam grossa somma de palmas por collocarem dois excellentes... brincos, no segundo.

            Na brega salientaram-se tambem José Martins e Torres Branco, estando aquelle incasavel (incansavel ?) em toda a corrida.

            Os mais... andaram muito tempo na praça, com os capotes de correr.

            Um dos forcados deu duas voltas ao redodel (redondel!), agarrado á cauda do touro e... foi muito applaudido...

            O intellegente, está velho, tem a vista cançada (cansada) e... não se deve já metter em taes assados.

C.

In REVISTA TAURINA, Lisboa – 24 de Agosto de 1902

24 DE AGOSTO DE 1902 – LISBOA: DESASTRE ANUNCIADO NA CORRIDA DO CAMPO PEQUENO...

 
Biblioteca nacional de Portugal

CAMPO PEQUENO

La Reverte

            A corrida que se realisou no domingo 24 na praça do Campo Pequeno, veio evidenciar o extraordinario valor que o grande publico reconhece nos artistas tauromachicos e a seria aficion dos seus promotores.

            É duro, mas tem de dizer-se.

            Toda a gente afirmava que a corrida era promovida por dois negociantes de espectaculos de sensação e por um artista tauromachico.

            Os primeiros estão no seu papel, mas o ultimo nunca deveria ligar o nome a semelhante borracheira!

            Ha negocios que deslustram o nome de um artista!

            O que não se devia admittir, é que se annunciasse como corrida formal, dando-lhe demais o subtitulo de corrida de anniversario da praça, uma pepineira d’aquella ordem!

            Até se quiz fazer comprehender que Feliz Velasco alternaria com a Reverte,ou Reverta(NOTA: «La Reverte» era María Salomé Silva, María Salomé Rodríguez Tripiana ou ainda Agustín Rodríguez em 1908, ano em que confessou ser homem. Em 1912, abandonou a lide.) como lhe chama um nosso amigo para evitar confusões.

«LA REVERTE» na capa da edição da revista madrilena FIESTA NACIONAL datada de 6/10/1906.
Biblioteca nacional de España

            Para que tudo fosse completo, até os 6 touros de Laranjo que estavam annunciados, foram á ultima hora substituidos por touros de Paulino da Cunha!

            Touros!...

            Pode dar-se este nome a taes bichos?!...

            Tanto os do sr. Paulino como os da Companhia da(s) Lezirias eram o que de mais ordinario se pode apresentar n’uma praça.

            Nem mesmo vale a pena empregar tinta na sua apreciação.

            O grrrande attractivo da corrida era a Reverte.

            Esta mulher que conseguiu crear nome apenas em Lisboa, levou ao Campo Pequeno uma multidão que lá não iria se annunciasssem um espada de merito.

            Pelo seu valor como artista?

            Não; por ser mulher e ser toureira.

            Ninguem nega que ella é valente; mas, o que sentimos é que o publico da capital, depois de ter visto desfilar pela arena do Campo Pequeno todas as sumidades do toureio, eleve de tal modo uma mulher que não tem a recommendal-a outro predicado que não seja o da valentia!

            Note-se: valentia como mulher!...

            Tem tido, felizmente para ella, a extraordinaria sorte de não lhe ter sahido um touro difficil para bandarilhar, porque, entãoé que o publico veria o que vale a Reverte como artista.

            O tourete que lhe coube n’esta corrida, alem de nobre, estava derreado por completo dos quartos trazeiros e nem mesmo se devia consentir que fosse corrido.

            Que enorme berreiro não se faria se qualquer toureiro pegasse em bandarilhas para um touro naquelle estado!

            Com o capote e a muleta é que se evidencia o nenhum conhecimento que a Reverte tem do toureio.

            Nada fez de valor n’esta corrida mas o publico applaudi-a com enthusiasmo.

            É o publico do á unha! e do fora gallegos!...

            Na corrida tambem tomou parte um espada: Felix Velasco.

            Mas este não veio como attractivo: era para dar fóros de corrida formal áquella borracheira.

