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TAUROMACHIA
Como em todos os annos, o popular D. José (Bento de
Araújo), que é um semi-satanaz taurino, colleccionador de pontas emboladas, ao
celebrar hontem o seu beneficio, dedicou-o á destemida rapaziada que compõe a
miu nobre, leal, invicta e benemerita sociedade Tenentes do Diabo.
Por esse motivo, depois apagar o fogo das paixões
vulcanicas e desoccupar as “calderas” do “buffet” social, os infatigaveis
endemoniados, reunidos em “apretada piña” de franca amizade, abandonaram a
caverna traslandando-se ao circo taurino.
O pharol solar illuminava os camarotes onde “acampaban”
as hostes infernaes, capitaneadas por Lucifer, Belzebú, Barrabás, Mephistofeles
e Pero Botelho. Alli, em meio da “soldadesca endemoniada” tremulavam os
invictos pendões corcados de laureis. Alli, na deserta immenidade do vento,
flammejavam com epilepticas saudades as bandeiras ganhas em cem batalhas
carnavalescas. Alli... soava a trombeta da Fama immortalisando os Tenentes do
Diabo, e o bombo proclamando rei do ruido a “Zé Pereira”.
A praça transformada em inferno taurino, assemelhava-se
ao sensual paraiso de Mafoma, e nella, aromatisando o ambiente, mostravam seus
feitiços ondinas e vencidas, “enjauladas” em gazes, tules e sedas; umas,
luzindo mantilhas hespanholas; outras, chapéos afrancezados; e todas nardos,
dahlias e cravos engarçados entre os brancos “encajes” de seus “corpihos” (????)
vaporosos.
D. José (o eterno beneficiado) parodiando Luis XV, luzia
casaca de seda negra, bordada pelas “proprias” mãos das fadas. Seu secretario
particular girava-lhe em torno como a lua ao redor do sol; os “idolatras” de
Euterpe (????) tocaram uma “flamenca” melopéa incandescendo o sangue dos “anacletos”,
e os marinheiros norte-americanos com suas jocosas excentricidades divertiam-se
a mais não poder.
Assim as cousas, occupa a presidencia do tribunal
taurino, o distincto “aficionado” D. José Vieira Duarte. Lisboa, o corneta de
ordens, enche os dous “carrillos” e sopra, sopra e o clarim annuncia o desfile
regio “de los diestros”.
A “cavalgata anti-torera” compõe-se de uma banda de
clarins, a cavallo, vestindo “trajes” infernaes; um carro “a la Frederica”,
conduzindo o beneficiado, cavalleiros Morgado de Covas e Victor Marques e os
bandarilheiros”Maera” e Manuel dos Santos; outro carro (de aluguel) com o resto
dos toureiros que compõem a “cuadrilla” e uma pequena escolta de forcados e pastores.
Que dizer da tourada?
Sendo-nos impossivel detalhal-a, por falta material de
tempo, diremos resumindo que, em conjuncto, foi superior.
Os touros lidados, excepto os sexto e ultimo, deram jogo,
demonstrando bravura.
Os cavalleiros José Bento (de Araújo) e Morgado de Covas
mostraram mais uma vez a arte toureira que possuem e a intelligencia e valor
que transbordam, quando querem luzir.
Victor Marques fez tão pouca cousa, que não merece
qualificativo.
Os espadas Villa e “Cantaritos” ambos com muitas ganas de
mostrar suas habilidades, ganharam muitas palmas, merecidas, conseguindo tirar
do publico carioca essa glacial indifferença com que assiste á sorte mais
arriscada e difficil que tem o toureio classico.
Villa usa terno granada e ouro e empolga “dos altos, uno
de pecho” e varios naturaes. “Marcando los tiempos” e “por derecho” entra a “volapié”
e assignala uma boa estocada.
Passes, 6; minutos empregados na morte, 4.
“Cantaritos”, que tem “enxundia” ???? toureira em todo o
corpo, veste terno tabaco e ouro; alveja com a “muleta” a cabeça do seu rival,
e mais fresco qo que uma “lechuga”, mettendo o pé esquerdo, dá um passe “alto”,
dous “de pecho” com a “rodilla en tierra”, um “ayudado” e varios naturaes, que
enlouquecem o publico soberano, pela elegancia, aprumo e valentia com que os
executa o “diestro”. “Cantaritos” entra “a matar” per???? como Deus manda e
assignala, nas “agujas”, uma estocada com uma bandarilha “de a curta” ????.
Passes, 1; minutos empregados na sorte, 3.
Em bandarilhas os dous “matadores” estiveram a boa
altura; Villa, com um par superior, “aprovechando”, e “Cantaritos” com outro
idem “al cuarteo”.
Dos “muchachos” nada de máo se pôde dizer, pois todos
cumpriram bem. “Maera”, “ ????” com um touro “guasón” e “resabiado” fez o
milagre de cravar um par “al cuarteo”. Immelhoravel, “tras” e uma bonita preparação
que lhe valeu palmas. Manuel dos Santos poz outro idem superior e sofffreu um “encontronazo”
sahindo “volteado”, sem consequencias. Alfredo poz um par “cambiando”,
archi-superior e deu um “lance” de capa no penultimo touro, como dão os
mestres. Thomé cravou um á sahida da gaiola, muito bom, e trabalhou muito com o
capote, “aunque” sem luzimento.
Oliveira cumpriu com um par regular e Angelo deu o salto
da “garrocha” com muita limpeza.
Ferros postos. 18.
“Encontronazos” soffridos pelos cavallos, 4.
Passes de “muleta”. 13.
“Desarmes”. 00.
Estocadas assignaladas. 2.
Bandarilhas postas. 29.
Justo Verdades.
In
JORNAL DO BRASIL, Rio de Janeiro – 20 de Janeiro de 1908