            Todos os que seguem com interesse o movimento tauromachico da nossa visinha Hespanha, sabem que Velasco, nunca conseguiu salientar-se entre os seus collegas matadores de touros, mas o que tambem sabem, é que em Hespanha não se concede a alternativa a qualquer, e, ainda que ha muitos que pouco valem, qualquer d’elles, como artista, vale por todas as Revertes.

            Nunca vimos tourear Felix Velasco mas no domingo estamos convencidos  que elle não fez nada porque não quiz.

            Estamos até em acreditar que estava envergonhado!

            Realmente um matador ver um publico enthusiasmado com uma mogiganga d’aquella ordem, era para fazer sorrir de desdem e envergonhar-se de tomar parte n’ella!...

            Dir se-ha que elle veio ganhar dinheiro e devia, portanto, trabalhar.

            Mas o que nós não conhecemos é as condições em que elle veio.

            O que elle não quiz foi alternar de qualquer modo com a Reverte e por isso elle com razão se recusou a passar de muleta o touro em que ella tinha feito os quites aos picadores.

            No touro que lhe coube bandarilhar, o publico indignou-se por elle não ir para a gaiolla, não se lembrando que até o grande Guerrita fazia o mesmo.

            O tal bicharoco sahiu ordinario entre os ordinarios e Velasco quasi ficava de cocoras quando cravava as bandarilhas, tão grande elle era.

            Ora nós comprehendemos que um toureiro se arrime e se enthusiasme quando em frente de um touro, mas em frente de um choto, d’uma cabra com cornos de boi...

            Deve fazer a mesma cara que qualquer homem fará ao cahir por tropeçar n’um cãosinho felpudo.

            Não queremos, de modo nenhum que se vá comprehender que temos em mira a defeza de Felix Velasco; não, o que desejavamos é que todos vissem bem a situação d’um homem que está acostumado a ver-se em corridas onde ha touros e toureiros e soffrer a rapida transicção para onde havia uns bicharocos com chavlhos, que podiam ser caracoes! — e um publico que delira ante uns pares de bandarilhas collocados por uma mulher!

            Mesmo nas nossas corridas mais bem organisadas nós vemos, com raras excepções, que os toureiros hespanhoes de mais fama não fazem metade do que os vemos fazer em Hespanha.

            Entre outras ha para isso duas rasões de muito peso:

            A primeira reside no facto dos toureiros serem embollados e isso ser para elles algo vergonhoso; a outra, é a preoccupação que elles teem de que todos os touros são já corridos.

            Por todas estas rasões não nos admirou, portanto, que Felix Velasco se retrahisse.

            Os cavalleiros foram José Bento (de Araújo) e Simões Serra.

            O primeiro não esteve feliz, rematando sempre as sortes d’uma fórma deselegantissima, talvez influenciado pelo desgraçado halito anti-artistico que ali se respirava.

            Simões Serra conseguiu salvar-se da derrocada.

            Collocou algumas farpas de valor e gostámos de o ver citar para algumas das sortes.

            Não se esqueça da formula, porque pode perder o papel em que está escripta, e andar ás aranhas, como lhe tem succedido esta epoca em quasi todas as corridas.

            Do trabalho dos picadores nada diremos porque não nos queremos lembrar das gargalhadas que elles darão ao recordarem em Hespanha os pobres animaes que em Lisboa lhe largaram para picar.

            Os benemeritos da arte, promotores d’esta corrida, deligenciaram buscar entre os nossos bandarilheiros aquelles de menos merito, deixando escapar por engano Thomaz da Rocha.

            Foi este o unico que metteu um par de valor e que bregou regularmente, ainda que remattando quasi sempre no terreno de dentro.

 

            Emende esse defeito, Rocha, e verá como o publico lhe premiará os seus  esforços!

 

            Para que o Campo Pequeno parecesse por completo a saudosa praça da Cruz Quebrada, até os forcados metteram la pata.

            Houve um que pegou um touro de costas, citando sentado n’uma cadeira.

            E o intelligente consentiu, e a auctoridade não procedeu!

            Consta que na proxima corrida haverá uma pega feita dentro de uma barrica.

            M. T. David 

In REVISTA TAURINA, Lisboa – 31 de Agosto de 1902

NOTA

Mais informação sobre La Reverte nesta página do diário madrileno ABC:

https://www.abc.es/archivo/abci-reverte-torero-travestido-engano-espanoles-sexo-durante-20-anos-202109060102_noticia.html?ref=https%3A%2F%2Fwww.abc.es%2Farchivo%2Fabci-reverte-torero-travestido-engano-espanoles-sexo-durante-20-anos-202109060102_noticia.html

ou nesta edição do jornal «La Correspondencia de España»

https://hemerotecadigital.bne.es/hd/viewer?oid=0000473252&page=2

ou neste blog alojado no site da Biblioteca Nacional de España:

https://www.bne.es/es/blog/blog-bne/la-mujer-que-invoco-la-constitucion-para-poder-torear#:~:text=Men%C3%BA%20*%20Vis%C3%ADtanos.%20*%20Colecciones.

6 DE ABRIL DE 1903 – LISBOA: SANTA IGNORÂNCIA OU A PRIMASIA DO «JORNALISMO» POLITICAMENTE CORRECTO

 


ARQUIVO TROVE

https://trove.nla.gov.au/

CREAM OF THE CABLES

KING EDWARD’S TOUR.

London, 7th April.

            His Majesty King Edward VII., who is at present on a visit to Portugal, yesterday witnessed a magnificent bull tournament, which had bee specially organised in his honor.

            The tournament did not include a bull fight, but consisted of a purely spectacular display of gymnastics and skill in evading bulls, the horns of which had been blunted for the occasion. 

(NOTA: A corrida de touros passou a ser, portanto, um mero espectáculo de ginástica acrobática com toureiros a fugir de bichos inofensivos. O rei Eduardo VII era o "patrono real" da Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals - RSPCA. É uma explicação para a deturpação dos factos e as mentiras...)

A re arrangement has been made in His Majesty’s itinerary, and he will not now reach Paris till the 2nd of next month.

It is expected that President Loubet will return the visit by coming to London in the autumn.

According to the Vatican authorities, King Edward will not visit the Pope on the occasion of his forthcoming visit to Rome.

The visit to Rome is only to extend over four days, and other engagements will occupy the King’s attention during the whole of that time.

It is expected that His Majesty will write to the Pope, regretting his brief stay, and express the hope of being able to visit his Holiness on the occasion of another longer stay in Rome.

8th April.

His Majesty King Edward sailed from Lisbon yesterday. The same enthusiasm marked his departure as was manifested upon his arrival.

In KERANG NEW TIMES, Kerang (Austrália) – 10 de Abril de 1903

15 DE JULHO DE 1909 – LISBOA: A PRIMEIRA CORRIDA NOCTURNA COM «DIESTROS» DE ESPANHA E O CAVALEIRO JOSÉ BENTO DE ARAÚJO

 
Biblioteca nacional de Portugal

Touros

A praça de touros illuminada

            A empreza do Campo Pequeno, fez hontem convites á imprensa, e a muitos aficionados, para assistirem á experiencia da illuminação electrica, que teve logar ás 9 da noite, e que deu resultados que foram muito alem da espectativa.

            É surprehendente, quasi feerico, o aspecto do grande amphytheatro, com a extraordinaria profusão de arcos voltaicos e de lampadas, que a revestem.

            É d’um effeito phantastico, e cuja impressão não se desvancece facilmente.

            Quando assim é, como hontem, com a praça vazia, o que não será então, quando, como na quinta feira succederá, estiver «au grand complet» e predominando as mulheres bonitas com «toilettes» garridas e de cores berrantes, claras?!

            Será como um quadro, extrahido das «Mil e uma noites!»

            Felicitamos a empreza pelo seu arrojo, e pelos bons resultados colhidos, e ao mesmo tempo agradecemos o convite.

            A Empreza offereceu aos seus convidados um delicado copo d’agua, trocando-se muitos e enthusiasticos brindes.

In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 14 de Julho de 1909

29 DE JUNHO DE 1889 – PARIS: CORRIDAS DE TOUROS E MANIPULAÇÃO BEM-PENSANTE...

 
Bibliothèque nationale de France

COURRIER DE PARIS

PLAZA DE TOROS

            Oh! Nous y arrivons” nous arrivons à tout ce qui est spectacles, exhibitions, chiens savants, éléphants dresses, courses d’Indiens, danses du ventre et éventrements de taureaux! Corrida et plaza de toros, rue de la Fédération” Le cirque va s’ouvrir. On ne les tuera pas, les taureaux. D’abord on les piquera, les agacera, les insultera. El Gardito (NOTA: El GORDITO, aliás Antonio Carmona Luque, nasceu na cidade de Sevilha em 1834 ou 1838 e faleceu em 1920.) et Lagartijo se chargeront de se moquer d’eux. Puis un beau jour, le public parisien, impatienté, se trouvant dupe, criera:

            A mort! À mort!

            Et on les tuera, les taureaux. Et l’on aura raison, car qu’est-ce qu’une coursede taureaux où l’on ne tue pas le taureau? Torero gracieux! dit le programme. Il n’y a de torero gracieux qui celui qui risque sa vie en donnant la mort. C’est sauvage, c’est sanglant, c’est atroce, mais c’est la corrida. Si l’on ne tue pas, la course est un défilé de costumes. Le drame tourne à l’Opéra-Comique. Ramenez-moi à Carmen! M. Taskin me suffit s’il chante la musique de Bizet et si Manuel Hermosilla (NOTA: O nome completo do toureiro espanhol é Manuel Hermosilla y Llanera. Nasceu em 1847 na cidade de Sanlúcar de Barrameda e aí faleceu em 1918.) et Fernando Gonz (NOTA: O nome correcto não é “Fernando Gonz”, mas Fernando Gómez "El Gallo") ne mouillent pas leurs épées.

 

EL GORDITO
FOTO: Real Academia de la Historia, Madrid.

            Je vous dis qu’on y viendra. Le grand spectacle parisien, et peut-être le spectacle le plus littéraire du moment, n’est-ce pas un lion dressé comme un caniche et qui saute sur un cheval, travaille et fait le beau comme un singe bien dressé? Le roi des animaux tirant le pistolet en battant du tambour, comme cet étonnant lièvre érudit qu’on nous montrait, la semaine passée, au cirque Molier! Voilà l’art nouveau, l’art moderne, le grand art!

In L’ILLUSTRATION, Paris – 29 de Junho de 1889

11 DE JULHO DE 1909 – LISBOA: UMA TOURADA (EM TARDE AGRESTE) QUE DECIDIDAMENTE NÃO AGRADOU...

 
Biblioteca nacional de Portugal

Touros

            De bom quilate era o cartaz da festa da empreza Albino e Lacerda, todavia a praça não teve ante-hontem a entrada que era de esperar, atttendendo tambem ás sympathias que disfructam os ditos emprezarios.

            A tarde estava agreste. Soprava um vento forte e impertinente.

            Isto arredou muito povo.

            Se o tempo corresse propicio, talvez colhessem um «lleno», embora se atravesse, é facto, uma época de decadencia para as touradas.

            Mas não é sómente decadencia na arte que reina, entre nós, é tambem, parece, indifferença das gentes.

            Presentemente, aos domingos, acode o publico mais depressa a outros varios divertimentos do que ás touradas. Além d’isso, a facilidade de communicações para os arrabaldes, arrastam para ahi muita gente.

            Ha a juntar a isso, a deficiencia bem patente na materia prima das corridas, o que decerto terá contribuido para o decrescimento da «aficion», e impellido esta, para os «sports» varios que predominam na Lisboa moderna.

            Taes são algumas das causas que ultimamente tanto teem prejudicado um divertimento tão popular, e que ha seculos impera na peninsula.

            Outros que não fossem os actuaes emprezarios, já teriam desanimado, já teriam fechado as portas do elegante Campo Pequeno.

            Mas, n’elles subsistem a coragem e o brio, alliados ao amor pela arte. E tanto assim, que não olham a sacrificios para que taes espectaculos não desapareçam de todo; para que não vejamos em breve espaço de tempo, encimando o torreão principal do grande amphitheatro, onde tantos artistas e amadores teem colhido louros e glorias, uma cruz negra ostentando o epitaphio seguinte: «Aqui jaz a arte tauromachica»!

            E morta ella, uma vez, jámais resuscitará!

            É por isso, repretimos, que os actuaes emprezarios teem envidado todos os seus esforços para que essa arte tão portugueza, tão nacional, não se eclipse de vez, embora se lhe alimente a vida com elementos exoticos, já que os naturaes não bastam.

            Assim, a empreza, onde vultos ha que relevo possam imprimir aos torneios, ahi os vão buscar. É a Castella.

            E sabe-se bem, quão prohibitiva é a pauta de tal importação. Custa ella muitas pesetas.

            Pois nem assim, apresentando as summidades dos redondeis, se vê augmentar o gosto, a predilecção pela nobre arte de vencer ou dominar o rei das campinas com a astucia, destreza e coragem humana.

            E visto isso, então, escusado será gastarmos mais o nosso latim, já porque nos escasseia o espaço, já porque, ainda queremos ir hoje até ao Chiado Terrasse, não só para vermos as primorosas e variadas fitas artisticas, que em consecutivas estreias só aquelle animatographo exhibe, como para alegrarmos a vista com as lindas mulheres da «elite» — e nós apesar de velhos aficionados, sempre gostamos mais d’ellas que dos touros — as quaes acodem alli todas as noites, o que faz esfregar as mãos de contente ao Sabino Correia e dizer: Consegui ser aqui o «rendez-vous» da elegancia! E é verdade. Conseguiu.

            Mas deixemos o terrasse, e vamos ao terreiro dos valentes, cuja presidencia assumiu, um... não lhe chamaremos velho, porque se póde amotinar, mas antigo amador, que por seus feitos em varias arenas, e desde mui joven, se as signalou. Victorino Froes. Pois, assim, avaliar podem os leitores, o que seria a direcção da corrida, apesar da qual Saleri, toureiro com faculdades, e Mazzantinito de não menos valor, pouco poderám luzir-se, com os avios, porque além da rija ventania, a qualidade das rezes não o permittiram. Todavia com os ferros alguns pares tiveram que attrahiram o embate das dextras contra as sinistras, do senado.

            O curro tinha varias fórmas, motivo porque n’elle reinava desegualdade physica. Porém, a respeito de bravura, somente o 1.º, que era de Infante, e voluntario, concedeu a José Bento (de Araújo) fazer vista.

            Tanto Eduardo Macedo como Morgado de Covas, não foram felizes com os inimigos, embora empregassem esforços para bem se desempenhar da missão.

            Não esqueceu o povo soberano, a lide de varas apesar dos de Patricio a ellas acudirem com uma tal ou qual gana, conseguindo uma cahida. Mas outros tercios estiveram brandos.

            Os nossos bandarilheiros diligenciaram agradar.

            Não obstante exhibir-se um pelotão de deseseis machos de barrete, só duas pegas houve: uma rijissima de «espaldas», e outra á volta.

            Em resumo a tourada, não agradou. Cremos bem que tal não succederá á da proxima quinta-feira, já pelos elementos que a compõem, já por ser nocturna, e com brilhantissima illuminação elctrica.

Marialva.


In DIARIO ILLUSTRADO, Lisboa – 13 de Julho de 1909

MAIS INFORMAÇÃO

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